O futuro da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) é oportunidade especialíssima, entre tantas, para a mídia sair da mansidão relatorial e, com isso, engajar-se para valer na proposta da revista LivreMercado. Trata-se da decisão de pegar também nesse campo aberto o bravio touro da regionalidade. É mais que provável que, exatamente porque estamos sugerindo armamento informativo sobre assunto tão caro ao futuro do Grande ABC, as mídias locais arrumem boa desculpa para nada fazer no alinhamento a pressões democráticas que tornem a UFABC “do” Grande ABC, não “no” Grande ABC.
Antes de prosseguir no cerne da questão, chamo a atenção especialmente dos conselheiros editoriais de LivreMercado. Leiam e releiam com atenção a entrevista de páginas amarelas deste mês de outubro com o reitor da UFABC, Hermano Tavares, e, também, o contraponto que apresentamos num “box” antes que a última página do trabalho se fechasse. A leitura reflexiva daquele material (que vamos publicar na íntegra neste Capital Social Online, edição de amanhã) é fundamental para o posicionamento de representantes da região sobre o assunto.
Retirar a UFABC geneticamente federativa do invólucro apenas supostamente regional tornando-a essencialmente regional em invólucro decididamente regional — eis a tarefa que proponho, como provável Quixote e os moinhos de ventos, às lideranças nem sempre valorizadas que atuam no Conselho Editorial. E também aos demais leitores desta newsletter e de LivreMercado, incluindo-se agentes públicos, de secretários municipais a prefeitos.
O que fazer para desmontar parte do enredo que se preparou longe da massa crítica regional para formatar a UFABC? A condição de unidade de ponta com um novo viés de produtividade dos alunos deve ser comemorada, entre outros motivos, porque chega de ver universitários desempregados ou subempregados. Daí, entretanto, ignorar que a instituição está-se plantando num território arrasado durante os anos 1990, especialmente no governo Fernando Henrique Cardoso, e que, por isso mesmo, deve ter compromissos locais, é muito diferente — até porque não é pouca coisa.
Teremos reação?
O que pergunto, cá com meus botões, é até que ponto, de fato, as cabeças pensantes da região vão reagir organizadamente para brecar o ímpeto exclusivamente federativo do reitor da UFABC e, sempre democraticamente, convencê-lo de que por mais que os efeitos irradiadores da escola sejam benéficos para oxigenar o sistema universitário nacional, nada justificaria o esquecimento de nossa geografia.
Sugerir também que os dirigentes de entidades de classe empresarial e sindical deixem de lado o corporativismo e se juntem numa missão específica de aproximação com a direção da UFABC não seria loucura nem estultice. O conformismo sim é que é uma agressão sem limites ao futuro que desejamos para o Grande ABC.
Duvido que o reitor da UFABC não se sensibilize com as forças de pressão que eventualmente venham a se organizar no Grande ABC para colocar a alça de mira da instituição em nossos principais alvos econômicos, de modo a acrescentar-lhes modernidade e fôlego.
Além disso, a decisão iluminaria novos caminhos de uma região que, da mesma forma que não pode abrir mão das torres gêmeas que sustentam a sociedade, no caso o setor automotivo e o setor químico/petroquímico, também não pode insistir em dormir no berço esplêndido de ignorar alternativas de novas matrizes econômicas. Sonhávamos com a UFABC exatamente para reforçar faróis com esse objetivo.
O que senti (e por isso me preocupei muito) na entrevista com Hermano Tavares é que, provavelmente pela incapacidade regional de exercer o legítimo direito da pressão organizada, o reitor não se sente nem um pouco preocupado em contemplar regionalidade à universidade.
Aliás, foi por isso mesmo que interviemos com o “box” da entrevista. Pela primeira vez na história daquelas páginas amarelas a direção de redação de LivreMercado resolveu introduzir contraponto ao conjunto de respostas do entrevistado porque a simples reprodução acrítica poderia transmitir a idéia de que a publicação concordava explicitamente com os enunciados do reitor da UFABC.
Silêncio, não!
Como se trata de um dos temários mais caros da linha editorial de LivreMercado, já que interfere diretamente no decálogo que preparamos recentemente em defesa da economia regional, não teria sido sensato silenciar.
Eventualmente um ou outro conservador da mídia vai argumentar com a profundidade de poça d’água no meio do asfalto que não compete ao jornalismo interferir em questões econômicas, sociais, culturais e tantas outras, mas simplesmente se prestar ao trabalho de relatar. Ou seja: vão, esses fósseis de redações, dizer que os veículos de comunicação devem ser neutros.
Bobagem. Neutralidade é uma boa desculpa para os incompetentes. E também para os medrosos que não assumem posição. Medrosos, convenhamos, que invariavelmente são incompetentes. O problema da mídia em geral é que posiciona-se sob suposta neutralidade mas de acordo com os blocos de pressão que aparentemente lhe dariam sustentação econômica.
A revista LivreMercado tem um passado de que se orgulha, um presente do qual não abre mão e um futuro, seja qual for a temporalidade, que jamais se comprometerá com oportunismos. Por isso, vamos cobrar, inclusive nesta newsletter, mobilização para que a Universidade Federal seja do Grande ABC no sentido mais contemporâneo da expressão — com olhares e objetivos no País, mas sem se descuidar um instante sequer das armadilhas que nos jogaram ladeira abaixo na década dos anos 1990.
O Brasil não se incomoda com nosso futuro. Tratemos de nos preocupar, então. Por isso, a mídia regional, para justificar a própria existência, não pode deixar de vestir a camisa da regionalidade de forma madura. Como exige a UFABC. O passado já demonstrou que o efeito-bumerangue é fatal e alcança a todos, culpados e inocentes.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS