Sociedade

Desindustrialização é a
palavra maldita da região

DANIEL LIMA - 13/02/2023

Um dos sintomas mais preocupantes da fuga da realidade que o Grande ABC repetidamente expõe é o constrangimento generalizado quando se fala em desindustrialização.  

Desindustrialização é uma palavra maldita entre  mandachuvas e mandachuvinhas. Mas não só entre eles.  

De maneira geral, desindustrialização é uma palavra que transpira heresia. Está para a psique regional assim como os raios do sol para os vampiros.  

Alguns preferem formulação mágica para fugir do enquadramento objetivo do significado de desindustrialização. São passadores de pano que frequentam altas rodas do poder. E não cansam de quebrar a cara, embora em muitos casos a cara seja a parte do corpo que menos importa.  

HORA DE ATACAR  

Acho que está na hora de produzir alguns textos sobre como o processo de desindustrialização do Grande ABC afetou o coletivo de uma sociedade que jamais admitiu o estrago até que o estrago não fosse mais contestado por gente séria.   

Acreditem os leitores que os idiotas de plantão que sempre negaram e ainda negam a desindustrialização do Grande ABC obtinham glórias do entorno de aplausos fáceis. Já os poucos que alertavam sobre os riscos já consumados eram tratados como derrotistas.  

Responsável que sou por introduzir Economia no jornalismo regional, a partir da função até então desprezada de Editor de Economia no Diário do Grande ABC, passando por repórter na sucursal do Grupo Estado e, finalmente, e agora consolidadamente, ao criar a revista LivreMercado, em março de 1990, sei o que passei e ainda de vez em quando passo ao lembrar que iniciamos trajetória de fragilidade econômica a partir seguramente dos anos 1980.  

MARCO INICIAL  

Esse marco inicial é consequência da chegada do movimento sindical em sincronia com a guerra fiscal. Daí em diante foi uma catástrofe que se agrava até estes dias. 

São tantos os aspectos pessoais, coletivos, institucionais e regionais que me levaram a estudar profundamente o fenômeno da desindustrialização que não ouso, como de vez em quando faço neste espaço, instalá-los num compartimento professoral, de pontos mais destacados.  

Vou adotar um outro viés, o de escrever hoje e em outros dias da forma que mais achar conveniente tendo conexão direta com o processo de desindustrialização e seus efeitos contaminantes.  

Poderia falar horas sobre todos os pontos que aprofundam as análises da desindustrialização no Grande ABC.  

Estivesse numa praça que não fosse provinciana, acho que ganharia a vida só com palestras. O guarda-chuva da desindustrialização é enorme.  

LABORATÓRIO NACIONAL  

O Grande ABC é o maior laboratório nacional de despreparo ao enfrentamento do fenômeno. Por isso come o pão que o diabo amassou. Afinal, não aprendeu até agora. 

Comecei a desconfiar de que a situação já não era lá essas coisas nas fábricas durante as três temporadas em que acumulei funções jornalísticas à organização da Copa Industria de Futebol. Cuidava praticamente de tudo sozinho. Foram três anos memoráveis.  

Na medida em que as equipes substituíam jogadores por causa de demissões ou de terceirizações, sempre com explicações sobre o movimento no chão e nos gabinetes de fábricas, comecei a detectar o problema. Isso era o começo dos anos 1980. Muito antes de criar a revista LivreMercado.      

MAIS DESCOBERTAS  

Em seguida, no Estadão e no Jornal da Tarde, peças principais dos produtos da sucursal do Grupo Estado em Santo André, fiz dezenas de textos com empresas da região, sobretudo industriais. Também encontrava as mesmas mudanças no quadro de trabalhadores. Por trás de cada case de sucesso havia mudanças radicais no modelo de gestão. O desemprego já se pronunciava como busca desenfreada por produtividade.  

Havia latentes cortes de trabalhadores. A revista LivreMercado foi o terceiro e profundo estágio de prospecções por conta de um ritual de cases de empreendedorismo de todos os portes. Dei integração editorial ao que produzia como colaborador do Grupo Estado.  

Vivemos à frente de LivreMercado/CapitalSocial repercussões imediatas da quebra de trabalhadores nas fábricas.  

Somente nos anos 1990 foram mais de 100 mil empregos industriais para o chapéu. Não havia apenas possíveis evidências de desindustrialização. Havia selvagem constatação de desindustrialização.   

LINHA INABALÁVEL  

A sociedade empresarial que fiz com o Diário do Grande ABC em abril de 1997 (sete anos depois de com cara e coragem criar LivreMercado)  foi dolorosa no sentido editorial, embora discretamente tratada entre os interessados.  

A linha editorial de LivreMercado, concebida e sustentada por este jornalista, jamais fugiu um milímetro sequer do roteiro de responsabilidade social. Desindustrialização era um dos pontos-chave porque difundia grandes transformações econômicas e sociais em combinação com o desembarque maciço de corporações nas áreas de comércio e serviços.  

Havia entre representantes do Diário do Grande ABC quem abominasse a linha adotada desde a primeira edição de LivreMercado. Não preciso dizer que perderam tempo com pressões. O Diário do Grande ABC jamais serviu de benchmarking da linha editorial econômica, muito menos quanto ao roteiro tenebroso de desindustrialização. Isso vale até estes dias.  

SEM TUTELA  

O que separa CapitalSocial/LivreMercado do Diário do Grande ABC em todos os tempos no campo de cobertura econômica é que jamais ficamos reféns de terceiros, sempre assumimos postura analítica e nunca nossa publicação serviu de palanque a demagogias de fontes de informação suspeitas.  

Apesar de todos os pesares, com perseguições daqui e dali contra o uso da palavra maldita, seguimos em frente na caminhada de CapitalSocial/LivreMercado.  

O acumulado de quase mil textos desta revista digital que fazem referência central ou suplementar à desindustrialização, desde 1990, é a prova provada de que desindustrialização como um dos pilares da publicação suportou todas as investidas panglossianas.  

MAIS DE MIL  

Como existe vácuo de cinco anos de captura de textos da revista de papel LivreMercado a serem transportados para esta publicação digital, calculo que há muito ultrapassamos a marca de mil vezes desindustrialização neste endereço resistente a qualquer tentativa de manipulação --  mesmo que subjetiva.  

Insisto neste texto em chamar desindustrialização de desindustrialização, embora pudesse utilizar algum sinônimo (esvaziamento industrial, descentralização produtiva), porque é preciso insistir no choque de comunicação. Mandachuvas e mandachuvinhas precisam deixar o berço esplêndido. Devem, portanto, colocar o dedo na ferida de uma chaga que empobrece a todos. Não contamos com variante econômica de porte para reduzir os prejuízos causados pelo fenômeno. 

PREFEITOS PERDEM  

Os atuais prefeitos da região e seus antecessores a partir da criação do Clube dos Prefeitos, também Consórcio Intermunicipal, perderam sucessivas oportunidades de iniciarem mandatos desfraldando a bandeira de combate à desindustrialização. Temeram ser chamados de alarmistas.  

Todos, infelizmente, preferiram a omissão. Ou seja: ao invés de brados que os conduziriam a um atestado de imunidade dos fracassos do passado de antecessores, decidiram tomar a estrada do triunfalismo, da negação.  

Acabaram se dando muito mal. Muitos lhes imputam, injustamente, o crime da mala da desindustrialização que vem de longe. A parcela de cada prefeito atual deve ser repartida entre os prefeitos dos últimos 30 anos, pelo menos. E de forma proporcional.  

Quanto mais tempo prefeito, mais prefeito negacionista da desindustrialização será qualificado. 

ROTEIRO CAMICASE 

O feitiço da palavra desindustrialização e seus efeitos psicossociais talvez seja a melhor explicação para o roteiro camicase adotado por todos os prefeitos eleitos no Grande ABC desde 1990, quando desindustrialização já era patente nas páginas de LivreMercado/CapitalSocial. LivreMercado/CapitalSocial tinha a conduzir suas páginas na realidade dos fatos já comprovados estatisticamente. 

Faço apenas a ressalva de que o único prefeito nesse período que sentiu a necessidade de impor resistência à constatação de que desindustrialização existia de fato na região foi Celso Daniel.  

Tanto é verdade que ele pretendeu estabelecer um pacto regional pelo fim da guerra fiscal no setor de serviços e dotar a região de um projeto que trataria a atividade como agregadora de valor em substituição ao Valor Adicionado industrial. Foi traído na cara dura pelos demais prefeitos no Clube dos Prefeitos.  

Celso Daniel era tão permeável a mudanças que ouviu deste jornalista a proposta de criar a primeira secretaria de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, em Santo André, durante a campanha eleitoral de 1996 que o levou à Prefeitura. Cumpriu a promessa. Mais que isso: entregou a pasta a um representante do setor privado.  

BURACO PERMANENTE  

Outros prefeitos até que tentaram alguma coisa, contaram com a colaboração de gente do ramo industrial, mas jamais tornaram política de governo o que era iminentemente política de governo e de regionalidade.  

Sem sistemática ação de combate à desindustrialização, mesmo que o resultado final  seja frustrante, mas não tão escandalosamente pronunciado, seguiremos à deriva em Desenvolvimento Econômico.  

Acho que deveria existir entre os tomadores de decisões e formadores de opinião do Grande ABC uma cruzada contra a desindustrialização, tornando o uso do verbete desindustrialização carro-chefe de marketing. A medida mostraria à  sociedade que já não existiria mais na praça a Síndrome de Avestruz.  

GATA BORRALHEIRA  

Quem sabe seria o início de um despertar de combate a outra enfermidade sociológica que nos abate, o Completo de Gata Borralheira, outra temática de regionalidade exaustivamente analisada nestas páginas – aliás, a própria marca é deste jornalista para provocar reação das instituições, ao invés de mutismo acovardado.  

Provavelmente muitos leitores de CapitalSocial, que não viveram o Grande ABC das duas últimas décadas do século passado, não têm ideia esclarecedora do significado de desindustrialização como palavra-expressão que sintetize o histórico de conformismo dos mandachuvas e mandachuvinhas, incapazes de um bom combate. 

Mandachuvas são agentes públicos e privados que se aproximam entre si para instaurar o que chamaria de institucionalidade municipal e também regional. Envolve centenas de profissionais de várias áreas. 

Mandachuvinhas giram no entorno dos mandachuvas, tanto no setor público quanto privado e a sociedade como um todos. 

Os vasos comunicantes sociais entre mandachuvas e mandachuvinhas formam na sociedade um extrato que pode ou não pode provocar transformações ao longo dos anos.  

SEM REAÇÕES  

No Grande ABC dos últimos 30 anos, não há nada que identifique algo que fuja do critério avaliativo de acomodação, compadrio, deixa- ficar-para-ver- como- fica, essas coisas.  

Antes disso, nos anos 1970 e 1980, tivemos disruptura com o movimento sindical que todos conhecem, enquanto o outro lado, o lado do capital privado, expressivamente familiar, foi para a cucuia, tantas eram as diferenças que os separavam.  

O Grande ABC viveu por cerca de 30 anos uma beligerância entre capital e trabalho que se assemelha, em termos ideológicos, ao que temos no Brasil de agora. Só faltaram as redes sociais.  

PECADO CAPITAL  

Desindustrialização é uma palavra transbordante em pecado capital, do qual todos querem distância.  

Desafio os leitores a procurarem no google e em outros mecanismos de busca da Internet agentes locais que confiram à desindustrialização preocupação comprovadamente urgente.  

Sim, desindustrialização é um verbete que está nas ocultas paradas de sucesso há várias décadas e difere da essência de paradas de sucesso exatamente porque é antagônica na disputa por audiência. Desindustrialização é uma parada de sucesso às avessas, por assim dizer. Quanto menos se encontra na boca de quem deveria proferi-la permanentemente, mais se agrava.  

ACADÊMICOS TAMBÉM 

Claro que nessa história toda não faltam acadêmicos a desfilar bobagens semânticas para tentar enganar o distinto público.  

Na maioria dos casos, ao negarem não só o uso da palavra desindustrialização, mas ao rejeitarem o próprio processo de enfraquecimento das fábricas, quer em forma de deserções, quer em forma de extinção, esses acadêmicos não objetivavam outra coisa senão proteger o movimento sindical das barbaridades cometidas.  

Embora entenda que o Fórum da Cidadania foi o maior movimento coletivo já vivido no Grande ABC e que poderia ser ainda maior e consistente não fosse o desperdício temático excessivamente amplo, quem sabe estaríamos em situação menos grave hoje na economia se a abordagem naquele 1994 já claramente desindustrializado fosse o foco direcionado exatamente à queda da riqueza produtiva? 

É logico que estou especulando e forçando a barra. Afinal, o apelo à construção do Fórum da Cidadania era mais apropriado à situação da região naquela metade de uma década perdida. O fortalecimento da representatividade política da região era a pedra de toque após o lançamento da campanha Voto no Grande ABC. 

A desindustrialização, mesmo não admitida publicamente pelos participantes, era o pano de fundo inescapavelmente envergonhado e ameaçador.  



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