Economia

Toyota é apenas quinquilharia
do Grande ABC empobrecido

DANIEL LIMA - 07/04/2022

A mobilidade social no Grande ABC deste século é ficção. Mais que isso: é um drama sem fim. O esfacelamento da classe rica e da classe média tradicional é notório. Faltam uma São Caetano e uma Rio Grande da Serra inteiras dessas duas classes socioeconômicas na região neste século para que se reproduzisse o último ano do século passado. Ou seja: perdemos tudo isso de participação relativa nas duas primeiras décadas.  

A fuga da Toyota é uma quinquilharia da Doença Holandesa Automotiva diante dos impactos continuados que já passam de quatro décadas. Doença Holandesa é uma expressão adaptada da literatura econômica para demonstrar a dependência do Grande ABC do setor automotivo.  

Uma dependência tão arraigada e inquietante que exigiria de autoridades públicas, de instituições em geral e da própria sociedade mobilização para mitigar os efeitos destrutivos.  

DOENÇA DIFERENTE  

Mas o que se pode fazer se o Clube dos Prefeitos é parasitário e a mídia, em larga escala, sempre procura esconder, quando não negar, o insidioso processo de desindustrialização sem alternativa de recomposição do tecido econômico?  

Santo André e Mauá têm sorte: a Doença Holandesa Petroquímica é menos sujeita a sacolejadas do que a Doença Holandesa Automotiva. Mais que isso: resiste às intempéries e, vejam só, mascaram a desindustrialização em outros setores. Já explicamos isso em várias análises. 

Lamentavelmente, ainda tem gente descuidada intelectualmente ou maltrapilha eticamente que não enxerga o óbvio: ou reagimos ou vamos continuar a colecionar derrotas que afetam a qualidade de vida em geral.  

Somos uma combinação de horrores: os sindicalistas seguem glorificados, os pequenos empresários seguem massacrados, as grandes empresas seguem alienadas do território regional e a sociedade segue enganada em larga escala por noticiários fajutos, interesseiros.  

POBRES E MISERÁVEIS  

Somos um imenso criadouro de pobres e miseráveis e, principalmente, de uma Classe C de sobreviventes num País que insiste em ratear os motores do desenvolvimento Econômico.  

Quem ainda enxerga o Grande ABC como um endereço abençoado por Deus e pela natureza de industrialização precisa rezar mais e trabalhar muito porque o setor de transformação em esvaziamento contínuo deixa rastros de desesperança.  

Os números provam isso. E é o que vamos mostrar em nova análise na esteira de demagogias inclusive editoriais por conta do anunciado fechamento da fábrica de autopeças da Toyota em São Bernardo.  

A debandada da Toyota que começou há muito tempo e que agora chega ao ponto terminal é sim uma quinquilharia de complicações econômicas e sociais perto do que o Grande ABC vive neste século. 

CONSUMO E RIQUEZA  

É apenas um grão de areia de um território que se enganou ao imaginar que as 100 mil carteiras assinadas do setor industrial destruídas nos anos 1990 seriam a última etapa de quebra econômica.  

O PIB de Consumo do Grande ABC de 1999, último ano do século passado, e o PIB de Consumo do Grande ABC de 2021 mostram o que se passou na região com a quebra contínua do setor de transformação industrial.  

PIB de Consumo é uma especialidade da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini. É um dos indicadores mais confiáveis no mercado, formado por um coquetel de dados oficiais. É o andar da carruagem da capacidade de gastar de cada morador em qualquer parte do território nacional. E só gasta quem tem para gastar.  

A participação relativa de ricos e da classe média no conjunto dos moradores dos sete municípios do Grande ABC sofreu forte redução neste século.  

ROMBO GRANDE  

Na contabilidade final, o Grande ABC perdeu o equivalente a 76.056 moradias desses dois estratos socioeconômicos. Isso é o que se chamaria de mobilidade social reversa, para baixo.  

Mobilidade social ascendente é o miserável tornar-se pobre, o pobre tornar-se classe média-baixa, o classe média-baixa virar classe-média tradicional e o classe-média tradicional virar classe rica.  

É claro que São Bernardo é o Município da região que mais perdeu ricos e classe média tradicional no período. Tudo por conta da Doença Holandesa Automotiva e também da invasão da periferia.  

Quem fala tanto em desigualdade social precisa entender que nem sempre a aproximação econômica entre classes sociais é um bom resultado. A equação precisa passar obrigatoriamente pela mobilidade social completa. Quando uma parte da engrenagem está em parafuso, o que parece melhorar de fato só piora.  

QUEDA DE 32% 

Para manter em 2021 a equação de divisão de classes sociais do último ano do século passado, São Bernardo precisaria ter somado 42.608 novos domicílios de ricos e de classe média aos novos 98.787 que se acrescentaram no território. Ao invés de contar no ano passado com 90.965 moradores dessas duas classes sociais, deveria registrar 133.575.  

Essa diferença é fácil de explicar: em 1999 São Bernardo contava com 46,39% de famílias de classe rica e de classe média tradicional. Em 2021 passou a contar com 31,29%. Uma queda de 32,55%.  

O inchaço das periferias de classe média baixa, pobres e miseráveis é mais intenso em São Bernardo do que no restante da região. Em outra edição trataremos disso.  

No ano passado, São Bernardo registrou o total de 10.901 residências de classe rica ante 18.843 registradas em 1999 pela Consultoria IPC. Entre as residências de classe média tradicional, eram 68.922 em 1999 e passou para 80.064 no ano passado.  

ENGANO INTERPRETATIVO 

Os números absolutos da classe média tradicional levam a engano interpretativo porque não acompanharam o crescimento demográfico de São Bernardo. Na comparação com 1999, a classe média de São Bernardo caiu de 36,45% para 27,81% do total de moradias.  

São Bernardo do fim do século passado contava com 189.086 residências. Já no ano passado foram contabilizadas 287.873. Uma diferença de 98.787 unidades residenciais.  

Quer entender o que significam quase 100 mil novas residências em São Bernardo nos últimos 21 anos? Pegue uma São Caetano inteira, acrescente metade de São Caetano e, então, têm-se o equivalente em termos de impacto populacional em diferentes temáticas, desde infraestrutura física a infraestrutura social.  

Esse terror se completa com a queda brutal do PIB Geral. Não há quem resista à combinação de queda do PIB de Consumo e do PIB Geral (de geração de riqueza).  

ESTRAGO DUPLO  

O rebaixamento da participação relativa dos segmentos de ricos e classe média tradicional no conjunto da população não é um estrago exclusivamente do Grande ABC (e vamos mostrar isso em próximos textos). Entretanto, há um vetor complementar que preocupa sobremaneira: à quebra da mobilidade social se acrescenta a queda do Produto Interno Bruto dos municípios da região. Outros endereços não têm essa combinação tóxica.  

Neste século, o ranking do G-22 (o Clube dos Maiores Municípios do Estado de São Paulo) aponta que São Bernardo ocupa a quinta posição (era segunda colocada em 1999), Santo André caiu seis posições (de quinta para décima-primeira), Mauá caiu uma (de décima-quinta para décima-sexta), Diadema caiu sete posições (de décima-primeira para décima-oitava) e São Caetano caiu seis posições (de décima-quarta para vigésima). Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não entram na conta porque não chegar a representar 2% do PIB do Grande ABC, mas estão na lista para completar o grupo regional.  

Ou seja: a pior combinação possível é o casamento de perda do PIB de Consumo e do PIB Geral (de geração de riqueza). O Grande ABC especializou-se nas duas modalidades. Ante o silêncio dos mandachuvas e mandachuvinhas negligentes, quando não recalcitrantes.  

Caso dos sindicalistas sempre protegidos nessa equação de esboroamento do tecido produtivo regional. Os mesmo sindicalistas que, como agora, sempre procuram a direção de empresas fugidias em busca de um marketing de solidariedade com a classe trabalhadora. Nada mais convencional e improdutivo. Os estragos veem do passado e são incorrigíveis.  



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