O doutor João da Costa Faria é um advogado muito conhecido em São Caetano. Ele atua pela Família Klein, especialmente por Michael Klein, há muito tempo. O que João da Costa Faria declarou ontem na reportagem publicada pelo Estadão sobre as denunciadas irregularidades cometidas pelo seu cliente contra o filho mais novo de Samuel Klein, o rei do varejo, não parece sinalizar estado de espírito tranquilizador ao cliente.
Traduzindo em termos populares, João da Costa Faria puxou a faca de respostas despropositadas para o caso traduzido em inquérito policial.
Nos morros e nos palácios, onde quer que seja, puxar a faca tem um espírito etimológico popular que condena o autor à derrota. Só puxa a faca, literalmente ou analogamente, quem está em situação desconfortável. Quem pode estar em desvantagem e se dá conta disso, mas precisa sugerir o avesso.
O inventário do homem que revolucionou o varejo nacional e que morreu em dezembro de 2014, com agora denunciadas alterações na composição acionária da Casas Bahia, parece caminhar para o sucesso do reclamante Saul Klein.
VAR EM CAMPO
A prova do VAR de que a bola do inquérito policial confirmaria a reclamação de Saul Klein provocou reação ácida de João Faria. Ele partiu para a desclassificação moral do adversário – ou seja, puxou uma faca de lâmina cega.
João da Costa Faria, o advogado experiente que São Caetano tanto conhece, teria dado um passo em falso. O caso que envolve o espólio de Samuel Klein não é questão de moralidade no sentido exposto por João da Costa Faria. É questão de Direito.
Trocando em miúdos e fugindo da linguagem excessivamente hermética do Código Processual, o que chama a atenção nessa disputa envolvendo os três filhos de Samuel Klein e o espólio de anunciados R$ 2 bilhões é que os golpes do primeiro round parecem o prenúncio do nocaute do primogênito Michael. Se não o for de fato, a reação do advogado João da Costa Faria teria sido pior que a encomenda.
Convém esperar os desdobramentos que virão. Desdobramentos que estariam, inclusive, em contas bancárias em territórios internacionais.
NO ESTADÃO
Para entender até que ponto o advogado João da Costa Faria se exasperou com a notícia de que Michael Klein está sendo levado a um inquérito policial até prova em contrário bastante indigesto, nada melhor que reproduzir trechos da reportagem de ontem do Estadão. Observem com atenção:
Procurada, a defesa de Michael Klein afirma que o pedido de inquérito “trata-se de representação improcedente, infundada e espúria”. Retrata a peça a execrável postura do representante, que não se peja em requerer a instauração de um inquérito policial, contra os seus irmãos e colocando em dúvida as assinaturas de seu próprio pai, renomado empresário, em documentos datados de 2013 e 2014, ou seja, há nove e dez anos atrás” --- escreveu à reportagem João da Costa Faria, do escritório Faria Advogados e Consultores de Empresas, representante de Michael.
MAIS ESTADÃO
Em seguida, mais algumas declarações do advogado de Michael Klein ao jornal Estadão:
Para se afastar, de plano, qualquer foro de veracidade, na fantasiosa peça, basta se alegar que o representado tinha, por desfrutar da absoluta confiança de seu genitor, procuração pública, com todos os poderes. Como sempre tratou seu pai com o devido respeito, haurindo todos os ensinamentos dele recebidos, principalmente o da honestidade, jamais iria desonra-lo, adulterando qualquer documento relativo à empresa Casas Bahia – publicou o Estadão.
MAIS ESTADÃO
As declarações de João da Costa Faria não terminaram. Veja mais alguns trechos no Estadão de ontem:
O advogado também alega que Saul deixou de comparecer à empresa a partir de 2008 e desconhece “a partir de então, toda a trajetória traçada até o passamento do patriarca, Samuel Klein”. Por fim, alega que o testemunho foi lavrado no 4º Tabelião de Notas e de Protesto de Letras e Títulos de São Caetano do Sul, junto à tabeliã, e teve como testemunhas dois advogados então integrantes do escritório Pinheiro Neto. “Talvez a explicação para o incogitável procedimento do representante se deva ao fato de ter recebido uma Ação de Interdição de seu próprio filho; de ter sido alvo de noticiário da mídia televisiva, escrita e radiofônica, a respeito de seu envolvimento com mulheres; de figurar no polo passivo de Ações Civis Públicas, intentadas pelo Ministério Público do Trabalho (R$ 80 milhões); Serviço de Orientação à Família e Centro Santo Dias de Direitos Humanos (R$ 100 milhões – 14ª Vara Civil da Capital); Ação Criminal na Comarca de Barueri (em razão dos propalados encontros com mulheres); Ações Trabalhistas alusivas a aliciamento dessas mulheres; derrota em sua candidatura a vice-prefeito do município de São Caetano do Sul, em 2020, e questionada doação de R$ 80 milhões a uma agremiação esportiva – Associação Desportiva São Caetano”, escreve Faria – escreveu o Estadão.
CHUTANDO A ESMO
Reproduzidos esses trechos da reportagem de ontem do Estadão, tem-se a sensação de que o advogado de Michael Klein exagerou na argumentação porque teria se sentido acuado diante das provas.
O desfilar de informações publicadas nos últimos tempos pela mídia envolvendo Saul Klein faz parte de um show denunciatório que não encontrou, até agora, sustentações fáticas. Exceto a espetaculosa tentativa de interdição requerida e em seguida descartada pelo próprio filho, todas as demais citações de João da Costa Faria ao se referirem a Saul Klein estão sendo tratadas no Judiciário.
A maioria dessas ações se refere às denúncias de cunho sexual, cujo enredo é fantasmagórico: as mulheres denunciantes de estupro eram freguesas de caderneta de uma cafetina que não só as selecionava para comparecerem às festas preparadas por uma auxiliar nas residências de Saul Klein como as teria instruído a moveram as ações denunciatórias e indenizatórias quando o anfitrião decidiu acabar literalmente com as festas.
A maioria dessas questões já foi abordada por CapitalSocial e por mais que eventualmente encontre algum enraizamento de verdade, sintetizada no fato de que Saul Klein é mesmo um namorador, qualquer que seja a dimensão, nada que até agora se constatou, em nada altera o caso que agora está na 78ª Delegacia de Polícia da Capital.
PROVAS MATERIAIS
Afinal, a situação que se apresenta é outra, sem qualquer nexo com o comportamento pessoal de Saul Klein. Trata-se de denúncia de estelionato que teria sido engendrada pelo primogênito Michael Klein.
É nesse ponto que informação e argumentação têm pesos relativos porque dependem de um complemento irreversivelmente indispensável – provas materiais.
Por isso, ganha robustez a denúncia que consta do inquérito policial de estelionato. E é nesse ponto que a vaca parece torcer o rabo da cristalização de uma situação incômoda para Michael Klein, e que tanto provocou a reação moralista do advogado João da Costa Faria.
De novo, recorro aos detalhes da reportagem do Estadão de ontem para oferecer contraponto que possivelmente estaria na raiz das abrangentes declarações do advogado João da Costa Faria. Tão abrangentes que, provavelmente por conveniência, não se concentraram no principal – ou seja, na adulteração de documentos essenciais à análise.
MAIS ESTADÃO
Vejam os primeiros trechos da reportagem do Estadão sobre as provas do crime denunciado pelo escritório do advogado Alberto Toron, um dos mais renomados criminalistas do País:
Os laudos grafotécnicos apresentados na petição mostram diversos detalhes que indicariam falsificação das assinaturas, segundo a petição apresentada pelos advogados. O Instituto Del Picchia aponta “fracionamentos, interrupções anormais (levantamento em trechos contínuos das verdadeiras), como índices primários de falsificações”. Também avalia que, a partir de 2010, os documentos assinados por Samuel costumam conter inscrições a lápis, com as iniciais maiúsculas SK, como forma de indicar onde ele deveria colocar a sua assinatura. Mas, nos documentos contestados, essas marcas não aparecem.
MAIS ESTADÃO
Mais um trecho da reportagem do Estadão sobre os exames grafotécnicos:
Já o Gabinete de Perícias de Sebastião Cinelli constata que as assinaturas questionadas apresentam “traçado eivado de vícios”, com “desenvolvimento moroso, indeciso e com paradas e retomadas anormais do instrumento escrevente”, que seriam “próprios de lançamentos grafados com falta de espontaneidade”. E lista diferenças em relação às assinaturas considerada verdadeiras, como “a inclinação de eixos gráficos ”, “os espaçamentos interliterais e intervocabulares” “o comportamento em relação à linha de pauta” e a “relação de proporcionalidade gráfica.
JOGO COMBINADO
Traduzindo para a linguagem futebolística as explicações técnicas dos dois especialistas, de que teria sido cometido crime levado à 78ª Delegacia de Polícia, deu-se algo como um jogo em que se combinou o resultado final, ou seja, uma marmelada escandalosa. Teria se escancarado agora, à revelia dos infratores e pelas lentes indiscretas e detalhistas de um inesperado VAR, que tudo foi rigorosamente ensaiado para que não houvesse aparentemente nada a contestar.
Quem alguma vez na vida não se lançou a replicar a assinatura de alguém, mesmo num exercício de brincadeira, num concurso familiar de adestramento manual? Quem o fez, traduz com facilidade extrema as informações só aparentemente complexas dos dois especialistas.
Ou seja: mesmo sem entender nada da linguagem grafotécnica, é fácil compreender o que garantem os responsáveis pelos laudos. Há assinaturas tão fáceis de reproduzir por terceiros que nem exigem muito treinamento. Outras, como a embaralhada de Samuel Klein, são mais delicadamente desafiadoras.
MAIS ESTADÃO
Um outro trecho da reportagem do Estadão é incisivo quanto à participação do primogênito na operação fraudulenta:
Segundo o parecer enviado por Toron à Polícia Federal, Michael Klein “era o responsável pela administração da empresa à época, tendo realizado pessoalmente o protocolo físico dos documentos falsos perante a Junta Comercial”, então ao ter levado os documentos em papel para serem registrados oficialmente, deve ser ouvido pela Polícia Federal.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS