Na edição de sete de abril de 2020 (portanto, há quase dois anos) contava com três cenários diferentes traçados pela ciência. Estavam no foco os efeitos do Coronavírus no Grande ABC. Peguei a estrada da perdição do otimismo. É claro que cai do cavalo.
Previ, com base naqueles estudos, que morreriam 588 pessoas na região por conta do vírus chinês. Já chegamos próximo a 12 mil. Quem errou foram outros, mas assumo minha parte nessa bagaça.
E minha parte nessa bagaça foi acreditar na ciência. Justamente eu que acredito muito na ciência posso me recriminar agora porque a ciência apressada falhou. Se não foi a ciência apressada que falhou, então foi o vírus violento que carrega os méritos de ter tornado todos tontos. O Coronavírus deu e dá baile em todo o mundo especializado ou não.
É ou não é um baile macabro quase 12 mil mortos quando, lá atrás, 588 pareciam um exagero?
RESPONSABILIDADE MENOR
Estava longe do Grande ABC quando fiz aquela análise. Decidira me refugiar em Salto, Interior do Estado. Pretendia fugir do vírus. E consegui.
Mas como fiquei não mais que 30 dias, eis que em novembro do mesmo ano, antes que as vacinas tão combatidas chegassem, entrei para as estatísticas da pandemia.
Menos mal que não fui hospitalizado. Mal sabia que pouco depois iria mesmo para um período de 10 dias de calvário. Mas aí é outra coisa. Vírus é uma coisa; outra coisa, que todos sabem, é outra coisa.
Justiça seja feita, entretanto: desta vez a institucionalidade do Grande ABC, que pode ser resumida como a soma zero de todos os mandachuvas de todos os setores, não tem nada a ver com a decepção numérica provocada pelo Coronavírus.
Desta vez nossa culpa no cartório de ineficiências é bem menor que tantas outras majoritárias, porque prevalece o descaso ou o despreparo, quando não uma e outra coisas.
SHOW DE HORRORES
O vírus chinês e suas variantes são tinhosos demais. Estão sempre à espreita. Não há geografia que os barre do baile de mortes. O duro é que muitas autoridades públicas não pensam assim. Só pensam nos respectivos territórios municipais.
Tanto é verdade que a agremiação que supostamente as uniria, o Clube dos Prefeitos, mostrou-se bom de marketing e ruim de ações.
Volto ao passado estatístico também para lembrar que ninguém poderia em sã consciência acreditar que chegaríamos a mais uma temporada de catástrofe, embora mais controlada.
Aquelas 588 vítimas fatais que incluí no título da matéria (“Morrerão mesmo 588 no Grande ABC e 24 em Salto”?) pareciam um exagero.
Vou reproduzir uma parcela minoritária do texto que preparei naquele abril para justificar o título da matéria. Os leitores vão entender de onde partiu o míssil especulativo sobre o número de mortes que o Coronavírus provocaria no mundo.
O ponto interessante (leiam com atenção, por favor) é que, houvesse escolhido uma das duas demais alternativas postas, menos otimistas, também teria dançado. Isso mesmo: os estudiosos desenharam três cenários e não acertaram nenhum. Pelo menos por enquanto.
Leiam com atenção. Volto em seguida. Sem ler o que se segue, uma leitura mastigada, caprichada, não uma leitura fastfoodiana, você não vai entender nada do que estou tentando dizer.
EDIÇÃO DE ABRIL DE 2020
Entre as melhores projeções que detectei até agora a possibilidade de Salto registrar 24 mortes parece muito melhor do que estar no Grande ABC, onde estão previstas 588. Convenhamos que é uma senhora vantagem, mesmo que ilusória. O conforto psicológico atenua a pressão ambiental. Para cada quatro mortos em Salto, seriam 100 no Grande ABC. Vamos, portanto, à raiz dos números. Trata-se da equipe de epidemiologistas do Imperial College, de Londres. Eles analisaram o impacto da covid-19 em 202 países, entre os quais o Brasil. A última versão do cálculo foi tão contundente que levou o primeiro ministro, Boris Johnson, infectado pelo novo Coronavírus, a apertar o nó da estratégia de isolamento no Reino Unido. A observação, nestes termos, compôs ampla reportagem publicada no final de semana pelo jornal Valor Econômico. No estudo dos técnicos britânicos, foram traçados três grandes cenários. No primeiro, nada seria feito contra a pandemia. Os infectados somariam sete bilhões de habitantes do planeta e 40,6 milhões morreriam. Na segunda hipótese, seria adotada uma estratégia de isolamentos parciais, reduzindo em 42% as internações entre indivíduos. Se as medidas abrangessem apenas idosos, o número de mortes cairia para 20 milhões. E o total de doentes graves superaria em oito vezes a capacidade dos hospitais do mundo desenvolvido. Como sou bonzinho (com interesse muito pessoal, cá entre nós, nesse caso), preferi optar pela terceira alternativa dos especialistas britânicos. O quadro parte de uma redução de 75% dos contatos entre indivíduos (sempre segundo a reportagem do Valor Econômico). Se essa barreira for fixada nos 250 primeiros dias de contágio, a infecção atingiria 420 milhões e provocaria 1,9 milhão de mortes. Se adotada depois desse prazo, os números saltariam de forma espetacular. Alcançariam, respectivamente, 2,4 bilhões e 10,5 milhões. Agora é que chegamos ao caso do Brasil, associado ao terceiro grupo de alternativas dos efeitos do Coronavírus. Os especialistas do centro britânico estimaram 44,2 mil mortes. No pior cenário, seria o total de um milhão. Vamos ficar com as 44,2 mil vítimas do vírus. Basta dividir o total pela população arredondada de 212 milhões de habitantes para se chegar a 0,021% de mortes. Como o Grande ABC participa com 1,32% do bolo nacional da população, a tradução em termos macabros seria de 588 mortes. Já Salto, com população relativa no País de 0,0055%, duas dúzias de moradores seriam atingidas. A população do Grande ABC é 41,5 vezes maior que a de Salto.
DE VOLTA AO HOJE
Para variar, ao longo de mais de dois anos de Coronavírus, me tornei a única voz dissonante na mídia regional.
Sempre observei o ambiente do Grande ABC com acidez quando o assunto é o vírus chinês. Aliás, até mesmo na etiquetagem que utilizo para designar a origem geográfica da pandemia, sobram leitores ideológicos que veem na expressão “Vírus chinês” algo pecaminoso. Nada disso.
Até porque, cada vez mais (ainda li algo sobre isso ontem na Folha de S. Paulo) está se confirmando exatamente de onde saiu esse bicho feio.
Minha avaliação sobre a ação das instituições do Grande ABC no combate à pandemia é que seguimos um padrão que se espalhou pelo país, com burocracia a toda prova, enquanto poderíamos chegar mais longe, dadas as condições potencialmente de integração que o Clube dos Prefeitos deveria proporcionar.
ATÉ PARA SAPOPEMBA
Houve de fato muita papagaiada na mídia, com autoridades se travestindo de salvadoras da pátria, com dinheiro a rodo para gastar, e os indicadores gerais, conforme escrevi ontem e conforme também escrevi ao longo do tempo, são sofríveis.
Perdemos a disputa para a maioria dos territórios nacionais. E também internacionais. São Caetano, então, é uma calamidade.
Mais que isso: até mesmo um bairro de classe humilde como Sapopemba, na Capital, se rivaliza em letalidade do Coronavírus com o Grande ABC. Morrem-se tanto aqui quanto lá.
A falta de planejamento regional é escandalosa. Planejamento não sai num estalar de dedos de algum sábio. É fruto da combinação de gente que entende do riscado de atendimento na área de saúde. Por isso, o Grande ABC viveu e segue a viver dificuldades imensas no combate à pandemia.
Há qualificadores individuais na área pública? Há, claro que há, mas eles se perdem em meio ao vendaval de improvisações.
NARRATIVA FRACASSADA
E não adianta acreditar que a narrativa oficial que ganha a mídia em forma de releases como se notícias independentes fossem prevaleceria no consciente e inconsistente da população.
Quando se cotejam os indicadores de letalidade do Grande ABC tendo outros municípios do Estado como prova dos nove, tudo se desmancha.
Aliás, o que se dá na área da saúde, mais especificamente no combate do Coronavírus, é algo semelhante ao que temos a cada nova temporada no setor econômico: quando o PIB dos Municípios aparece na tela de computadores, entre outros indicadores oficiais, a situação do Grande ABC é sempre problemática.
Tudo porque, quando crescemos circunstancialmente, sempre crescemos abaixo da concorrência. Ou seja: perdemos nas derrotas e perdemos nas vitórias. Somos um fenômeno.
Gostaria imensamente de colocar minha assinatura num texto de confiança de que não chegaríamos a 600 mortes provocadas pelo vírus, estivesse hoje aqui comemorando (se é possível comemorar algo tão medonho) a linhagem de otimismo que me seduziu. Uma pena que são mais de 15 vezes o amontoado de vítimas previstas.
O Grande ABC não é mesmo endereço no qual devemos exercer um mínimo de confiança. Nem quando depende em maior parcela de forças externas somos capazes de sustentar a melhor de três alternativas que se colocaram na mesa de esperança e fé.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS