Sociedade

Um ano depois, anotações
sobre o crime no Pet Shop

DANIEL LIMA - 01/02/2022

Hoje completo meu primeiro aniversário, ou pós-aniversário. E como prometi me autoanalisar para repassar o significado de dar um cavalo de pau nas travessuras do destino, decidi preparar breve relatório com reflexões e anotações a partir do tiro no rosto daquele começo de tarde de primeiro de fevereiro de 2001. O Crime do Pet Shop, como a mídia tratou o caso, virou O Milagre do Pet Shop. 

Ainda cultivo a dúvida cruel que coloca primeiro de outubro e primeiro de fevereiro na linha de tiro para decidir qual é a data mais importante de minha vida. Essas são datas de minhas vidas, além das datas de vidas de meu entorno. 

A melhor resposta talvez seja mesmo contar com a sorte de dois aniversários, os quais devo comemorar semelhantemente. Afinal, o que é mais importante que estar vivo senão estar redivivo? 

Faço de cada dia uma etapa de atenta inspeção pessoal. Possivelmente um especialista poderá dizer que estou obcecado com o fato de viver, o que, em circunstâncias normais, é algo tão compulsório que não provoca nenhum time de acuidade específica. Mas viver depois de quase morrer é viver diferente. É isso que sinto. É inescapavelmente diferente. 

Sou um privilegiado no mundo dos quase mortos porque tenho a possibilidade de relatar o que passei nos últimos 365 dias. A literatura está repleta de exemplos opostos, de gente que repassou os dias que antecederam à própria morte. 

Receber uma sentença de morte em forma de resultado de exames médicos e carregar a cronologia da letalidade em forma de livro, como é comum e avassaladoramente consumido, é uma situação bem diferente do que a contrária – de contar progressivamente a vida que se vive, não regressivamente a vida que se vai. 

Pensei muito sobre tornar transparente a experiência pela qual passei. Só parti para a ação relatorial que se segue exatamente pelo ineditismo do reverso da prática comum de contar os dias que faltam para morrer, não os dias que sobram para viver. 

Numa das versões de audiovisual que exploro no aplicativo WhatsApp utilizo a gravação no leito de UTI do Hospital São Bernardo, no terceiro de 10 dias de internação. Não me perguntem como reuni forças e lucidez para repassar aquela mensagem à mídia solicitante. Trata-se de uma prova-síntese do que ocorrera no Pet Shop às 14h45 daquele primeiro de fevereiro do ano passado. O retrato de um assassinato não consumado. 

Agora, fiquem com os melhores momentos de uma reviravolta do destino. Afinal, o crime do Pet Shop é um incidente tão estúpido que jamais deveria constar de meu calendário de vida. E de nova vida. Mas quem disse que a vida que todos vivemos é uma vida feita de previsibilidade? 

1. A Ciência e a Crença deram as mãos e também se abraçaram no macrodiagnóstico pós-assassinato não consumado. Os médicos de todas as especialidades repetiram a mesma frase, num coro redentor: “Você é um milagre”. Os crentes, de todas as crenças, repetiram à exaustão: “Deus tem bons propósitos para você”. Nos momentos mais difíceis de minha recuperação, ouço ecos dos dois lados para me fortalecer. E minimizar os danos.

2. Os movimentos pendulares do pescoço foram danificados. O giro natural perdeu flexibilidade. A mobilidade está comprometida. A visão periférica foi amputada. Já não dirijo veículo como antes. 

3. A epiglote foi impactada. Epiglote, em termos simples, é espécie de válvula reguladora das relações harmoniosas entre laringe e faringe. É uma peça da caixa-d’água que já não regula corretamente a vazão. Resultado? A deglutição é mais demorada, porque relativamente lenta, quando não tormentosa. Há determinados alimentos que são um tormento. Já desisti de vários. 

4. A região torácica dá falsos sinais de recuperação continuada. O impacto do projétil fez estragos. As dores permanecem. De vez em quando dão tréguas enganadoras. Nesses dias me sinto Nureyev. Nos demais, um Aleijadinho. Farei novos exames.

5. Há três vértebras lesionadas na coluna cervical. Menos mal que a trajetória da bala não atingiu uma quarta vértebra, a mais sensível e letal. Na roleta russa do projétil, o ponto vital foi preservado.

6. A próstata, impactada duramente pela repercussão corporal do tiro que me lançou a dois metros de distância, ainda exige tratamento médico minimizador do fluxo urinário. Medicamento mitigador e espaçador da frequência urinária tornou-se obrigatório. 

7. Um gastroenterologista constatou refluxo orgânico que jamais registrara. Passo por novas análises. 

8. Faço esteira praticamente todos os dias. Na mesma velocidade-força de antes do tiro, mas esticando em 50% o tempo de movimentação. 

9. Quando não faço esteira, vou para a ergométrica. Especialmente em dias de muito calor. Aproveito o teto parcialmente aberto de minha residência para receber raios solares. O tempo de duração também é maior do que antes do tiro. 

10. Correr na rua, uma de minhas ações físicas preferidas, ainda está longe da programação. Sou um corpo sem centro de equilíbrio. Um caminhão velho ladeira tortuosa abaixo. Meu senso de lateralidade física é semelhante ao de um alcoólatra à procura de um poste. 

11. Não aboli completamente, mas diminui o tempo dedicado aos jornais da televisão. De todos os canais de notícia. Vejo televisão esporadicamente. Já sei o que eles dizem, porque repetem a Grande Mídia impressa. E o outro lado não é diferente. Polaridade sem engajamento é uma benção cultural. Deixem que digam, que falem, que briguem, deixo isso para lá. Antes do tiro era diferente. 

12. Minha primeira terapia de combate ao trauma foi acompanhar séries de violência na Netflix. Assisti a várias. Decidi combater a violência com violência em forma de arte. Um teste de resistência. Resultado? Bastante satisfatório. Veneno de cobra se cura com veneno de cobra. 

13. Com carga reduzida de televisão no lombo de conhecimentos, passei a ocupar mais tempo com mais leitura de livros e muito mais música. Minha preferência é por obras atuais de Economia e pelos sucesso dos anos 1960. É impossível entender o Brasil sem dominar informações fiscais, monetárias e tudo o mais. Os vendedores de ilusão nem sempre são desmascarados. 

14. Quase toda noite vejo meu agressor invadir meus sonhos, arma em punho, descendo a escada e atirando no meu rosto sem a mínima possibilidade de reação. Também nos sonhos estou segurando minhas cachorras pelas guias. Nem as mãos pude utilizar contra a trajetória do projétil. Pior que os sonhos são os sonhos interrompidos por conta dos sonhos, ou do mesmo sonho. 

15. É muito pouco provável que meu assassino frequente meu dia a dia quando estou consciente, mas ele dá um jeito de me assustar. Ocupo demais minha mente para deixar que o invasor se exceda. 

16. Passei a ser mais sensível com as coisas simples. Já não dou corda a determinadas questões que antes não hierarquizava como filtro à qualidade de vida. É um aprendizado constante, sujeito a recaídas. 

17. Coisas importantes do ponto de vista estratégico me tornaram pouco tolerante. Já não suporto mais atitudes que carreguem desumanidades.

18. Via os animais como animais mesmo, amando-os sem a profundidade do sentimento. Passei a ver os animais como vidas de patas, especialmente os cachorros. Ver cães soltos nas ruas me sobressalta. Antes mesmo do tiro deixei de correr na Estrada Velha do Mar por causa de cães desovados por desalmados. Agora, nem imagino correr naquele paraíso-inferno ambiental. 

19. Em nenhum momento nos 10 dias de hospital imaginei morrer. Não havia condições psicológicas para pensar nisso. Estava absolutamente concentrado em observar o tratamento a que era submetido. Não perdera a consciência um minuto sequer. Foram 10 dias ligadíssimos em mim, contando cada segundo. Estar em hospital, por melhor que seja o atendimento, é sempre uma preocupação. O paciente é único, mas o revezamento dos plantonista pode provocar problemas. 

20. O único momento em que admiti conscientemente que poderia morrer, e que vivia os últimos instantes, foi logo após o tiro à queima-roupa, lançado que fui a dois metros de distância. Minha cabeça girava e parecia explodir. O projétil a 1.040 quilômetros por hora parecia fatal. Mas me mantive vivo e dei duas recomendações à minha secretária, que me acompanhava: cuide de meus filhos e de minhas cachorras. Ela sabia o que queria dizer. 

21. Descobri com pesquisas de variadas fontes que teria mais possibilidade de sobreviver se ocupasse um assento no avião da Chapecoense do que ao sair do Pet Shop direto para o hospital. Casos semelhantes ao do tiro no rosto são letais para 99,9% das vítimas. 

22. Brinco com os amigos ao afirmar que o projétil ainda no meu corpo é uma fonte de energia à cognição. O chumbo teria o poder miraculoso de me fornecer o combustível que jamais faltou, mas agora parece ainda mais abundante. Não peçam humildade a quem precisa de automotivação.

23. A retirada do projétil é uma cirurgia que exige anestesia geral. Estou adiando o quanto posso a intervenção. Um filme de Richard Gere não sai da cabeça. Ele é um neurocirurgião cuja paciente, com edema no rosto, morreu por causa da anestesia. A família ficou revoltada. A explicação do personagem não me convenceu: um a cada 50 mil pacientes morrem após anestesia geral. Estatística sempre me incomodou.

24. Tenho saudade do gosto do café que fazia e continuo a fazer todas as manhas, de coador de pano. O sabor não é o mesmo. A perda permanente de parte do paladar comprometeu o prazer. Muitos outros alimentos seguem a mesma trilha. Chupar uva é um convite à decepção. Minha memória degustativa é meu carrasco. 

25. No imaginário de defesa contra o assassino que desceu a escada e engatilhou o revolver, pensei na possibilidade de fugir pelos fundos do pet shop. Mal conhecia o local, mas sabia que atrás de mim havia uma área de playground para os cães e um muro elevadíssimo, absolutamente sem possibilidade de fuga. Se tentasse, provavelmente seria assassinado com tiros nas costas. 

26. Sofro diariamente com o dilema sensorial. Afinal, deveria ou não ter reagido à agressão verbal de meu assassino frustrado. O que ele fez? Irritado pela reclamação de que quatro horas eram tempo demais para dar banho e tosa nos dois animais de pequeno porte, que estavam morrendo de fome, recebi como resposta “tome aqui seus cachorros, não precisa pagar e não quero ver mais sua cara”, atirando as guias em minha direção. Calei-me e me dei mal. Se reagisse, estaria vivo?  

27. O tratamento dentário na região atingida pelo projetil é vagaroso e cuidadoso. Há estilhaços de chumbo que erguem obstáculos à anestesia e à repercussão do motorzinho que prepara o terreno aos implantes. Ainda há uma cratera à espera de reparos. O doutor Renato Matsumoto é um profissional de extrema competência e paciência. 

28. Vou revelar apenas no tribunal do Juri uma conclusão a que finalmente cheguei sobre o assassinato não consumado. Tivemos um crime de machismo. Crime de machismo envolvendo dois homens só pode ter a participação mesmo que involuntária de uma mulher. Foi o que se deu. 

29. Nada me deixa mais irritado do que ler ou ouvir que houve discussão entre mim e o assassino como fonte geradora do crime. Discussão pressupõe anteposição exaltada de ideias, espécie de antessala ao enfrentamento físico. Fiz uma reclamação, apenas uma reclamação. Nada mais que reclamação justa. Minhas cachorras já estavam a praticamente quatro horas em atendimento precário, sem almoço. O prazo fixado de no máximo duas horas foi jogado no lixo. Jamais discutiria com alguém tendo minhas cachorras por perto. Elas são sensíveis demais. 

30. Soubesse que aquele jovem que me atendeu de cara amarrada desde a primeira abordagem em frente ao pet shop estava fora de combate como guarda civil municipal em Indaiatuba, provavelmente não teria levado minhas cachorras para banho e tosa. Punido pela prática de tortura, meu assassino frustrado não é exatamente uma boa companhia em qualquer circunstância. 

31. Chorei na cadeira do dentista no primeiro dia do diagnóstico dos estragos do tiro. As imagens no petshop, que o assassino roubou do ferramental de gravação logo em seguida ao ato, estão na minha memória. Nas outras sessões com o doutor Renato Matsumoto houve melhora. Sessões já não são mais interrompidas. 

32. Está cada vez mais difícil lidar com portadores do Cartão de Crédito de Solidariedade. Quem são? Gente que de alguma forma se manifestou em mensagens e atos em apoio a mim. Há uma cobrança dissimulada por reciprocidades. 

33. Faço de conta que não reconheço os portadores do Cartão de Débito de Revanchismo. Quem são? Gente que por razões estritamente profissionais, provocadas pelo jornalismo independente que exercito, torceu para que eu batesse com as dez. Frustrados, têm de me engolir. Não lhes dedico outro sentimento senão de gratidão por me ajudarem a construir uma argamassa de resiliência em que o milagre se tornou mais compensador. 

34. As mensagens de solidariedade de todos os cantos e de gente que havia muito tempo não mantinha relações foram cruciais aos primeiros tempos de recuperação. Há situações indescritíveis. 

35. Um vizinho distante, ou seja, a mais de 300 metros de minha residência, não sossegou enquanto eu não retornei do hospital, 10 dias depois. Esteve em minha procura três vezes, inutilmente. Um abraço forte e muito choro selaram a solidariedade. Nos encontramos de vez em quando, ele com a mulher sempre ao lado; eu com as cachorras no passeio matinal. 

36. Nos primeiros 20 dias em casa, após 10 dias de hospitalização, permaneci em estado de letargia, extremo de depressão. A vida não tinha sentido algum. As dores torácicas e as repercussões prostáticas impediam que dormisse 20 minutos seguidos. A debilidade físico-emocional se acentuava. Minhas pernas não eram mais de um atleta veterano, por assim dizer. Perdi oito quilos. 

37. Somente depois de 40 dias pude iniciar efetiva recuperação física, ao andar pela casa e ao iniciar algum tipo de exercício com a bicicleta ergométrica. 

38. Os efeitos colaterais do projétil encapsulado na área do pescoço correm no mesmo ritmo do comportamento do clima. Quando esquenta ou esfria demais a sensação é de que o microbólido capta os efeitos da temperatura, irradiando por todo o corpo.  

39. Passei longa temporada numa cadeira instalada no banheiro para poder tomar banho diário. Foram 40 dias de uma constatação cruel: minhas pernas não me davam sustentação suficiente para o asseio. 

40. Não sei como pude resistir tão bem à gravação de depoimento sobre o Caso Celso Daniel à Produtora Escarlate, na Capital. Foram oito horas de trabalho naquele oito de maio. Trataram-me com todo o desvelo. A gravação já seria exaustiva em condições normais, imaginem então após apenas 80 dias de um assassinato não consumado. Não senti cansaço durante o trabalho. Desabei quando me deixaram em casa. 

41. Um dos momentos mais emocionantes do período de recuperação foi ouvir a voz do empresário Sérgio de Nadai do outro lado da linha, logo após deixar o hospital. Ele ligara antes, no período de minha internação. Sérgio De Nadai foi nobre. No passado, tivemos desencontros por conta da atuação dele como empresário e minha como jornalista. Sérgio de Nadai está entre aqueles que se utilizaram do Passaporte da Felicidade, que abomina o Cartão de Crédito de Solidariedade e o Cartão de Débito de Revanchismo.

42. Também recebi, entre tantos telefonemas e mensagens, a atenção do ex-prefeito Luiz Marinho, com quem não conversava há muito tempo. Outros telefonemas, como o de Nívio Roque, ex-executivo numa das empresas do Polo Petroquímico, me tocaram sensivelmente. Nívio Roque está entre as pessoas especiais que conheço. Meu amigo José Batista Gusmão também engrossou a lista de solidariedade com seus contatos. Tantos outros o fizeram. 

43. O prefeito Orlando Morando foi me visitar no Hospital São Bernardo. Nenhuma outra autoridade fez o mesmo. Algumas, certamente, esperavam por desfecho diferente porque se incomodam demais com críticas. Preferem louvações vassalas. A turma do Cartão de Débito de Revanchismo só ficou à espreita. O contraditório é uma fonte de animosidade a todos que só querem aplausos. Jornalismo não é relações-públicas. O compromisso com a sociedade deve prevalecer sempre.  

44. Passei uma mensagem para um jornalista/publicitário que, nas redes sociais, depreciou os termos da gravação que fiz no terceiro dia de UTI, a pedido de minha secretária, atendendo solicitação de um canal de televisão. O censor zombou do fato de ter dito que perdoava meu agressor. A mensagem não fazia menção à indelicadeza dele em entender meu gesto. Diferentemente disso, agradeci a atenção dispensada. 

45. A jornalista Gislayne Jacinto, do site ABCD Jornal, teve comportamento exemplar durante todo o período do incidente. Tratou o caso com equilíbrio e respeito. Não se deixou cair no comodismo de crime baseado em discussão, uma maneira muito simples de lavar as mãos e incentivar a maledicência.  

46. O Diário do Grande ABC, ao qual servi durante mais de 15 dos milhares de anos em que pratico jornalismo, fez cobertura imprecisa do caso. Deu uma versão mentirosa e infame, repassada por um advogado. O Diário do Grande ABC não se corrigiu até agora. Entregar ao lobo o conceito do crime é um acinte. Quando se trata de alguém tão relacionado à história do jornal, é uma aberração. Ocupei todos os cargos possíveis no Diário do Grande ABC. Merecia o contraditório. O sumiço da gravação do ambiente no pet shop durante o assassinato não consumado diz tudo.  O assassino levou embora, como se sabe.  

47. O mesmo Diário do Grande ABC, em edição de setembro último, fez entrevista de página inteira comigo sobre regionalidade. Fui recepcionado com todo o carinho pelo dono do jornal, Ronan Maria Pinto, e cúpula da redação. Não fiz qualquer menção à cobertura do assassinato não consumado que tanto me desagradou ao ferir de morte a verdade. Estava ali como jornalista, não como pessoa física. E foi a pessoa física que sofreu o ataque. 

48. Não faço esforço para tentar perdoar meu agressor, porque meu agressor não merece que perca ainda mais meu tempo precioso. Entretanto, a cada investida afrontosa de seu representante legal de defesa, um desbravador da sordidez e da mentira, torna-se difícil não lembrar o tamanho da tragédia.  

49. Enfrento dois tipos de bullying. O primeiro selvagem, de interlocutor que transforma a perda de movimentos regulares do pescoço, por exemplo, em pilheria maldosa, autopromocional. O segundo, inteligente e sensível, que pede licença reverenciosa para lidar com as sequelas. Os primeiros são cafajestes. Os segundos são amigos que minimizam os estragos com bom-humor. 

50. É impossível não recorrer à literatura médica para saber o que cada exame significa na prática. Por exemplo: só descobri que Epiglote existe como peça do mobiliário corporal após a constatação de que a trajetória do projétil passou por lá, ou seja, nas cercanias da garganta.

51. Não acreditei quando ouvi do advogado do assassino, na primeira audiência (virtual) do caso, uma pergunta insensata: “Você perdeu muito sangue?”. Uma indagação provocativa de quem sabe que o cliente com passado de torturador não é exatamente alguém civilizado. Respondi, atordoado, que não saberia definir o que é muito ou pouco sangue, mas que sendo o sangue meu sangue, a quantidade sempre seria significativa. 

52. Meu advogado sugeriu que nem lesse a peça de defesa do assassino. Há sobreposições de invencionices desesperadamente construídas para tornar o assassino vítima. Uma vítima tão consistentemente vítima que tomou uma providência autoincriminatória após desferir o tiro à queima-roupa: surrupiou a gravação do ambiente no pet shop. O VAR tecnológico é um detector de mentiras inapelável, constatado pela Polícia Cientifica.

53. Não repasso mais aos leitores dos grupos em que estou inserido no aplicativo WhatsApp mensagens de terceiros relativas a muitos assuntos, sobretudo políticos. Antes do tiro o fazia no sentido jornalístico, mas notei insistência deletéria de tornar opinião o que geralmente era distribuição de conteúdo. A mudança tem justificativa forte: não perco mais tempo com quinquilharias midiáticas. O tempo passou a ter condimento de valor mais agudo.

54. Por conta dos dias sequenciais e intermináveis de Aleijadinho, descobri que me alimentar em pé é muito melhor do que sentado. A deglutição é menos vagarosa e as dores torácicas menos agressivas. Nos dias de Nureyev, menos frequentes, me sinto rei ao me sentar. 

55. Caminhadas matinais com minhas duas cachorras são uma terapia mental e física, mas, também, uma forma de me integrar com a comunidade do bairro. A profusão de pessoas que contam com animais aumenta a cada dia. Há empatia compulsória entre os donos de cães, principalmente. Se os cães soubessem o quanto nos auxiliam no equilíbrio emocional e na criatividade, cobrariam caro pelo tratamento. 

56. O milagre da multiplicação de testemunhos de um assassino transformou a escassez de funcionários do pet shop em avalanche de atendentes, como se os depoimentos na Polícia no dia seguinte ao crime não servissem para nada. Com tanta gente disponível seria inconcebível quatro horas para entrega incompleta da tosa e banho de dois cães de pequeno porte. Em qualquer pet shop o tempo de espera não chega a duas horas. O que combinei com a proprietária do estabelecimento não foi cumprido. 

57. Já não vejo futebol com a mesma paixão de antes. Não sei se é por causa de meu time em baixa ou porque meus valores se alteraram. Vou fazer checagem geral nesta temporada, quando meu time deve melhorar. Será a prova dos nove. Mas uma coisa é certa e vem de longe: já não torço como torcia antes contra os adversários, como a maioria dos torcedores o faz. É melhor torcer para o time da gente e reconhecer que sempre há duas equipes em campo em busca da meritocracia da vitória. 

58. Aprendi com os produtores do Caso Celso Daniel que profissionalismo não é artigo inteiramente destruído num País de evoluções regressivas rumo ao improviso permanente. A Escarlate me fez recordar dos melhores momentos de editor à frente tanto do Diário do Grande ABC como da revista LivreMercado. Cronograma e planejamento coexistem onde impera responsabilidade social. 

59. Quem acha que é procurar agulha no paiol a identificação de canalhas na sociedade possivelmente não tem a curiosidade essencial. Os canalhas estão à solta. Geralmente usam paletó, falam com certa diplomacia e, como são bons em efeitos especiais, podem ser levados à sacristia e brilharem entre fieis. Os canalhas são camaleões. Adoram desagregar para reinar. 

60. A cultura da omissão em ambientes corporativos e mesmo informais, de gente que se reúne para tomar decisões, é mal que se alastra na sociedade. Os omissos, vistos como colaboradores efetivos, não passam de embustes. Gente que prefere os bastidores ao comprometimento em uma mesa de decisões.

61. Não se pode dizer que a defesa do assassino deixe de ter sua porção de novelista. De um tiro para o alto chegamos ao ponto processual em que houve briga corporal. Vale-tudo para tirar o crime da realidade de revolver engatilhado, descida da escada e tiro à queima-roupa.  

62. Aviso aos navegantes de incidentes que se assemelharem ao que foi registrado em primeiro de fevereiro no pet shop: dependendo dos danos, as páginas processuais vão acrescentar camadas de novas agressões. Salvar assassino da justa pena é estratégia que despreza qualquer sentimento humanitário num encadeamento estrambólico que faz do agressor, vítima. É carnificina ética e moral. 

63. Lidar com processo criminal no qual mentiras se multiplicam como cogumelos é experiência dolorosa a todas as vítimas, mas talvez para quem é jornalista preocupado sempre e sempre com a verdade dos fatos, é muito pior. Fizesse como agente formador de opinião o que o defensor de um bandido faz do Caso do Pet Shop, teria vergonha de olhar no espelho. A mentira como método de conduta defensiva é uma brutalidade semelhante a um tiro à queima-roupa. 

64. Não é o fato de ter sido contratado um escritório de advocacia criminal muito influente em instâncias policiais e próximo ao empresário Milton Bigucci para tentar evitar a prisão do assassino frustrado que me leva a admitir um crime de mando. Amigos mais próximos me alertam o tempo todo para apurar o que suspeitam, mas não tem sentido. Milton Bigucci é desafeto deste jornalista, a quem perseguiu durante vários anos por causa de apontamentos de irregularidades à frente do Clube dos Construtores e da Construtora MBigucci. Milton Bigucci foi denunciado como integrante da Máfia do ISS em São Paulo. Fez de números estatísticos do mercado imobiliário do Grande ABC uma festança ao longo dos anos ao manipular os dados. 



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