Sociedade

Água Santa e Santo André,
modelos a serem evitados

DANIEL LIMA - 10/04/2023

Torci pelo Palmeiras ontem e pelo Santos em 2010. Não torço para nenhuma dessas duas equipes entre as grandes do futebol brasileiro. Deixei de torcer para o Santo André em 2010 e pelo Água Santa ontem. Sou provavelmente um dos maiores regionalistas do País. Todo mundo sabe. Como se explica tamanha contradição?  

A explicação é simples: detesto em qualquer setor de atividades humanas a modelagem autocrática, de mandachuvas soberanos. Por mais que tenham virtudes e liderança, porque eles têm mesmo, não suporto a ideia e muito menos a prática de que sejam exemplares a serem seguidos. O autocrata não tem limites civilizatórios. 

Geralmente quem se submete a lideranças mandonas esquece que os mandachuvas são tomadores de decisões egocêntricas. Compartilhamento no sentido de coletivismo é coisa rara. Quando o fazem é porque são mandachuvas mais espertos.  

ALMA NAS CHUTEIRAS  

O Água Santa tem uma direção autocrática tanto quanto tinha o Santo André da final do Campeonato Paulista de 2010 diante do Santos. O Santo André campeão da Copa do Brasil em 2004 era outra coisa. Como o Santo André de agora. Mas querem que o Santo André de agora vire o Santo André de mandachuva. 

Perder para o Palmeiras ontem por quatro a zero não é desonra ao Água Santa. A equipe de Diadema foi além das próprias qualidades. Passou nos dois matamatas anteriores contra o São Paulo e o Red Bull Bragantino na bacia das almas. Ganhou nas cobranças de penalidades máximas, depois de dominada no tempo regulamentar.  

O Água Santa da finalíssima de ontem só chegou à finalíssima de ontem porque jogou com a alma na chuteira, deu pontapés, mostrou organização tática para ficar quase todo o tempo atrás e explorar contragolpes.  

SANTO ANDRÉ MELHOR 

Mas o Água Santa de ontem não poderia servir de exemplo para o Água Santa do futuro e do futebol, embora seja uma ponte de potencial pertencimento aos moradores de Diadema, imensamente formados de migrantes em busca de um barco de identidade popular.  

O Santo André de 2010 era um time muito mais qualificado que o Água Santa de ontem e dos jogos anteriores. Comparar já é um crime. O time dirigido por Sérgio Soares era uma máquina de jogar futebol. Só perdeu o título em dois jogos de resultados invertidos de três a dois porque o Santos tinha Neymar e Ganso entre outros craques.  

O São Caetano foi campeão paulista no ano anterior diante de um time então médio, o Paulista de Jundiaí. Título é uma coisa, futebol é outra. O Santo André do vice-campeonato de 2010 é o melhor time da região deste século na competição estadual. Em nível federal, perde para o Santo André da Copa do Brasil.  

O São Caetano poderia ser o melhor entre todos, mas fracassou na final da Taça Libertadores. Títulos fazem a diferença desde que a diferença técnica seja marcante.  

SEM TORCIDA  

O Santo André de 2010 não contou com minha torcida. Quem contou com minha torcida foi o Santos. Do começo ao fim. Não é fácil torcer para o Santos e para o Palmeiras contra equipes da região, mas torci porque nenhuma das duas equipes da região deve servir de exemplo para o futuro.  

O Água Santa de agora e o Santo André daquele 2010 conta e contava com um chefão circunstancial da bola. Não gosto de chefões da bola. Futebol é muito importante para abrir mão de institucionalidade. Qualquer time que se submete a chefões da bola estão sob forte risco. Um dia o barco vira. 

Institucionalidade é a parcela que apoia a equipe não apenas numa circunstancial decisão de campeonato. É a construção de uma história, com altos e baixos, vitórias e derrotas, com gente participando ativamente da organização da equipe.  

Gente que tenha relação direta com a sociedade. Gente que tenha representatividade social entranhada.  

Nem o Santo André de 2010 nem o Água Santa de agora contava e conta com isso.  

PASSADO IMPORTANTE  

O Água Santa pode dar um salto em direção ao futuro graças ao presente construído aos trancos e barrancos de resultados surpreendentes dentro de campo.  

O Santo André de 2010, período em que estava privatizado pelo Saged, empresa que contou com um presidente autoritário e que se perdeu na grande oportunidade que teve para virar um clube-empresa para valer (agora tem a SAF abortada pelo prefeito Paulinho Serra) o Santo André de 2010, repito, era um puxadinho das organizações do presidente que se impôs contra um bando de investidores que se calaram o tempo todo.  

Um dos graves problemas do Grande ABC é que o passado é sepultado como se não houvesse existido.  

O passado do Santo André mal privatizado, dominado pela autocracia, precisa ser lembrado em ocasiões como essa em que se cruza com o presente de outra agremiação, no caso o Água Santa de Diadema.  

TRAJETÓRIA PETISTA  

É importante ressaltar que uma coisa não tem nada a ver com outra. Não se deve desconsiderar a campanha do Água Santa, mesmo quando se afirmar que seria uma aberração caso conectada com a do Santo André de 2010.  

Mas o Água Santa foi um time de guerreiros que, mesmo com exageros em determinados lances, fez uma Diadema que sempre respirou política entender que futebol também pode existir como marca da cidade.  

Mesmo que seja uma modelagem que não engulo porque tudo que tem via única está sujeito a excessos e tantas outras aberrações na sociedade. 

Minha sugestão para que o futuro do Água Santa não seja tão decepcionante quanto a trajetória do PT de Diadema é que se abra à sociedade, que saia do corredor da morte da má-fama que os bastidores lhe impõe.  

Que seja um time da cidade para valer. Que o modelo de direção empresarial ditatorial se transforme em uma configuração em que a sociedade tenha espaço não apenas em disputas decisivas. 

FRACASSO RETUMBANTE  

O PT de Diadema é um fracasso retumbante depois de 40 anos de domínio político-partidário-ideológico. Mostrei isso numa minissérie em que esmiucei os dados econômicos e sociais da cidade. Diadema esborrachou-se numa falsa democracia petista. Consegue dar errado tendo muitas variáveis de competitividade econômica favoráveis, como a logística que nenhuma cidade da região desfruta.  

O Santo André depois da Saged jamais foi o mesmo. Saiu ferido de quase morte do controle empresarial mequetrefe em que se meteu. Um modelo que entregou a equipe na Sexta Divisão do futebol brasileiro, depois de, vejam só, levar a equipe à Série A do Nacional.  

O voluntarismo do Santo André de 2010 e do Água Santa de agora não interessa ao futebol das duas cidades. As manchetes festivas do passado e do presente viram estupefação no futuro. Um alucinógeno de investimentos que viraram pó.  

MELHOR POSSÍVEL 

Por essas e por tantas outras não peçam coerência de regionalista com o argumento de que deveria este jornalista ter torcido pelo Santo André em 2010 e pelo Água Santa. Longe disso. Acertei em cheio nas duas ocasiões. 

Da mesma forma que luto como um idiota contra determinadas supremacias opressivas na política regional (caso de Santo André, dominada pelo grupo que tem Paulinho Serra como prefeito), não posso transigir com minha consciência em qualquer área. É questão de coerência. Quanto não de decência.  

Quero o melhor futuro possível para o Água Santa e para o Santo André, além de outros times da região.  

O São Bernardo, por exemplo, tomou um caminho que precisaria de certa correção, de menos domínio empresarial e um balanço de sociedade na engrenagem que o move. Mas é um modelo distinto do Água Santa de agora e do Santo André do passado.  

E que o Santo André de agora, ainda convalescente do Santo André do Saged, não seja ainda mais prejudicado por interesses estranhos que se concentram no Paço Municipal. 

TÉCNICA E BRAVURA  

Tenho orgulho do futebol que o Santo André jogou na final de 2010 contra o Santos. Tenho orgulho da bravura com que os jogadores do Água Santa procuraram o sucesso no campeonato paulista de agora.  

Mas tenho muito mais satisfação ao constatar que aquele modelo de 2010 do Santo André tinha o componente anabólico que logo se dissiparia.  

Não seria diferente do Água Santa de agora se não cair a ficha que dá conta de que o futuro não se constrói da forma que vem se construindo desde que se meteu no profissionalismo em 2011. Institucionalidade é a palavra-chave.  

Quem tem institucionalidade pode até permitir determinadas inadequações, mas a institucionalidade sempre prevalecerá.  

Os grandes clubes internacionais não são santos na arena dos negócios do futebol, mas também não são o que são os times autocráticos sem representatividade no dia a dia. E representatividade está nas ruas, nos bares, nos clubes de serviços, nas empresas. É isso que falta ao Água Santa de agora. E o que faltou ao Santo André de uma privatização arrogante.  



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