Sociedade

Entenda por que queimo hoje
título de Cidadão Honorário

DANIEL LIMA - 24/08/2022

Tenho paixão enorme por Santo André e pelo Grande ABC, terra que me acolheu quando cheguei jovem com dois pares de calças, duas cuecas, duas camisas surradas, um sapato usado e muita esperança. Desembarquei da carroceria de um caminhão que percorreu quase 600 quilômetros desde Araçatuba, Interior do Estado. Eu e meus irmãos.  

Por isso e por muito mais decidi que às 16 horas de hoje, em minha residência, vou botar fogo no título de Cidadão Honorário de Santo André. Botar fogo no caso é queimar. Não é metáfora, portanto. 

Tudo porque, três horas depois, os vereadores de Santo André vão contemplar o empresário imobiliário Milton Bigucci. Não quero a companhia de Bigucci em lugar algum do mundo.  

ESCONDE-ESCONDE  

Não preciso entrar em detalhes sobre quem é Milton Bigucci. Esta revista digital conta com inúmeros textos que revelam a personalidade empreendedora peculiar do homenageado de hoje. A mídia regional faz vistas grossas ao Milton Bigucci que conhecem e escondem. 

Milton Bigucci, diplomaticamente escorraçado de São Bernardo pelo prefeito Orlando Morando, endereço no qual reinava. Por falta de competitividade, por dizer assim, não participou de nenhuma licitação de terreno público.  

Milton Bigucci mudou de ares. Fez pousada em Santo André e de Santo André possivelmente não arredará-pé. A competitividade em Santo André provavelmente não tem os mesmos referenciais de negócios imobiliários de São Bernardo.  

AÇÃO DO VICE-PREFEITO 

Partiu oficialmente do gabinete do vice-prefeito Luiz Zacarias, e por indicação do vereador Lucas Zacarias, filho do vice-prefeito, a comenda de Cidadão Honorário de Santo André a Milton Bigucci.  

Como não cabemos no mesmo ambiente físico e memorial, vou queimar pessoalmente o título de Cidadão Honorário de Santo André. A láurea foi entregue a mim em primeiro de outubro de 2003. Acharam que foram e eram importantes minhas atividades jornalísticas e também os então 10 anos do Prêmio Desempenho, que consagrou empresas, cases governamentais e pessoas físicas de várias áreas. Foram 1.718 troféus entregues em 15 anos de eventos. Tudo sob o escrutínio meritocrático de representantes da sociedade em forma de Conselho Editorial e também com o aval de auditoria externa.  

DECISÃO INADIÁVEL  

Longe de ser o que os simplórios poderiam julgar como desrespeito, a decisão que tomei ontem à tarde, (horas após tomar conhecimento da outorga) queimar o título de Cidadão Honorário de Santo André é uma ação deliberadamente ajuizada, pensada, maturada e de redenção. E de imenso respeito aos vereadores que me premiaram há 19 anos. E muito mais à população de Santo André e do Grande ABC. 

LOBBIES EGOCEÊTRICOS  

Diferentemente de muita gente que busca algum tipo de reconhecimento, sobretudo com titulagens aqui e ali, não fiz nada, absolutamente nada deliberadamente para receber o título de Cidadão Honorário de Santo André.  

Lobbies fazem parte do enredo dessa e de tantas premiações. Até a Academia Brasileira de Letras, um poço de vaidade, trata da ocupação de vagas de supostos imortais com ferocidade nos bastidores. O mercado de troca-troca é a expressão máxima do egocentrismo.  

Chegar à Academia Brasileira de Letras é um jogo pesado, conforme ainda recentemente descreveu uma reportagem brilhante do jornal Valor Econômico. 

Milton Bigucci, escrevinhador de artigos mal-ajambrados, vejam só, consta da lista de uma obscura e recheadíssima de vaidade academia de letras da Grande São Paulo.  

TRABALHO, TRABALHO 

Sempre entendi que não deveria receber título algum de quem quer que seja, porque tudo é trabalho, mas não sou hipócrita. Reconheço e agradeço aos vereadores de Santo André.  

Estava naquele 2003 à frente da revista de papel LivreMercado, antecessora deste CapitalSocial, que também já existia. Fizemos de LivreMercado a melhor publicação regional do País. Com uma equipe extraordinária.  

O Diário do Grande ABC era nosso freguês de caderneta em matéria de competência. Tanto que aquela empresa comprou 60% das ações da Editora LivreMercado. Mas jamais comprou os pressupostos da redação que sempre comandei. Dividi sempre e sempre a responsabilidade com meus companheiros de trabalho. Jamais com supostos patrões que de jornalismo nada entendiam.  

Tanto não entendiam que me contrataram tempos depois para comandar a Redação. Durei 11 meses no cargo. Eles jamais entenderam que quem paga a especialistas não é especialista e, portanto, devem estar subordinados às ações programáticas. 

COMO EXPLICAR?  

Voltando ao Legislativo de Santo André: os homenageados, e os que os antecederam, e que também os sucederam, sabem que não frequento aquela distinta casa de leis.  

Nada que a premissa não seja outra senão a centralidade de meus trabalhos fora de qualquer Paço Municipal. Sem preconceito. Apenas questão de oportunidade de trabalho e de ações desse trabalho. 

Fico a imaginar o que levou à concessão do título de Cidadão Honorário de Santo André a Milton Bigucci. O passado é tão restritivo quanto autoexplicativo à indagação.  

Há uma enxurrada de motivos que caracterizam o empresário como alguém que não é exatamente aquilo que pretende ou parece ser.  

COLEÇÃO DE TÍTULOS  

Milton Bigucci carrega na algibeira profissional títulos outros mais ajustados a seu perfil.  

O Ministério Público Estadual do Consumidor de São Bernardo já o colocou na condição de campeão regional de abusos contra a clientela.  

A Policia Civil de São Paulo o colocou na relação do escândalo da Máfia do ISS.   

A compra do terreno entre a Avenida Kennedy e a Avenida Senador Vergueiro, em São Bernardo, onde construiu o empreendimento Marco Zero, é um amontado de irregularidades.  

É perda de tempo discriminar os escorregões éticos dos negócios de Milton Bigucci.  

Ninguém ousa enfrentá-lo. Por cumplicidade ou medo de retaliações.  

RETALIAÇÕES SEQUENCIAIS  

Sofri retaliações diversas, fui condenado por obra de suas maquinações, mas jamais lhe cedi a condicionalidade que pretendia, ou seja, a subjugação e a humilhação.  

Fosse a sociedade de fato organizada e combativa, Milton Bigucci jamais teria uma noite de farsa como hoje na Câmara de Santo André.  

Ter Milton Bigucci como parceiro oficial de honraria é um acinte a quem, como este jornalista, o denunciou continuamente.  

E o combateu também porque durante anos manipulou os dados e a realidade do mercado imobiliário do Grande ABC.  

RESPEITO AOS DEMAIS  

Deitou e rolou com a complacência de uma mídia servil que só lembra de suas desventuras quando lhe convém. E mesmo assim por pouco tempo.  

Ao queimar esta tarde o registro em papel o título de Cidadão Honorário de Santo André faço uma defesa ousada de todos aqueles que ao longo de décadas foram agraciados por motivos meritocráticos e, principalmente, sem que, à ocasião, houvesse um caudal de escândalos.  

Filho de um vice-prefeito candidato a deputado federal nesta temporada, Lucas Zacarias e os parceiros que o seguiram à concessão da homenagem (menos o vereador Ricardo Alvarez) seguem um caminho mais que natural de águas que rolam em direção a horizontes previsíveis.  

RELAÇÃO DE NEGÓCIOS  

Seria interessante se, durante a homenagem, e com toda a transparência, o vereador proponente justificasse detalhadamente as razões que levaram o Legislativo à decisão. 

 Poderia, esse porta-voz, relacionar todos os negócios imobiliários da MBigucci em Santo André nos últimos 10 anos, discriminando-os integralmente e, mais que isso, apresentando um histórico completo de uso e ocupação do solo desses empreendimentos.  

É preciso dar transparência às intervenções empresariais de Milton Bigucci em Santo André, utilizando-se principalmente da modernidade de informações tecnológicas implantadas pela Prefeitura. Ou seja: as provas digitalizadas e materiais do começo ao fim do processo de cada empreendimento que pavimentou o caminho glorioso a uma honraria da qual abro mão porque escolho minhas companhias.  

Santo André e o Grande ABC são a essência de meu trabalho e de minha vida pessoal. O ultrajante programa dessa noite merece mesmo que bote fogo naquele primeiro de outubro de 2003.  

E olhem que não estou me referindo ao que se passou com o homenageado desta noite a partir de primeiro de fevereiro do ano passado, quando um assassino cruel condenado a 9,4 anos de prisão tentou me tirar de circulação.  

Eu sei o que Milton Bigucci fez a partir dali.



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