Em média, no Grande ABC, há 27 negócios para cada grupo de 100 moradias. Nos últimos 30 anos a situação tem-se agravado. O que temos é excesso de pequenos negócios de sobrevivência de comércio e de serviços para uma população órfã da desindustrialização.
A combinação de desindustrialização e nordestinização é o pior dos retratos da região outrora de ampla, geral e irrestrita mobilidade de classes sociais.
Miserável virava pobre, pobre virava classe média baixa, classe média baixa tinha sonhos e condições de virar classe média-média, classe média-média tinha um passo adiante como classe média alta que, por sua vez, sonhava com fundamentação em virar classe rica.
O que temos desde muito tempo é uma reversão de expectativas e resultados. A roda da mobilidade social gira para trás, ou em algumas situações gira para a frente sem que a situação altere o resultado final. Nesses casos, vigora uma câmera-lenta atropelada por outros territórios mais dinâmicos.
MUITO MAIS RICOS
Nos tempos de fartura de emprego industrial, de crescimento continuado do PIB Geral, o Grande ABC contava relativamente com mais ricos e mais classe média.
Desde muito tempo perdemos tanto no critério relativo quanto em números absolutos. Uma dupla queda.
Ou seja: temos menos ricos e menos classes médias na soma das famílias como também quando essas mesmas famílias são contrapostas às demais famílias de classes sociais menos nobre.
Quem não se der conta de que vivemos o pior dos mundos para quem vivia num pretendido primeiro mundo, como era o Grande ABC até os anos 1990, quem não se der conta disso vai continuar praticando estelionato de todas as tipologias possíveis. De estelionato midiático a estelionato público.
NORDESTINIZAÇÃO
Foram nos anos de 1990 que escrevi pela primeira vez sobre nordestinização. Não encontro nada parecido no Google sobre esse verbete direcionado a questões socioeconômicas.
Com muito esforço encontrei algo semelhante (nordestinação, não nordestinização) no campo político, sobre o avanço do PT na região Nordeste do País.
Nordestinização, portanto, pode até ser uma invenção etimológica minha, sempre no campo socioeconômico, mas isso não me importa e nem é importante.
Trouxe essa palavra-chave que reproduz o Grande ABC dos últimos 30 anos de uma das raras viagens que fiz, avesso que sou a avião e também à direção de veículos de quatro rodas.
DESCENDO A LADEIRA
Conheci algumas capitais do Nordeste nos anos 1980 e me assustei com o excessivo universo de pequenos negócios geralmente familiares. Dividiam espaços com residências.
Quando percebi, nos anos 1990, conhecendo a periferia do Grande ABC, o avançar de empreendedorismo a qualquer custo tomando espaços entre residências, subindo o morro, descendo a ladeira, infiltrando-se nos bairros nobres, não tive dúvida: estávamos mesmo frequentando em alta velocidade o desfiladeiro da raquitinização econômica.
Pudera, pudera: só nos anos 1990 foram para o chapéu do desemprego industrial mais de 100 mil trabalhadores com carteira assinada. Uma hecatombe provocada pela abertura dos portos durante o governo Collor de Mello e completada com as reformas causadas pelo Plano Real durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
MAIS COMPLICAÇÕES
Pior que isso: quando se deu aquela tragédia de desemprego industrial e muita gente procurou subsistência nos setores de comércio e serviços, começaram a desembarcar na região os grandes conglomerados também de comércio e serviços que, juntamente com shopping e supermercados, agravaram a disputa por consumidores. Uma tempestade perfeita.
Protegido pelo Estado que dava cobertura subsidiada às montadoras de veículos, o Grande ABC dos anos 1990 se viu fragilizadíssimo. Mal-acostumado e dividido por um sindicalismo beligerante, jamais encontrou o rumo da recuperação. E segue, por isso, descendo na escala de valores de riqueza. Dilma Rousseff impulsionou gravemente tudo isso.
FAZENDO AS CONTAS
Em abril do ano passado (dados mais recentes) a Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini, detectou junto a fontes oficiais do governo federal que o Grande ABC contava com 320.778 empreendimentos de todos os tamanhos. De MEI (Microempreendedor individual), passando por ME (Microempresário) até chegar às demais configurações societárias.
Desse total, 271.980 constavam dos setores de comércio e de serviços, nos quais se localizam as vísceras da nordestinização.
Ou seja: 84,78% dos negócios formais do Grande ABC pertencem às duas categorias mais vulneráveis de empreendedorismo. E a grande maioria consta de negócios individuais ou de baixíssima empregabilidade, casos dos MEIs e dos ME.
Não faltam consequências sociais, econômicas e também psicológicas, por assim dizer, diante de tanta transformação.
MUDANÇA DRÁSTICA
Saímos de uma sociedade de emprego industrial abundante, prevalecente e altamente remunerador para uma sociedade terciária decadente, na qual restaram apenas 22% dos trabalhadores com carteira assinada no setor de transformação.
Não é pouca coisa contar com 27 empreendimentos de comércio e de serviços a cada 100 residências. O Grande ABC registra em números redondos com um milhão de moradias, 3,4% das quais habitadas por famílias de classe rica. Éramos mais que o dobro até os anos 1990.
Os pobres e miseráveis chegam a 20%. A classe média também foi reduzida. A classe C, que um dia o PT chamou de classe ascendente e símbolo de crescimento do País, vive de catar lata no sentido figurado da expressão.
PREDOMÍNIO RUIM
Interessa menos nestas alturas do campeonato regional uma espécie de ranking para detectar a realidade específica de cada Município no campo de empreendedorismo fortemente de subsistência.
O conjunto da obra é claramente indutor a conclusões que não são catastróficas, mas flertam com futuro inquietante.
O predomínio de Microempreendedores Individuais e de Microempresários nos setores de comércio e de serviços sobrepõe-se à catástrofe da canibalização de negócios em forma de excesso de ofertas e retração de demanda por causa da queda do PIB.
Dos 271.980 empreendimentos de comércio e de serviços do Grande ABC, que representam aqueles 84,78% de todas as atividades, 226.286 estão juridicamente enquadrados como Microempreendedores individuais e Microempresários. São, portanto, 83,20% específicos dessas duas categorias.
OUTRA CONTA
Vou fazer outra continha para o leitor entender a gravidade do caso de empreendedorismo de resiliência e de nordestinização no Grande ABC outrora rico e poderoso: de cada 100 negócios de todos os tipos e tamanhos existentes no Grande ABC, 70,54% se enquadram na categoria de Microempreendedores Individuais e Microempresários.
Toda essa gente é gente sofrida e que por ser sofrida provavelmente tem percepção social diferente do que imaginam acadêmicos que vivem em gabinetes a construir teorias revolucionárias nas quais o Estado Todo Poderoso é o centro de tudo. Olhe que não estou contando agentes públicos e agentes privados bem nutridos que extrapolam estupidamente o mundo de sucesso em que vivem ao restante da população economicamente ativa ou torturantemente ativa.
O drama destes tempos de apressamento geral e irrestrito, dominado pelo pragmatismo acelerado por tecnologias que ao mesmo tempo em que aproximam afastam interlocutores, o drama destes tempos é que ninguém tem tempo para cuidar do futuro inclusive com o respaldo empírico do passado.
ESTÁGIO-BRASIL
O Grande ABC chegou ao estágio do Brasil que somos. Há semelhança entre o nível de empreendedorismo de subsistência no Grande ABC e no Brasil como um todo. Aqui somos 84,79% de negócios nos setores de comércio e serviços, enquanto no Brasil há arredondados 80%.
O que nos coloca em desvantagem ambiental, ou seja, na detecção do quanto perdemos referenciais de sucesso e de perspectiva de qualidade de vida, é que partimos de um ponto de largo predomínio de classes sociais mais próximas do que se chamaria de ascendência constante e demos uma marcha-a-ré permanente e ainda irrefreável.
VIÉS ESTATISTA
Esse encontro de águas médias com os índices brasileiros é a constatação de uma tragédia. O Brasil jamais deixou de ser um fracasso social, fermentado por especialistas em apontar a pobreza como elemento-chave de Mais Estado.
Leio diariamente dezenas de colunistas de mídias digitais e impressas de todas as temáticas. Há predomínio daltônico de viés socialista da pior espécie.
Entrega-se às forças acomodatícias, quando não deletérias do Estado, o farol de Desenvolvimento Econômico e Social. Uma burrice sem tamanho quando se sabe que democracias mais modernas ao longo da história chutaram a escanteio essa modalidade de usurpação da liberdade individual.
Quando o Estado se mete em tudo até o empreendedorismo privado se desmoraliza. Exatamente porque o Estado em suas três dimensões não exerce a função de planejamento.
SALTO TRIPLO
O Grande ABC de nordestinização crescente é um caso de tríplice derrota do Estado malversador. Um salto triplo em direção ao caos social.
Primeiro, não soube como reagir aos contragolpes da guerra fiscal e do sindicalismo que impactaram o capitalismo protegido das montadoras de veículos.
Segundo, deixou ao deus-dará a ocupação do território por milhares de desempregados e por uma corrente migratória que só neste século criou uma nova São Bernardo na região.
Terceiro, porque fechou os olhos (quando não premiou com vantagens comparativas) à invasão dos bárbaros dos grandes conglomerados comerciais e de serviços.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS