Sociedade

Grande ABC vira ABC Paulista
nas páginas de CapitalSocial

DANIEL LIMA - 05/06/2023

Os leitores de CapitalSocial não vão ver mais Grande ABC nas páginas de CapitalSocial. A partir de hoje a expressão “Grande ABC”, geneticamente ligada aos fundadores do Diário do Grande ABC, sofrerá descontinuidade. Os criadores do Diário do Grande ABC adotaram a exuberante marca geográfica em substituição a News Sellers, como o jornal mais tradicional da região era conhecido.  

"ABC" Paulista passa a ser a nova marca a constar das páginas de CapitalSocial. Esperamos que a decisão seja temporária.  O Grande ABC é uma farsa de integração regional. É uma nau econômica sem rumo. É o fim da picada em regionalidade.  

Minha admiração ao quarteto fundador do Diário do Grande ABC. Entretanto, não posso fazer nada para continuar fingindo que somos cidades integradas.  

EXCEÇÃO À REGRA  

CapitalSocial era até hoje a única publicação da região a tratar a região com o manto motivacional e respeitoso de Grande ABC. As demais fazem usos variáveis que descartam Grande ABC. A mídia nacional prefere ABC Paulista.  

Nenhuma publicação é mais regionalista que CapitalSocial. Só não podemos fingir que somos Grande ABC. Se formos no futuro, voltaremos a ser Grande ABC. Nosso protesto tem data de validade insondável. 

A data de validade é a regionalidade que o Grande ABC jamais teve de fato; Uma trajetória dos anos 1990, com Celso Daniel no comando da Prefeitura de Santo André e criador de várias instâncias regionais, acreditamos que chegaríamos lá. 

CapitalSocial, extensão da revista de papel LivreMercado, que circulou no Grande ABC durante 18 temporadas, a partir de março de 1990,  tem o regionalismo como essência e cláusula pétrea. Nada será modificado por conta da supressão da expressão Grande ABC.  

DE VOLTA, QUANDO?  

Diferentemente disso. Como ainda acreditamos numa eventual reviravolta na malemolência institucional da região, estaremos sempre atentos à possibilidade de resgatar Grande ABC do léxico regional. 

A opção por ABC Paulista foi natural. Quase toda a mídia brasileira se refere ao ABC Paulista em tudo que se transforma em jornalismo. Nos meus tempos de Estadão e de Jornal da Tarde, seguia as regras da casa e utilizava a expressão que agora transfiro às páginas de CapitalSocial. 

O uso de “Grande ABC” tanto nas páginas de LivreMercado (revista que criei em março de 1990) quanto de CapitalSocial (que criei em 2001) demonstra durante todo esse período respeito profundo pelos diretores-fundadores do News Seller, jornal semanal que alguns anos depois se tornou Diário do Grande ABC. Foi uma sacada genial a nova marca adotada por eles.  

Entretanto, porém e todavia, o Grande ABC subjetivamente destilado na marca do jornal da Rua Catequese foi perdendo fôlego editorial ao longo dos anos, reproduzindo no papel o que se observava no ambiente regional divisionista, de municipalismo enraizado.  

DIÁRIO ATROPELADO  

O Grande ABC do Diário do Grande ABC foi atropelado editorialmente em 1990 com a chegada de LivreMercado. A publicação que criei adotou linha editorial, além de regional, comprometida com a econômica regional. 

 O Diário do Grande ABC jamais até então e na maior parte do tempo do que veio depois acertou o tiro da regionalidade no alvo de uma liderança de linha editorial que não fosse contaminada pelo oficialismo e o triunfalismo, quando não pelo negacionista da desindustrialização, anomalia que CapitalSocial apontou desde a primeira edição.  

Partindo-se do pressuposto de que a regionalidade é a alma dos sete municípios, e que regionalidade só se caracteriza como desafio a ser superado quando uma linha editorial se impõe como observatório e ombudsman da regionalidade, o sucesso de LivreMercado e de CapitalSocial é insuperável. E o fracasso do Diário do Grande ABC uma dura realidade.  

PARADOXO CONSTRANGEDOR  

O paradoxo da genialidade da concepção de uma marca futurista em confronto com o próprio abandono do território em que circula há mais de seis décadas transita num campo de decepções e desagrados, quando não de improdutividades.  

Dezenas de temas poderiam ser levados ao palco de comprovação tácita de que a regionalidade do Diário do Grande ABC e do Grande ABC como território de sete municípios não é a regionalidade defendida e intensamente inquirida, quando não exercitada, por CapitalSocial. Querem alguns exemplos mais que emblemáticos? 

1. Cadê as críticas ao sindicalismo bravio que, à parte o sucesso de retirar os trabalhadores da penumbra de cidadania, atuou de forma incisiva em favor da desindustrialização? 

2. Cadê os estragos calculáveis da chegada dos trechos oeste e sul do Rodoanel Mário Covas? 

3. Cadê as análises sobre a caótica logística interna do Grande ABC, especialmente em Santo André de uma Avenida dos Estados bajuladíssima e improdutiva? 

4. Cadê a capacitação técnica do Clube dos Prefeitos, um rodízio de prefeitos que se perdeu no tempo e em desavenças políticas? 

5. Cadê um planejamento estratégico regional para combater o empobrecimento mais que confirmado? 

6. Cadê uma ação determinante para incrementar o sentimento de regionalidade além de fronteiras municipais?  

NOVO MONOPÓLIO 

Isso que está exposto é apenas uma pequena parcela de demandas editoriais que CapitalSocial esgrimiu ao longo dos anos. E que estão consolidadas num arquivo de inconformismo e independência editoriais.  

O Grande ABC que a sociedade do Grande ABC ouviu falar, mas que não observa na prática é o Grande ABC desalojado a partir de hoje das páginas de CapitalSocial.  

A partir de amanhã teremos o monopólio de “ABC Paulista”. Exceto se houver um ou outro ato falho, possível pela força da história.  Não se tira uma roupa de engajamento incondicional a uma causa sem correr o risco de reuso inadvertido. 

A expectativa mais que otimista é que ABC Paulista seja apenas um período de breve duração ante a possibilidade de forças da região entenderem o que é regionalidade de fato e organizem qualquer coisa consistente que provoque entusiasmo geral seguido de mudança significativa.  

DESSERVIÇO SOCIAL  

Fora isso, manter Grande ABC integralmente como símbolo de junção de sete municípios no combate às adversidades e desafios destes tempos seria um desserviço à sociedade.  

Acredito que os fundadores do Diário do Grande ABC (Edson Danillo Dotto, Ângelo Puga, Fausto Polesi e Maury de Campos Dotto) aprovariam a decisão de CapitalSocial.  

Dois deles vivem e poderiam responder a essa questão, tendo-se como ponto de partida argumentativo a marcha-ré econômica e social, quando não cultural,  de uma região que eles viram crescer e se consolidar com território privilegiado do Brasil, mas que, antes mesmo de o novo século começar, iniciou trajetória de decadência só superada pela paupérrima compreensão do sentido de regionalidade.  

COMPROMETIMENTO  

CapitalSocial não duvida da possibilidade de, aqui e ali, resistir o exercício de retórica que possivelmente defenda que a fonte indutora de uma regionalidade jamais alcançada, no caso o Diário do Grande ABC, cumpriu a missão.   

Veicular informações dos municípios do Grande ABC não torna qualquer meio de comunicação regionalista. É o conteúdo que faz a diferença. Mais que isso: conteúdo que vá além da superficialidade, do convencional.  

No Planejamento Estratégico Editorial que preparei e apliquei no Diário do Grande ABC em 11 meses, entre 2004 e 2005, estão fundamentado os preceitos de regionalidade no interior de uma metrópole.  

Estudos que confrontam a região com outros territórios impactados por políticas públicas e também pela macroeconomia, por exemplo, determinam a distância entre o repasse de informações e a metamorfose de análises que atuam como plataformas de transformações. É disso que LivreMercado e CapitalSocial sempre trataram.  

SUBSTITUIÇÃO DOLOROSA  

Tomar a decisão de uma substituição que carrega potencial de expectativa de mudanças na região não foi fácil. Abandonar Grande ABC em favor de ABC Paulista custou e vai custar caro a este jornalista. 

 Pessoalmente, prefiro Grande ABC a ABC Paulista. Mas Grande ABC virou um obstáculo à sociedade regional. 

A expressão Grande ABC ganhou ao longo de décadas de crise econômica conotação de esnobismo, indiferença, arrogância e tudo o mais que sugeririam uma resistência incontida e desprezo ao senso crítico, a incursões alertadoras.  

Grande ABC virou argamassa de proteção à negligência institucional, à insensibilidade social, à cegueira política. Grande ABC virou um amontado de entulhos aos olhos críticos, mas aos olhos de oportunistas e interesseiros, quando não aos ignorantes, segue como obra-prima de poderio econômico.  

PORTEIRA ARROMBADA 

A porteira de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC foi arrombada há tanto tempo, mas há tanto tempo, que a simples relativização de dados estatísticos que comprovam a decadência soa à provocação. Chegou-se ao extremo da blindagem.  

Não faltam gestores públicos ardilosos na ânsia de demonstrarem superioridade diante dos pares da região utilizando-se entre outros ferramentais de fraudes informativas caudalosas.  

Grande ABC como instrumento de marketing de uma gestão pública é a perversão da realidade histórica e mesmo situacional.  

Pior ainda quando massa de manobra institucional, com a instrumentalização política ordinária de uma entidade como o Clube dos Prefeitos. Essa herança de expectativa renovadora deixada por Celso Daniel jamais, exceto tangencialmente em uma ou outra gestão, operou de fato com capacidade estratégica e operacional para liderar transformações.  

A decisão de retirar Grande ABC de CapitalSocial a partir de hoje e dar vazão à marca ABC Paulista foi decidida no final de semana.  

Utilizei para tanto a densa rede de leitores que constam de listas de transmissão de CapitalSocial no aplicativo de WhatsApp. Há listas específicas que facilitam a comunicação diária de CapitalSocial com parte de seus leitores. 

Antes de submeter aos leitores a proposta de retirada de Grande ABC, já havia decidido pela mudança. Foi sugestão de experiente consultor econômico levar aos leitores das listras de transmissão o critério de votação, em forma de enquete.  

Grande ABC e ABC Paulista competiram de forma desequilibrada. Nada menos que 75% dos manifestantes optaram por ABC Paulista. A proposta foi encaminhada sem juízo de valor preferencial ou discriminador.  

Não faltaram algumas propostas alternativas. Foram poucas essas propostas, mas de algum modo demonstraram entusiasmo pela mudança. Certo mesmo é que Grande ABC carrega passivo implícito nas respostas, embora tenha também despertado fidelidade.  

PT NO PRIMEIRO TEXTO   

Não custa lembrar que “ABC Paulista” não é novidade nas páginas de LivreMercado/CapitalSocial. A primeira matéria que trata a região utilizando essa marca foi publicada originalmente nas páginas do Jornal da Tarde, do Grupo Estadão, e de centenas de veículos impressos brasileiros em agosto de 1986 (portanto há quase 40 anos), quando retratei de forma inédita a gestão do petista Gilson Menezes à frente da Prefeitura de Diadema.  

Gilson Menezes foi o primeiro prefeito do PT eleito no Brasil. O Estadão adotava e adota como norma a expressão ABC Paulista.  

No total registrado no acervo digital de CapitalSocial, há 320 matérias que dão tratamento regional de ABC Paulista. Uma porção minoritária ante o total de mais de oito mil textos de CapitalSocial. E mesmo assim, em muitos casos, se trata da recuperação de algum texto ou trabalho acadêmico. Jamais ABC Paulista foi adotado deliberadamente por CapitalSocial.  

PRIMEIRA EDIÇÃO  

A revista LivreMercado, primeira edição, em março de 1990,  assumia a denominação “Grande ABC” como o espaço territorial, político, econômico e tudo o mais relativo aos sete municípios locais. 

Veja os primeiros trechos da análise sob o título “Esvaziamento industrial da região compromete poderio econômico: 

 O Grande ABC não está com a bola toda, como muitos imaginam, ou como considera uma parcela razoável de investidores nas áreas de comercio e de serviços. Se é verdade que nos últimos anos descobriu-se o filão dos grandes shoppings centers e das lojas de departamentos e as principais representações de serviços deslocaram baterias principalmente para o A e o B do ABC, não menos real que o esvaziamento industrial, ditado pelo crescente êxodo de grandes e medias empresas, acentua-se discreta e perigosamente. 

PRIMEIROS SINAIS   

Possivelmente qualquer estudo sério que se detenha sobre a mídia regional e que procure as vísceras originais de tratamento crítico à situação econômica, acabará por encontrar exclusivamente nas páginas de LivreMercado/CapitalSocial as respostas de que necessitaria para supostamente desvendar o enigma da desindustrialização.  

Mas o ensaio geral, a bem da verdade, foi exercitado por este jornalista durante os anos em que atuou na Agência Estado, sucursal em Santo André, alimentando principalmente o Estadão e o Jornal da Tarde.  

Entrevistei no período dezenas de dirigentes de empresas e lideranças de classe produtiva. Descobri ali os primeiros sintomas de enfraquecimento do tecido industrial do ABC Paulista. Quando criei LivreMercado, sabia exatamente o que faria. Ou seja: uma publicação que preencheria um vácuo editorial na região.  

O Diário do Grande ABC, de onde saíra pouco antes ao deixar a Editoria de Economia (depois de atuar na Editoria de Esportes e em seguida como chefe operacional de redação) só descobriu a economia do Grande ABC como insumo jornalístico relevante exatamente por conta do que deixei de estrutura editorial.  

Eram seis profissionais, ante apenas dois quando assumi o cargo. Mas longo, após minha saída, a Editoria de Economia voltou ao estágio anterior. Era pecado capital publicar textos que tinham empresas como foco de atuação. O movimento sindical era preferência geral.       

IDEIA SACRAMENTADA 

Foi praticamente por acaso, na última sexta-feira, que Grande ABC começou a deixar o campo de CapitalSocial e virou ABC Paulista. Numa mensagem que enviei aos leitores das listas transmissão de CapitalSocial no aplicativo de WhatsApp, um desses leitores, Celso Lima (sem parentesco com este jornalista), profissional que dirige a revista Unick, se manifestou. Veja a troca de mensagens: 

CapitalSocial – UFABC DOS OUTROS. Bem-vindo o presidente Lula da Silva à terra que o consagrou. Pena que os investimentos na UFABC não mudem a realidade regional. A UFABC é estranha no ninho regional. É universidade “no” Grande ABC, não “do” Grande ABC. 

CELSO LIMA – Essa palavra “grande” já não se remete mais ao ABC de outrora. Hoje podemos dizer que somos como nascemos. Apenas ABC Paulista. 

CAPITASOCIAL – Você me deu uma grande ideia. 

CELSO LIMA – É isso amigo. Estou aqui para elogiar e criticar e dar ideias.  



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