Sociedade

Uma vez Borralheira,
sempre Borralheira (1)

DANIEL LIMA - 19/04/2022

GRANDE ABC -- Bom dia a todos desta mesa. Vou pedir o café da manhã agora mesmo. Estava aguardando vocês ansiosamente nesse salão de reuniões. Faz 20 anos, exatamente 20 anos, que aguardava esse encontro neste Condomínio Residencial. Sejam bem-vindos! 

SANTO ANDRÉ – Peraí, quem é você para sentar na cabeceira dessa imensa mesa retangular? 

SÃO BERNARDO – É isso mesmo, quem é você? 

SÃO CAETANO – Calma pessoal, não precisa se exceder. Tudo deverá ser explicado. Estamos aqui porque recebemos um telegrama dizendo que o encontro era importante. Vamos saber do que se trata.  

DIADEMA – Como sou reconhecidamente democrática, do povo, acho melhorar ter calma. 

MAUÁ – Já começou a demagogia, mas Diadema tem certa razão. Santo André e São Bernardo se excederam. Não é porque têm mais de 50% da riqueza da região que podem falar por nós sem mais nem menos. Já estão querendo atropelar. Conheço essa tática.  

RIBEIRÃO PIRES – Também acho. 

RIO GRANDE DA SERRA – Não façam bullying comigo, porque sou pequenininha, mas tenho o direito de dar opinião também. E estou com Diadema. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Estou pouco me importando com quem está na cabeceira da mesa e que nos dirige a palavra. Acho que nem deveria estar aqui. Mas também não posso simplesmente dizer não, senão vão falar por aí que não estou nem aí com mais de dois milhões de eleitores.  

CIDADE DE SÃO PAULO – Calma, Estado, calma, e não venha querer fugir da responsabilidade. Se você não tem nada a ver, também não tenho. Aliás, tenho menos ainda. Eleitores dessa região não valem votos no meu território. Lá é outra freguesia.  

GRANDE ABC – Minha nossa senhora, não esperava enfrentar tanta dificuldade para me apresentar. Aliás, pensando bem, deveria sim. Sou o Grande ABC, mas não o Grande ABC oficial que vocês todos pensam que sou. Estou aqui na cabeceira superior porque represento quase três milhões de habitantes. Sou o Grande ABC de verdade, em carne, osso, esperança e desilusão. Foram 20 anos até que decidi sair da toca e me apresentar a vocês. E não estou para brincadeiras.  

SANTO ANDRÉ – Não é bem assim, não Grande ABC. Você esteve lá no hotel-fazenda há 20 anos. Nós todos, os sete municípios, o representamos. 

SÃO BERNARDO – Verdade, Santo André, grande resposta. O Grande ABC já quer tirar da reta.  

GRANDE ABC – Quanta ilusão! Quanta embromação! Não estive em encontro nenhum com vocês há 20 anos. Vocês são tão desatentos e arrogantes. Não perceberam que estamos agora no território dos sete municípios. O Condomínio Grande ABC é num território neutro da região. Não é mais no Interior. Afinal, vocês não viram o imenso letreiro na fachada? Está lá escrito em letras garrafais: “Condomínio Grande ABC”. Sou o proprietário e estou aqui como anfitrião. Vocês são meus convidados. Olhem para mim e vejam quase três milhões de habitantes, mais de dois milhões de eleitores, entenderam?  

MAUÁ – Puxa, vida, nem me dei conta disso. Tenho receio do que vão dizer as más línguas. Conheço essa turma.  

RIBEIRÃO PIRES – Calma, Mauá. Deixem as más línguas para lá. Eles vão falar o quê? Que não reconhecemos nem mesmo o terreno em que pisamos? 

MAUÁ – Pior, vão dizer que somos analfabetos demográficos. E eleitorais.   

GRANDE ABC – Então, como ia dizendo, estou aqui para recepcionar a todos e para dizer que temos um dia inteiro para discutir nossas relações. Se resolvi aparecer independentemente dos cromossomos municipalistas das sete cidades é porque entendo que concordei em ficar subjacente em 2002, e os resultados foram desastrosos. 

SANTO ANDRÉ – Quer dizer então, meus irmãos municipalistas, que vamos ter de suportar o pai ou a mãe Grande ABC para falar por nós? 

GRANDE ABC – Pai e mãe, se querem saber. Mas não vou falar por cada um de vocês. Vou falar por todos que habitam nesse condomínio. Não necessariamente por instâncias individuais.  

CIDADE DE SÃO PAULO – Estou começando a gostar desse encontro. Há 20 anos falei com todos os irmãos da região, os sete anões, desculpe, os sete municípios, e não senti muita firmeza. Notei muito narcisismo, individualismo, autarquismo. Por isso que as coisas parecem não andar por aqui. O Grande ABC pode dar um jeito em muita coisa que ficou solta desde então.  

ESTADO DE SÃO PAULO – Olha, Cidade de São Paulo, vou falar baixinho, mas acho que os demais convidados vão ter de ouvir: gostei quando você os tratou de anões. Fica chato dizer, mas são mesmo sete anões. Eles pensam que são gigantes, mas a gente, nós dois, fazemos gato e sapato deles. Eles nos cansam com tantas demandas. Por que não se viram?. 

CIDADE DE SÃO PAULO – Quer ver, Estado de São Paulo, como eles não têm personalidade nem individual nem coletiva? Basta dizer que todos sonham em ser eu amanhã. É isso mesmo: individualmente eles querem ser eu amanhã. Todos sonham em ser São Paulo no futuro que nunca chega. Sou a Cinderela. Eles não passam de gatas borralheiras. 

SANTO ANDRÉ – Não é bem assim, não. Nós temos história. E exigimos respeito. 

SÃO BERNARDO – Estou com Santo André e não abro. Não somos anões. Mas, confesso que gostaria mesmo de ser São Paulo com sua pujança multiforme, ou seja, de uma diversidade cultural e econômica que não tenho. Justamente eu que tenho a Doença Holandesa Automotiva. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Que doença é essa, São Bernardo? 

MAUÁ -- Antes que São Bernardo responda, devo dizer que tenho a Doença Holandesa Químico-Petroquímica. 

SANTO ANDRÉ – E eu também. 

SÃO BERNARDO – Parem de chorar vocês dois. Não tem nem comparação entre o que sofro e o que vocês reclamam. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Contem logo do que vocês sofrem e o que vocês reclamam. Estou muito curioso. 

CIDADE DE SÃO PAULO – Não, não falem agora não. Vamos mudar de assunto. Mais tarde, porque o dia é longo, a gente volta a esse assunto indigesto. Doença Holandesa, qualquer que seja, não é nada agradável num café da manhã. Quem sabe no fim da tarde, pouco antes de a gente se despedir.  

GRANDE ABC – Boa ideia, Cidade de São Paulo. Era exatamente o que pretendia propor. Precisamos estabelecer alguma ordem nesse galinheiro de debates, me perdoem a expressão. É por isso que estou aqui ao vivo e em cores, sem subestabelecimentos. Não passei procuração a nenhuma cidade da região para me representar. Vim com tudo e vou mostrar que três milhões de habitantes precisam ser respeitados. Vacilei há 20 anos. Deixei a bola para os sete e me danei. Agora entrei em campo.  

RIO GRANDE DA SERRA – Acho que vou aprovar sua liderança, Grande ABC. Pequenininha como sou não faço a menor diferença. Com alguém para me representar tudo se modifica. 

RIBEIRÃO PIRES – Também acho. 

SANTO ANDRÉ – Só quero que o Grande ABC explique uma coisa: você está aqui como representação formal do Clube dos Prefeitos? 

GRANDE ABC – Só faltava essa, Santo André. Você tem a cara de pau de sugerir que sou uma inutilidade a serviço do nada nesse encontro que tem tudo para ser histórico? Onde já se viu fazer essa formulação desonrosa? Mais do que nenhum outro Município da região você sabe que o Clube dos Prefeitos é uma fraude. Desde que o Celso Daniel foi embora, o Clube dos Prefeitos teve vários representantes da cidade dele e nenhum fez a menor diferença. Nenhum mesmo. 

SÃO BERNARDO – A resposta do Grande ABC é certeira, mas, cá entre nós, não pretendo meter o bedelho nesse assunto porque regionalidade não é nosso forte também. A diferença é que a vizinha Santo André é muito badalada pela mídia chapa-branca que ousa vender bobagens como se houvesse integração e ações de sucesso do nosso clube.  

SÃO CAETANO – Se abrir muito a boca sei que vão dizer que sou a cidade mais fechada do Grande ABC. Que meu povo é conservador, não se mistura, essas coisas que propagam por aí. Sei que vão dizer também que meu sonho era ser anexada pela Capital, que é minha vizinha, mas isso é fofoca da grossa. Quero ser sempre exclusivamente São Caetano, manter minha identidade, de preferência sem me misturar com o Grande ABC. Como não dá, toco minha vida do melhor jeito possível.  

DIADEMA – Vou me abster de comentários porque estou no mesmo barco furado dessa institucionalidade que só funcionou aos trancos e barrancos e mesmo assim de forma intermitente sob o comando de um ou outro prefeito, mas que, no conjunto da obra, não fez diferença alguma. Clube dos Prefeitos, Consorcio de Prefeito, qualquer coisa que signifique colegiado de prefeitos, não passa de embromação.  

CIDADE DE SÃO PAULO – Reconheço que regionalidade é uma palavra que não nos compete discutir, porque somos território único. Para a gente é mais fácil organizar as coisas internamente. Temos quatro vezes mais população, mas as políticas públicas emanam de um mesmo ente. Vocês anões, desculpe de novo, têm uma batata-quente e não conseguem sair da enrascada. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Tem razão a Cidade de São Paulo. Vocês são mesmo um bicho-de-sete-cabeças. Diria mais: são todos cabeças de bagre.  

GRANDE ABC – É por isso, repito, que estou aqui. Precisamos colocar ordem nessa bagunça institucional, mas é indispensável contar com o apoio institucional e o peso político da Cidade de São Paulo e, principalmente, do Estado de São Paulo. E não se façam de mortos porque tanto a Cidade de São Paulo quanto o Estado de São Paulo sabem como minimizar nossos infortúnios. Mas isso não dá o direito a nenhum dos nossos sete municípios buscar desculpas esfarrapadas, como fizeram até hoje. Todos fingem que estão irmanados, mas puxam a faca às escondidas.  

RIBEIRÃO PIRES – Verdade verdadeira, mas com uma consideração: minhas posses são tão escassas que mal tenho condição de atacar a qualquer hora do dia ou da noite. O que mais faço é usar a diplomacia com meus irmãos da região. Faço salamaleques a todos eles, mais poderosos, porque senão nem com migalhas acabo ficando. 

RIO GRANDE DA SERRA – Se Ribeirão Pires que tem um PIB 10 vezes maior que o meu precisa exercitar o que chamaria, entre nós, de puxa-saquismo junto aos municípios maiores da região, imaginem eu que sou um tiquinho de população e poderio econômico? 

RIBEIRÃO PIRES – Não fica dizendo que sou 10 vezes maior que você porque isso pode gerar a impressão de que sou grande. Não passo de 2% do PIB da região. Sou quase 10 vezes menor que o Município que vem em seguida. Tenho de me virar nos 30 para pegar alguma rebarba de investimentos estaduais e federais. 

ESTADO DE SÃO PAULO – É melhor vocês se juntarem mesmo porque a demanda é grande. Somos 645 municípios. A pressão é total por dinheiro a fundo perdido.  

GRANDE ABC – O que lamento é ter de ouvir isso e não poder fazer nada. Há algumas décadas nem nos preocupávamos com dinheiro estadual e federal. Tínhamos riquezas abundantes. A indústria garantia o Desenvolvimento Econômico. Agora comemos o pão que o diabo amassou. Por isso queremos resultados dos senhores e das senhoras. Chega de individualismo. Nossa divisão cartográfica e administrativa não pode mais servir de desculpa ao fracasso. A Cidade de São Paulo é uma só, está certo, mas podemos ser o que quero que seja, porque sou, ou seja, o Grande ABC que pulsa no consumo sem divisão territorial municipal. Por que não pulsa também na gestão pública compartilhada nas questões estratégicas em benefício conjunto?  

SANTO ANDRÉ – Um por todos, todos por um! 

GRANDE ABC – É isso mesmo, mas sem esse ar de deboche. O assunto é sério. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Gostei, Grande ABC, gostei muito. Quanto mais vocês se juntarem, mais poderemos organizar os investimentos de forma vantajosa a todos. A distribuição de recursos de forma individualizada aos municípios não gera ganhos sistêmicos, sem contar que provoca tremenda briga interna. Todo mundo quer levar vantagem e todos só saem perdendo.  

GRANDE ABC – Bem gente, acho que devemos dar uma pausa porque o cafezinho vai ser servido. Depois retomamos a conversa. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Espere aí, Grande ABC. Tenho uma coisa na garganta e preciso falar. Quero desabafar. 

GRANDE ABC – Desembuche, Estado, porque estou com fome. 

ESTADO DE SÃO PAULO – Acontece o seguinte: no primeiro encontro, há 20 anos, sentei na lateral dessa mesa retangular porque cheguei bem atrasado, e foi o espaço que me restou. Agora cheguei dentro do horário e me reservaram a cabeceira inferior da mesa. Acho que houve falta de respeito. A cabeceira superior teria de ser institucionalmente minha, não de você, Grande ABC. 

CIDADE DE SÃO PAULO – O Estado de São Paulo tem razão. Deveria mesmo ficar na cabeceira da mesa e eu na cabeceira de baixo. Você, Grande ABC, ficaria num dos lados da mesa. Poderia até se instalar ao lado de Santo André, São Bernardo e São Caetano, já que o outro lado, à esquerda, está ocupado por Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. 

SANTO ANDRÉ – Eles dois têm razão, Grande ABC. Acho melhor você trocar de lugar. 

SÃO BERNARDO – Sou obrigado a concordar. 

DIADEMA – Para mim, tanto faz. 

MAUÁ – Para mim, também. 

SÃO CAETANO – Também acho. 

RIBEIRÃO PIRES – Perfeito. 

RIO GRANDE DA SERRA – Exato. 

GRANDE ABC – Vamos parar por aqui. Vamos tomar um café bem forte e vou explicar as razões de estar na cabeceira superior. Lamento a vassalagem dos sete anões, a arrogância da Cinderela e o Estado sempre ou quase sempre omisso. Ao café, portanto. 



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