Sociedade

Conselho manifesta-se
sobre Universidade do Grande ABC

DANIEL LIMA - 08/03/2007

 O resultado da enquete que LivreMercado realizou com o Conselho Editorial formado por representantes da sociedade regional sobre o papel da Universidade Pública do Grande ABC será conhecido primeiro pelos leitores da revista, a partir desta sexta-feira, quando a edição de março estará sendo distribuída. Na semana que vem, prazo esgotado para suposta leitura do material de papel, reproduziremos a reportagem neste espaço virtual.


O que preparamos para esta edição é a reprodução de breves textos que solicitamos aos mesmos conselheiros editoriais. Eles foram instados a manifestarem posição para justificar, em respostas rápidas, a escolha de uma das três alternativas propostas por LivreMercado.


Para que os leitores em geral entendam o processo, a enquete que realizamos com os membros do Conselho Editorial de LivreMercado reunia três cenários. Os enunciados foram retirados de declarações de profissionais que lidam com educação no Brasil. Omitimos propositadamente os autores das frases para evitar qualquer tipo de contaminação avaliativa que pudesse prejudicar o resultado final da enquete. Na sequência, reproduzimos os enunciados. Na complementação dessa edição, transferimos a todos os cadastrados desta newsletter os textos dos conselheiros que se manifestaram além do apontamento com um “xis” do enunciado que mais se aproximava de suas convicções.


Lembro apenas que resolvemos à última hora solicitar que, além da escolha da alternativa, os conselheiros também escrevessem. Menos de 10% dos que responderam à enquete tiveram condições de atender a nosso pedido. Mas a quantidade não retira a qualidade daqueles que resolveram ir à luta.


As alternativas propostas aos conselheiros:


( ) “O papel da Universidade Federal do Grande ABC não é produzir bens, nem gerar inovação para as empresas, e sim produzir talentos e alargar a fronteira do conhecimento.”


( ) “Há um certo espírito Santos Dumont no pesquisador brasileiro, de que tudo o que faz tem de gerar o bem da humanidade. Tudo bem querer o bem da humanidade, mas tem de gerar riquezas entre nós também.”


( ) “Não existe nas universidades públicas preocupação com o desemprego, com a exclusão social, com Ensino Básico, com o desenvolvimento.”


Agora vamos aos textos que chegaram à Redação de LivreMercado dentro do prazo estipulado:


Mauro Russo – (B) Era de se esperar que o perfil da Universidade Federal do ABC fosse voltado para esculpir profissionais com formação para a tendência econômica da região, hoje em transição, subdividindo-se em indústria remanescente, comércio, prestação de serviços e tecnologia da informação. Dessa forma, justificaria presença e atenderia ao anseio da comunidade.


Luiz Carlos Barbosa de Lima – (A) Universidades públicas ou particulares exercem papel de extrema importância na sociedade ao gerar em seus alunos conhecimentos por meio de estudos, pesquisas e desenvolvimento de projetos. Através de laboratórios gerar não somente o conhecimento, mas a partir de eventos existentes, ou eventos empíricos, de qualquer forma estará colaborando com inovações tecnológicas para as empresa que poderão ser parceiras.


Josué Catharino Ferreira – (B) Eta questões difíceis de responder! Como geógrafo formado em uma universidade pública, não concordo com a terceira alternativa, apesar de não estar distante da realidade nacional. A primeira alternativa, apesar de considerá-la errada, é a que aparentemente se cristalizou na UFABC. Concordo parcialmente com a segunda alternativa e explico abaixo o que penso. Vamos lá: O pensamento universitário brasileiro é herdeiro de uma formação francesa elitista e positivista, onde o que importa é o conhecimento em si, não a sua aplicação. De uns anos para cá houve uma “invasão” dos conceitos norte-americanos, ou seja, de que o conhecimento deve ser produzido para tornar-se mercadoria e gerar lucro. Tal idéia ainda encontra muita resistência no mundo acadêmico brasileiro, onde muitas vezes o conhecimento produzido isola-se nos gabinetes, na sala de aula e/ou nos laboratórios. Analisando o conhecimento produzido no Brasil, percebe-se, sim, espécie de voluntarismo para salvar o mundo. Porém quase toda pesquisa brasileira acaba confinada nas bibliotecas das Universidades.


Conrado Orsatti – (C) Diversas são as razões que me fazem acreditar na alternativa por mim apontada, mas a principal é a falta de visão dos reitores indicados para comandar as universidades federais. Reitores arcaicos com visões antiquadas, sem a mínima vocação para o futuro deste mundo globalizado. Precisamos de pessoas jovens no comando das universidades federais. Pessoas de coragem, empreendedores com visão global que queiram tornar tais instituições centros de soluções econômicas e sociais do País. Instituições que interajam diretamente com os problemas sociais e que formem e capacitem verdadeiros líderes com capacidade para interferir nas mudanças de que nosso País precisa.


Wilson Rosa – (C) Uma frase define muito bem o que é necessário para alcançar objetivos efetivos no mundo globalizado em que vivemos, quer sejam total ou parcialmente, qual seja, “pense globalmente, aja localmente”. No que concerne ao papel das universidades em geral não é diferente, ou seja, se quiserem contribuir para a redução do desemprego, diminuir a exclusão social, melhorar a qualidade do ensino básico e, principalmente, alavancar o desenvolvimento, precisam adaptar-se milimetricamente à realidade local, o que ignoram sistematicamente. Em outras palavras, precisam pesquisar essa realidade local e dirigir todo o cabedal de experiência, conhecimento e pesquisa, no sentido de elaborar currículo integrado, sólido, coerente e preciso que atenda plenamente a essa realidade. Só dessa forma as universidades podem reduzir o desemprego, diminuir a exclusão social, melhorar a qualidade do Ensino Básico e alavancar o desenvolvimento do País.


Pedro Moreira Godoy – (B) Todas as alternativas estão com um certo toque de exagero e senso comum. Entendo que a linguagem acadêmico-científica se distingue da jornalística exatamente nesse ponto, e, buscando uma aproximação com o que encontro em minhas pesquisas empíricas, quase por falta de opção fiquei com a alternativa que me apresentou o menor grau de senso comum, ou seja, alternativa B.


Marcelo Russo Piotto – (C) Apesar de encontrar fundamentos que possam amparar os demais pensamentos, verifico maior importância na terceira opção, pois não há como ficar impassível diante da assertiva que traz ao debate um tema delicado e evidente acerca das universidades públicas do País. É certo e notório que a concorrência para o ingresso nos cursos disponibilizados pelas instituições públicas teoricamente apresenta-se justa nos moldes dos conhecidos vestibulares, muito embora, na prática, representa um verdadeiro massacre contra aqueles que não tiveram a oportunidade de cursar um ensino de base que lhes conceda as necessárias “armas” para esse combate. Não há a menor preocupação, embora haja a consciência, contudo, focalizado o problema, a solução não parece interessante para as autoridades resolvê-lo. Assim, o Ensino Superior público no País é de graça e, contraditoriamente, destinado às elites.


Inezita Awada – (C) Como educadora, fico triste ao ter de escolher a terceira alternativa. Há necessidade de começar a reforma no pré-escolar, aos seis anos de idade. Coitados dos alunos que já estão com o segundo grau concluído: só estão conseguindo fazer cursos técnicos (não é tão ruim, porque o mercado necessita de técnicos). Nem para ganhar a eleição esse investimento serviu!


Silvana Pompermayer – (C) A falta de um plano de desenvolvimento econômico e social para o País, Estado, região e Município dificulta uma visão de mercado integrada a qualquer sistema de educação. Universidade Pública, Universidade Federal, Estadual, Universidade Privada, o próprio nome já diz quem será o cliente. Não existe a administração e a integração dos interesses públicos e privados capazes de transformar os modelos já existentes em novas oportunidades de desenvolvimento social, empresarial e territorial de forma mais efetiva.


Edson Sardano – (C) Entendo que a universidade pública no Brasil, não apenas a recém-instalada no ABC, há muito vive para si. Quando se fala em pesquisas, verifica-se que grande parte está totalmente dissociada da realidade no tempo e no espaço, funcionando, em boa parte dos casos, como instrumento de sobrevivência financeira e política dos pesquisadores e de grupos intelectualmente privilegiados, a revezarem-se entre si na captação de recursos vindos das mais variadas fontes (especialmente públicas). Pouco se vê em matéria de resultados, seja para a população mais carente ou mesmo para a (grande) parcela da sociedade que paga a conta.


Edna Ortolan – (B) UFABC: Ainda hoje um dos entraves em nossa sociedade é a precariedade do sistema educacional em todos os âmbitos. Que a UFABC, além de preparar “cabeças pensantes e atuantes”, consiga gerar os melhores resultados tecnológicos e científicos para os homens de nossa época, em todas as áreas onde suas necessidades se manifestam. E garantindo-lhes um presente concreto e um futuro inovador mediante esse universo marcado por sucessivas mudanças que exigem de cada ser a busca constante do conhecimento com uma visão ampla sobre a realidade onde será aplicado. Que as portas da UFABC permaneçam abertas e facilitem o acesso a todos que desejam contribuir para transformar, eficazmente, o cenário que hoje nossos olhos observam.


João Geronymo Pereira Junior – (C) A reforma educacional privilegiou o Ensino Superior; esquecendo o Ensino Básico. O recém-formado enfrenta forte concorrência e filas do desemprego. Grande número de universidades particulares forma aos milhares, visando lucros altíssimos e com qualidade indesejável. Um modelo acadêmico-burocrático distante da realidade corporativa e regional; estes são alguns dos fatores da exclusão social. Faz-se urgente levantarmos uma bandeira em prol de um novo modelo de universidade brasileira. Afinal, universidade/educação é via fundamental para o desenvolvimento do País, na medida em que promove o crescimento econômico, tecnológico, social e a qualidade de vida; caso contrário, continuaremos sendo vítimas ou presas fáceis da exclusão social.


Lilian Cristina Gimenez – (C) Neste mundo globalizado, as universidades estão sendo uma fonte geradora de dinheiro fácil e rápido. Não há mal nisto, porém as mesmas não se importam com o futuro deste novo contingente de formandos e muito menos com a qualidade educacional. Foi aplicado recentemente um teste para médicos, quando se constatou que 80% dos formados nos últimos cinco anos foram reprovados. Este dado é alarmante, pois estamos falando de profissionais que trabalham com vidas humanas. Imagine em outras áreas! Não há incentivos por parte do governo para os nossos pesquisadores, o que prejudica o surgimento de novos talentos. Ações como ajustar o ensino à realidade social e parcerias inteligentes podem contribuir para a melhoria da educação e atenuar a exclusão social gerada pela própria universidade.


Fabiano M. D’Avila – (A) Entendo que o estudante deve ser estimulado para o conhecimento, para o desenvolvimento pessoal, para pesquisas que são do interesse da comunidade, que inclui empresas e entidades sem fins lucrativos. O aproveitamento desses talentos nas empresas será uma mera consequência do estímulo que a Universidade proporcionou, somado às características pessoais dos alunos. Resolver uma equação de forma que todos os formados tenham espaço garantido no mercado de trabalho é uma outra história. Nada impede que UFABC e empresas desenvolvam trabalhos em conjunto, o que é até recomendado, mas isso por si só não é certeza de empregabilidade.


Evandro Ribeiro de Lima – (A) A Universidade Federal do Grande ABC deve ser um berço para os talentos que se sobressaem em meio àqueles que alcançaram tal possibilidade, e uma plataforma àqueles que talvez não puderam atingir plenamente sua capacidade produtiva mas ao menos tiveram tal acesso. Contudo, penso que a conquista de nossa Universidade Federal tem sido utilizada a priori como mera plataforma política, uma vez que ocorreram alterações no próprio cronograma de sua constituição, quando da utilização de alguns campi terceirizados.


Ronaldo Ludovic Szvaticsek – (C) Nas universidades públicas não existe a preocupação com a exclusão social no País. Acredito que mais de 80% dos acadêmicos e docentes das universidades públicas são oriundos das classes A e B que, infelizmente, não têm comprometimento de levar instrução às classes menos privilegiadas. As classes mais abastadas no País sempre mantiveram o discurso de que a obrigatoriedade da qualidade de ensino básico e inclusão social é do Estado, porém se calam ao dizermos que é a mesma classe que se utiliza do ensino público superior de boa qualidade sem ter compromisso com o que poderíamos chamar de programa de resgate social, que seria esse enorme desenvolvimento tecnológico que as universidades públicas proporcionam caminhando lado a lado com um programa sério de desenvolvimento educacional básico para o País poder acabar com a enorme exclusão social.


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