A existência de sociedade organizada no Grande ABC é tão factível quanto a bola é quadrada, a terra é plana, a desindustrialização uma bobagem e tantas outras avaliações sem pé nem cabeça de racionalidade.
Somente industrializadores de fake news ou de um otimismo autofágico têm a petulância de proclamar que o Grande ABC é uma sociedade organizada.
O Grande ABC não é apenas uma sociedade desorganizada, como também é uma sociedade sequestrada por grupos de interesse.
Onde o prevalecimento social de mandachuvas e mandachuvinhas se cristaliza, a meritocracia conjugada à responsabilidade social, auge da democracia representativa, vai para o saco.
Quem diz e repete que o Grande ABC é uma sociedade organizada está no limite da insensatez, da ignorância, da petulância e da extravagância autista. Nada justifica a propagação de falsidade tamanha.
PIOR QUE PAÍS
Assim como o Brasil, de maneira geral, não existe sociedade organizada no Grande ABC. O problema do Grande ABC é pior que o problema nacional porque a sociedade desorganizada aqui é muito mais desorganizada que no conjunto do País.
As redes sociais tendem, num primeiro estágio temporal de impactos e ajustes, como o atual, a agravar a situação. Já escrevi sobre isso. A despersonalização da identidade regional já frágil é o descarrilamento total de sociedade já desorganizada.
Não existe um único caso comprovado de sociedade organizada no Grande ABC. Houve situações específicas de ensaios que deram lufadas de otimismo. Caso da criação do Fórum da Cidadania, em meados dos anos 1990, e, em seguida, da criação da Câmara Regional de Desenvolvimento Econômico.
Há inúmeras situações e casos que comprovam que a sociedade é estruturalmente desorganizada no Grande ABC.
MUITOS BURACOS
O Grande ABC de alguns iluminados transforma interesses específicos de grupos que se apropriaram da cidadania pálida em ações supostamente relacionadas à sociedade organizada.
São ilusionistas ou seriam de fato farsantes deliberadamente direcionados a perpetuar iniquidades sociais e econômicas locais?
Sociedade organizada para valer transformaria os chamados ouvidores das prefeituras em representantes de um conjunto de moradores comprometidos com a realidade das relações entre poderes públicos e contribuintes, também consumidores, também eleitores.
A sociedade desorganizada não está nem aí com os ouvidores das prefeituras porque acha que esses servidores escolhidos a dedo são de fato seus representantes ou sabe exatamente que a operação em questão não passa mesmo de atacar o superficial e deixar o essencial de lado, transformando-o em modus operandi sub-repticiamente aprovado pelo conjunto da população.
Sociedade organizada para valer mesmo teria interesse em saber como funciona em cada cidade da região essa equação mais que abusiva de cobrança contínua de impostos municipais como o IPTU de métrica conceitual defasada e de valores atualizados faça chuva ou faça sol de intempéries econômicas.
MAIS BURACOS
Sociedade organizada de fato não ficaria silente, muito menos desconheceria, agressões econômicas aviltantes como a queda de 20% do PIB Regional nos anos de 2015-2016, comparado a 2014, durante o governo Dilma Rousseff. Nesse período, no País como um todo o índice da debacle não chegou a 8% no acumulado, o que já é um escândalo.
Sociedade organizada que honrasse a expressão atuaria incisivamente no questionamento da atuação individual e coletiva de supostos representantes na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, cobrando-lhes frequentes prestações de conta e, mais que isso, um plano estratégico vinculado a um plano geral da região. Não temos uma coisa nem outra.
Sociedade organizada que não fosse um desvirtuamento de marketing requenguela marcaria um encontro regional com todos os prefeitos e exigiria a presença de representantes do governo do Estado para aparar as arestas dos enormes prejuízos causados pelo Rodoanel na busca por alternativas que atenuem as perdas futuras.
Sociedade organizada para valer exigiria das autoridades públicas um plano de ocupação das áreas reservadas aos sistemas de transporte BRT e Metrô, conjugando acessibilidade e Desenvolvimento Econômico para impedir nova facada no tecido regional, após a comprovação dos estragos provocados pelo Rodoanel.
CETICISMO É MELHOR
Poderia sem exagero dar mais de uma centena de exemplos que mais que questionar, provocariam a dinamitação dessa estupidez midiática de chamar de sociedade organizada o que não passa de sociedade desorganizada à mercê de falastrões políticos e sociais que não buscam outra coisa senão ingressar ou permanecer nos pelotões de interesses localizados.
Quem tomar a iniciativa de fazer uma projeção otimista de quando poderemos atingir o grau mínimo de sociedade organizada em paralelo comparativo com a sociedade brasileira como um todo certamente não escaparia à conclusão de que o ceticismo é o melhor caminho. Otimismo não caberia.
Sair do menos zero é muito mais difícil do que de alguma coisa próxima do zero. O menos zero diz respeito ao Grande ABC.
Aqui somos uma sociedade multidividida e amorfa há muito tempo. Multidividida pela emancipação dos municípios que integravam no começo do século passado um Grande ABC de fato, não metafórico.
Não bastasse o municipalismo como espaço prioritário dos moradores, chegamos ao estágio seguinte de divisionismo entre capital e trabalho.
REGIÃO DIVIDIDA
A ruptura que o Brasil experimenta nos últimos anos com os chamados extremismos, em substituição ao jogo de cena de uma falsa contraposição entre esquerda e centro-direita que jamais existiu, essa ruptura se deu com o movimento sindical.
Sem juízo de valor específico sobre o movimento sindical neste momento (já expus juízos de valor ao longo dos tempos) a ruptura se estabeleceu porque se encontrou terreno fértil para tanto.
As grandes montadoras protegidas pelo Estado criaram um mundo especial que liquidou com as pequenas indústrias por força também de pressões sindicais que botavam no mesmo saco de gatos exigências uniformes. Tratar igualmente desiguais é o caminho da perdição.
ORFANDADE LETAL
Fosse me dedicar a um texto mais abrangente, certamente precisaria de muito mais tempo e espaço para qualificar e dar dimensão mais precisa à ausência de sociedade organizada no Grande ABC, em grau mais deletério que no País.
As relações entre capital e trabalho e o emancipacionismo municipalista fazem parte das raízes mais profundas, tanto quanto a proximidade da cinderelesca capital a nos impingir escravagismo psicossocial.
Quem confunde movimentos previamente destinados a preservar ou estabelecer vantagens grupais ou individuais com a essência de capital social, que vem a ser a estrutura básica de sociedade organizada, quem faz isso, portanto, é um estúpido, um idiota, um maquiavélico por natureza e safadeza ou está num degrau muito além de raciocínio lógico, enfeitiçado, quem sabe, por um amor platônico com a região.
A orfandade institucional integrativa do Grande ABC é um campo aberto a farsantes do momento como o foi do passado. Gente que fala em nome da região apenas e unicamente fermentado por ambições pessoais e profissionais.
MASSA DE MANOBRA
Sociedade desorganizada é massa de manobra semântica para vender gato por lebre. Elogiar a sociedade desorganizada, atribuindo-lhe homogeneidades progressistas, é uma fórmula de enganação geral e irrestrita.
Acabei de verificar nos arquivos de CapitalSocial e constatei que já há 66 textos que fazem referência à expressão “Sociedade desorganizada”, ante 63 que tratam de “Sociedade organizada”. Há textos justapostos.
O que fiz diante dessa descoberta? Ora, capturei o primeiro desses textos, de 2015. Portanto, há oito anos.
Faço questão de reproduzir o material integralmente. Estava (como verificarão os leitores) atuando como ombudsman oficial do Diário do Grande ABC, função que exercia pela segunda vez. A primeira foi em 2004, antes de assumir a direção de Redação. Hoje não passo de um ombudsman não-autorizado do Grande ABC como um todo.
Vejam o que escrevi há na edição de junho de 2015. Acho que vale a pena.
Diário alça desativação da Basf
à manchetíssima. Novos tempos
DANIEL LIMA - 02/06/2015
Para os leitores terem uma ideia do quanto minhas funções no Diário do Grande ABC como espécie de ombudsman e consultor são uma ponte estreitíssima em que a ética deve prevalecer sempre, voltei àquela redação após 10 anos e ali permaneci durante uma hora e meia. Tempo suficiente, fosse meu trabalho o que imaginam muitos, para tomar conhecimento antecipado da manchetíssima do dia seguinte. Mas, assim como todos os leitores, só tive acesso ao assunto quando recebi um exemplar em minha residência, hoje de manhã.
Estar com a cúpula da Redação – Sérgio Vieira, Evaldo Novelini e Beto Silva – e também com a diretora Elaine Matheus, não me autoriza a ser abelhudo.
Só tomo conhecimento do que vai sair nas páginas do Diário do Grande ABC como assinante da publicação. E isso é ótimo. Estou naquela empresa como agente cultivador de maratonas, não de corridas curtas.
Escrevi tudo isso para dizer que sai da redação do Diário do Grande ABC ontem no começo da noite disposto a escrever mais um capítulo sobre desindustrialização na região.
Primeiro, abordando uma verdade que precisa ser repassada a todos sem malabarismos semântico ou factual: a introdução do temário “desindustrialização” na agenda de 10 pontos viscerais que o Diário do Grande ABC imprimiu em supereditorial de primeira página em 11 de maio último, quando completou 57 anos de circulação, foi do diretor de redação Sérgio Vieira.
Ele assim o propôs durante uma reunião no sétimo andar daquela empresa juntamente com o presidente Ronan Maria Pinto e a doutora Elaine Matheus, além deste jornalista.
Embora nenhum outro profissional de comunicação tenha se metido tanto na selva da raquitinização da indústria de transformação da região, subi às alturas quando ouvi da boca de Sérgio Vieira a pronúncia de um verbete maldito durante décadas naquele jornal.
ROMPENDO GRILHÕES
Embora não fosse a primeira vez sobre o controle acionário de Ronan Maria Pinto e o controle editorial de Sérgio Vieira que o Diário do Grande ABC registrava o verbete, já que apareceu em algumas matérias antes daquela reunião, e também em editoriais, a proposta de inserir de forma tão explícita aquela vicissitude econômica numa espécie de carta-compromisso da publicação foi surpreendente.
A iniciativa de Sérgio Viera foi aprovada primeiro com a troca de olhares dos interlocutores, depois manifestadamente. O Diário rompia, naquele instante, grilhões que o prendiam ao passado ditado por forças estranhas à redação e à direção corporativa.
A manchetíssima da edição desta terça-feira do Diário do Grande ABC (“Crise faz Basf acabar com unidade em São Bernardo”) seria impensável em outros tempos. Principalmente durante o longo período em que a influência publicitária na linha editorial do jornal era pronunciadamente nociva à credibilidade da informação entre leitores mais exigentes.
QUINTA MARCHA
O que quero dizer com isso, ao me referir à manchetíssima de hoje, como se outras manchetíssimas já não dessem esse indicativo de fertilidade moral e ética, é que o Diário do Grande ABC não parece recuar da decisão de engrenar uma quinta marcha em busca de uma regionalidade que não depende somente de suas páginas, é claro.
É a sociedade desorganizada – que o jornal ainda insiste em chamar de sociedade organizada, quando de fato há apenas grupos organizados e na maioria dos casos maliciosamente mancomunados entre si – que terá de, mais que dar um aval de confiança total aos insumos da publicação, colocar a mão na massa e ajudar na reconstrução da institucionalidade regional.
CENTENA DE TEXTOS
Quando sai da redação do Diário do Grande ABC ontem quase noite voltei ao meu escritório para cavoucar a expressão “desindustrialização” no acervo digital desta publicação. Queria saber quantas das matérias que constam dessa montanha invisível de textos, que o mecanismo de busca desvenda, referiam-se ao tema de forma substantiva ou tangencial.
Posso estar redondamente enganado, mas duvido que esteja e sou até capaz de apostar: nenhuma mídia impressa ou digital da região coleciona número tão expressivo de matérias que pelo menos cita o termo “desindustrialização” quando se trata do território desta Província.
DESINDUSTRIALIZAÇÃO
Com este texto, nada menos que 310 se referem ao assunto. Isso mesmo: 310. Desse total, quase a metade está na editoria de “Economia”, com 142 matérias. A primeira das quais, aliás, simboliza uma luta de décadas deste jornalista para convencer a sociedade regional de que a pujança industrial que veio do passado, principalmente como a chegada das montadoras de veículos, estava a desmoronar.
“Que mentira que lorota boa...”, de 5 de março de 1998 (portanto há quase duas décadas) é a mais antiga da rubrica de “Economia”. Trata de uma das muitas escaramuças nas quais me envolvi com agentes públicos falastrões, contratados para enfeitar um pavão que já não tinha tantas penas.
O leitor que pretenda acessar o texto em questão deve direcionar o clique para o mecanismo de busca desta revista digital e digitar todo ou apenas parte do título mencionado.
Embora aquela matéria tenha simbologia especial, entre outras razões porque é antiquíssima na abordagem do esfarelamento contínuo da indústria regional, descubro mais abaixo no resumo do verbete “desindustrialização” que a tecnologia me oferece que um pouco antes disso, na editoria de “Regionalidade”, em marco de 1997, sob o título “Futuro do Grande ABC pertence à sociedade”, uma Reportagem de Capa da revista LivreMercado, produzida por este jornalista.
MALDITA PALAVRA
A palavra amaldiçoada está ali várias vezes para espicaçar comodistas, triunfalistas e vagabundos sociais, políticos, econômicos e sindicais que fizeram de tudo durante muito tempo para esconder os troços malcheirosos que a debandada de empresas, quando não o sucateamento e o desparecimento, provocou no tecido regional.
Convém lembrar que a origem do termo “desindustrialização” no sentido de enfraquecimento da economia regional, não como negação desse fenômeno, como sempre o fizeram principalmente os acadêmicos, remonta a tempos ainda mais idos, mas cujas matérias de LivreMercado, que dirigi por duas décadas, ainda não foram integralmente transpostas a esta revista digital.
VOTO DE CONFIANÇA
A manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje representa, portanto, mais que um voto de confiança dos leitores mais exigentes, como eu, a uma publicação quase sessentona e que, nos últimos tempos, decidiu rasgar a fantasia da enrolação que forças estranhas à redação, localizadas em esgotos éticos e morais, procuraram estender aos seus domínios editoriais, alcançando certo sucesso, para desgraça da sociedade desorganizada.
O Diário da manchetíssima da fuga de mais uma empresa da região é o Diário que todos esperam encontrar a cada dia na soleira da porta de casa ou na banca de jornal.
Somente o choque anafilático de realidade nua e crua poderá recolocar a região na trilha do desenvolvimento econômico. Outras publicações locais, que fingem que nada está a encharcar o barco à deriva, que saiam do imobilismo.
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