Sociedade

Na cama com Police Neto
e Felipe Cheidde. Entenda!

DANIEL LIMA - 03/02/2023

Fui dormir ontem à noite com José Police Neto e acordei de madrugada com Felipe Cheidde. Cuidado com o que está pensando.  Não é o que você imagina. A vida de jornalista é assim mesmo: não bastassem problemas pessoais e familiares, ainda arrumamos encrencas noturnas extras.  

Seria ótimo se existisse um botãozinho cognitivo que interrompesse a programação profissional durante pelo menos seis horas a cada dia. Ainda não inventaram esse treco.  

Se você me acompanhar nesse Sodoma e  Gomorra metafórico, certamente entenderá os motivos de me meter nessa aventura.  

Felipe Cheidde e Police Neto são políticos de gerações distantes. Não guardam parentesco comportamental. Ao primeiro sobravam cuidados no entrelaçamento pessoal e humano. Ao segundo abunda pragmatismo.   

DEPUTADO CASSADO  

Felipe Cheidde foi duas vezes deputado federal, desafiou poderosos de plantão e acabou cassado por ordem do então todo-poderoso Ulysses Guimarães.  

Felipe Cheidde, deputado constituinte, negou-se a assinar a nova Carta Magna, naquele 1988.  

Police Neto tem no atestado político de múltiplos mandatos de vereador em São Paulo. Andou por Santo André nos dois últimos anos como multisecretário do prefeito Paulinho Serra.  

A carta de apresentação e de gestão a Police Neto foi conferida pelo poderosíssimo Gilberto Kassab, presidente do PSD, agora secretário de governo de Tarcísio de Freitas e influentíssimo no governo Lula da Silva.  

NO GOVERNO ESTADUAL  

Police Neto vai atuar no governo de Tarcísio de Freitas em área tão desconhecida quanto importante: as regiões metropolitanas tão maltratadas pelos tucanos que governaram por quase três décadas o maior Estado da Federação.  

Fui dormir com Police Neto porque poucas horas antes ouvi uma declaração oficial do prefeito Paulinho Serra sobre os novos voos do ex-colaborador.  

Paulinho Serra espraiou elogios ao ex-supersecretário. Agradeceu tudo o que Police Neto fez em diferentes campos públicos. Reconheceu o valor do homem enviado por Gilberto Kassab. 

Não senti em Paulinho Serra nada que remetesse aos bastidores de que teria tido desentendimentos com Police Neto. Acho que é bobagem pura. Police Neto deve fortalecer as relações de Paulinho Serra com Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo.  

LUTA POLÍTICA  

Kassab já prepara terreno para lançar candidato à próxima disputa estadual. O PSD pensa, antes, nas eleições municipais do ano que vem. Paulinho Serra está com os dois pés na canoa furada do PSDB, de Eduardo Leite.  

Quem sabe Paulinho Serra faça movimentos de retirada e já tenha pré-reservado espaço na canoa promissora de Kassab. Por isso, Police Neto seria aliado providencial.  

Volto à noite de Sodoma e Gomorra. Acordei às cinco horas da manhã. Interrompi involuntariamente o sonho (é sempre assim, não é verdade?) em que apareceu à minha frente, sentado à mesa de mogno no escritório da Avenida Kennedy, um Felipe Cheidde jovem, esbelto, pele mais branca do que antes da viagem eterna em setembro de 2019.  

Não havia até então sonhado jamais com o ex-deputado a quem conheci de perto e com o qual convivi profissionalmente durante cinco anos.  

NA HISTÓRIA  

Felipe Cheidde é uma lenda na história política e esportiva do Grande ABC. Fez de tudo. De jogador a dirigente do Esporte Clube São Bernardo. Jogou em grandes equipes. Por migalhas de votos não se tornou presidente da Federação Paulista de Futebol. José Eduardo Farah o superou.  

Felipe Cheidde era um homem especial. Devo-lhe muito de aprendizado. Jamais encontrei alguém que me valorizasse tanto como gente.  

Police Neto foi meu parceiro de jornada durante um almoço meio atravessado, encerrado diplomaticamente. Conversamos a respeito da concessão do Estádio Bruno Daniel ao Santo André.  

Police Neto implicara com a questão. Apresentara-se como peça-chave do processo de transformação do estádio em grande arena que atrairia investidores.  

ATENÇÃO TOTAL  

Portanto, o Bruno Daniel não poderia ser repassado ao Santo André seguindo o modelo convencional da totalidade de clubes que dependem de praça esportiva pública, inclusive para levar adiante o plano da SAF, ou seja, a transformação em clube-empresa.  

Trabalhei perto de cinco anos com Felipe Cheidde como assessor eventual, sem obrigação de atuar no dia a dia.  

Felipe Cheidde sempre se comportou como gentleman com este jornalista. Tratou-me com desvelo. Mal passava dos 30 anos e ele me colocara como amigo-profissional à altura dos cerca de 30 amigos contemporâneos com os quais se reunia em seu escritório.  

Cada amigo de Felipe Cheidde tinha o nome registrado naquela imensa mesa retangular. Eram plaquetas de metal. Conferia a cada um deles lealdade absoluta.  

ALGUMAS MENSAGENS  

Não mais falei com Police Neto desde aquele almoço. Trocamos mensagens por WhatsApp em várias oportunidades. Dei-lhe tempo para que oferecesse uma resposta prática à questão do Estádio Bruno Daniel.  

Sei que sei que fracassou a ideia de privatização ou parceria que remetesse ao modelo do Alianz Park e Pacaembu. Police Neto deve ter descoberto a diferença entre Província e Capital. De Gata Borralheira e Cinderela.  

Felipe Cheidde me procurou naquele começo de 1985 ao saber que estava deixando o Diário do Grande ABC. Estava havia 15 anos na então Rede Globo do Grande ABC. Passara por todos os cargos, a partir de repórter esportivo.  

TOPO CORPORATIVO  

Cheguei ao topo do Diário do Grande ABC, abaixo apenas de um dos fundadores e diretor de Redação Fausto Polesi. Estava no comando operacional da Redação. Uma manchete do Diário daqueles dias fazia a diferença de público no Estádio Bruno Daniel.  

Não enveredo nos motivos de minha saída. Teria de envolver memórias que mexeriam com profissionais que já passaram deste plano.  

Em seguida, fui contratado pelo Grupo Estado, para trabalhar na sucursal do Grande ABC, em Santo André. Já atuava como freelance havia mais de 10 anos, sempre cobrindo agendas esportivas.  

CONVITE INESPERADO  

Felipe Cheidde me convidou quase que simultaneamente. Não acreditei no que ouvi do outro lado da linha. Felipe Cheidde foi sempre criticado por este jornalista. Reprovava atuação dupla como  presidente e técnico do Esporte Clube São Bernardo.  

Considerava um absurdo a cumulatividade que entendia personalista. Felipe Cheidde quase levou o time à Divisão Principal de São  Paulo. Chegou à finalíssima. Torci por ele e pelo São Bernardo, ainda no Diário do Grande ABC. Muito antes do convite, portanto. Ou seja: não transformei a crítica em negação às virtudes de liderança que Felipe Cheidde exercia.  

Police Neto se recusou a responder a algumas questões que lhe formulei nesta semana, a respeito da saída de Santo André. Queria não mais que algumas informações. Não forcei a barra.  

BURACO ABERTO  

Acho que Police Neto vai fazer falta à gestão de Paulinho Serra. Aliás, o próprio prefeito admite isso. O dinamismo do novo reforço de Tarcísio de Freitas, dentro da cota de Gilberto Kassab, é contagiante.  

Falam que Police Neto também fez trapalhadas na Prefeitura. Não duvido. Faz parte do cardápio indigesto de agente público dar com os burros nágua. A máquina pública é intrincadíssima.  

Felipe Cheidde me transformou em conselheiro pessoal. Passei muitas tardes na mansão do Parque  Anchieta. Todos os sábados os amigos de Felipe Cheidde se reuniam à beira da piscina.  

Sobravam picanha de um anfitrião pioneiro em enfrentar um Lula da Silva ainda longe de ser o Lula da Silva de depois. Até livro  Felipe Cheidde escreveu ou mandou escrever sobre denúncias de corrupção envolvendo o depois tripresidente da República. Não participei da obra.  

CASSAÇÃO CANTADA  

Não me metia na atividade político-partidária de Felipe Cheidde. Era um consultor estratégico, por assim dizer. Tanto que o avisei a tomar cuidado com o que poderia vir de Brasília em represália à recusa em assinar a Constituição.  

Lia nos jornais e sabia que poderia haver tratamento de choque liderado por Ulisses Guimarães. Não deu outra. Felipe Cheidde avesso à Brasília deixou de ter Brasília no cartão de apresentação. Outros dois deputados também foram atingidos. Eles tinham a mania de não comparecer a Brasília. Mais que outros poupados por Ulysses Guimarães.  

Acho que o ex-secretário Police Neto, ao ler estas linhas, deveria me ligar e pedir desculpas. Não custa nada.  

Mais que isso: ao pedir desculpas, com a educação que parece não lhe faltar, poderia perguntar a este jornalista qual é o plano que estaria disposto a repassar ao governo Tarcísio de Freitas, ao qual já me referi nesta revista digital.  

PLANO FANTÁSTICO  

Diria a  Police Neto que podemos conversar pessoalmente. O plano é fantástico, modéstia às favas. Coincidentemente, tem tudo a ver com a área que passará a ocupar no governo estadual. 

Tenho saudade da finesse, da elegância e da generosidade de Felipe Cheidde.  Ele sabia que havia um limite ético entre os serviços sazonais que lhe prestava, e minha atividade jornalística.  

Adiantei a Felipe Cheidde que jamais escreveria qualquer matéria para o Estadão ou o Jornal da Tarde que envolvesse a política de São Bernardo, arena em que predominava sobretudo nos bastidores. Jamais fez  qualquer pedido em sentido contrário.  

MUITAS HISTÓRIAS  

Tenho muitas histórias para contar sobre Felipe Cheidde, mas muitas mesmo. Não é hora nem lugar. Só posso adiantar que aquele jovenzinho já com experiência jornalística de duas décadas, começando que comecei aos 15, jamais se sentiu um estranho no ninho naquela mesa retangular com placas de  identificações pessoais metálicas de lealdade ao chefe, a quem todos beijavam a face à entrada e à saída dos encontros. Felipe Cheidde puxava uma cadeira e me colocava a seu lado, na cabeceira.  

Talvez a maior diferença entre Felipe Cheidde e Police Neto seja mesmo os costumes, os valores e a cultura mutantes em algumas décadas.  

Lembro-me perfeitamente da frase que disse a Felipe Cheidde nesta noite memorável de sono interrompido. “Você está ótimo, está bonito, com a pele irrepreensível. Só falta passar um batom nos lábios e ir para a Avenida Industrial” – brinquei. Em seguida, cinco da matina, liguei para o filho Felipinho e reproduzi a frase.    

Tenho muita saudade do meu passado, da experiência que ninguém toma. Na cama com Felipe Cheidde e Police Neto não é e jamais seria uma experiência hedônica como estar na cama com Madonna, mas é extraordinariamente pedagógica.



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