Acho mesmo que é um achado o Desafio de Redação que o Diário do Grande ABC realiza em parceria com a USCS (Universidade de São Caetano). Se você que está lendo estas primeiras linhas imaginar que o assunto não é interessante, recomendo atenção ao que vai vir na sequência.
O Desafio de Redação é um achado mesmo, mas pode ser muito maior. Basta imaginar o Grande ABC sem compartimentações.
O Diário do Grande ABC e a Universidade de São Caetano talvez tenham visto o suficiente para merecerem aplausos: os 10 metros adiante do para-brisa são uma distância que todo bom motorista deve ter como manual de precaução. Mas olhar o horizonte mais à frente, para evitar contratempo maior, significa estar ainda mais conectado.
A imagem ganharia vida também. Um cão pode deixar de ser atropelado a 10 metros de distância se você estiver atento como motorista. Cinquenta metros adiante, um idoso preparando-se a uma travessia suicida pode ser salvo.
BASE EDUCACIONAL
Da mesma forma que não duvido que o produto final de mais de 81 mil textos entregues nesta temporada não deve ser lá essas coisas, porque escrever é uma arte que se apura com o tempo e a base educacional brasileira é uma lástima, da mesma forma que isso é tão verdadeiro quanto ao que temos de perseguição ideológica nestes tempos, também é certo que há nesses mesmos insumos de estudantes da região elementos a ser escrutinados.
Viram como o parágrafo imediatamente anterior, que começa com “Da mesma forma” e termina com “a ser escrutinados”) é um arranjo estilístico complexo e que exige muita atenção? Pois essa é uma das modalidades, entre muitas, decorrentes do ato de escrever.
CURTO E LONGO
Estiquei o parágrafo em questão de forma proposital, apenas para ressaltar que não existe fórmula única no ato de escrever. Tudo depende das circunstâncias.
Como no futebol e em tantas outras atividades humanos, há variáveis que tanto levam ao sucesso quanto ao fracasso.
Minha sugestão aos muitos jornalistas com os quais convivi sempre foi, entre outras, que tentem conciliar trechos curtos, objetivos, claro, com alguns alongamentos.
REGIONALIDADE
Mas vamos voltar ao que interessa. E o que interessa não é necessariamente a competência de redação dos alunos que entregaram trabalhos, alunos que são do Ensino Fundamental e do Ensino Médio de quase duas centenas e meia de escolas públicas e privadas.
O que interessa (e é nesse pronto que o Desafio de Redação parece deixar espaço a novas incursões) é o imbricamento temático com a realidade regional.
Mais que isso: com a realidade contextualizada, tanto regressiva quanto prospectiva. Ou seja: colocar o Grande ABC como ponto prioritário na agenda escolar de redações estimulativas à cidadania e à responsabilidade social.
TEORIA E PRÁTICA
Isso não é apenas teoria. Também é prática. Quando escrevi “Complexo de Gata Borralheira”, em 2002, fui convidado a fazer palestras em várias escolas. Até mesmo um grupo de estudantes de inglês fizeram adaptação do texto de forma teatral. A família de Ari e de Sueli Testa foi extraordinária.
O tema desta temporada do Desafio de Redação (Resgate da Cidadania se faz com Solidariedade e Empatia) tem um carregamento filosófico, por assim dizer, bastante refinado em relação ao público-alvo.
Mas também tem, contraditoriamente, grau satisfatório de curiosidade, porque certamente levou os estudantes a entenderem o que é cidadania, o que é solidariedade e o que é empatia, tudo isso dentro do mesmo saco de interpretação.
MUITAS POSSIBILIDADES
Não vou entrar em detalhes sobre como poderia ser acelerado o processo de interação envolvendo organizadores do projeto e comunidade de estudantes e professores.
Há fartura de possibilidades que fariam a 17ª edição, desta temporada, um ensaio, apenas um ensaio, à consagração como programa regional fora das dimensões corporativas dos idealizadores e executores.
Certo mesmo é que o Desafio de Redação tem tudo para ser maior ainda. E essa perspectiva não pode ser vista como crítica descabida. É apenas uma colaboração.
MANTER O FOCO
Sempre gosto de citar alguns exemplos vividos para tornar mais fáceis determinadas avaliações.
A revista LivreMercado, por exemplo, que criei em 1990 e que originalmente tratava de Economia do Grande ABC, abarcando questões regionais como nenhum veículo fizera antes, multiplicou-se tematicamente sem perder o eixo principal.
E não perdeu o foco principal porque Economia vista de forma isolada tem tanta vocação ao fracasso quanto no caso em que é barrada do baile de outras especialidades. Tudo passa pela Economia, mas a Economia depende também de outros territórios humanos.
AÇÕES COMPLEMENTARES
Resultado do que deu na revista LivreMercado? Antecipamo-nos a uma tendência que se tornou política editorial de grandes veículos igualmente dirigidos à Economia e que passaram a ter olhares mais abrangentes.
Aliás, nesse sentido, o Prêmio Desempenho, que comandamos durante 15 anos, foi o carro chefe que popularizou a circunspecta revista LivreMercado. Levamos aos palcos competidores de várias áreas, inclusive da Administração Pública. A Economia do Grande ABC ganhou um portal adicional de visibilidade, ou seja, dois eventos anuais.
Talvez os organizadores e responsáveis pelo Desafio de Redação ainda não tenham se apercebido de que contam com uma joia sociológica valiosa às mãos e que supostamente limitar preocupações apenas com a quantidade de participantes é muito pouco.
Digo isso porque nesta temporada houve um salto participativo de 731% no número de textos inscritos. Passou de 9.637 participantes no ano passado para 81.123 mil neste ano.
MUITA DIVISÃO
Escrevo sem a segurança que costumo reunir porque não obtive acesso à estrutura gerencial do Desafio de Redação. Sei o que sei apenas e exclusivamente por conta do que o Diário do Grande ABC vem publicando.
E o que o Diário do Grande ABC vem publicando dá a quase certeza de que de fato e sem dúvida tanto o jornal quanto a USCS ainda não se aperceberam do quanto de potencial reformista no sentido mais amplo da palavra o Desafio de Redação embute numa região dividida pelo municipalismo burro e improdutivo e também pela compartimentação social e econômica.
Talvez nada seja tão extraordinariamente reestruturante como ação de efeitos coletivos transformadores do que uma modelagem aperfeiçoada do Desafio de Redação.
CADEIA COMPLETA
Por enquanto e com todo o respeito, o que temos é uma fabriqueta de cidadania que precisa alçar voo e ganhar a dimensão de uma cadeia de comprometimento social e responsabilidade regional de larga parcela da população do Grande ABC que nasceu no Grande ABC.
Teremos, com isso, entre outros benefícios de capital social, gerações adeptas de um novo regionalismo.
Ou seja: o Desafio de Redação, pelas peculiaridades que aborda, mesmo que de forma ainda embrionária ante o tamanho das potencialidades, é sim um achado e tanto. E que, portanto, deveria ganhar robustez e amplitude consideráveis.
O futuro do Grande ABC como endereço de riqueza social e econômica passa necessariamente pela imensidão de crianças e jovens estudantes.
Mais que Desafio de Redação, o que temos em vista é um desafio à regionalidade, peça-chave desse jogo que estamos perdendo de goleada ante outros territórios no Estado de São Paulo. Como estamos cansados de mostrar nesta revista digital.
Tanto que criamos o G-22 justamente para estabelecer confrontos em inúmeros indicadores e, com isso, despertar os provincianos do eterno embalo de olhar para o próprio umbigo.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS