Quando pisaram no asfalto da Avenida Firestone em fevereiro deste ano, os quase 500 componentes do Ocara Clube sabiam que mais do que vencer o carnaval de Santo André tinham a missão de contar a história de glórias e luta que recheiam os 50 anos da agremiação. O enredo Terra de Muitos Filhos, Filhos de Muitas Terras – O Encontro das Gerações ajudou a colocar mais um troféu na prateleira e a dar continuidade no Grande ABC à tradição que data de 10 mil anos antes de Cristo, quando homens, mulheres e crianças já se reuniam no verão com rostos mascarados e corpos pintados para espantar demônios da má colheita. “Colocamos a velha guarda na avenida para resgatar nossa história” – diz o presidente da agremiação, Ademar de Barros. A ala desfilou com 19 componentes em fantasias tradicionais. Ou seja, calça branca, camisa azul, colete branco e chapéu.
Embora as raízes do Carnaval brasileiro estejam ancoradas no Entrudo português que introduziu por volta de 1723 as brincadeiras de loucas correrias, mela-mela de farinha, água com limão, a origem do Ocara Clube está arraigada na emergência industrial da região. No início da década de 50, quando o Clube da Rhodia funcionava na Rua Coronel Oliveira Lima, em cima de uma padaria, vários funcionários da multinacional franco-alemã se encontravam para happy hour, principalmente às vésperas dos dias de folia. Em 1955, quando o clube foi transferido para a Avenida Antonio Cardoso, os encontros ficaram mais difíceis. O associado Heleônidas Batista Vieira pensou em fundar um clube mais central não só para reunir amigos, mas para fazer frente ao Clube Panelinha que, na época, montava blocos carnavalescos para percorrer salões de baile. A grande vantagem é que os foliões não pagavam para entrar. “Por conta de todo esse histórico é que Santo André é o berço do Carnaval do ABC” – orgulha-se o presidente da escola de samba, Ademar de Barros.
Com 50 sócios fundadores, todos funcionários da Rhodia, Heleônidas criou o Ocara que, em tupi-guarani, significa família. O clube surgiu sob a égide de atividades esportivas, culturais, sociais e, principalmente, carnavalescas. Logo em 1957 a nova agremiação colocou o bloco na rua com os participantes fantasiados de malandro americano. O sucesso nos salões foi imensurável e a acirrada disputa com o Panelinha começava a fazer história.
No ano seguinte, a vingança do concorrente: fantasiados de chineses, os componentes do Panelinha dominaram o corso, enquanto o pessoal do Ocara lamentava sob fantasias listradas de humildes presidiários. Hoje, a escola reclama dos baixos subsídios do Poder Público, principalmente porque o Ocara tem tradição em fantasias e utiliza pouco nu na avenida. “Pôr uma escola na rua hoje não sai por menos de R$ 50 mil, e o subsídio da Prefeitura neste ano foi de R$ 21 mil” – afirma Ademar de Barros. Mauá doou R$ 40 mil e São Bernardo, R$ 36 mil por escola.
Nos áureos tempos, o corso em Santo André saía da Praça IV Centenário e percorria várias ruas sob verdadeira chuva de lança-perfume fabricado pela Rhodia com a marca Rodouro. O corso era composto de carros e caminhões enfeitados com serpentinas e as brincadeiras restritas a guerras de confete e serpentina. Às vésperas dos psicodélicos anos 60, Ocara e Panelinha desfilaram com tema idêntico: a Índia. Santo André foi literalmente dividida em duas torcidas. A elite erguia a bandeira do Panelinha e a massa popular, do Ocara.
Nesse meio século de paetês, purpurina e avenida, o Ocara coleciona 29 vitórias e nove vice-campeonatos, mas também tem nos arquivos algumas derrotas. “Teve ano que ficamos em sexto lugar e quase fomos rebaixados por causa de um carro alegórico que não passava no portão da quadra” – lembra o presidente. O atraso de uma hora e meia rendeu prejuízos severos na pontuação da escola.
O inspirador rival do Ocara deixou de existir em 1969 por falta de dinheiro. Um ano antes, o desfile das escolas de samba de Santo André foi transmitido pelas TVs Excelsior, Tupi e Bandeirantes. O desfile atraía mais que canais de TV. Trazia turistas de vários pontos do País que chacoalhavam a cidade. “Os desfiles eram grandiosos” – destaca Barros. Hoje as escolas têm de sambar miudinho para dar conta do recado. Com pouco dinheiro em caixa, o Ocara realiza eventos de todos os tipos durante todo o ano para garantir o espetáculo. São jantares, bailes, bingos e locações da quadra para terceiros que garantem o brilho nos dias de Momo. Os custos não são poucos. Além do subsídio da maior parte das fantasias dos componentes, a escola tem de alugar lona gigantesca para cobrir a quadra de ensaios. “Uma das prioridades da nova diretoria é a cobertura definitiva da quadra” – afirma Ademar de Barros, que deixa o cargo este mês em razão da eleição da nova diretoria para o próximo triênio.
As intenções do Ocara coincidiram com a decisão da Prefeitura de premiar a partir deste ano a escola vencedora do Carnaval com dinheiro. “Isso incentiva as agremiações a produzir uma festa mais bonita” – diz o presidente. Santo André tem ao todo 15 escolas de samba, seis no primeiro e seis no segundo grupo e três aspirantes. A partir do ano que vem, os desfiles serão únicos e até segunda ordem, não há espaço para inscrição de novas agremiações.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS