O Estádio Bruno Daniel ficou apinhado de torcedores ontem à tarde no jogo entre Santo André e Santos pela Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mais de 11 mil pessoas compareceram e viram o Santo André sempre surpreendente derrotar o Santos por 3 a 0.
O balanço do Coronavírus no Grande ABC tem tudo a ver com o que se viu ontem.
Um pouco mais de gentes, exatamente 12.253 pessoas, formam a contabilidade letal do vírus chinês. E a contagem vai prosseguir, embora em ritmo menos intenso.
Há mais de 200 textos nesta revista digital que tratam diretamente ou não do Coronavírus. Vários dos quais tratam especificamente do que escrevo hoje.
E o que escrevo hoje é evitado de maneira geral pela imprensa impressa e digital da região.
BALANÇO NEGATIVO
Tem-se por alguma razão ou muitas razões entrecruzadas cuidado redobrado com o que se publica sobre o vírus que chegou ao Brasil em 2020, em pleno Carnaval e subestimado por autoridades públicas. Sempre foi assim com a desindustrialização da região. Pretende-se inutilmente esconder o que é ruim, como se a realidade não se impusesse.
Vou repetir algumas constatações que observei ao longo do período devastador do Coronavírus e que estão sintetizadas no seguinte enunciado: o Grande ABC perdeu a guerra contra o invisível materialmente destruidor.
Não é qualquer coisa a contagem de mortos, que são 12.253 almas.
MÉTRICA ADEQUADA
Na verdade, se não fechassem os portões do Estádio Bruno Daniel ontem à tarde, diante da avalanche de jovens torcedores, principalmente, o público seria semelhante à contagem macabra do Coronavírus.
Arredondando a população do Grande ABC para 2.750 milhões de habitantes, temos a incidência de 0,445% óbitos para cada grupo de 100 mil habitantes.
Essa é a métrica adequada para aferir o placar de mortes causadas pelo Coronavírus. A medida coloca todos os endereços municipais sob o mesmo envelopamento de proporcionalidade. Há manipuladores estatísticos que só fazem essas contas quanto lhes interessam.
Sem essa métrica, muitos incautos poderiam, por exemplo, dizer que São Caetano contabilizou menos mortos que Santo André, São Bernardo, Diadema e Mauá. Não é verdade.
SÃO CAETANO LIDERA
As 1.170 vítimas fatais do Coronavírus em São Caetano significam taxa de letalidade de 0,722% em relação à população. Não tem para ninguém. É um dos maiores índices municipais do País. São Caetano não passa de 162 mil habitantes.
Para se ter ideia, fossem os dados de São Caetano transpostos ao Brasil como um todo, ao invés de 694.917, teríamos arredondados 1,5 milhão de vítimas fatais.
A taxa de letalidade do vírus no Brasil é de 0,328%. Resultado inferior ao Grande ABC, que atingiu 0,455%. O Estado de São Paulo, com 177.738 mortes, registra taxa por 100 mil habitantes de 0,395%.
Esse texto sofreu alteração logo após postado. Os índices de letalidade permaneceram relativamente na ordem de valores diferenciais, mas os respectivos percentuais de cada território analisado passaram por dieta na ordem de grandeza. Ao invés de 4,55% da taxa de letalidade do Brasil, por exemplo, o correto é 0,455%. E assim respectivamente. Traduzindo: em nenhum dos exemplos mencionados chegou-se sequer a 1% de letalidade, sempre em relação a cada grupo de 100 mil habitantes. Todos os números foram reenquadrados.
TAREFA INÚTIL
Procurar alternativas numérico-estatísticas que desloquem os números gerais de letalidade do Coronavírus do Grande ABC para posições secundárias no ambiente nacional é algo como procurar agulha em palheiro.
Vai ser difícil encontrar. Temos seguramente os piores dados depois de três anos da pandemia. Perdemos até para a povoadíssima Capital do Estado.
A cidade de São Paulo registra 44.368 vítimas fatais. Ou a taxa arredondada de 0,370%.
Pior ainda: perdemos ou empatamos com o distrito paulistano de Sapopemba, uma cidade dentro da Capital.
Sapopemba não se compara economicamente ao Grande ABC, embora o Grande ABC tenha feito esforço enorme de inapetência organizacional a ponto de flertar com números nacionais em termos de PIB per capita.
DIVISÃO TÓXICA
Visto como um todo, ou seja, concebendo-se que somos uma megacidade (porque é assim também quando impomos o discurso de grandeza econômica), o Grande ABC fracassou no combate ao Coronavírus.
E alguns pontos, já abordados aqui mas que não custa relembrá-los, ou atualizá-los, merecem ser observados neste balanço que certamente não será o último.
A divisão administrativa em sete municípios é contraproducente a uma enormidade de atividades, entre as quais o combate sincronizado a uma doença que ainda desafia pesquisadores, cientistas e estudiosos.
O Clube dos Prefeitos jamais foi o catalizador de ações sistêmicas. Medidas pontuais só confirmam o divisionismo redutor e castrador de potenciais vantagens comparativas.
RUPTURAS ATRAPALHAM
A Capital do Estado, de cromossomos demográficos e epidemiológicos semelhantes, foi mais efetiva no combate ao vírus porque conta com unicidade administrativa. Ou seja: políticas públicas não sofrem rupturas geoadministrativas.
Exatamente por conta dessa fragmentação regional interna, deixa-se de lado o aprendizado e compartilhamento.
Especificidades territoriais predominantes num determinado Município poderiam ser analisadas com agregado de valor de estudos em áreas habitacionais em que aqueles territórios predominantes são proporcionalmente menores.
Um exemplo: a recordista em envelhecimento São Caetano, que tem o dobro da população com mais de 60 anos em relação à média regional, poderia servir de referência ao combate da pandemia nos nichos de envelhecimento semelhantes nos demais municípios, nos quais a população de mais idade não é tão expressiva.
EXTREMO NEGATIVO
São Caetano talvez simbolize com extremismos negativos a realidade do Grande ABC no combate à pandemia.
É claro que seria pior se São Caetano fosse o Grande ABC como um todo, mas São Caetano está inserida na região. Noves fora o perfil de idosos, principais vítimas do vírus, São Caetano tem tudo de ruim que o Grande ABC exibiu.
Primeiro, está conflagrada demograficamente. Gente demais ocupando proporcionalmente determinados territórios significa maior incidência do vírus.
A demografia de São Caetano exacerba a desvantagem do Grande ABC. São mais de 12 mil habitantes por quilômetro quadrado. A média da região é pouco superior a três mil. Que, por sua vez, é quase 10 vezes maior que a densidade demográfica do País.
METRÓPOLE INFLUI
Também afeta São Caetano (e a região como um todo) o fato de estar inserida na Região Metropolitana de São Paulo, sobretudo na área mais ocupada por gente. A propagação do vírus agradece sobremaneira a disputa por espaço pelos humanos.
Não faltaram iniciativas às prefeituras da região no combate ao Coronavírus, mas foram medidas previsíveis e padronizadas em relação à maioria dos municípios brasileiros. Nenhuma inovação se apresentou.
Sugeri no início da pandemia que batalhões de servidores públicos municipais sob a rubrica de comissionados fossem preparados tecnicamente e participassem de ações ativas no campo de batalha.
COMISSIONADOS NA RUA
Deveriam ser espalhados nos bairros. Iriam ao encontro da população como missionários da vida. Matariam ou reduziriam o mal da propagação do vírus com instrumentos científicos de informação e atendimento prévio. Reduziriam o fluxo de gravidade nos hospitais. Nada foi sequer analisado.
Fosse o Clube dos Prefeitos o que deveria ser diante da emergencialidade da pandemia, ou seja, um agente agregador de valores e inteligências, uma força-tarefa regional seria organizada e preparada também na área de estratégia.
O Clube dos Prefeitos, que não faz nada para mudar o desfiladeiro econômico da região, preferiu se omitir na elaboração de algo sistematicamente opositor ao desafio destrutivo do vírus. Jogou sempre na defensiva. Ou reativamente. Nada de um necessário enfrentamento ostensivo determinado por especialistas.
É claro que fui um ingênuo ao propor o que propus, mas só o fiz, também, cá entre nós, para confirmar mais uma vez a lógica de ocupação territorial do Grande ABC desde sempre –ou seja, aqui o individualismo institucional, a preguiça operacional e o deslumbramento gerencial dão o ritmo de improdutividades que, no caso em questão, serviram de arranjo musical a uma ópera macabra.
Reproduzo, na sequência, o primeiro texto-análise que preparei sobre a chegada do Coronavírus no Grande ABC. Era março de 2020. Mal o vírus chinês marcava presença no País. Acho que vale a pena uma leitura cuidadosa. A mensagem subliminar (subliminar?) é objetiva: quem não está preparado para combater a desindustrialização longeva e persistente, como poderia combater uma doença abrupta e insidiosa?
Desindustrialização e
Coronavírus: nada a ver
DANIEL LIMA - 13/03/2020
Vou surfar na onda do alarmismo provocado pelo Coronavírus para deixar claro que não tem cabimento comparar a epidemia que se alastra paradoxalmente rumo ao desaparecimento com a desindustrialização sistêmica e resistente do Grande ABC, território que segue a fazer vítimas empresariais e trabalhistas.
Uma coisa é uma coisa (uma coisa é passageira, no caso da doença) e outra coisa é outra coisa (outra coisa é a desindustrialização aparentemente irreversível da principal atividade econômica do berço automotivo do País).
TEMPO EM AÇÃO
O tempo deve provar que os impactos da fuga e da mortandade industrial no Grande ABC jamais poderão sequer ser confrontados com os efeitos do Coronavírus também na região. Desde que, claro, não esteja sendo subestimada a multiplicação do vírus. Por enquanto, as metástases da desindustrialização são profundamente mais devastadoras.
Sei que não é politicamente correto nesta altura do campeonato de inquietação social fazer esse tipo de comparação. Mas sei também que ao fazê-lo coloco o dedo na ferida no momento mais apropriado possível. Porções da sociedade ainda não se deram conta de que a elevada parcela do desemprego regional não é fruto exclusivo de incompetência individual, mas principalmente de um mal econômico que se alastrou e se prolonga no tempo.
FRACASSOS EVIDENTES
O diagnóstico, que poderia também ser chamado de obituário, vale para quem se meteu e se mete a empreender.
Há tiros nágua que observo a cada dia em minhas caminhadas. Costumo não errar uma projeção. Muita gente ainda não se deu conta de que produto ou serviço errado em lugar errado significa flertar com a decepção e o comprometimento das reservas financeiras familiares.
Já imaginaram quanto custa em saúde pública as dores de quem acredita que encontrou o negócio certo para sustentar a família e logo depois é obrigado a cerrar as portas de estabelecimentos nos quais investiram os tubos? Só aqui no bairro em que moro e no qual faço minhas caminhadas matinais com duas cachorras muitas vezes incansáveis tenho de cor e salteado os endereços que faliram.
UMA PROJEÇÃO
Alguém tem dúvida de que, fossem os destroços da desindustrialização compactados num período menos elástico que as três décadas de efeitos ruinosos, tudo já teria sido feito, ou quase tudo teria sido feito, para mitigar os duros ajustes sociais e econômicos que retiraram o Grande ABC da posição de Eldorado do País?
Ouso produzir alguns pontos que colocam a desindustrialização do Grande ABC e os efeitos do Coronavírus também no Grande ABC como provas provadas de que passamos por longos anos de desastre provocador de imensas dores sociais sem que ninguém efetivamente tenha feito qualquer coisa para mudar o rumo dos infortúnios.
PONTOS A DESTACAR
Tivéssemos sofrido uma desindustrialização do tipo Coronavírus, tudo seria diferente. Talvez a única vez em que se deu tamanho espaço à comparação tenha sido a repercussão da debandada da Ford, no ano passado. Ali o mundo do Grande ABC e do governo do Estado sempre incompetente nas questões econômicas desabou por algum tempo, como o vírus que está empesteando o mundo o fará também.
A desindustrialização deixou dezenas de milhares de trabalhadores industriais na zona de amargura, submetendo-os a ocupações precárias ou a empreendimentos informais e mesmo formais canibalizados por conta de imprevidências da gestão econômica individual e do Estado, em forma de municípios. Alinhavo, por conta disso, alguns pontos sobre os quais vale a pena debruçar preocupação:
1. O Coronavírus deverá deixar um saldo de letalidade regional bastante discreto e, por mais que se respeite cada vida humana, não haverá termos de comparação quanto aos desdobramentos sociais das perdas industriais.
2. A desindustrialização segue sendo inteiramente desprezada pelas autoridades públicas locais.
3. O Coronavírus tem mais mídia pelo ineditismo da situação e não faltarão prefeitos a ocupar manchetes de jornais impressos e virtuais para demonstrarem solidariedade e atenção. Os marqueteiros que os abastecem de demagogia tratarão de indicar as melhores terapias.
4. A desindustrialização provocou estragos silenciosos e permanentes muitas vezes negados, quando não refutados, por bandidos sociais que se travestem de gestores públicos e mesmo pela Imprensa inadvertidamente imediatista que acredita estar favorecendo a sociedade quando sonega informações desagradáveis.
5. O Coronavírus será a cada dia mais barulhento porque a perspectiva é de que os casos confirmados ganharão escalas ascendentes até que, num determinado momento, como na China, comecem a refluir. E desaparecerão deixando perdas circunstanciais.
6. Os caminhos em que se cruzam a desindustrialização do Grande ABC e o Coronavírus no Grande ABC sumirão do mapa regional o mais breve possível, porque a renitência das perdas econômicas não dará trégua enquanto os indicadores de crise na saúde pública tenderão à perda de letalidade.
A mensagem final que deixo às autoridades públicas, sobretudo aos prefeitos do Grande ABC, é que todos eles deveriam ser contaminados durante longo tempo pelo Coronavírus da Desindustrialização e, então, finalmente, se lançassem a uma empreitada que tarda, que falha, mas que ainda pode ser reparada.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS