Sociedade

O céu pode esperar

DANIEL LIMA - 29/06/2007

Se o critério para passar pelo crivo do poderoso e divino criador fosse apenas o comportamento no trânsito, o purgatório nem formalidade seria: iria direto para o céu.


Tomo emprestada a cartilha do Vaticano, que divulgou na semana passada os 10 Mandamentos do Bom Motorista. Li atentamente o documento publicado pelos jornais e cheguei à conclusão de que tenho sim um lugar no céu se todos os outros aspectos da vida forem relevados.


Afinal, por um desses enigmas psicológicos da vida, consigo como motorista levar a vida com a suavidade dos bem-aventurados. Bem diferente, portanto, do cotidiano no trabalho, agitadíssimo, emocional na medida em que imagino que o farol vermelho do tempo pode complicar o cronograma de atividades previstas.


Vamos, então, sem perda de tempo, ao diagnóstico deste motorista à cartilha do Vaticano.


1. Não mate.


Jamais matei sequer um animal. Um dia desses quase atropelei um gato preto. Safei-me por conta da atenção de ter aprendido com meu velho pai que o bom motorista olha adiante do capô. Antevendo o lance, faz-se o gol.


2. A rua deve ser para você um meio de comunhão com as pessoas, e não uma arma mortal.


Sou extremamente gentil sobretudo com pedestres e motoqueiros. É verdade que ainda não me acostumei com motoristas que acionam nervosamente buzinas estridentes ou não. Mas me controlo. Os malabaristas e vendedores ambulantes que infestam os faróis na região fazem a festa quando chego. Carrego sempre uns trocados. Será isso comunhão?


3. Cortesia, correção e prudência vão ajudá-lo a lidar com eventos imprevistos.


Já escapei de enrascadas no trânsito justamente porque não tenho pressa. O segredo é sempre marcar o próximo compromisso para 15 minutos depois do que normalmente todos fazem. Uma maneira que encontrei para chegar no horário. Por exemplo: os almoços são agendados para 13h15. Se fosse para as 13h teria problemas.


4. Seja caridoso e ajude seu próximo em necessidade, especialmente vítimas de acidentes.


Jamais me defrontei com o infortúnio de situações análogas. Diferentemente de minha filha mais velha, apaixonada por animais. Ela não titubeia em saltar do volante para recolhê-los. Não faria o mesmo, mas não seria por falta de solidariedade. Deus compreende minha fraqueza emocional.


5. Os carros não devem ser uma expressão de poder e dominação e nem uma ocasião para o pecado.


O primeiro ponto do enunciado é claro e acho que respondo bem porque dirijo um veículo que vai completar nove anos de uso. Quanto ao segundo, se entendi bem, acredito que o tempo e as condições financeiras permitiram lugares mais apropriados. Se bem que não faltam lembranças agradáveis se a ocasião para o pecado for o que estou pensando.


6. Convença de maneira caridosa os jovens e os não tão jovens a não dirigir quando estejam sem condições a fazê-lo.


Essa pregação é compulsória para quem tem quatro filhos, três dos quais motoristas. Ainda recentemente tive a oportunidade de provar que casa de ferreiro nem sempre é espeto de pau. Depois de um jantar no Riacho Grande, distrito de São Bernardo, me senti fora de combate após consumir metade de um copo pequeno de caipirinha. A ingestão foi fatal para quem só toma suco, água e refrigerante. Entreguei a chave para meu filho e virei passageiro.


7. Ajude as famílias dos acidentados.


Estou pronto, mas espero não precisar exercitar esse bom-mocismo porque rezo por todos que me ultrapassam ou têm de engolir a fumaça do diesel de minha caminhonete.


8. Reúna motoristas culpados e suas vítimas, em um momento apropriado, para que eles possam passar pela experiência libertadora do perdão.


À falta de oportunidade para gesto semelhante, prefiro me antecipar e reunir as famílias e amigos para alertá-los sobre as armadilhas do trânsito. É melhor prevenir do que remediar.


9. Na rua, proteja a parte mais vulnerável.


Se bem entendi a mensagem, dificilmente carrego nos bolsos quantia considerável, porque já passei por maus bocados com trombadinhas e trombadões do trânsito. Agora, se a mensagem se referir aos pedestres e motoqueiros, estou em alta: eles são meus eleitos ao extremo cuidado ao volante.


10. Sinta-se responsável para com o próximo.


Levo tão a sério esse mandamento do trânsito que, reforçando a orientação de meu velho pai de que o bom motorista olha o horizonte, não o capô do veículo, protejo o próximo mesmo quando o próximo não está tão próximo.


Posto tudo isso, só posso esperar que Deus continue a cuidar de mim porque em matéria de trânsito sou mais útil aqui na terra. O céu pode e deve esperar.


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