Todos ou quase todos o chamavam de Xangola. Maurício Mindrisz Xangola foi embora ontem, domingo, e deixou um legado pouco comum entre agentes públicos: não trocou de camisa, não fez colcha de retalhos de um catado de distintivos corporativos e partidários.
Xangola era fiel ao petismo e ao esquerdismo. Aos detratores de Celso Daniel respondia com certa intolerância. Era um tricolino empedernido, um homem discreto. Assim era Xangola.
Xangola ou Changola jamais foi preocupação para ele quando se encontrava comigo. Adotei a grafia com “x”, outros preferem “ch”. Uma questão meramente tangencial. Achava que Xangola tinha mais jeito de Xangola do que de Changola. Como Xangai tem mais jeito de Xangai do que de Changai. Ou seja: ele era o “x” de determinadas questões.
Uma doença devastadora o levou antes de completar 70 anos. Maurício Mindrisz Xangola era titular absoluto no time da administração Celso Daniel. Mais que isso: era do grupo estratégico de Celso Daniel, amigo de juventude.
PAIXÃO TRICOLINA
Atuou no Semasa, fez parte da assessoria do prefeito Luiz Marinho, em São Bernardo, como secretário-adjunto, ocupou a presidência da Fundação do ABC, o Clube de Saúde Pública do Grande ABC.
Xangola era sempre acionado quando se pretendia acabar com marolas administrativas, com dissonâncias de personalidade entre os chefes e subordinados. Xangola tinha uma maneira específica de dissuasão, de aquietamento dos ânimos.
Xangola usava sempre a paixão pelo São Paulo como introdução a medidas sob seu comando ou subordinadas a terceiros. O futebol era a bandeira branca de Xangola. Desarmava adversários de outras cores.
Xangola não era uma fonte de informações que se pudesse repassar adiante em forma de jornalismo. Xangola não era dado a encaminhamentos deliberados com esse sentido, que sempre tem o sentido de cavoucar um lugar no noticiário e outro na proximidade com os jornalistas.
JUDEU MINEIRO
Xangola era um agente público da contemporização. Preferia caminhos diferentes. Havia sempre uma estrada de conciliação que traçava para tentar contornar os obstáculos. Xangola era um judeu com jeito de mineiro.
Xangola era um engenheiro que virou pesquisador. Um homem de números inúmeros. Havia sempre uma motivação numérica nos diálogos.
Chegou ao extremo de um dia me provocar com a tricolinagem de sempre ao fazer cálculos malucos, mas coerentes, de que, até então, o São Paulo era o time com mais títulos no futebol paulista, embora perdesse em números absolutos para o Corinthians, como perde até hoje.
Que cálculos fez Xangola? Ele dividiu os títulos conquistados pela data de fundação do São Paulo, considerando data de fundação o São Paulo. A quem ousasse confrontá-lo, respondia com dados produtivos fundamentados. O tempo e o jejum são-paulino provavelmente o fizeram esquecer a matemática esportiva de interesse próprio.
PESQUISAS ELEITORAIS
Xangola tinha nas pesquisas eleitorais outra paixão. Sempre com os inúmeros números na cabeça. Fizera parte da retaguarda de projeções das campanhas de Celso Daniel desde os primeiros tempos de Celso Daniel, em 1982, quando o petista concorreu com a cara e a coragem pela primeira vez à Prefeitura de Santo André.
Nunca tive a curiosidade de perguntar ao Xangola de quem ele rebocou a paixão pelos números, além da vocação à engenharia. Talvez tenha sido de Miriam Belchior, primeira mulher e secretária municipal de Celso Daniel, ex-ministra de Lula da Silva.
A última empreitada de Xangola foi a criação de uma empresa de pesquisa de opinião, a ABCD Dados, com um parceiro de jornada e paixão também pelos números. Faz alguns anos.
Chegou a projetar que Bruno Daniel seria um candidato forte à Prefeitura de Santo André. Bruno Daniel foi um fracasso nas eleições de 2018. Xangola dizia aos próximos que Bruno Daniel jamais entendeu o legado que recebera de mão beijada. E que por isso mesmo não amealhou os votos potenciais.
CAMPOS DIFERENTES
Divergi em vários pontos de Xangola ao longo dos anos. Nada mais natural. Xangola era um homem de partido; eu não tenho agremiação alguma para chamar de minha. Nunca fomos além da diplomacia respeitosa. Nossos embates eram circunstanciais. Nada que um almoço de vez em quando, um telefonema, essas coisas, não fortalecessem a civilidade.
Se no futebol tínhamos diferenças, embora ele fosse de fanatismo tricolino incorrigível, algo que o tempo amainou no meu coração alvinegro, sobre o assassinato de Celso Daniel éramos irmãos separados no berço. Tínhamos praticamente as mesmas assertivas e conclusões.
Aliás, a morte de Celso Daniel nos aproximou. Ele conhecia como poucos os antecedentes do sequestro seguido de assassinato. Zombava com classe da versão de crime de encomenda.
ÚLTIMO TELEFONEMA
A última vez que recebi um telefone de Xangola faz pouco tempo. Ele me disse que acabara de deixar o hospital, onde teria ficados mais de um ano, e descansava em casa. Estava ansioso para acompanhar o documentário do Caso Celso Daniel. Fora uma das fontes de informação dos diretores do audiovisual.
Xangola apresentava um fragmento de voz do outro lado da linha. Falava com dificuldade. Mas era suficientemente claro, enfático e objetivo para extravasar como sempre o desconforto com os irmãos de Celso Daniel, os quais conhecia desde os tempos de calças curtas. Considerava-os traidores do próprio irmão assassinado.
Raramente Xangola expressava contundência verbal para definir cenários. No caso dos irmãos, além da ironia costumeira, desfilava decepção.
Nos tempos em que a doença ainda não abalara o cotidiano de intensa articulação, Xangola me apresentou uma versão mais que factível sobre o desempenho psicológico dos irmãos de Celso Daniel, após o assassinato.
CASO CELSO DANIEL
A postura de João Francisco e Bruno Daniel, disse Xangola, era típica de arrependimento por terem perdido os melhores anos da vida do irmão famoso e, ao descobrirem o vácuo em que se meteram, pretenderam e fizeram o que seria menos apropriado: aceitaram a ideia de politizar um crime comum para, assim, resgatarem a memória de Celso Daniel.
A emenda foi muito pior que o soneto. Mesmo assim, Xangola tinha por Bruno Daniel mais carinho do que pelo irmão mais velho.
Na noite de sábado para domingo, no período de insônia que me abate desde aquele primeiro de fevereiro quase letal, Xangola veio à minha mente. Me perguntei sobre o que estava lhe ocorrendo agora que o documentário fora exposto e ele, provavelmente, ficara feliz com a exibição da Globoplay.
Afinal, os dois lados de uma história sempre unilateral de criminalização de Sérgio Gomes finalmente foram apresentados.
CONTROLE DO TIMÃO
Acho que, pela informações das últimas horas, ele teve tempo suficiente para assistir às quatro jornadas semanais em que se desdobrou o documentário.
Consulto meu aparelho de smartphone e vejo que Xangola registrara audiência de minhas mensagens até o dia 20 de fevereiro. O documentário da Globoplay se estendeu até o dia 27. Me pergunto se Xangola teve tempo e lucidez para chegar até onde era preciso, ou seja, aos dois últimos capítulos.
Xangola deixa de lembrança uma retidão programática de vida. Não permitiu que o destino o levasse para todo o canto, como o destino costuma levar quem não tem canto nenhum para ocupar e zanza pela vida como embarcação à deriva.
Xangola detestaria a frase marotamente alvinegra que se segue, mas é preciso dizer o seguinte: ele jamais perdeu o controle do timão da própria vida.
APENAS FUTEBOL
As contrariedades que eventualmente Xangola destilava aos interlocutores eram pequenos rochedos de contraditórios e controvérsias sem os quais a vida não tem razão de ser.
E mesmo nas divergências mais que prováveis, porque estruturadas na coerência partidária, clubista e comportamental, era impossível destinar a Xangola alguma adjetivação que fugisse da raia do enriquecimento intelectual.
Não eram, portanto, intervenções redundantes. Menos quando se tratava do Tricolor. Detestava que chamasse os são-paulinos de tricolinos, porque entendia na expressão alguma porção de sacanagem sexual, essas coisas de gênero que não são de primeira necessidade.
Sabia Xangola, certamente, que, no fundo, no fundo, não se tratava de desrespeito. Era um modo carinhoso de dizer que ele torcia por um time tão glorioso que, quando perdia para um outro time, como o time alvinegro, significava que os torcedores do time ganhador tinham motivo de sobra para estarem felizes. Ou alguém tem dúvida de que clássico diante do São Paulo é para ser comemorado?
Xangola foi embora com perfeições e imperfeições humanas. Um tricolino que vai deixar saudade. Um petista para ninguém botar defeito. Um amante dos números especulativos eleitorais de amanhã em forma de pesquisas.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS