É mais que possível, é provável, que, mesmo embriagado, ou levemente embriagado, por conta de uma dose de uísque, um copo a mais de cerveja, de qualquer elemento etílico, você assista aos documentários da vida do casal Mané Garrincha e Elza Soares, e também do show de diplomacia e criminalidade de Castor de Andrade, sem perder jamais o fio da meada. Já para entender o Caso Celso Daniel, é preciso sobriedade total, atenção aos mínimos detalhes e, quem sabe, um repeteco de cada um dos oito episódios.
Assisti aos três documentários da Globoplay e cheguei a essas conclusões sem esforço algum e sem bebida alcoólica alguma. O que faz a diferença do Caso Celso Daniel em relação aos outros dois seriados é a complexidade do Caso Celso Daniel.
Mané e Elza, que retrata a vida do genial Mané Garrincha e da discriminada cantora Elza Soares, conta com imenso corredor de compreensão compulsória. A singeleza de vidas dramáticas que se cruzaram não encontrou obstáculos em forma de imponderável.
DISTINÇÕES RELEVANTES
Mesma situação de Castor de Andrade, bicheiro, dono do Carnaval do Rio de Janeiro juntamente com a tropa que dividia os territórios do jogo do bicho, um homem de fino trato, um diplomata em público e implacável nas sombras da criminalidade negada.
É impossível deixar de comparar os três trabalhos cinematográficos. E nesse ponto é preciso dar valor adicional a quem tem valor adicional: aos diretores Marcos Jorge e Bernardo Rennó. Eles se esmeraram nos oito intrincadíssimos episódios do Caso Celso Daniel.
Boa parte da crítica precipitada, quando não desinformada, para não dizer afoita, de alguns especialistas que se debruçaram no documentário sobre a morte do prefeito de Santo André teve como centro de baterias uma incompreensão quase cognitiva, alimentada pela insuficiência de informações pretéritas.
Como pretensos gênios das câmeras e das ações, esses críticos procuraram justificar pretensas correções de rota dos dois profissionais do Estúdio Escarlate como se tivessem diante deles a luminosidade de um palco.
PENUMBRAS E ARMADILHAS
O caso Celso Daniel é essencialmente o desvendar de penumbras, a ultrapassagem de armadilhas, o grito de ética opondo-se ao oportunismo.
Os personagens não seguem linearidade conclusiva porque o labirinto se fez ao longo de 20 anos.
É justamente nesse ponto, no ponto em que não se deve criar falsas arremetidas, que está a maior virtude do Caso Celso Daniel de Marcos Jorge e Bernardo Rennó.
Os dois diretores poderiam ter produzido uma obra simples, como o são “As linhas tortas do destino”, de Mané Garrincha e Elza Soares, e também de “Doutor Castor”, dono de time de futebol, o Bangu, e mentor e executivo da Liga das Escolas de Samba, confraria de contraventores que a juíza Denise Frossard desmascarou e criminalizou porque não passava mesmo de porta-bandeira enrustida dos horrores paralelos ao jogo do bicho.
CORRENTE INTIMIDATÓRIA
Os cineastas do Caso Celso Daniel romperam a trajetória acomodatícia, parcial, errática e sobretudo inverossímil do assassinato do prefeito de Santo André.
Ousaram enfrentar a corrente intimidatória de uma opinião pública e de uma opinião publicada que caiu na rede da desinformação massacradora num acumulado de duas décadas de perversões.
Foram a fundo para oferecer aos consumidores de cultura um conjunto de dados e provas que tornaram tudo embaralhado mesmo. Nunca o embaralhamento foi tão esclarecedor.
A narrativa dos promotores criminais destacados pelo governo do Estado caiu por terra como fonte única e exclusiva de compreensão da morte de Celso Daniel. Mais que isso: foi transformada mesmo em narrativa, algo sem conexão com a maioria dos fatos.
Preguiçosos, fanáticos e todos aqueles que não se tenham dado a acompanhar com cuidado o documentário do Caso Celso Daniel vão agir defensivamente. Desclassificar ou gerar suspeição é uma forma de proteger-se.
ENFRENTANDO DESAFIOS
Os críticos sem argumentos e redundantes nas mesmices de sempre despertam a atenção de públicos que adotam o mesmo perfil negligenciador. Os esfarrapados se juntam. A indumentária cultural mais rebuscada e profunda exige inspiração e conhecimento.
Fossem Marcos Jorge e Bernardo Rennó industrializadores de audiência, facilitadores de conclusões para situações enroscadíssimas, tudo teria sido muito mais fácil. Bastaria oferecer aos telespectadores a versão única e inconsistente de crime de encomenda. Tão inconsistente que até mesmo um procurador de Justiça do Ministério Público Estadual desmascarou a versão do próprio Ministério Público Estadual.
Esse argumento, letal porque dinamita o outro lado da investigação do assassinato do prefeito, não causa qualquer choque aos defensores da tese de crime de encomenda. Afinal, a ideologização e a partidarização do Caso Celso Daniel estão acima da sensatez.
QUESTÃO DE SENSIBILIDADE
O que nem todo mundo se dá conta é de que fazer arte com base em fatos, principalmente em fatos que envolvem pessoas que eram ou se tornaram famosas, fazer esse tipo de arte em forma de documentário, não é uma atividade qualquer. A sensibilidade é companhia indispensável ao conjunto de informações.
Retratar Mané Garrincha e Elza Soares, captar a vida de Castor de Andrade, reconstruir o assassinato de Celso Daniel, eis tarefas monumentais, claro, mas antagônicas. A terceira, do Caso Celso Daniel, é recomendada, quando não exigida, num ambiente especial, de clausura, de atenção máxima.
Um barulho na cozinha ao lado, uma visita inesperada, uma atenção desviada por mensagens do celular, uma criança que chora, um cão que late, qualquer coisa fora do isolamento de telespectador atento, qualquer coisa que destrua o foco, será um dano irreversível à compreensão dos fatos.
Com Mané Garrincha e Elza Soares, com Castor de Andrade, tudo isso é possível contornar. Basta uma paradinha providencial na exibição, uma retomada em seguida e tudo está resolvido.
DUROS ENFRENTAMENTOS
O comprometimento com a realidade dos fatos, até onde for possível cavoucar a realidade dos fatos quando envolve pessoas que já se foram, ultrapassa as fronteiras do automatismo técnico. É o primeiro passo na direção do respeito humano.
Imagino o tamanho das dificuldades que os diretores do Caso Celso Daniel encontraram para viabilizar o projeto num ano eleitoral. Mais que isso: no fundo, no fundo, poucos gostariam mesmo de ver a obra levada a cabo. Esquecer a morte de Celso Daniel é o caminho mais indicado para quem quer evitar constrangimentos.
Ou alguém tem alguma dúvida de que o assassinato de Celso Daniel, por melhor que tenha sido tratado no documentário, é visto com desconfiança pelos petistas?
Tanto é verdade que muitos deles, inclusive da classe artística, levantaram-se de imediato e deram conotações de retaliações programadas para impactar a candidatura de Lula da Silva à presidência da República.
PROGRAMA INDIGESTO
Por outro lado, os não petistas, sabiam que poderiam perder uma das faixas preferenciais de criminalização do PT. O documentário poderia (como se deu) apresentar uma versão antagônica ao crime de encomenda, embora também comportasse a versão de crime de encomenda.
Ou seja: enquanto o Caso Celso Daniel é uma programação a ser evitada, porque de alguma forma cria um ambiente de constrangimento, os documentários dos encontros e desencontros de Mané Garrincha e Elza Soares, e também os quatro episódios de um Castor de Andrade implacavelmente sereno e cavalheiro, preenchem integralmente o desejo do entretenimento sem contestação, sem excesso de concentração cognitiva.
O que poucos especialistas jamais vão escrever ou se escreverem provavelmente poderão sofrer ressalvas é que, como obra cinematográfica, o Caso Celso Daniel está alguns patamares acima de Mané-Elza e do Doutor Castor. Em praticamente todos os quesitos.
Numa passarela de carnaval, seria condecorada campeã ao fim do desfile.
Numa extração do jogo do bicho seria uma barbada.
ZONA DE CONFLITOS
Essa grande distinção não é qualquer coisa. Os concorrentes brilharam também. São peças de uma mesma engenharia de produção. Exalam profissionalismo e bom gosto. Arrastam multidões em uníssonos de aprovação.
O Caso Celso Daniel, entretanto, é uma zona de conflito, de beligerância, de interesses entrecruzados. Daí, despertar senso crítico a flor da pele.
A vida vivida por Mané Garrincha e Elza Soares e as venturas e desventuras de Castor de Andrade prescindem de explicações pretéritas.
Basta ligar na plataforma streaming da Globoplay e os quatro episódios de cada produção se derramarão docilmente no colo dos telespectadores.
Ninguém precisará recorrer a informações antecedentes. Mesmo os não contemporâneos aos personagens dispensam consulta à Internet. São casos clássicos quando observados pelas lentes de cineastas.
Já o Caso Celso Daniel transformado em documentário é essencialmente uma sucessão de acontecimentos que só viraram acontecimentos em audiovisuais porque o passado assim o impôs a partir de narrativas tendenciosas, fraudulentas, manipuladas e insustentáveis, mas que, apesar de tudo isso, ou por causa desse feixe de tudo isso, serviu exatamente de caldo de cultura à empreitada cinematográfica.
VERSÃO SIMPLIFICADORA
O paradoxo é que se o Caso Celso Daniel fosse tratado pelos cineastas Marcos Jorge e Bernardo Rennó como uma versão única do Ministério Público Estadual, ou seja, de crime de encomenda, ou se fosse, por outro lado, uma obra derivada exclusivamente das investigações policiais, de crime comum, tudo estaria resolvido.
Celso Daniel estaria simplificadamente no mesmo patamar de compreensão compulsória de Mané Garrincha, Elza Soares e Castos de Andrade.
Entretanto, como o Caso Celso Daniel jamais foi o que para muitos fora, porque o que supostamente fora não passara de fantasia que embutia interesses políticos em que se disputava o governo do Estado mais poderoso e também a presidência da República, tudo acabou diferente.
Quem teve a coragem e a ousadia de realizar a mais profunda curadoria do caso, numa ação investigativa que não abriu jamais mão de documentos, provas, testemunhos e tudo o mais, acabou ferindo de morte a cidadela de facilidades com que a maioria da mídia impõe de forma senão preguiçoso, certamente descuidada, porque também apressada, quando não desinformada.
REDUCIONISMO DEGRADANTE
A cultura nacional está decididamente num desfiladeiro reducionista no qual prevalece o fastfoodianismo que já tomou conta das redações de jornais e revistas.
A estreiteza da crítica sufoca o aprimoramento de obras que rompem com a automaticidade prática e competente, como se vê nos dois documentários antepostos ao Caso Celso Daniel.
O refinamento perde cada vez mais espaço num País de iletrados, de insensíveis, de mal-informados e de tudo mais.
Definitivamente, o Caso Celso Daniel não é um documentário para qualquer um. O entendimento da proposta levada ao público exige um pouco mais de atenção e cuidados dos telespectadores.
Mané Garrincha, Elza Soares e Castos de Andrade podem ser vistos e compreendidos com um litro de cachaça como companhia.
O Caso Celso Daniel não exige o acompanhamento de um psicanalista, de um investigador de Polícia, de um sociólogo, de qualquer coisa assim. Recomenda-se apenas atenção, esse penduricalho intragável nos dias de cacofonia tecnológica e de extremismos políticos que vivemos.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS