Economia

Mercedes-Benz demora, mas
decide adotar dieta rigorosa

DANIEL LIMA - 09/09/2022

Toda vez que uma indústria estelar (não só no dístico corporativo) deixa o Grande ABC, salta o desafio de utilizar a criatividade jornalística. O caso da Mercedes-Benz de São Bernardo é exemplar. O enredo é praticamente o mesmo, entra ano, sai ano.  

A reação sindical é previsível, e segue uma cronologia típica pós-morte. Cada logomarca de brilho que se vai, fica um sentimento de derrota do movimento que desabrochou no fim dos anos 1970. É um ciclo irreversível. Quem não cuida do futuro não pode lamentar o presente. 

Há várias maneiras de sair do Grande ABC. Essa, da Mercedes-Benz, é uma saída sem sair, mas enfraquece a economia local. É desindustrialização disfarçada.  

Dizer o que tem de ser dito não é politicamente correto. A maioria prefere buscar desculpas e incriminar terceiros.  

ENXUGAMENTO  

A dieta rigorosa que a Mercedes-Benz anuncia para a fábrica de São Bernardo, e que vai impactar diretamente 3,5 mil trabalhadores, demorou para ser determinada pela matriz na Alemanha. O enxugamento de pessoal e a redefinição de produção vão aliviar a companhia. 

Os investidores alemães não têm dinheiro para torrar numa fábrica que não dá retorno financeiro.  

A criação de uma divisão internacional específica para veículos pesados ressaltou a disfunção megacorporativa.  

Por mais que os alemães sejam praticantes da social-democracia, eles não são burros. Tampouco são socialistas da gema de Estado-Todo-Poderoso.  

Você colocaria seu dinheiro num saco sem fundos ou estaria preocupado com a rentabilidade que garantirá um futuro mais seguro?  

Afinal de contas, a Mercedes-Benz é formalmente uma indústria de veículos, mas carrega no ventre interesses de pessoas que estão corporativamente muito acima dos trabalhadores: os acionistas querem dividendos.  

E do mato regional não tem saído o coelho de compensações pelos investimentos.  

PREJUÍZO E PREJUÍZO 

Há mais de uma década a fábrica da Mercedes-Benz em São Bernardo não remunera os acionistas. O dirigente da planta regional deixou claro na entrevista ao Valor Econômico: não dá mais para segurar as pontas de solicitar mais recursos da matriz para enfrentar a concorrência nacional que se reproduzam em ganhos de produtividade e competitividade. 

Não faltarão oportunistas de plantão a blasfemar contra o capitalismo. Eles não se dão conta de que o capitalismo alemão são outros quinhentos. A artilharia de inconformados já trombeteia que a culpa no cartório da debandada parcial da Mercedes-Benz (é disso mesmo que se trata, ao tomar a decisão de compartilhar a produção em vários setores, algo que alguns chamam de terceirização) é da reforma trabalhista, ou do prefeito atual, ou do presidente da República. Tudo bobagem.  

SAINDO DEVAGAR  

A saída parcial da Mercedes-Benz de si mesma é uma operação típica para evitar o pior no futuro. E o pior se deu, entre outros endereços, próximo dali, na fábrica da Ford.   

Se todas as logomarcas luminosas de indústrias que deixaram São Bernardo nos últimos 30 anos fossem enfileiradas na Via Anchieta, seria fácil encontrar uma pulga nos acostamentos. A recíproca é verdadeira no caso da Avenida dos Estados, em se tratando das indústrias que se escafederam de Santo André e de São Caetano. 

A cada dia que passa no presente há embutido o preço do passado de conquistas diversas, entre as quais as trabalhistas.  

O Custo ABC dentro do Custo Brasil é consequência das relações trabalhistas glorificadas no passado sem concorrência que, finalmente, chegou, sempre estimulada pela guerra fiscal que o Estado incrementou. 

ACERTO DE CONTAS 

O acerto de contas já se vem fazendo há muitos anos. A Mercedes-Benz, organização gigantesca que pode compensar desencaixes aqui e ali, entendeu que acabou a farra do boi em São Bernardo. 

O que era doce de sindicalismo reivindicativo se acabou faz tempo, e os rescaldos estão clarificados na derrocada do PIB Industrial de São Bernardo e do Grande ABC há mais de 30 anos. 

Em 2002, último ano do desastre regional chamado governo de Fernando Henrique Cardoso, São Bernardo contava com 4,30% do PIB Industrial do Estado de São Paulo. Bem menos que duas décadas anteriores. Já em 2019, segundo dados mais atualizados, a participação do PIB Industrial de São Bernardo caiu para 2,71% no Estado. 

DESINDUSTRIALIZAÇÃO  

A isso se pode dar o nome de desindustrialização da desindustrialização. Explico: São Bernardo perdeu participação relativa no Estado de São Paulo que, por sua vez, perdeu participação relativa no PIB Industrial do País. É uma carga dupla de prejuízos neste século. Recente estudo da Fiesp e dados históricos desta revista digital provam isso. 

O ritmo de degringolada só arrefece onde não é mais possível manter a gravidade destrutiva de outrora. Ou seja: só melhoramos na redução da intensidade da desindustrialização onde há menos indústria para ir embora ou reformatar-se.  

Santo André é um caso exemplar: indústrias de menor porte seguem procurando outras paragens ou sucumbiram neste século, mas os movimentos nem sempre são notáveis. A Doença Holandesa Petroquímica, de grandes corporações, escamoteia os desastres.  

ADAPTAÇÃO DA VW  

A Mercedes-Benz está distribuindo a terceiros o que a Volkswagen fez há mais de 25 anos (como bem lembrou a jornalista Marli Olmos, do Valor Econômico) com a planta de Rezende, Rio de Janeiro.  

Ou seja: repassa a empresas consorciadas de autopeças tudo que não é necessariamente vital ao coração técnico-estratégico da própria empresa.  

A diferença é que a Volkswagen Caminhões criou o próprio distrito de competividade em forma de vizinhança física e logística, entre outros vetores.  

A Mercedes-Benz terá de se virar nos 30 para construir uma vizinhança industrial e de serviços sem espaço físico para tanto. Compartilhamento é a melhor definição para um processo que não é de terceirização no sentido clássico do termo nem consorciamento como o da Volks Caminhões.  

CAÇAPA CANTADA  

Para completar esta edição, reproduzo apenas os primeiros trechos da reportagem/análise que a jornalista Malu Marcoccia produziu em maio de 1999 (portanto há 22 anos) para a revista LivreMercado sobre a revolução na indústria automotiva.  

LivreMercado, revista de papel, é antecessora de CapitalSocial. Foi lançada em março de 1990, em plena erupção do Plano Collor. Aquele que tomou o dinheiro de todo mundo.  

 

Só temos uma saída:

muita produtividade 

 MALU MARCOCCIA - 05/05/1999 

 

Um robô infiltrado aqui, uma eletrônica embarcada ali, células de produção abreviando a maneira de produzir, cargas de treinamento para carimbar qualificação de Primeiro Mundo, volumosas demissões que projetam o caos social.  

A versão enxuta do Grande ABC automotivo não assusta José Carlos Pinheiro Neto, presidente da Anfavea, associação que reúne os fabricantes de veículos no País. Nem mesmo as reduzidas e moderníssimas fábricas automobilísticas que passaram a cintilar em vários cantos do Brasil assombram esse executivo que frequenta há 30 anos a região, como profissional da General Motors de São Caetano. 

REFRÃO DE RIQUEZA  

Por isso mesmo, para o cenário aparentemente tenebroso promovido pela concorrência da globalização e pela descentralização dos investimentos automotivos, Pinheiro Neto sugere um antídoto ao Grande ABC: produtividade, produtividade, mais produtividade. 

Sua receita mistura muita tecnologia, várias pitadas de modernização de processos, dezenas de colheres de treinamento e doses maciças de enxugamento de custos.  

Se não reverter a situação agora, o Grande ABC poderá perder oportunidade única de erguer a ponte para estágio mais avançado de produção. O presidente da Anfavea vai direto ao ponto: “Temos um Custo ABC inegável representado pela infra-estrutura problemática e mão-de-obra quase 100% mais cara. Não vamos cortar salários, é óbvio. Mas exigiremos da mão-de-obra o quanto nos custa: mais qualidade, mais produtividade para ombrear-se com as newcomers (montadoras que estão chegando)”. 

EMPREGO NA BERLINDA  

Esse vale-quanto-pesa coloca o emprego, obviamente, na berlinda. Pinheiro Neto voltou a decretar o fim das megafábricas, com 30 mil, 40 mil funcionários e deitadas em imensos territórios.  

Como em outros lugares do mundo, cita ele, o Grande ABC está revendo o conceito de plantas gigantescas: “A chamada clean organization, organização enxuta, é fundamental para se manter competitivo e a região corre atrás disso. É aí que entra a necessidade dos investimentos que se vêm realizando, o que, todavia, não garante a manutenção dos empregos. Posso assegurar a qualidade, não a quantidade eterna da mão-de-obra” — diz. 

Que o digam os trabalhadores. Dados do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC indicam que havia na base, diretamente empregadas nas montadoras da região, 70,2 mil pessoas em dezembro de 1990. Em dezembro último, eram 44,9 mil. 

PONTO MÁXIMO  

Se a tecnologia se tornou sangue vital do sistema produtivo e é inegável que descarta (ou não cria) empregos, não significa que o Grande ABC esteja sendo dinamitado. O presidente da Anfavea acha que o que as montadoras da região estão fazendo é explorar as possibilidades de fabricação ao ponto máximo, daí aquela a receita nada exótica de mais tecnologia, novos processos, mais veículos por homem/ano. 

Por serem as primeiras plantas automotivas do País, quarentonas e em processo de lipoaspiração, dificilmente, na visão de Pinheiro Neto, as fábricas da região atingirão o grau de excelência profetizado pelo ex-presidente mundial da Ford, Alex Trotman. Segundo Trotman, montadora que não produzir 100 automóveis/ano/funcionário a partir de 2002 estará assinando atestado de óbito.



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