Não tenho muita dificuldade de identificar três categoriais sociais que fazem a diferença e definem o rumo de um determinado endereço, mesmo que esse endereço seja elástico, no caso os endereços dos sete municípios do Grande ABC.
O entranhamos regional não é uma obra do destino ou de qualquer fator específico. Somos uma única cidade. Os emancipacionistas multiplicaram por sete.
As peculiaridades municipais são a prova provada de que a sociedade é naturalmente uma colcha de retalhos, com nichos e guetos. Não seria a territorialidade cartográfica que contrariaria os desígnios ocupacionais.
Como ter absoluta certeza de que se aponta o dedo em direção a um mandachuva sem risco de erro? E em direção a um membro da sociedade civil organizada e a outro da sociedade servil?
TRES OPÇÕES
Você que está lendo estas linhas e que se daria a um gesto de humildade, em que categoria social se colocaria diante das três opções acima, naturalmente excludentes?
Pense bem antes de responder. Vasculhe sua consciência como pessoa física e pessoa jurídica, ou seja, como membro de uma determinada família natural ou mesmo de variantes do conceito de família, e também como integrante de uma família imensa, ramificada, também conhecida como sociedade.
Sim, isso faz diferença porque você pode ser um familiar de altíssima respeitabilidade interna, ou seja, entre os seus membros, seus próximos, mas supostamente não estaria nem aí com a voz do brasil quanto ao ambiente extramuro.
SACO DE GATOS
Acordei hoje pronto para escrever sobre o desempenho econômico dos prefeitos de São Caetano a partir do Plano Real, em 1994. Daria continuidade ao critério regional, depois de analisar Santo André e São Bernardo. Conclui que São Caetano pode esperar.
O passeio reflexivo com minhas cachorras me levou a outro movimento, mais abrangente. Decidi escrever sobre o comportamento social dos moradores do Grande ABC.
Não é a primeira vez que meto nesse saco de gatos, mas como a audiência é rotativa e a memória em geral é curta, além do que as redes sociais estão aí para amplificar o que se expõe, decidi mergulhar nas águas de três compartimentos comportamentais que definem os rumos de qualquer agrupamento de gente. Ou seja, da sociedade propriamente dita.
Para encurtar a história, mas sem que isso me impeça de produzir breve abordagem individualizada, antecipo que no Grande ABC prevalece de forma extravagantemente opressiva e de baixíssima produtividade o que chamo de mandachuvas, e de um subproduto chamado mandachuvinhas.
UMA ANEDOTA
Sociedade Civil Organizada é uma anedota de mau gosto que, principalmente mandachuvas e mandachuvinhas, desfraldam para tentar dar legitimidade ao predomínio que exercem no controle da sociedade.
Embebedam a sociedade com louvores falsos, fraudulentos, porque querem que a sociedade siga entorpecida, como se não bastasse violada.
Sociedade Servil é expressão que cunhei já faz tempo e que reflete majoritariamente o aglomerado de gente do Grande ABC, uma região órfã de um sentimento que faz falta e explica muitas dificuldades individuais: indignação.
Sociedade Servil é o estágio de despudorada inação da Sociedade Civil Desorganizada. É impossível não chegar ao estágio superior de entreguismo sem passar pelo mata-burros da complacência.
RESISTENCIA HERÓICA
Quem leu ou ainda vai ler o Planejamento Estratégico Editorial que preparei e apliquei em parte há 18 anos no Diário do Grande ABC não se surpreenderá em nada com o que vou escrever – até porque, na sequência do tempo, jamais deixei de aplicar aquele roteiro, não fosse aquele roteiro a extensão de um passado que começou com a criação da revista impressa LivreMercado, em 1999, e cuja resistência heroica no enfrentamento das vicissitudes sociais e econômicas do Grande ABC deveria ser reverenciada. Mas isso é outro assunto.
Posto isso, o que tenho a fazer é dar algumas pinceladas no perfil das três camadas sociocomportamentais do Grande ABC neste início de terceira década de um século que deverá ser frustrante. Deverá não, porque está sendo. Provavelmente não repetiremos o desempenho do século passado.
A desindustrialização nos pegou de calças curtas e nariz empinado, arrebentou a mobilidade social e nos deixou o vazio de institucionalidades que raramente se manifestaram produtivamente.
É muito fácil identificar os mandachuvas, os membros da sociedade civil organizada e os integrantes da sociedade servil. Se você está decidido a olhar no espelho e fazer um exame de consciência, nada mais virtuoso quando se trata da essência da expressão “capital social”.
MANDACHUVAS DOMINAM
Os mandachuvas (e os mandachuvinhas) estão incrustrados nos poderes públicos e nas empresas privadas, além de inúmeras entidades de classe, que, de uma forma ou de outra, giram em torno dos poderes públicos.
Mandachuvas e mandachuvinhas não têm compromisso, na maioria dos casos, senão com seus propósitos pessoais, suas ambições, seus arreglos grupais.
Os mandachuvas, principalmente os mandachuvas, porque os mandachuvinhas pensam que são alguma coisa quando não passam de satélites dos mandachuvas, os mandachuvas têm o prazer insaciável de sequestrar adeptos, que também podem ser chamados de áulicos, ou em termos populares, de bajuladores.
Criam-se crostas institucionais de modo que os mandachuvas se tornam mais fortes e poderosos. Meios de comunicação, claro, estão na fila do gargarejo a reproduzir interesses específicos.
EXAGEROS AMADORES
O problema dos mandachuvas amadores que não entendem nada de comunicação é que exageram na dose de empatias e competências. Quando a esmola de aplausos é demais até o santo da ignorância popular desconfia.
Mandachuvas amadores e mandachuvas profissionais são grupos distintos. Os mandachuvas amadores acham que basta o fato de serem mandachuvas e está acabado. Mal sabem que exatamente por serem mandachuvas amadores eles e seus mandachuvinhas amadores preparam a corda com a qual vão se enforcar no futuro não muito distante.
Chegamos neste 2022 ao ápice do mandachuvismo oficial, ou seja, de gente à frente do Poder Executivo que exercita uma trajetória de via única: mais controle, mais poder, mais acumpliciamento.
Mais tudo que não seja do interesse coletivo da sociedade, embora os mandachuvinhas manipulados façam das tripas coração para darem legitimidade a ilegitimidades.
TURMA DO BEM
É claro que há mandachuvas e mandachuvinhas do bem, por dizer assim. Eles, uma minoria alarmante, ainda têm certos pudores de cidadania, de reponsabilidade social, mas, como disse, são poucos.
E se os mandachuvas e mandachuvinhas do bem não participam da festa da maioria dos mandachuvas, acabam barrados do baile do futuro, ou seja, de continuarem a frequentar o ambiente especial dos mandachuvas, esses poderosos que não têm limites.
A propalada sociedade civil organizada é uma falácia utilizada exaustivamente por mandachuvas e mandachuvinhas para enganar o distinto público.
O Grande ABC é um deserto coletivista. Não há em termos de região e também de municipalidades nada, absolutamente nada, que remeta a qualquer coisa que signifique um mínimo de indignação com qualquer coisa importante –e olhem que não faltam coisas importantes.
SEM COLETIVISMO
Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, que exija posicionamento coletivo desprovido de tematização corporativa, é ilusionismo no Grande ABC. Desde sempre.
Raramente ao longo da história houve mobilização que ultrapasse o muro do interesse específico. O Fórum da Cidadania foi um breve sopro. Que deixou saudade.
Chegamos à enganação total durante o período do sindicalismo contrariado em São Bernardo, quando emergiu Lula da Silva. Aquele movimento, com resultados favoráveis e desfavoráveis historicamente, foram movimentos exclusivamente corporativos. E que, mais tarde, gerou movimentos político-partidários à parte da região.
Querem ver como sociedade civil organizada é uma conceituação inóspita?
ALGUNS EXEMPLOS
Um protesto à inoperância do Clube dos Prefeitos? Uma manifestação em resposta às falcatruas estatísticas do Clube dos Construtores? Uma exigência em forma de mobilização para dar transparência de verdade à Fundação do ABC, o Clube da Saúde Pública do Grande ABC que vai gerir R$ 3 bilhões nesta temporada? Uma passeata em oposição à tentativa de o prefeito Paulinho Serra invadir o Esporte Clube Santo André?
Tire tudo isso do cavalinho da ingenuidade e carregue o caminhão de revolta cidadã.
Nessas horas é que pesa o jogo pesado e desequilibrado exercido pelos mandachuvas e mandachuvinhas do mal, do mal de verdade.
Eles têm o controle dos cordéis. Eles fazem e desfazem. Eles estigmatizam ou tentam estigmatizar quem ousa enfrentá-los. Quando a sociedade civil organizada é uma quimera, a individualidade vai para o saco das desilusões e frustrações.
Par completar esse breve ensaio sociológico, por assim dizer, o que chamaria de sociedade servil é, portanto, um parente próximo da sociedade civil desorganizada.
SERVILISMO E INSANIDADE
A diferença é que sociedade servil é um novo subproduto dos mandachuvas e mandachuvinhas. Está na Terceira Divisão do escravagismo materialista, por assim dizer. A sociedade servil não está nem aí com o custo do IPTU, por exemplo. Ou seja: nem quando o ataque é frontal, no bolso, há reação.
O que subsiste no Grande ABC é uma camada muito fina, disforme, quase imperceptível, e por isso mesmo excluída dessa composição social, formada essa camada muita fina, quase imperceptível, de gente indignada, frustrada, rebelde, que, na maioria dos casos, se mantém silente porque sabe que o jogo jogado é um jogo pesado e muitas vezes desqualificador.
Os rebeldes com causas que se manifestam publicamente são raros, quase nada. Esses rebeldes não podem ser chamados de cidadãos de verdade, em resposta ao título desta análise
Sabem por que? Porque não existe cidadania de verdade formada por uma minoria, silenciosa ou indignada que não faz a menor diferença na vida dos mandachuvas e mandachuvinhas, além de não despertar a alma e o coração da sociedade civil desorganizada.
Cidadania da minoria imperceptível não é cidadania de verdade, é autoflagelação. É um atestado de insanidade mental. É suicídio social.
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02/03/2026 MUITO CUIDADO COM OS MARQUETEIROS