A sociedade do Grande ABC está de tal modo desorganizada e interditada intelectualmente para tornar fértil o contraditório que um mal-ajambrado artigo assinado por Antonio Balbino, que se diz especialista em Economia e Relações do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas e pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo não provocou a menor reação, exceto, agora, deste jornalista.
Publicado no Diário do Grande ABC de 26 de novembro, na página supostamente nobre de editorial, sob o título “Universidade Pública Gratuita”, o texto do professor em questão é um achincalhe à inteligência e, principalmente, um abuso ao quadro de fragilização social da região.
A reação regional de absoluto silêncio é própria de quem não leu tantas bobagens ou de quem leu, não gostou e preferiu desdenhar.
A função social do jornalismo nos obriga a reagir — até porque, como bobo não sou, aquelas mal-traçadas linhas cheiram a pau mandado, ou seja, alguém sugeriu que o professor Antonio Balbino desse a cara para bater à falta de coragem para responder pessoalmente a este jornalista e a todos aqueles que comungam com minhas idéias. Aliás, nem são minhas, tão claramente óbvias que posso atribuí-las à sociedade mais responsável.
Antonio Balbino não só deu a cara para bater como entregou de bandeja a própria rapadura do bom senso, numa operação kamikaze de quem possivelmente declare histrionicamente deter entre as pernas aquilo que um ex-presidente proclamou aos quatro cantos antes de ser deposto.
Descuidado com a possibilidade de contragolpe, Antonio Balbino verá que a tonalidade supostamente diferenciada da superfície genitália migrou para um dos olhos. Quando se enxergar no espelho ao final deste texto, provavelmente identificará a diferença no semblante. Convém que tome certos cuidados, senão pode assustar as criancinhas.
Para que os leitores entendam a questão, é simples: defendemos na revista LivreMercado e nesta newsletter que a Universidade Federal do Grande ABC, implantada recentemente pelo governo Lula da Silva, seja campo de formação de profissionais de valor técnico agregado para atender em primeira instância a economia regional, não só a que está aí com todas as vicissitudes de uma competitividade sem fronteiras mas também a que seria planificada com engenhosidade em propostas que, ao mesmo tempo em que fortalecessem nossa vocação automotiva e petroquímica, incorporassem outras modalidades, principalmente na prestação de serviços tecnológicos.
Ou seja: que a UFABC não caia na gandaia da dispersão de industrializar diplomas de técnicos que supostamente atenderiam demandas nacionais sem entranhamento com a economia regional. Que seja, portanto, uma Universidade Federal “do” Grande ABC, não “no” Grande ABC. A diferença explícita entre aspas não é obra de engenharia criativa deste jornalista, mas de um dos propagadores da mesma concepção cuja identidade não posso revelar, pelo menos por enquanto.
Frases delicadas
Feita essa explicação, vamos então à reprodução de alguns dos parágrafos do deboche de Antonio Balbino, pau mandado da vertente da UFABC que considera xenófobo e fossilizado tudo que fuja da característica pressupostamente extraterritorial do projeto pedagógico-curricular:
n (…) Assim, se analisarmos do ponto de vista dessa concepção a escola toma o caráter confessamente privatista, a serviço do comprometimento do mercado e atende à proposta de universidade corporativa (on demand). Na prática isso se dá no momento em que a instituição passa a identificar demandas específicas de mercado e formar mão-de-obra para ocupar estas vagas. Perdem-se, assim, concepções mais amplas sobre o próprio mundo do trabalho, relações sociais, econômicas e políticas desse universo. Preparar alguém para executar uma atividade determinada a ser remunerada por ela está aquém do esperado de uma instituição pública de nível superior. O que não podemos admitir é que a Universidade pública gratuita seja absorvida sob qualquer pretexto por esse tipo de proposta. Definitivamente não pode ser a proposta da UFABC. Ela deve ser conduzida com uma proposta política pedagógica coerente, sem receio das rotulações que lhe querem imputar, sem permitir que se transforme numa universidade como outras, criadas para suprir só e especificamente as necessidades técnicas e tecnológicas do mercado — escreveu Antonio Balbino.
Acredito que seria perda de tempo e de paciência seguir na transfusão do relato de Antonio Balbino daquela página do Diário do Grande ABC para esta newsletter. Trata-se, sem sobra de dúvida, de um acadêmico na contramão não apenas das necessidades específicas da sociedade do Grande ABC, como de endereços internacionais mais nobres e competitivos, casos de Índia, China, Estados Unidos e mesmo mais recentemente, de europeus, cujo romantismo de transformar bancos universitários em incubadoras de frustrações profissionais há muito foi jogado ao lixo.
Dissociar Educação e Economia é por si só uma aberração. Sugerir, por outro lado, que esteja este jornalista promovendo a cultura do tecnicismo puro e simples, de formação de mão-de-obra sem cérebro e cultura, é negar a essência de meu pensamento, que pode e deve ser sintetizado no próprio título desta newsletter.
Aliás, é provável que o próprio acadêmico não saiba o significado de capital social. Provavelmente acreditará que seja expressão que as demandas sociais não conseguiram retirar do gueto de formalidades legais de instrumentos jurídicos.
A aversão ao capitalismo inerente no texto de Antonio Balbino (”Apropriar-se de verbas públicas para preparação de mão-de-obra direcionada significa explorar mais ainda o conjunto do povo, além de rebaixar o papel da UFABC, que deve ser uma instituição voltada à pesquisa e para a extensão, como é o caso da Unicamp, a UFRJ e outras”, escreveu em outro trecho, negando inclusive os discursos do presidente Lula da Silva) dá a exata mostra do que ocorre hoje nos bastidores desse estabelecimento de ensino. Infelizmente, sem que a sociedade regional exerça qualquer tipo de pressão para evitar que se aplique o conto do vigário do “no” Grande ABC.
Apoplexia institucional
Só existe, de fato, algo pior do que o tapa-sensibilidade de Antonio Balbino, que, provavelmente, desconhece a realidade de um Grande ABC metralhado ao longo dos anos 1990 por uma abertura econômica insana do governo Fernando Henrique Cardoso no setor automotivo. O pior no caso tem nome, sobrenome e consequências: a imersão do Grande ABC no mais triste, vexatório e comprometedor estágio de apoplexia institucional de que se tem notícia, a ponto de tamanhas barbaridades não terem tido uma única reação em contraditório naquele veículo. Nem mesmo do próprio veículo.
Por isso que um Balbino qualquer ocupa espaço supostamente nobre, escreve tantas bobagens e o silêncio se faz. Perturbadoramente lamentável.
Pior que isso, ainda: aqueles que, em defesa de um regionalismo ancorado na globalização desafiadora, acabam, como é o caso deste jornalista, sacrificados pelos omissos de sempre que, à ausência de um mínimo de coragem intelectual e cidadã, preferem não só o silêncio dos ignorantes, mas, sobretudo, o ataque sorrateiro de condenar quem ousa se manifestar.
Espero que da próxima vez, se próxima vez houver, o senhor Antonio Balbino tenha a coragem de escrever diretamente para o veículo que tem sido o único a debater o perfil da UFABC. A UFABC que tanto ele quanto o reitor, provavelmente a quem serviu como testa-de-ferro, querem não é a UFABC que o Grande ABC exige. Já passamos da idade de nos contentar com “no” Grande ABC. Até porque os problemas são “do” Grande ABC.
A Universidade Federal do Grande ABC não pode, em suma, repetir um modelito antigo e ultrapassado de formação de profissionais que, como Antonio Balbino, não conseguem entender que, em vez de amaldiçoar o capitalismo, o melhor mesmo é revolucioná-lo, retirando-lhe pelo menos uma parte da porção excessivamente individualista e mercantilista de seu DNA. Renegá-lo com radicalismo ideológico é perpetuá-lo longe dos cânones sociais. Do capital social que tanto defendo
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS