Sociedade

Principado da UFABC

DANIEL LIMA - 09/02/2007

 A revista LivreMercado de fevereiro, com circulação a partir desta sexta-feira, cai de pau na administração da Universidade Federal do Grande ABC. Por favor, não pensem que estou vulgarizando a situação daquela instituição quando uso a expressão “cai de pau”. Trata-se apenas da caracterização do real estado de ânimo deste jornalista transposto para a linha editorial da publicação.


A UFABC, por motivos que explicamos em longo texto, reforçado pelo artigo de Valmor Bolan, especialista em Ensino Superior, virou de fato um principado. A impressão que transmite a partir do príncipe-reitor, Luiz Bevilacqua, é que ninguém da sociedade regional deve meter o bedelho.


O mais espantoso dos desvãos da UFABC, instalada no Grande ABC em meados do ano passado, é que não há movimento algum de qualquer instância governamental, não-governamental, empresarial e social, para reverter quadro que se insinua ditatorial e em completo conflito com a realidade regional e também com iniciativas democratizantes ao redor do mundo acadêmico.


A mesma revista LivreMercado deste fevereiro, que tem como Reportagem de Capa a inquietante (cantada ao longo da história pela própria revista, em confrontos com a mídia cor-de-rosa e sem-vergonha) quebra da capacidade de produzir riqueza do Grande ABC, escancara sem cerimônia a prioridade que deve mover não só a UFABC mas as demais instituições de Ensino Superior da região — ou procuramos encontrar saídas para adequar a estudantada às necessidades do mercado, com geração de emprego e renda, o que, por sua vez, precisa ser devidamente planejado para sair do gueto automotivo, ou vamos continuar quebrando a cara.


Fico muito à vontade para colocar à mesa de debates a situação administrativo-curricular da Universidade Federal do Grande ABC, entre outros motivos, porque esta não é a primeira nem será a última oportunidade que, através de LivreMercado e mesmo desta newsletter, me oponho a determinados cenários apresentados como definitivos, bem-acabados e invioláveis. Foram tantos os casos em que nos opusemos ao senso comum, também conhecido como comodismo social, que seria abusar da bondade dos leitores mesmo uma sumária listagem.


Seguir na pauta
É possível que a UFABC continue na pauta de LivreMercado e deste Capital Social Online, entre outros motivos, porque a elasticidade do tema permite tantas incursões que seria crime de lesa-região o silêncio, como boa parte das demais mídias locais patrocinam.


Aliás, sobre isso, ainda outro dia comentei com amigos a seguinte constatação: a mediocrização da pauta jornalística principalmente da maioria dos jornais diários está diretamente relacionada à mediocrização da qualificação profissional. Jornalistas sem acabamento teórico, sem tonicidade cultural, sem liberdade de expressão, sem cara e coragem para peitar supostos donos do pedaço, são apenas meio-jornalistas e, portanto, fogem de assuntos candentes como o diabo da cruz.


Saiba pois o príncipe-reitor da Universidade Federal do Grande ABC e todos aqueles que o rodeiam na direção desse legado do governo Lula que pode se converter em presente de grego para o Grande ABC que, sem meias palavras, não os temo. Muito pelo contrário: desafio-os publicamente para debater a questão em qualquer ambiente, mesmo no campus universitário — na casa do adversário, vamos dizer — porque temos elementos teóricos e práticos que os colocariam naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra.


É possível que um ou outro leitor reclame de algumas expressões que utilizo nesta edição porque não é de meu costume, embora seja uma marca registrada nos encontros pessoais, rebocar clichês que possam conduzir a ilações que ultrapassem o campo clássico de entendimento.


Sabem por que resolvi penetrar numa área vernacular mais popular e sexualizada para me referir à UFABC? Porque a direção da UFABC não merece outro tratamento e os leitores precisam compreender que só assim, com certo ar de deboche, será possível retribuir parcela da falta de respeito, da afronta, diria, que o comando daquela instituição reserva ao Grande ABC.


O Grande ABC não pode virar casa da sogra de gente que desconhece completamente nossa realidade, da mesma forma que não pode, também, aceitar que gente que conhece amplamente nossa realidade se sinta no direito de mentir para o distinto público apenas para levar vantagem pessoal e negocial.


E estamos conversados (com perdão do tom impositivo da frase, inspirada no imperialismo principesco do digníssimo reitor da UFABC, o homem que, leiam a revista LivreMercado, mandou recado ao governo federal relacionando-o à ditadura militar só porque, vejam só, seu antecessor, da mesma linhagem academicista, foi demitido por entender que o Grande ABC é apenas barriga de aluguel da instituição, como afirma Valmor Bolan, com precisão de medalhista de ouro em tiro ao alvo.)


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