Sociedade

Qual será o rumo
da universidade?

DANIEL LIMA - 18/01/2007

Academicistas ou desenvolvimentistas, quem vai prevalecer no controle estratégico da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC)? Essa é a questão-chave do teatro de operações que se segue à queda do reitor Hermano Tavares, no início do mês passado. Ele desabou em consequência da entrevista que concedeu no mês anterior à LivreMercado. Hermano Tavares, acadêmico que honra qualquer instituição de ensino com ambição de destacar-se no campo da pesquisa e da tecnologia, cometeu crime de lesa-região ao afirmar peremptoriamente que muito mais importante que o Grande ABC nos planos curriculares e pedagógicos da UFABC estava o País. E que mais valem pesquisas do que mergulhos da academia no mercado, dissociando, portanto, Educação e Economia.


A manifestação do então reitor foi um tiro no próprio pé porque se configurou discriminatória à região ao minimizar a relevância econômica e social da entidade para os sete municípios. Como se regionalidade — e, portanto, a inversão da premissa de que pensar nacionalmente implica negar regionalidade — fosse obstáculo intransponível aos interesses do País. Justamente num contexto de globalização econômica exterminadora de provincianismos. Goste-se ou não, empresas de todos os tamanhos e origens societárias estão irrevogavelmente lançadas na arena do mundo sem fronteiras.


Dezembro foi mês de solavancos na UFABC. Primeiro porque o então reitor Hermano Tavares foi exonerado pelo ministro da Educação. Tavares acusou forças locais como causa da queda. Um exagero. O Grande ABC não conta com institucionalidade suficiente para matar uma mosca, quanto mais para derrubar um comandante universitário de reconhecida competência. O que houve foi um caso típico de haraquiri: a entrevista de Hermano Tavares na edição de outubro de LivreMercado foi consumida avidamente pelo ministro da Educação Fernando Haddad e também pelo presidente Lula da Silva.


A aversão de Hermano Tavares à gênese de regionalidade com olhos na globalização que deve sustentar o projeto da instituição foi avaliada como ataque frontal à política de fortalecimento de pólos econômicos do governo federal, reafirmada à exaustão durante a campanha eleitoral. O substituto de Hermano Tavares é o professor Luiz Bevilacqua, que ocupava o cargo de vice-reitor. Entre os dois atuou interinamente em dezembro o também professor José Fernandes de Lima, ex-reitor da Universidade Federal de Sergipe. Ele teria agido em solidariedade ao antecessor.


A constelação de nomes que dirigem a UFABC e cujo perfil foi aparentemente doutrinado por Hermano Tavares pode sugerir mudança apenas nominal na reocupação do cargo principal. Nada melhor, entretanto, do que esperar os próximos passos. A direção da UFABC ainda tem muito o que fazer para inserir a instituição de fato no Grande ABC e agarrar de vez o chifre do desenvolvimentismo em vez de cair do andaime do academicismo puro.


Medidas necessárias


Gestão democrática, transparente e participativa é questão indissociável à regionalidade. Isso implica a criação do Conselho Universitário com participação de professores, alunos, funcionários e dois representantes da sociedade, conforme estabelece o estatuto. Também será necessário criar o Conselho de Desenvolvimento, para supervisionar a execução orçamentária, aprovar prestação de contas do reitor, entre outras tarefas, e que terá um membro indicado pelo diretor-geral da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. O organismo é presidido pelo professor universitário Silvio Minciotti, especialista em marketing e um dos nomes da comunidade mais fortes em regionalidade.


Também como ponto de gestão democrática enquadra-se o Regimento Geral Interno, que vai detalhar o estatuto da instituição. Outro ponto relevante é o modelo de governança da Fundação de Apoio à Universidade. A UFABC ainda não conta com esse braço de suporte. A tarefa principal de uma Fundação de Apoio, de direito privado, é dar agilidade à gestão da UFABC que, como qualquer organismo público, normalmente é lento na viabilização de projetos. Uma fundação tem maior facilidade para receber dinheiro, fazer contratações e programar consultorias.


A participação ativa da sociedade civil, empresarial e sindical sinalizaria, também, até que ponto a UFABC estaria mesmo aberta à regionalidade. O controle da Fundação de Apoio da UFABC se daria pelo chamado capital social e da gestão pública não estadual. Ou seja: os cordéis não estariam presos integralmente à direção da UFABC, formada por reitor, vice-reitor, pró-reitores e diretores de núcleos cujos ocupantes maciçamente não têm inserção histórica no Grande ABC e, por isso, certamente, encontrarão dificuldades para compreender os dramas sociais que se avolumaram nos anos 1990 por conta de abertura econômica destrambelhada. O Grande ABC econômico e social está em fase de ebulição e em busca de respostas que poderiam ser sistematizadas numa UFABC regionalista com olhos no mundo. Até porque não há dicotomia entre regionalidade e internacionalização.


É exatamente nesse ponto que está o cerne da questão. É preciso aperfeiçoar a relação sinérgica entre pesquisa pura e pesquisa aplicada, espécie de tabu na universidade brasileira. A inclusão do papel da universidade no processo de modernização e inovação tecnológica das empresas não pode ser interpretada com viés da exploração capitalista, como empedernidos socialistas observam. Nem ser encapsulada por forças do mercado sem compromisso social. A idéia de que ao aproximar-se do mercado regional a UFABC estaria corrompendo as tradições do Ensino Superior é válida apenas entre defensores de academicismo autofágico, incapaz de gerar riqueza e, portanto, de produzir retorno dos investimentos em forma de tributos e empregos. Os aliados dessa tese são os chamados academicistas, escorraçados mesmo em países ex-socialistas, casos de China e Índia, que redesenharam o mapa de investimentos educacionais para contemplar desenvolvimento econômico. Os desenvolvimentistas das academias avançam no mundo todo. As respostas do então reitor Hermano Tavares à LivreMercado sugeriam que o Grande ABC cada vez mais globalizado ingressaria na era das trevas acadêmicas. O novo reitor, Luiz Bevilacqua, estaria distante dessa dicotomia.


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