Desisti de queimar o título de Cidadão Honorário de Santo André em protesto contra título análogo entregue ontem à noite ao mercador imobiliário Milton Bigucci pelo Legislativo de Santo André.
Tenho obrigação ética e moral de explicar o recuo, mas também não deixo de avançar muitas casas.
Está na hora de os vereadores pararem de patrocinar a farra do boi com honrarias mais que duvidosas, quando não ultrajantes.
A proposta de entrega do título de Cidadão Honorário de Santo André seria uma empreitada frustrante ao homenageado de ontem se houvesse um mínimo de curadoria independente.
MAIS TRANSPARÊNCIA
A aprovação formal não é uma decisão que se deveria atribuir exclusivamente a vereadores e gente dos paços municipais que usam e abusam desse tipo de honraria para lustrar egos mais que inflados, em conexão com estratégias nem sempre republicanas.
A sugestão que faço com a certeza de que não haverá uma viva alma com independência, isenção e desprendimento para levar adiante, é que sejam revistas as respectivas legislações que dão conta dessa arbitrariedade demagógica e onerosa aos anseios da sociedade ao misturar alhos com bugalhos na entrega com pompa e circunstância.
COMISSÃO APROPRIADA
Os respectivos legislativos deveriam contar com uma comissão específica, de gente da sociedade e quem sabe até mesmo um representante especializado em teste de integridade pessoal e profissional, para produzir uma varredura nos indicados à coroação.
Mais que isso: deveriam definir critérios antecedentes de elegibilidade como filtro à avaliação final.
Nada, claro, que lembre ações policiais e ministeriais mais agudas, mas que, por outro lado, substitua a casa da sogra destes tempos e de tempos passados.
LISTA CATASTRÓFICA
Se os vereadores de Santo André ou de qualquer Município da região tiverem a transparência de liberarem os nomes e as respectivas razões de entregas de títulos honoríficos nos últimos anos, apenas nos últimos anos, provavelmente os leitores ficariam estupefatos com as sandices.
Não é que tenha tanta gente com o perfil de Milton Bigucci. Mas tem tanta gente que por razão alguma jamais deveria constar da lista de notabilidade.
As razões pelas quais Milton Bigucci jamais deveria ser lembrado são conhecidas, mas outras não. Notoriedade não tem parentesco algum com notabilidade. Tampouco hereditariedade. E muito menos intimidades com os poderosos do momento. Mas é exatamente isso que prevalece em muitas indicações.
FARRA DO BOI
Não vou dar nomes aos bois que atravessaram acerca da legitimidade e se infiltraram no seio dos notáveis do Grande ABC merecidamente homenageados por vereados ao longo de temporadas.
Primeiro porque são muitos. Segundo porque não têm culpa no cartório na maioria dos casos. Menos, claro, em casos assemelhados ao que tivemos ontem, cuja estrutura de lobby é antiga. Não à toa o homenageado recebeu a mesma láurea dos Legislativos de São Caetano e de São Bernardo.
Fico muito à vontade para escrever sobre títulos honoríficos porque o que me entregaram em Santo André em primeiro de outubro de 2003 foi obra de quem achava que eu era importante para alguma coisa e sobre mim não pesava nenhum óbice. E não pesa. Minha criminalização por ações mais que suspeitas e outras comprovadas de Milton Bigucci é prova de idoneidade. Antes enfrentá-lo a lhe servir de tapete imperial.
SENSO CRÍTICO
Sei que sei que há nomes que nada fizeram por qualquer cidade da região, que jamais se dedicaram a valer a qualquer causa, exceto à infiltração em cidadelas políticas ou nos descaminhos de vantagens econômicas e financeiras, que estão por aí exibindo os troféus a que não fizeram jus. Uma barbaridade.
Por essas e outras quando me refiro à fragilidade de cidadania no Grande ABC quero dizer exatamente o que estou dizendo: falta senso crítico, amor a essas terras para impedir que charlatões que se vendem como beneméritos vicejem e se propaguem premiadamente.
Gosto de matar a cobra de sugestões e de mostrar o pau de realizações para retirar conceitos da teoria e encaminhá-las à prática.
PRÊMIO DESEMPENHO
Uma das razões que levaram os vereadores a me entregarem o título de Cidadão Honorário de Santo André foi o histórico e revolucionário Prêmio Desempenho, que realizei com minha equipe da Editora Livre Mercado e o apoio de patrocinadores durante 15 anos.
Foram 1.718 troféus entregues a representantes do meio empresarial, governamental, não governamental, personalidades esportivas, sociais, culturais e também a Madres Terezas e Freis Galvão.
E sabem os leitores quem decidia tudo, rigorosamente tudo? Os até 150 conselheiros editoriais que representavam a sociedade. Gente de gabarito e com plena autonomia. Gente que atuava como jurado no sentido mais amplo do termo.
AUDITORIA EXTERNA
Nos casos dos títulos individuais, os conselheiros exerciam uma ação de buldogues, analisando detidamente cada indicação. E cada indicação à premiação partia exatamente de todos eles. Os troféus foram entregues a cada temporada a um número limitadíssimo de concorrentes. Sempre de acordo com a média de notas.
Tudo era rigorosamente fiscalizado também por eles, conselheiros. Os cases coletivos passavam por baterias avaliativas de grupamentos de conselheiros e por todos eles quando se chegava ao afunilamento dos mais bem votados.
Ao final do processo, da mesma forma que recebiam para conferência das notas atribuídas planilhas invioláveis à confidencialidade individual, uma auditoria externa tratava de conferir as respectivas distribuições de notas.
MERITOCRACIA
Os 15 anos de Prêmio Desempenho foram uma experiência fantástica e inesquecível. A responsabilidade de coordenador-geral exigia uma modalidade que se tornou respeitadíssima: os melhores de cada temporada só eram conhecidos durante o evento final.
Afinal, me impus a responsabilidade de contabilizar todas as notas em todas as categorias da premiação e também em levar à festa final (eram duas em cada temporada) os envelopes lacrados.
Quero dizer com isso que o passado de transparência e de conceitos de meritocracia exercidos pelo Conselho Editorial da Editora Livre Mercado era a pedra de toque do sucesso do Prêmio Desempenho.
SEM FREGUÊS
Acabamos com a modalidade de premiações ao gosto de freguês que vicejava na região. Desde que o Prêmio Desempenho foi suspenso, com a venda do título da revista LivreMercado, nada surgiu em substituição porque os rigores que cimentavam a próxima temporada da próxima temporada da próxima temporada eram valores inegociáveis.
Por essas e outras é indispensável como diretriz básica à reconfiguração de títulos honoríficos a cargo de vereadores do Grande ABC levar em conta que eles, vereadores, não são exatamente os mais indicados para definirem os vencedores. No máximo, podem entregar uma lista e formalizarem os resultados, dos quais poderiam até participar, mas não prevalecentemente. A legislação em vigor não passa de uma festa de arromba.
BOTAFOGO SUPERADO
Para completar, desisti da queima do título de Cidadão Honorário de Santo André porque, entre considerações a favor e contrárias no aplicativo de celular que me aproxima diariamente de quase três mil formadores de opinião do Grande ABC, senti que existia algo em comum a recomendar a decisão.
Constatei que mesmo os favoráveis ao botafogo anunciado, havia sempre um, mas, um porém, um entretanto, uma ressalva, dando conta de que o motivo da decisão anunciada era quimioterapia ética em excesso.
Cedi derradeiramente à desistência quando um amigo muito próximo nos últimos tempos (e que foi um bálsamo espiritual agudo, pós-assassinato não consumado que sofri em primeiro de fevereiro do ano passado) reuniu sozinho todos os argumentos dissuasivos dos demais que entupiram meu endereço digital.
FALTA ORGANIZAÇÃO
Naquelas palavras senti que a melhor maneira de combater as barbaridades de títulos entregues a quem jamais poderia figurar em qualquer lista era seguir com o título que recebi sem lobby algum e, mais que isso, apresentar a sugestão que é a manchetíssima deste texto.
Tomara que os vereadores tomem juízo. O ideal mesmo seria se a sociedade se organizasse mesmo que num grupo pequeno, mas representativo, e levasse demandas nesse sentido às respectivas Câmaras Municipais.
Os títulos honoríficos se tornaram uma moeda de troca de duas faces distintas porque valoriza quem não tem muito valor e desgasta o prestigio de quem tem muito valor. É uma moeda paralela no campo da meritocracia, mas, diferentemente de moedas paralelas que valem mais que a oficial, o efeito é exatamente o reverso, porque rebaixa o valor de fato de uma moeda que deveria ser respeitada como expressão de representatividade de uma sociedade majoritariamente honrada, embora desorganizada.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS