Sociedade

Principado da UFABC ataca
Lula e sufoca regionalidade

DANIEL LIMA - 13/02/2007

Duas péssimas notícias para quem imaginou que a UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) se transformaria em agente regional indutor de desenvolvimento econômico sustentado: um dos mais importantes legados do governo Lula da Silva para a região que o consagrou como líder sindical virou espécie de principado, dominado pelo poder tão concentrado quanto exclusivista de uma elite acadêmica que ofende o governo federal e, sem cerimônia, trata a pontapés a comunidade regional.


Para que não fique dúvida sobre a impetuosidade do reitor Luiz Bevilacqua na grosseira quebra de hierarquia, é emblemática a breve entrevista que concedeu ao Diário do Grande ABC, edição de 2 de janeiro último. O substituto de Hermano Tavares, exonerado em dezembro do ano passado em consequência de desastrada entrevista à LivreMercado, foi desrespeitoso e muito mais agressivo do que o antecessor, cujo pecado capital foi ter descartado a UFABC como instrumento de regionalidade. Em resumo, Hermano Tavares colidiu frontalmente com os discursos do presidente Lula da Silva, que quer as universidades inseridas em pólos de desenvolvimento regional.


Perguntado sobre a data em que se daria a eleição que o retiraria da condição de reitor pró-tempore, sujeito a substituição a qualquer momento, por eleição efetiva, a resposta do novo reitor, Luiz Bevilacqua, foi provocativa: “Entre maio e junho. Até lá, precisamos elaborar as regras para a formação do Conselho da universidade e o regimento interno. Será feita uma lista tríplice e o ministro da Educação vai escolher um. O mandato será de quatro anos, podendo ter uma reeleição. A partir disso, as mudanças de reitoria, como a saída de Hermano, só podem ser feitas com intervenção federal, como era na época da ditadura”.


Na semana seguinte ao ataque frontal à exoneração de Hermano Tavares, o ministro da Educação Fernando Haddad deu posse pró-tempore a Luiz Bevilacqua. A solenidade formal como tantas outras foi realizada em Brasília e aparentemente, apenas aparentemente, não teve saia justa entre o ofensor e o ofendido. Sabe-se que Haddad foi informado sobre a entrevista de Luiz Bevilacqua ao Diário do Grande ABC. Sabe-se também que há inclusive a possibilidade de Luiz Bevilacqua permanecer precariamente no cargo. Ele não passaria pelo funil da escolha definitiva.


O Ministério da Educação só não teria exonerado o rebelde herdeiro de Hermano Tavares para não criar complicações políticas no início do novo mandato do governo Lula da Silva. Um novo reitor deposto em tão curto espaço de tempo poderia ser explorado politicamente pelos oposicionistas.


Duplo fogaréu
A leitura de Brasília sobre o poder dos acadêmicos federais converge para uma imagem de fogaréu duplo, em que o narcisismo intelectual se fundiria com o alinhamento automático em defesa de espaços corporativos. Ou seja: as universidades federais, como as estaduais, são mais que fortalezas que se organizam solidariamente para combater possíveis invasores. São principados que usufruem de estatutos protecionistas e recursos orçamentários para marcar posição em defesa de conceitos que, em vários casos, não cabem mais no figurino da globalização.


O conhecimento acadêmico é interpretado como elemento de adoração entre os pares, mas com baixíssima utilidade comunitária. Separar Academia e Mercado é, em suma, espécie de dogma dos academicistas que detestam qualquer idéia que convirja para ações desenvolvimentistas que tenham representantes empresariais como interlocutores.


O descaso programado do reitor do Principado da UFABC foi dirigido à LivreMercado. Um documento assinado por Luiz Bevilacqua e os demais titulares da cúpula da universidade, datado de 11 de janeiro, atacou a publicação que pretende ver a instituição como instigante mecanismo de desenvolvimento regional plugado na competitividade internacional. Eis o texto na íntegra:


 A matéria sob o título “Qual será o rumo da universidade?”, publicada na revista LivreMercado, edição 208 de janeiro de 2007, está fora de foco no que diz respeito à conceituação de uma verdadeira Universidade. Não vemos necessidade de comentar neste momento os diversos aspectos equivocados daquele artigo, mesmo porque o leitor atento não terá dificuldade em separar o certo do duvidoso. Há, entretanto, uma referência à equipe dirigente que, além de tentar apresentá-la como manipuladora de cordéis — informação que por ser de tal forma absurda dispensa comentários — sugere que a sua principal qualificação deva ser a inserção no estrato social local, idéia avessa aos mais bem estabelecidos princípios que regem uma verdadeira Universidade em qualquer parte do mundo. Uma equipe dirigente deve, antes de tudo, ser competente para entender o que é uma verdadeira Universidade, ter a coragem de viver em um universo desafiador e cada vez mais amplo e ser capaz de liderar os seus pares nas tarefas inalienáveis de educar, pesquisar e contribuir para o progresso social — afirma o documento.


Manipulação
O posicionamento crítico da direção da UFABC contra LivreMercado está integralmente descolado da objetividade da reportagem-análise publicada em janeiro último. A regionalidade da UFABC defendida por LivreMercado, como ficou mais que cristalizado não só naquela matéria, mas em textos publicados em edições anteriores e também na newsletter Capital Social Online, está inserida no contexto da globalização econômica, mãe dos demais movimentos interdependentes nos campos social, cultural, financeiro, entre tantos.


O reitor do Principado da UFABC Luiz Bevilacqua e súditos que assinaram o documento, numa ação típica de quem prefere interditar o debate construtivista, provavelmente aplicaram na leitura da matéria de LivreMercado o desvio proposital e maroto da subjetividade para puxar do coldre do autoritarismo a decisão de fechar as portas de mais informações.


Apesar de interpretar o documento do príncipe e dos súditos do Principado da UFABC como medida retaliadora ao exercício de levar luzes às trevas de indução de que haveria incompatibilidade entre o projeto da universidade e as carências econômicas e sociais do Grande ABC, LivreMercado decidiu ouvir o titular daquela instituição. Tanto que, depois de contatos com assessores do reitor, enviou-lhe questionário com nove enunciados. Estabeleceu-se, como é praxe nas entrevistas por e-mail, prazo de uma semana para as respostas. Vencido o período, mantidos novos contatos, o príncipe da UFABC não se pronunciou. LivreMercado decidiu prorrogar o pronunciamento de Luiz Bevilacqua para até três dias depois, sexta-feira, 26. Igualmente a publicação não foi atendida.


O príncipe do Principado da UFABC segue o figurino do titular deposto em dezembro. A instituição prossegue na trilha de afrontar o Grande ABC. Foi assim, aliás, ano passado, quando Hermano Tavares esteve no Pólo Petroquímico de Capuava, em encontro com executivos das principais empresas do setor. Quando deixou a reunião, o mínimo que se ouviu nos diálogos reservados entre executivos sempre elegantes foram adjetivos nada lisonjeiros. Hermano Tavares comportou-se com a arrogância de quem preferiu dispensar qualquer colaboração prospectiva dos representantes do setor que mais gera tributos para as prefeituras de Santo André e Mauá.


O desenho da UFABC estava consolidado sem a participação de qualquer instância empresarial por razão tão simples quanto automática: o DNA da instituição não reserva uma migalha sequer de vocação regional-desenvolvimentista que se traduziria na equação que combinaria pesquisa pura e pesquisa aplicada. Foi exatamente disso que tratou LivreMercado na edição de janeiro que tanto irritou o príncipe e os súditos da UFABC.


Pelo andar da carruagem de desprezo do Principado da UFABC às instâncias regionais que se mantêm omissas, representantes do governo Lula da Silva tanto em Brasília quanto na região já demonstram preocupação com estilhaços políticos e eleitorais que o distanciamento poderá provocar. Os recursos que já estão sendo canalizados para a UFABC acabarão contabilizados como atendimento do governo Lula da Silva aos interesses do Grande ABC, mas os resultados práticos serão desastrosos porque o montante em praticamente nada interferirá na realidade econômica e social da região brasileira que mais perdas sofreu nos anos 1990.


As perguntas que o reitor Luiz Bevilacqua não respondeu



  •  O senhor concordaria integralmente com a seguinte frase: “O papel da universidade não é produzir bens, nem gerar inovação para as empresas, e sim produzir talentos e alargar a fronteira do conhecimento”?

  •  O senhor concorda com a frase: “Compete às próprias empresas gerar inovações que lhes dêem maior força competitiva”?

  •  Defendemos o conceito de regionalidade plugada na globalização como pressuposto de atuação da UFABC além-muros acadêmicos. Qual sua avaliação sobre esse conceito?

  •  O documento assinado pelo senhor e demais integrantes da cúpula da UFABC e encaminhado à nossa publicação não menciona uma única vez verbetes que consideramos essenciais à atuação da instituição, como regionalidade, empresas, riqueza produtiva. Seria apenas uma coincidência ou consequência do pensamento academicista que caracterizaria esses profissionais de educação?

  •  No documento mencionado, afirma-se que a inserção do quadro dirigente no estrato social local é uma idéia avessa aos mais bem estabelecidos princípios que regem uma verdadeira universidade em qualquer parte do mundo. Como se explica, então, que nos organismos a serem constituídos para dar infra-estrutura independente da entidade, reservam-se vagas para representantes da sociedade local?

  •  Quais são os efetivos planos de integração entre academia e setor produtivo do Grande ABC e quais os passos que já foram dados nessa direção, inclusive no sentido de que os pressupostos do MEC, de que essa universidade faça do Grande ABC um pólo de irradiação de conhecimento para o Brasil e o mundo, não se perca em teorias? O que está sendo direcionado, por exemplo, a pequenas e médias empresas?

  •  Como o senhor interpreta a seguinte frase: “Há um certo espírito Santos Dumont no pesquisador brasileiro, de que tudo o que faz tem que gerar o bem da humanidade. Tudo bem querer o bem da humanidade, mas tem que gerar riquezas entre nós também”?

  •  O senhor confirmaria a seguinte resposta da entrevista que concedeu ao Diário do Grande ABC de 2 de janeiro, quando indagado sobre a eleição do reitor da UFABC: “Entre maio e junho. Até lá, precisamos elaborar as regras para a formação do Conselho da universidade e regimento interno. Será feita uma lista tríplice e o ministro da Educação vai escolher um. O mandato será de quatro anos, podendo ter uma reeleição. A partir disso, as mudanças de reitoria, como a saída do Hermano, só podem ser feitas com intervenção federal, como era na época da ditadura”? Se confirmado, indagamos: o senhor não estaria afrontado o ministro da Educação?

  •  O senhor concordaria com a seguinte analogia: o Grande ABC é um enfermo socioeconômico que precisa de especialistas para curar suas feridas e que, por isso mesmo, não pode prescindir, no campo do ensino universitário, de profissionais que entendam seus sintomas, principalmente entre aqueles que são responsáveis por determinar os rumos curriculares em comunhão com os legítimos interesses regionais?

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