Preparar jovens para o mercado de trabalho do novo milênio talvez seja um dos maiores desafios que a academia enfrenta hoje mundialmente. Fala-se de hipermodernidade, fluidez de fronteiras, obsolescência dos conhecimentos, extinção das profissões como conhecemos hoje, degradação dos valores morais, globalização, enfim, conceitos que devem ser incorporados na concepção da formação do cidadão pós-moderno e que devem ser considerados na concepção dos projetos pedagógicos de qualquer instituição de ensino.
Realmente, de acordo com informações obtidas no site da Universidade Federal do ABC, o projeto proposto ressalta a importância de uma formação integral do aluno e declara que “tem como meta a criação de um ambiente acadêmico favorável ao desenvolvimento social”, “contribuindo para a busca de soluções para os problemas nacionais”. Ora, se o ensino universitário é entendido como processo de modificação, revisão e reorganização dos esquemas de conhecimento iniciais dos alunos e da construção de outros conhecimentos gerados na análise da prática, na interação entre estas duas grandes fontes de saber, teoria e prática, a organização curricular apresentada pela UFABC, desde o seu primeiro ano, não passa de uma grade que aprisiona o aluno em diversos conteúdos tecnicistas, sem considerar o ponto de partida, o aluno, nem o entorno, as demandas da região em que está inserido.
Não há evidências concretas de que o programa esteja desenhado para efetivamente formar um ser crítico, socialmente engajado, mas sim para formar indivíduos preparados para “descobrir, sistematizar e inventar”. Também não há evidências de que a Universidade Federal tenha como meta a busca de soluções para demandas regionais, pois declara abertamente sua intencionalidade de buscar solução para “os problemas nacionais”.
Não se trata aqui de uma avaliação da qualidade do conteúdo em termos do valor de disciplinas, nem do corpo docente que é obviamente competente nas áreas específicas de docência. Trata-se de resgatar o valor do ensino universitário, aquele que visa à formação do ser humano e que tem por intencionalidade a educação como meio de inclusão social e de desenvolvimento do País, principalmente a partir das demandas regionais, berço das situações reais necessárias para a vivência prática que conferirá aos alunos o almejado aprendizado.
De acordo com o programa proposto, a preparação do aluno deve privilegiar um conjunto de conhecimentos básicos e o desenvolvimento de atitudes de questionamentos científicos, devidamente balizados pelo senso de responsabilidade social derivado de uma formação humanística. Perde-se nessa assertiva, e consequentemente também no projeto pedagógico, que na verdade o que importa é o aluno aprender a utilizar o método científico para conduzir questionamentos profissionais, e não que desenvolva uma visão míope de ciência a partir de um punhado de conhecimentos básicos. A tal referida formação humanística, indiscutivelmente fundamental para o futuro profissional, recebe abordagem hermética. Espera-se que ocorra por meio de nove créditos advindos de disciplinas do núcleo de humanismo e por meio de atividades que “a Universidade buscará promover”, em outras palavras, deixadas ao acaso, como palestras e debates sobre as questões chaves da sociedade atual.
É interessante que na definição da identidade institucional da UFABC salienta-se o descompasso entre as velhas estruturas educacionais e as novas necessidades do mundo. Seria ingênuo pensar que a reorganização de disciplinas da velha estrutura, como na proposta pedagógica da UFABC, por si só constituiria novo modelo pedagógico, modelo esse sem referenciais axiológicos e antropológicos bem definidos. Os valores “republicanos e democráticos” mencionados no projeto fazem parte de um discurso retórico. São importantes, indubitavelmente, porém de maior relevância seria se o projeto demonstrasse ênfase em valores acadêmicos e morais, como confiança, honestidade, justiça, respeito e responsabilidade moral e social. Modelos prontos de organização acadêmica isoladamente não garantem a qualidade ou o sucesso de um curso, mesmo que tenham sido exitosos em outros países ou em outras condições. Qualquer que seja a proposta sendo desenvolvida deveria respeitar os princípios básicos que distinguem uma universidade acadêmico-burocrática de uma outra da ação. Por exemplo, é necessário que a inclusão social, econômica, tecnológica e cultural do aluno universitário ocorra por meio de processo gradual de desenvolvimento de sua autonomia ao longo do curso superior — quer seja este de bacharelado, de formação profissional ou tecnológica –, e não por meio de exposição massiva de informações científicas de ponta.
A postura do governo atual com relação à abertura de universidades federais tem demonstrado intencionalidade de constituir instituições de excelência em educação, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, e não institutos de excelência em pesquisa e de formação de cientistas. Inclusive, o atual ministro da Educação defende na proposta de reforma do Ensino Superior a implementação de conselhos sociais nas instituições de Ensino Superior, aproximando a comunidade da academia, com o intuito de garantir a produção de conhecimento significativo, de aprendizado efetivo e de produção de pesquisa aplicada. A proposta da UFABC, com a distribuição de disciplinas de fundamentos de física, química, matemática e biologia ao longo de três anos, com a oferta de algumas disciplinas de formação humana a partir do segundo ano (conforme modelo obtido no projeto) carece ou, na melhor das hipóteses, oferece uma estrutura tênue de conteúdos horizontais e longitudinais de formação tanto do ser humano como de competências profissionais. Mesmo que o objetivo fosse o de formar cientistas, é importante que esses tenham formação cultural, social e humanista, independentemente do tipo de pesquisa que desenvolvam, caso contrário serão apenas técnicos extremamente especializados indiferentes ou insensíveis às necessidades sociais e ao seu comprometimento social como cidadãos brasileiros.
Para poucos
Outro agravante da proposta descrita é imaginar que um aluno egresso do Ensino Médio atual consiga desenvolver raciocínio crítico sobre os conhecimentos que serão oferecidos ao longo dos semestres e consiga integrá-los sozinhos, sem o apoio de uma estrutura curricular integrada. É uma proposta intelectualmente acessível a uma pequena minoria de jovens.
Por outro lado, a extensa oferta de disciplinas em ciências básicas denota a formação de um corpo de pesquisadores robusto principalmente para o desenvolvimento de pesquisas de cunho purista. De acordo com o perfil docente publicado do portal da UFABC, o curso já conta com mais de 90 docentes dos quais, pelos dados fornecidos no próprio portal e na plataforma lattes de currículos (Capes), menos de 25% têm experiência de mercado fora do ambiente universitário. Ou seja, o corpo docente da instituição é formado basicamente por pesquisadores de áreas básicas cuja experiência de vida profissional resume-se ao ambiente universitário que, embora extremamente rico, conforme levantado nos impressionantes currículos dos profissionais envolvidos, constitui um ambiente controlado, distante da realidade. Essa situação historicamente equivocada é intencional, pois a própria administração declara que “a Universidade não pode nem deve reproduzir a indústria dentro do seu campus”.
Não se julga aqui o mérito docente de um corpo de pesquisadores, mas sim a discrepância em ter tal formação docente se o objetivo final é a educação de jovens para o mercado de trabalho “conscientes dos compromissos éticos e da necessidade de superação das desigualdades sociais e da preservação do meio ambiente”. A vocação docente observada é direcionada para a formação de cientistas, cientistas puros e, pelo currículo a ser desenvolvido, nem mesmo sensibilizados pelas demandas da região. A diversidade, tão enfatizada hoje e tão importante na academia para fomentar a interação das pessoas e dos conhecimentos, também não é observada na formação docente e será difícil de ser observada no corpo discente, tendo em vista o grau de dificuldade para o acesso ao curso e para a sua conclusão. A diversidade aqui referida trata do tipo de educação em que a maioria do corpo docente foi formada e suas experiências profissionais. Esses profissionais advêm de cursos de graduação e pós-graduação de instituições públicas, com práticas acentuadamente endógenas, reconhecidamente burocráticas em seu estilo de governança, distantes dos modelos corporativos e empresariais modernos. A tendência, então, é de repetição dos modelos administrativos e acadêmicos vividos, na contramão do que se observa no Ensino Superior do mundo.
Uma evidente indicação que este é o caminho que será trilhado é a oferta de conteúdos clássicos em disciplinas de cunho tecnicista, organizadas a partir de um modelo histórico de grade horária, flexível, conforme enfatizado pela obrigatoriedade de inclusão de disciplinas optativas, mas mesmo assim, uma grade. Várias disciplinas “especiais” serão oferecidas, em uma tendência a especialização precoce ou a compartimentalização do ensino. Ao invés de oferecer oportunidades para a integração dos conhecimentos, esses serão oferecidos em diversas “fatias” que serão “consumidas” pelos alunos de acordo com a sua disposição, esperando que os próprios consigam customizar aprendizado científico e profissional. Uma tentativa audaciosa de imitação dos colleges americanos desconsiderando que as instituições de ensino têm a obrigação de promover o aprendizado intencional e não incidental. Mesmo no modelo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), referência mundial de instituição de Ensino Superior em tecnologia, a formação do bacharel em Sciences, Technology and Society (Ciências, Tecnologia e Sociedade) ocorre por meio de disciplinas que “ajudam os alunos a pensar realisticamente e criativamente sobre as demandas intelectuais, morais, políticas e sociais advindas do rápido crescimento da ciência e da tecnologia no nosso século”. As disciplinas do núcleo que chamam de científico (biologia, cálculo, química e física) se entrelaçam com disciplinas como Justiça, Problemas Morais, Bioética, Mentes e Máquinas, Pensando a Vida e outras tantas tão atuais e tão significativas para a sociedade atual.
Várias indagações
Agora várias questões continuam sem resposta. Qual é o real objetivo da UFABC? É ser uma universidade especializada na formação de cientistas? É ser um centro de excelência em pesquisa como o MIT? É ser uma universidade ou um instituto de pesquisa? Qualquer que seja a resposta, não há indicativos que nem mesmo seguirá as recomendações do Ministério da Educação quanto à obrigatoriedade de aderência ao seu entorno, de se integrar realmente e não virtualmente ao Grande ABC. Pela descrição de processos, obtida em seu portal eletrônico, dificilmente seguirá o Plano Nacional de Extensão, a não ser com relação à difusão das conquistas científicas. O estabelecimento de relacionamento de reciprocidade com a sociedade por meio da responsabilidade social e de práticas voltadas ao atendimento das necessidades sociais emergentes possivelmente não se concretizará, uma vez que não parece ser prioridade dentro das condições que começam a ser delineadas. Entretanto, paradoxalmente a UFABC se declara como “firmemente comprometida com a solução dos problemas sociais”.
Ironicamente, a sociedade critica os profissionais das áreas de exatas por não serem criativos, por serem focados apenas na racionalidade e no pragmatismo. Quando se depara com uma construção funcional, porém sem criatividade usualmente esta é atribuída a um engenheiro, e não a um arquiteto. Infelizmente, pela arquitetura organizacional utilizada nesse projeto educacional, é possível visualizar a perpetuação desse estereótipo tão injusto dos profissionais da área de exatas. Inclusive, um dos princípios enfatizados no projeto é “o progresso do conhecimento racional”, uma classificação de conhecimento peculiar para uma proposta dita humanista.
Em resumo, falta sustentação filosófica, acadêmica e administrativa para a UFABC ser reconhecida como uma universidade comprometida com a sociedade. Seu projeto é tecnicista, conteudista e socialmente de baixa inserção regional. Não deixa de ser um belo projeto de uma instituição de pesquisa com foco no conhecimento básico, dissociada do contexto em que está inserida. Não se trata apenas de projeto com forte teor de exclusão social, mas projeto de sustentação de uma elite supostamente intelectualizada. Uma universidade federal, pública, gratuita, gerada sem o diálogo com as forças produtivas da região e suas representações nas áreas corporativas patronais e operárias. De acesso baseado em critérios meritórios, indiscutivelmente, mas de caráter segregatório. Por que não cumprir o seu compromisso social como instituição de ensino e ofertar cursos que expressam a realidade do mercado estratificado da região que cresce exponencialmente no segmento de serviços?
Talvez seja esse um dos caminhos apropriados da verdadeira inclusão social e regional. Cursos de interesse regional atrairão principalmente os jovens envolvidos nessa comunidade, e a forte sensibilização quanto à responsabilidade social deverá promover maior fixação dos egressos na região. Tais cursos, pela natureza da formação, embora gratuitos e de qualidade, não deverão atrair o interesse de jovens com um poder aquisitivo maior, que buscam cursos que conferem uma imagem profissional mais próxima da identidade burguesa (Medicina, Odontologia…) com a qual se identificam.
O Brasil precisa tanto de universidades como de centros de pesquisa de excelência. A união desses dois tipos de instituições se justifica administrativamente, desde que considerada a adição, e não a subtração das missões. Não existe, entretanto, justificativa social para o modelo adotado pela UFABC. Não há opções educacionais em nível superior, na região, efetivamente com forte cunho de desenvolvimento regional, e há carência de instituições de pesquisa que produzam pesquisa aplicada, haja vista o caricato número de patentes registradas no País. Criar uma instituição de pesquisa federal, com missão de Ensino Superior, é considerar a região incubadora de futuros cientistas para o mundo — isso se o projeto pedagógico for bem-sucedido — utilizando o Grande ABC como verdadeira barriga de aluguel.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS