Expliquei outro dia de forma pressupostamente didática os cinco estágios em busca de qualidade de vida com a prática de atividades físicas.
A tradução é algo “como colocar mais vida na vida”. Ou como diria Armando Nogueira, “como colocar mais vida nos meus anos”.
Prefiro, sem empáfia, minha máxima. Que seguiu o rastro da máxima mais conhecida e agora subjugada.
Colocar mais vida na vida é para poucos. E também para quem tem determinação, além de saúde, claro. Uma coisa leva à outra. Mas sem a outra não tem uma.
Colocar mais vida na vida é premissa desafiadora quando o tiro de largada é um tiro na cara.
Vamos recordar rapidamente os cinco ciclos de uma empreitada individual que visa melhorar as condições físicas, emocionais e por que não psíquicas de quem se exercita?
ANDAR
CAMINHAR
PEDALAR
ESTEIRAR
CORRER
Achava que tinha esgotado o receituário básico a terceiros que pretendem fazer de atividades físicas não necessariamente competitivas uma das razões de sonhar com envelhecimento produtivo e saudável.
Quem acha que vai envelhecer com saúde precisa tirar essa bobagem da cabeça caso deixe ao deus-dará providências para respaldar o corpo e a mente numa sincronia finíssima que se traduz também em equilíbrio psíquico.
SEDENTARISMO
O duro dessa peleja é que mesmo com tudo isso você pode incorrer no risco de ser chamado de maluco. Principalmente por sedentários que preferem movimentar à boca um copo de cerveja.
Eis que descobri uma sexta etapa de desempenho físico com repercussão geral, ou seja, na Providencialíssima Trindade de Pernas, Pulmões e Cabeça.
Descobri é força de expressão, porque não criei nada. O avanço é fruto de muita leitura também sobre como lidar com o corpo ao botar o corpo para se exercitar.
Li muito a respeito de tudo isso, mas estava me esquecendo do sexto ponto. Como pretendia manter a rima verbal das cinco etapas anteriores, procurei uma marca que se encaixasse num formato fonético.
Pensei tanto, mas não encontrava a resposta. Até que numa de minhas corridas reflexivas diárias, encontrei a palavra certa.
TIROS INTERMITENTES
Pela literatura que consumo sobre atividades saudáveis, existe alguns sinônimos que explicam o significado de “disparar”. Parece haver consenso identificativo mais popular. Seria “corridas intermitentes.” Também se usa a expressão “tiros intermitentes”.
Foi desse último que surgiu o derivativo “disparar”. Convenhamos que sou especialista nesse negócio. Tiro é comigo mesmo.
Do que se trata, afinal, “disparar” no sentido de atividade física? É uma corrida intermitente após a complementação do circuito de corrida propriamente dito. Ou seja: é a extensão da corrida normal de cada dia.
O que é corrida normal de cada dia? É estabelecer um plano cujo ritmo é algo como um exame cardiológico intocavelmente saudável. Corre-se em velocidade sincrônica com o cronômetro a cada volta do percurso definido.
MESMA TOADA
Não preciso consultar meu relógio mequetrefe de R$ 80 reais (um dos relógios do Lula vale mil vezes mais, que posso fazer?) que marca os segundos regularmente.
Não preciso consultar o relógio que aciono assim que dou o primeiro passo da corrida diária. Nem faço nada antes de encerrar a corrida, três voltas e perto de seis quilômetros depois. Basta apenas dar um chega prá-la na maquinaria de pulso para, ao congelar o tempo cronometrado, constatar, invariavelmente, o mesmo tempo final a cada jornada.
É impressionante como repito todos os dias no mesmo horário, independentemente da temperatura o mesmo tempo de todos os dias. Ando desconfiado de que o relógio está viciado.
SEM NARCISISMO
Repito que não monitoro minha corrida diária tendo a cronometragem como senhor do tempo. A cronometragem só serve de baliza à corrida diária como ponto de partida e ponto de chegada. Sem bisbilhotagem alguma durante o período.
Há corredores profissionais ou amadores que só correm porque querem conferir correndo o tempo corrido. Essa repetição de passos largos ou não, com compulsórios olhares no relógio, é narcisismo puro. Não sugeriria a ninguém. Quem está preocupado com o tempo perde tempo ao desprezar o relaxamento mental como matéria-prima de uma corrida rumo à qualidade de vida.
A graça de correr e de descartar o tempo corrido até que o último passo se consuma é saber que o tempo corrido é um espetáculo sem intervalos --- mesmo que seja um fortuito olhar no relógio.
Antes de revelar quando foi que decidi entrar com o mecanismo de “disparar” nas ruas do entorno da Cidade da Criança, em São Bernardo, onde corro diariamente, faça sol, não faça chuva, devo dizer que o percurso que faço não é fácil de ser feito.
Fiz uns cálculos de topógrafo que não sou mas que me meto a ser amadoristicamente para calcular a morfologia do circuito em que corro.
CONFIANÇA À DIREITA
Cheguei a uma conclusão baseada no sistema físico-sensorial constituído de olhômetro, pernômetro e pulmônicro. Nada melhor que contar com esse Triângulo das Bermudas físico para aferir o tamanho da encrenca. Defini que 70% do percurso é composto de aclives, ante o restante de declive e de terreno plano em proporções semelhantes.
O grande desafio de cada corrida diária no entorno da Cidade da Criança é que escolhi o trajeto mais difícil de cada dia e não o largo nem a pau porque sou insistente.
Faço a corrida no sentido da esquerda para a direita. Ou seja: saio de casa e pego o asfalto à esquerda e vou contornando à direita o parque infantil com fama nacional. Todo o percurso é nesse sentido. Me sinto mais confiante à direita.
SEM IDEOLOGIA
Quem imaginou alguma conotação político-ideológica pode estar enganado. Corro sempre à direita porque à esquerda do meu corpo ainda tenho aquele projétil a me tolher certos movimentos. Tenho um “ponto-cego” do lado oposto, ou seja, à direita. Para minimizar o raio de visão impactado, insisto em movimentos restauradores.
Quem não acreditar nessa história vai cair do cavalo da condenação arbitrária. No tempo suplementar do “disparar”, em novo trajeto, viro sempre à esquerda.
Sou hermafrodita ideológico, como já escrevi outro dia. A direita é de livre iniciativa e de liberdade e a esquerda de inquietação social. Capitalismo sem coração é barca furada. Socialismo com qualquer adjetivação é estupidez.
O roteiro mais difícil que decidi fazer é que nos dois momentos mais dramáticos da corrida, a saída propriamente dita e a reta de chegada, tenho de superar duas subidas de lascar.
E numa das duas descidas, uma no meio do percurso e outra curta, na chegada, não usufruo totalmente da vantagem de ladeira abaixo porque a ladeira é tão íngreme que exige cuidados para não me esborrachar.
ATENÇÃO REDOBRADA
Como se sabe, ainda tenho problemas corporais. Meu andar básico é de bêbado. Não posso vacilar um só instante. Minha mente tem de estar grudada no solo que piso. Evito calçadas porque há irregularidades que poderiam ser porta de entrada a acidentes.
Não posso nem pensar em sofrer uma queda qualquer. A vaca do equilíbrio ainda precário iria para o brejo de consequências impensáveis. Não sou um caminhão desgovernado. Mas também não tenho a estabilidade de uma Ferrari.
Correr para mim, como você pode notar, vai além de exercício previsível e ritmado. É também algo semelhante à travessia de uma ponte típica de filmes de Indiana Jones. Corro no entorno da Cidade da Criança porque enfrento poucos cruzamentos. Preferiria o terreno plano da Avenida Kennedy, mas há carros a tirar o sossego.
Antes de revelar detalhes sobre o que significa uma corrida em que entra em campo o conceito de disparar, quero lembrar que tenho um filho teimoso como alguém que conheço e que, ao saber o percurso que faço diariamente, insistiu em dizer que essa história de que sofria mais porque o percurso é regulado por 70% de terreno morro acima não tinha consistência cientifica.
TEIMOSIA DEMAIS
O filho teimoso da peste insiste que no fim das contas, ao encerramento de cada corrida, haveria rigoroso empate em termos de favorecimentos e prejuízos topográficos. Afinal, o ponto de chegada é o ponto de partida.
Talvez não o tenha convencido de que está enganado. Nem vou insistir porque, repito, ele se parece muito com alguém que conheço. O raciocínio dele só teria sentido caso cumprisse diariamente um percurso que obedecesse critério de reversão de rota. Ou seja: se o total de voltas fosse um número par, não ímpar. Mais que isso: que, de forma intercalada, à direita e à esquerda, cumprisse cada minietapa.
Como só corro obedecendo ao trajeto já explicado, e o trajeto já explicado é irreversivelmente desvantajoso como expressão de suposta igualdade, não me resta outra saída senão seguir em frente.
Não me vejo também fazendo a mesma corrida em sentido totalmente inverso para obter vantagem de 70% de declive e os demais 30% de subida ou neutralidade do terreno. Acho que mudaria as regras do jogo depois de o jogo iniciado.
Como já dedilhei quase 1,5 mil caracteres, está na hora de revelar o que é “disparar” no meu sentido de corrida como sexto estágio de qualidade de vida.
PILOTO AUTOMÁTICO
Disparar é, ao fim das três voltas no piloto automático, cansado de guerra, caminhar suplementares 50 metros, correr em ritmo muito mais intenso que o do percurso mais longo nos 100 metros seguintes, voltar a caminhar 50 metros, retomar a corrida de novos 100 metros em ritmo forte e repetir essa operação mais duas vezes cada. Pronto. Cheguei ao ponto que tanto queria.
Qual é a vantagem de “disparar” imediatamente após cumprir a etapa de corrida? Sinto algo como desintoxicação da musculatura. Quebra-se o monopólio da programação metódica de pernas que te quero de calibragem moderada, claro que acima de uma caminhada, mas abaixo do ponta-direita que é lançado em profundidade.
O “disparar” é o ponta-direita que corre atrás da bola num lançamento em profundidade e, em seguida, recompõe a marcação acompanhando o avanço sem bola do lateral adversário.
Chegar ao sexto estágio do circuito de qualidade de vida sempre obedecendo a lógica de preparação da musculatura e da mente para o aumento da capacidade de entregar o corpo, é a expressão máxima de uma ação persistente.
DORES COLATERAIS
Não se pode esquecer jamais que, no meu caso, comecei tudo (ou recomecei, porque estava em plena forma física antes do tiro) com um andar diário de dois mil passos na sala-copa de minha residência. Mal me mantinha de pé.
Aquelas pernas cambaleantes que passaram 40 dias usando uma cadeira de plástico para se sustentar no banho, começavam a reagir.
Como iniciei a fase do “disparar” há poucos dias, senti uma reação colateral da qual não fujo e vou continuar a enfrentar porque não se consegue nada sem insistência: meus músculos das pernas, malandros na comodidade de corridas previamente definidas sem arranques, reclamam de dores. Que se virem, que se virem, meus músculos.
Não vou parar de correr e em seguida de disparar porque meus músculos choram a perda do conforto de apenas correr. Pernas para que te quero.
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02/03/2026 MUITO CUIDADO COM OS MARQUETEIROS