Sociedade

Santo André e São Caetano
entre rebaixados pelo vírus

DANIEL LIMA - 02/03/2022

Santo André e São Caetano constam da lista dos quatro municípios mais duramente impactados com o total de mortes para cada grupo de 100 mil habitantes pelo Coronavírus e variantes. Tanto que se a epidemia se encerasse hoje, estariam entre os quatro piores do G-22, o Clube dos Maiores Municípios do Estado de São Paulo, fora a Capital.  

O resultado está consolidado em pesquisa com base nos dados oficiais do governo do Estado de São Paulo, sob a curadoria da Fundação Seade. Não tem choro nem vela de subjetividades. São números reais, de instituição que controla o placar no Estado. 

O critério de rebaixamento segue as principais competições de futebol no Brasil, divididas em 20 equipes na Série A e na Série B. Os quatro primeiros sobem e os quatro últimos descem.  

INTERAÇÃO IMPORTANTE  

É claro que estamos utilizando uma metáfora. Oficialmente não há competição alguma desse tipo. Queremos apenas dar a dimensão exata do quanto os dois municípios do Grande ABC batem cabeça no combate ao Coronavírus.  Os demais, exceto Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, também têm dificuldade de se safar dos danos letais do vírus.  

Não fosse essa exploração classificatória, os números do Coronavírus e variáveis no Grande ABC não seriam compreendidos. enfrentamento numéricos internos, de municípios locais contra municípios locais, é algo muito provinciano e impreciso. Há expansão obrigatória de dados para que se compreenda a situação da região no conjunto de municípios do Estado e do País – e também num agrupamento específico, caso do G-22.  

O Ranking do G-22, o Clube dos Maiores Municípios Paulistas, exceto a Capital, é implacável. Basta dividir o total de mortes pelo total de habitantes de cada um dos endereços municipais. A métrica é internacional.   

CRITÉRIO UNIVERSAL  

Mortes por 100 mil habitantes formam um critério universal em diversas modalidades estatísticas que passem pelo escrutínio da trituração de diferenças entre determinadas temáticas e municípios ou países de populações distintos. 

Criamos o G-22 justamente para medir o tamanho da eficiência ou da ineficiência dos municípios do Grande ABC individualizados ou agrupados diante da concorrência estadual. Uma Guarulhos com mais de 1,3 milhão de habitantes ganha invólucro igual ao de São Caetano, por exemplo, que mal passa de 161 mil habitantes.  

Para medir coisas diferentes é indispensável adotar medidas que as ancorem sob o mesmo prisma. São Caetano mal completa dois grupos de 100 mil habitantes, enquanto Guarulhos passa de 13. Como estabelecer referenciais que reflitam vantagens e deficiências entre os dois municípios e entre tantos outros: esquadrinhando-o sob o mesmo prisma.  

ADEQUANDO FORMATO  

É assim que funciona tanta coisa de tamanhos distintos. Os índices nacionais e internacionais de criminalidade levam em conta o critério de 100 mil ou mesmo um milhão de habitantes, que dá na mesma. São Paulo conta em números absolutos com a mais grave incidência de mortes por assassinato a cada temporada, mas está em primeiro em eficiência quando se utiliza a medição por milhão de habitantes.  

O G-22 é integrado pelos maiores municípios econômicos do Estado de São Paulo. A Capital, de tamanho mastodôntico que distorce os resultados, está excluída. Sozinha, São Paulo tem o tamanho demográfico e econômico de todos os integrantes do G-22. 

Na verdade, o G-22 pode ser chamado também de G-20, porque Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra estão na lista por causa da regionalidade. Os dois municípios completam o Grande ABC, que contam com cinco representações oficiais no agrupamento. 

A surpresa no ranking de letalidade do Coronavírus e variantes no G-22 é São Caetano não constar da última colocação. Por diferença mínima é superada por São José do Rio Preto, que ocupa a 22ª posição. Os outros integrantes do grupo de rebaixados até agora na competição pela vida também carregam identidade de santos: Santo André na 19ª colocação e Santos na vigésima.  

PIORES EQUILIBRADOS  

A diferença entre São Caetano e São José do Rio Preto na briga para fugir da lanterninha no Ranking do Coronavírus do G-22 promete ser dramática, porque o vírus continua a matar. São Caetano registra 644 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas, enquanto Rio Preto aponta 645. Uma diferença mínima.  

Desde os primeiros tempos em que o Coronavírus começou a produzir mortes no Grande ABC temos destacado três fatores que pesam, entre outros, no agravamento da situação de São Caetano: densidade demográfica, localização na metrópole e incidência de população acima de 60 anos muito além da média estadual e nacional.  

Mas também devem ser levados em conta fatores de infraestrutura e de gestão. Embora dados de São Caetano sejam mais inquietantes, o Grande ABC como um todo também não vai bem na competição que subsiste para medir o tamanho das complicações do vírus.  

Quanto mais afastados dos grandes conglomerados humanos, como são os miolos das regiões metropolitanos, menos o Coronavírus faz estragos, entre outros fatores. Tanto que os dois primeiros colocados do Ranking do G-22, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires, no Grande ABC, ficam num dos extremos da geografia regional. E também contam com baixa densidade demográfica, o que implica em mobilidade urbana mais palatável. 

A média de 412 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes (11.558 no total dos sete municípios) coloca o Grande ABC muito acima tanto dos números gerais do Estado de São Paulo de 164.532 mortes para um total de 45 milhões de habitantes, o que se traduz em 365,66 mortes para cada 100 mil habitantes. Ou seja: a incidência de óbitos no Grande ABC é 12,67% superior. Já as 649.134 mortes no País, quando divididas por 212 milhões de habitantes, resulta em 306,19 casos letais para cada grupo de 100 mil habitantes. Comparado à média brasileira, morrem 34,64% mais na região. Veja o Ranking do G-22 de letalidade do Coronavírus:   

1. Rio Grande da Serra com 99 mortes para uma população de 51.436. Mortes por 100 mil habitantes: 192,47. 

2. Paulínia com 330 mortes para uma população de 112.003. Mortes por 100 mil habitantes: 294,63.  

3. Ribeirão Pires com 367 mortes para uma população de 124.159. Mortes por 100 mil habitantes: 295,59. 

4. São José dos Campos com 2.174 mortes para uma população de 729.737. Mortes por 100 mil habitantes: 297,91. 

5. Sumaré com 908 mortes para uma população de 286.211 habitantes. Mortes por 100 mil habitantes: 317.25. 

6. Taubaté com 1.065 mortes para uma população de 317.915. Mortes por 100 mil habitantes: 334,99.  

7. Mauá com 1.635 mortes para uma população de 477.552. Mortes por 100 mil habitantes: 343,83 

8. Diadema com 1.491 mortes para uma população de 426.757. Mortes por 100 mil habitantes: 349,38.  

9. Mogi das Cruzes com 1.810 mortes para uma população de 450.785. Mortes por 100 mil habitantes: 356,40.  

10. Piracicaba com 1.528 mortes para uma população de 407.252. Mortes por 100 mil habitantes: 375,20.  

11. Guarulhos com 5.295 mortes para uma população de 1.392.121. Mortes por 100 mil habitantes: 380,35.  

12. Campinas com 4.935 mortes para uma população de 1.213.792. Mortes por 100 mil habitantes: 406,58.  

13. Jundiaí com 1.726 mortes para uma população de 423.006. Mortes por 100 mil habitantes: 408.03.  

14. Osasco com 2.907 mortes para uma população de 699.944. Mortes por 100 mil habitantes: 415,32. 

15. São Bernardo com 3.562 mortes para uma população de 844.483. Mortes por 100 mil habitantes: 421,80. 

16. Barueri com 1.230 mortes para uma população de 276.982. Mortes por 100 mil habitantes: 444,07. 

17. Sorocaba com 3.082 mortes para uma população de 687.367. Mortes por 100 mil habitantes: 448,38.  

18. Ribeirão Preto com 3.247 mortes par uma população de 711.825. Mortes por 100 mil habitantes: 456,15.  

19. Santo André com 3.361 mortes para uma população de 721.368 habitantes. Mortes por 100 mil habitantes: 465,92.  

20. Santos com 2.465 mortes para uma população de 433.656. Mortes por 100 mil habitantes: 568,42.  

21. São Caetano com 1.043 mortes para uma população de 161.957. Mortes por 100 mil habitantes: 644. 00. 

22. São José do Rio Preto com 3.003 mortes para uma população de 464.983. Mortes por 100 mil habitantes: 645,58.   

QUASE DOIS ANOS 

A propósito dos números de São Caetano, reproduzo alguns trechos da análise que fiz para a edição de 10 de agosto de 2020 (portanto a caminho de dois anos) sobre o vírus na região, sob o título “Brasil teria quase 200 mil mortes se fosse São Caetano”:  

 A possibilidade de morrer em consequência do vírus chinês é praticamente 50% maior para quem mora em São Caetano do que no Brasil como um todo. Se o Brasil fosse São Caetano, já teriam morrido quase 200 mil pessoas de Covid-19. O resultado estatístico não é uma alquimia de valor ou odor político ou partidário. É caso de saúde pública, apenas isso.   Não há, portanto, enviesamento algum. Apenas uma constatação que, gostem ou não, desdobra em série de explicações, suspeições e incertezas. A pergunta essencial que se deve fazer é a seguinte: por que morre tanta gente em São Caetano em relação à média nacional se as condições sanitárias no Município são consideradas de Primeiro Mundo?  

 São Caetano registrou até ontem 147 casos letais, o que, dividido por 161.936 habitantes, significa 90,77 óbitos para cada grupo de 100 mil habitantes. O Brasil registrou 101.136 óbitos que, divididos por 211.755.671 habitantes resulta em 47,76 mortes para cada 100 mil habitantes. A comparação não é arbitrária. São Caetano detém a liderança do Grande ABC em casos letais do Coronavírus. É uma liderança ameaçada apenas por Diadema. Uma cidade que se assenta historicamente em caudais de imigrantes e uma cidade vizinha notabilizada por avalanche de migrantes atraídos pelo então paraíso industrial.   

 Há três vetores que colocam São Caetano em desvantagem no confronto com a média brasileira que sai das estatísticas letais do Coronavírus.  Pesam muito (...) os fatos de São Caetano estar na Região Metropolitana de São Paulo, de contar com elevada densidade demográfica e também de reunir grupo mais numeroso de moradores com 60 anos ou mais, estrato preferido do vírus chinês. O que São Caetano difere do Brasil de forma positiva, ou seja, como anteparo à ação da pandemia, é uma rede de proteção sanitária construída ao longo de décadas em que atingiu alto padrão econômico para a realidade nacional. Além de uma população cujo estrato social de riqueza consolidada é muito superior à média nacional.   

 São Caetano tem uma infraestrutura física e social muito acima da média nacional. É um oásis dentro do Brasil. Por isso, os dados estatísticos do vírus chinês intrigam. Ou seja: São Caetano detém fatores econômicos protetivos na luta contra o Coronavírus, em contraponto, portanto, às vicissitudes geográficas e etárias.  São Caetano conta com participação relativa de famílias de classe rica mais de três vezes superior à média brasileira. Das 60.140 moradias desse estrato social, 6,6% (3.987) são de moradores do topo da pirâmide social. No Brasil não passam de 2,1%, ou 1.300.578 moradias de um total de 60.554.076.   

 A classe média tradicional de São Caetano reúne 33,9% das moradias, enquanto no Brasil são 20,9%. Ou seja: São Caetano conta com vantagem de 38,34% de classes médias ante a média nacional. Os classes média-baixa de São Caetano são 45,1% das moradias, enquanto no Brasil são 48,7%. E entre os miseráveis e pobres, São Caetano registra 16,8% das famílias, ante 28,3% da média nacional. Uma distância de 68,45%.   

 A proporção de moradores com 60 anos ou mais é um calcanhar de Aquiles de São Caetano no confronto com a média brasileira. Ter 60 anos ou mais é o caminho mais curto entre o vírus chinês e os casos de letalidade. Em média, no País, os casos letais envolvem esse estrato da população em proporções inquietantes. São 75% dos casos.  Em São Caetano, com 60 anos ou mais, são 40.439 moradores, ou 24,97% da população. No Brasil são 24.388.618 milhões, ou 11,52% da população. Portanto, mais que o dobro de incidência da chamada Terceira Idade em São Caetano. Uma média europeia.   

 Como ainda falta muito tempo para os estragos do vírus chinês se consolidarem no Grande ABC e no Brasil como um todo (há previsões que esticam a ação até o final do primeiro trimestre do ano que vem), parece ainda pouco conclusivo o resumo da ópera em execução. De qualquer forma, os resultados de São Caetano ganham aderência explicativa de cunho operacional interno que precisa ser atentamente observada.  

 Traduzindo em miúdos: São Caetano poderia ter deixado de reagir (assim como todo o Grande ABC, de elevados indicadores de vulnerabilidade ao vírus chinês) à altura das necessidades. Teria havido tanto em São Caetano quanto nos demais municípios da região uma partitura incompleta de combate ao vírus. Seguiram-se protocolos atrelados demais ao governo do Estado até que a vaca da uniformidade de ações levou todos para o brejo. E quando se fala em levar todos para o brejo significa a incapacidade generalizada de conciliar saúde e economia.  

 A vizinha Diadema tem dados socioeconômicos melhores e piores que a média brasileira e, como São Caetano, está no mapa da Região Metropolitana de São Caetano, conta com elevada densidade demográfica (13 mil habitantes por quilômetro quadrado ante 11 mil de São Caetano) e uma população de idosos bastante inferior. Mas de infraestrutura social e física muito aquém de São Caetano. Até que ponto é possível considerar normal que São Caetano tenha índice de morte por cada grupo de 100 mil habitantes maior que Diadema?   

 Os dados mais recentes contabilizam 1.906 mortes por Coronavírus no Grande ABC, de um total de 25.114 no Estado de São Paulo e 101.136 no Brasil. Quando se encaixam os números absolutos no conceito de proporcionalidade por grupo de 100 mil habitantes, o Grande ABC registra 67,11 ante 47,93 do País. Não são dados satisfatórios para a região. E a projeção é de superar a 2,8 mil casos fatais nos próximos tempos. Resultado suficiente para ultrapassar as mortes relativas no Reino Unido e Bélgica, que lideram a contabilidade macabra no mundo. São Caetano e Diadema chegarão bem antes. 



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