Sociedade

Muito cuidado com o que
você consome nos jornais

DANIEL LIMA - 16/02/2023

Conselho de quem está na batuta da informação há milênios: cuidado com o que você consome nos jornais. Quando digo “nos jornais”, quero dizer em todas as fontes de informações. “Os jornais” de papel são mais preocupantes porque formam a base da pirâmide da escalada de credibilidade. Ou de descrédito ao abastecerem as demais mídias.  

O Consórcio de Imprensa uniformizou a cantilena discriminatória aos inimigos da democracia, como propagaram.  

Desconfio dos jornais que consumo. E acho que os leitores devem desconfiar também.  

Vou mais longe: desconfie de todos os jornalistas, inclusive deste jornalista.  

Ao desconfiar de todos e exigir de cada um princípios éticos, você exercitará cidadania da informação.  

OBRA DIFERENTE  

Poderá, com isso,  aferir conhecimentos encaixados ou não nos pressupostos de informações robustas ou fajutas. 

Em 2002 escrevi o livro “Meias-Verdades (“como usar a mídia para vender ilusão”). Estou preparando material que poderá gerar uma segunda versão, com novo título, da experiência que coloquei no papel naquela oportunidade.  

A situação mudou completamente. Os apontamentos não perderam senso de oportunidade e de catequização rumo a uma leitura mais crítica dos consumidores de informação, mas a prioridade é outra.  

Hoje vivemos tempos em que o nexo vai muito além de contradições inconciliáveis. Vivemos tempos de manipulação descarada, de mentiras cabeludas, de protecionismos deslavados, de partidarismo declarado e de ideologismos contraproducentes.  

VELHA IMPRENSA VELHA  

A Velha Imprensa está desmoralizada não necessariamente porque instaurou  ambiente de guerra santa contra um então presidente boca-dura e desastrado na questão da pandemia. A Velha Imprensa está desmoralizada porque não soube calibrar o certo e o errado, dotada que é de interesses múltiplos e descredenciadores  junto a uma sociedade agora mais exigente, porque conta com referenciais bons e ruins das redes sociais. 

A Velha Imprensa (com todas as ramificações conhecidas na mídia digital) não soube acompanhar os novos tempos tenebrosos mas também esclarecedores de informações porque sempre agiu e continua a agir com arrogância. Acha-se a cereja do bolo na hierarquia de confiança quando, de fato, está ao rés do chão.  

Os leitores não imaginam quantas páginas de jornais (principalmente da Folha de S. Paulo, que sigo como assinante de papel, enquanto do Estadão passei a ser assinante exclusivamente digital) já separei, depois de codificá-las, reservando-as  a eventual nova incursão por um livro que seguiria a trilha de Meias-Verdades.   

CASOS INDEFENSÁVEIS  

A Folha apresenta casos insuportavelmente indefensáveis. Sim, insuportavelmente indefensáveis porque chegar à constatação de que acabei de ler uma notícia típica de panfletagem transmite sensação de perda de tempo. E de indignação.  

Dedico meu dia todo a uma profissão que abracei há 300 anos. Sou um estúpido. É claro que isso exige sacrifícios pessoais e familiares, além de profissionais.  

Mas é uma aventura à qual me dedico com prazer. Conhecer o mundo em que vivemos é algo que não tem preço. Viver sem saber o mínimo sobre o que me insere entre oito bilhões de habitantes me tornaria vazio.  

REDES SOCIAIS  

O jornalismo impresso brasileiro já foi muito menos decepcionante. Já se fez jornalismo impresso no Brasil com a certeza de que a maior parcela dos textos estava ancorada no interesse público.  

Hoje são poucas as garantias de que o bem-comum está na prateleira preferencial das publicações. 

Como escrevi no Planejamento Estratégico Editorial que entreguei à direção do Diário do Grande ABC em 2004, como condição de assumir a Direção de Redação, não há pecado algum em se estabelecer um concerto (com “c” mesmo) com as forças vivas de uma sociedade e se trabalhar intensamente na direção pré-estabelecida. Inclusive com a companhia da classe política.   

O interesse público, sobrepondo-se aos interesses em geral, seria a salvaguarda a uma revolução informativa. E continua a ser.  

VÍCIOS CONSUMADOS  

Pena que ninguém se empenhe nesse sentido na Velha Imprensa. E tampouco nas alternativas que surgiram em forma de tecnologia digital.  

A Velha Imprensa é corporativa, partidária, ideológica e pragmática. A sociedade é apenas um pano de fundo surrado.  

Pensei em dar alguns exemplos neste texto da matéria-prima central que abasteceria o novo livro que poderia escrever e que, repito, iria muito além de “Meias-Verdades”.  

Deixei de lado quem sabe para outra ocasião porque é preciso definir um conceito mais ajustado para que se entenda o detalhamento da proposta. 

MUITO PIORES  

Como ex-ombudsman oficial do Diário do grande ABC e ombudsman extraoficial da mídia impressa em geral, além de perdigueiro que não deixa em paz os institutos de pesquisa, digo e repito que leitor inteligente não deve acreditar necessariamente nos jornais impressos, plataforma da cadeia alimentar do ecossistema de informação. 

Os jornais de papel estão cada vez piores porque perderam muita gente qualificada e, mais que isso, entraram numa enrascada econômico-financeira que minou a resistência a cantos da sereia principalmente da classe política.  

Há jornais impressos de tamanhos distintos e de circulação específica que não enganam mais, mas ainda falta muito para que a sociedade em geral desconfie ainda mais. 

MEDICAMENTO SOCIAL  

As redes sociais são o medicamento mais adequado à exposição de interesses pouco republicanos porque as redes sociais são uma barafunda de esclarecimentos e também de desinformação que, contraditoriamente, estimulam consultas dos consumidores a distinguir alhos e de bugalhos.  

Vou reproduzir abaixo um dos textos do livro “Meias-Verdades” e que, portanto, dá o tom do espectro editorial pelo qual optei ao preparar aquela obra lançada diante de centenas de convidados em Santo André.  

Verificarão os leitores que o contraponto (o livro é exatamente isso, contrapontos a textos publicados em vários jornais) se prende exclusivamente a especificidades da temática em questão. 

Essa premissa, hoje em dia, se perde, embora seja relevante, ante a conflituosidade de abordagens permeadíssimas de interesses que fogem à lógica de jornalismo propriamente dito.   

MUITA MUNIÇÃO  

Tanto no período anterior à Meias-Verdades como agora, tenho a me garantir sustentabilidade informativa milhares de páginas de jornais, selecionadas, atualizadas e dobradas da silva, como matéria-prima irrefutável.  

A Folha de S. Paulo destes tempos não sabe o que tenho de munição para repetir incansavelmente: trata-se de um veículo raivoso, parcial e acima de tudo ancoradouro do que existe de pior em forma de futuro para a sociedade. Mas isso também não reduz a importância da publicação, inclusive com muita qualidade de colunistas convidados que socorrem o esfacelamento da Redação propriamente dita.  

Agora, acompanhem um dos textos de “Meias-Verdades”, de 2004. E não me perguntem qual seria a marca de um possível livro sobre a Velha Imprensa destes dias. Há tantas variáveis que é melhor esperar. Lixo não seria justo, porque há gente competente no mercado.   

 

Fatiamento de estudos

dá margem a equívocos 

 DANIEL LIMA - 01/04/2003 

 

 Trechos de matéria em O Estado de S. Paulo de 27 de outubro de 2001 sob o título “IBGE revela que indústria está fortalecida”: 

A indústria brasileira está mais competitiva e mais forte, após um longo período de ajuste entre 1985 e 1999. Essa é a opinião do chefe do Departamento de Indústrias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sílvio Salles, ao comentar os resultados da Pesquisa Industrial Anual referente a 1999, divulgada ontem pelo órgão. Ele atribui o fato ao processo de abertura da economia à concorrência internacional iniciada nos anos 90. “Há muita discussão se a abertura deveria ser rápida e sem programação ou se deveria buscar alguma forma de ordenar o processo. O fato hoje é que o setor conseguiu se adaptar e se fortaleceu”, disse. 

A pesquisa do IBGE mostrou que a indústria está vendendo mais, empregando menos e reduzindo o peso da folha salarial nos custos totais. Outro dado relevante é que no período de 14 anos houve aumento de 21% no número de empresas industriais, que totalizavam 117.838 unidades no fim de 1999. O pessoal ocupado caiu 8,8% e somava 5,003 milhões de trabalhadores, com queda de 480 mil postos em relação a 1985. 

Entre 1985 e 1999, a indústria brasileira ficou menor, com a média de pessoal ocupado por empresa caindo para 42,5 funcionários, o que representa decréscimo de 25%. Em 1999 as grandes empresas respondiam por 36,8% do pessoal ocupado, contra 25,4% das médias e 37,8% das pequenas. Em 1985 essas participações eram de 48,3%, 25,1% e 26,7%.  

MEU CONTRAPONTO 

É praxe entre economistas enxergar apenas algarismos e, insensivelmente, destrinchá-los à revelia do quadro socioeconômico. Trata-se de tradição que pesquisadores encastelados no poder manobram com a competência de sempre e a contrapartida da omissão editorial também de sempre.  

Bastaria um trabalho complementar de redação, acrescentando dados sistêmicos ao emaranhado de números do IBGE, para oferecer um contraponto ao tecnicismo da instituição federal de pesquisas. 

O IBGE de guetos de estudos que invariavelmente não se cruzam oferece à mídia desorganizada e despreparada menus de todas as espécies. Quando confrontados, esses menus paradoxalmente se anulam e se completam.  

Um exemplo é que poucos meses depois do anúncio de que a indústria brasileira estava nadando de braçadas, o próprio IBGE, em janeiro de 2002, divulgava em entrevista coletiva que o setor produtivo foi o mais duramente atingido pelas transformações econômicas. Perdeu 27,8% de pessoas ocupadas entre 1991 e 2001 — portanto, num período inferior ao anteriormente proclamado como fortalecedor da indústria. 

A queda da qualidade do emprego industrial nem de longe passou pela preocupação do anúncio do economista do IBGE em outubro de 2001. Interessava-lhe apenas a banda da suposta eficiência empresarial. 

Entre 1991 e 2001, reflexo da descomunal abertura econômica do País sem a trava de segurança de contrapartidas comuns entre países do Primeiro Mundo, os empregos com carteira assinada caíram de 79,49% para 66,50%, ou seja, 16,3%.  

O trabalhador por conta própria dentro da população ocupada, que cresceu de 20,1% em 1991 para 23,1% em 2001, mais que dobrou na indústria, segundo o IBGE, pois passou de 4,1% para 9,57% entre 1991 e 2001.  

O emprego sem carteira assinada na indústria também avançou demais no período, passando de 11,58% do pessoal ocupado para 18,52%, um crescimento de 60%. 

Todos esses números colocam em xeque a política de abertura econômica do Brasil, se assim pode ser chamada a aventura de jogar para escanteio todos os ensinamentos da literatura de competitividade entre as nações.  

Entre outras lições, o manual do bom comportamento industrial recomenda que o rebaixamento de alíquotas não é uma brincadeira de parque de diversões.  

Não é atirar setas num alvo qualquer sem se preocupar com as consequências que tanto podem ser perda de uns trocados como a conquista de um souvenir geralmente inútil. 

Abrir intempestivamente as porteiras às importações e ao capital internacional sem avaliar as repercussões sociais não é algo que possa ser batizado como política de fortalecimento industrial. 

Dias antes da divulgação dessa nova pesquisa do IBGE, que sufoca os estudos anteriores de grandiosidade desenvolvimentista, a consultoria norte-americana Towers Perrim veio a público para anunciar levantamento em 26 países com empresas que registravam faturamento anual acima de US$ 500 milhões.  

Uma das conclusões: a contração econômica mundial arrastou o salário de operários de chão de fábrica a níveis baixíssimos, com quedas de até 25% na renda trabalhistas em alguns países, mas em nada alterou o holerite de presidentes e diretores de multinacionais.  

O fato foi constatado no Brasil e em países como China, Japão e França. O levantamento da consultoria norte-americana mostra que operários da linha de produção de 18 países, entre os 26 analisados pelo estudo, perderam até um quarto da remuneração. 

A pesquisa estritamente numérica anunciada pelo IBGE ao final de 2001 igualmente não faz qualquer referência à guerra fiscal.  

Um buraco sem tamanho, considerando-se que a descentralização industrial do País entre 1985 e 2000 — portanto, o mesmo período da pesquisa do IBGE — provocou forte migração de empregos.  

De novo, os dados são do IBGE: a busca por menores custos levou indústrias intensivas em mão-de-obra a deixarem a Região Sudeste, que perdeu 8,8 pontos percentuais (caindo de 66% para 57,2%) de participação no número de ocupados no período.  

A queda foi superior à fatia da região no valor total produzido no Brasil, de 71,2% para 66,1%, ou cinco pontos percentuais. 

Outra deficiência na notícia de suposto fortalecimento da indústria nacional é o tratamento tópico e universalizado dos números, desconsiderando-se as nuances de cada Estado e também setoriais.  

Ao espalhar sob um mesmo plano o comportamento da indústria nacional, o IBGE incorreu na generalização, inimiga número um do específico, que por sua vez é aliado preferencial da compreensão. 

A definição conceitual de que a indústria nacional se fortaleceu no período analisado pelo IBGE, com base nos dados apresentados, é extremamente perigosa e indutiva de interpretações caolhas.  

Recente estudo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior sobre a situação competitiva das 20 principais cadeias industriais brasileiras e os impactos a que estão sujeitas nos acordos com União Europeia e Alca revela que o mar não está para peixe, como tentou fazer crer o IBGE. 

Segundo o documento, o eventual fechamento de acordos para formação da Alca ou liberalização comercial com a União Europeia implica no que os pesquisadores denominam de quatro agrupamentos de ameaça.  

Dezessete das 20 cadeias produtivas equivalem a 53% do faturamento da indústria brasileira, 63% das exportações e 67% das importações. Essa elite empresarial cresceu em média 3,8% ao ano — num processo de expansão da desnacionalização com a participação do capital estrangeiro no faturamento — e saltou de 35,86% para 51,76% entre 1996 e 2000.  

De 18 cadeias produtivas (saúde e tecnologia foram excluídas), 10 tiveram balança comercial deficitária entre 1996 e 2001 na soma geral dos negócios com a União Europeia, num saldo negativo total de US$ 32,9 bilhões, descontado o superávit das demais cadeias produtivas. 

O calhamaço de mais de mil páginas das 20 cadeias industriais separa as atividades em quatro grupos: empresas que sofreriam menores ameaças com a liberalização comercial, as com sérias deficiências competitivas e que são cronicamente deficitárias, as em que as oportunidades de negócios e as ameaças seriam localizadas ou se anulariam e, finalmente, as empresas com forte participação na chamada corrente de comércio.  

Neste último grupo a maioria é deficitária, mas predomina o comércio entre as próprias empresas, intrafirma, como é o caso da indústria automotiva. 



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