Sociedade

QUANDO SAUL KLEIN VAI
VIRAR DOCUMENTÁRIO?

DANIEL LIMA - 11/07/2023

Sexo, futebol, política e herança familiar. Quem quer mais ingredientes do que isso num documentário cinematográfico para valer, não arremedos como alguns já produziram? Um documentário que conte sem manuseios espúrios, sem maniqueísmos,  a vida de um milionário que também poderia ser chamado de discreto playboy?  

Os novos lances envolvendo Saul Klein, o filho mais novo de Samuel Klein, o Rei do Varejo, poderiam até ser dispensáveis.  

A disputa pela herança e por cotas da Casas Bahia poderia ser lançada às favas. Entretanto, como virou domínio público, que tenha espaço num frenético documentário que alguém com competência haveria de preparar.  

Afinal, o Caso Saul Klein reúne muito mais apetrechos cinematográficos do que a maioria dos documentários nacionais e internacionais do mesmo perfil..  

VÍTIMA MIDIÁTICA  

Há de tudo nas mais recentes notícias sobre a vida de Saul Klein. Só não se contabiliza morte física. Mas morte de reputação matada é o ponto principal. E a vítima, até provas em contrário, é mesmo Saul Klein.  

A fama de namorador já lhe custou caro. O justiçamento midiático o transformou num devorador de jovens indefesas que, pobrezinhas, sempre voltaram ao local de supostos crimes. Voltaram para se refestelarem na companhia de um anfitrião generoso no trato e nos gastos. Foram noitadas de gala. Havia fila de espera.  

Desde que a Folha de S. Paulo e depois o Fantástico, e depois o UOL e em seguida a CNN Brasil, principalmente, saíram à caça de Saul Klein (e também do patriarca morto em 2014 e vilipendiado sem dó nem piedade), a vida do namorador de Alphaville mudou completamente. Virou um inferno.  

MULTIFRONTEIRAS 

A dramaticidade do Caso Saul Klein ultrapassa várias fronteiras. Vai de denúncias sexuais ao campo político-eleitoral, mergulha no futebol e ganha embalo nas relações familiares intimamente relacionadas a uma participação societária supostamente usurpada pelo irmão mais velho, com consequências na herança. Alguns bilhões estão em jogo.  

É claro que a principal atratividade do Caso Saul Klein é o inquérito do Ministério Público Estadual, comandado por uma promotora em busca do estrelato e de votos frustrados nas urnas, candidata que foi a deputada estadual no ano passado.  

Sem nenhuma prova material e tendo como âncora de narrativa confusa uma jovem com frequentes internações clínicas, a promotora criminal Gabriela Manssur lançou Saul Klein à fogueira da destruição de imagem. A guilhotina arbitrária de acusações repassadas à mídia mudou a vida do namorador. Abriram-se uma cratera financeira e um abismo psicológico.   

ESPECULAÇÕES DEMAIS 

Como a mídia em busca de audiência não perde uma oportunidade de destruir reputações, Saul Klein ganhou manchetes e enredos sem cuidado algum com os fatos. Fatos mal apurados não são fatos. São especulações.   

Tanto Saul Klein quanto o pai Samuel Klein caíram na rede internacional de denúncias de abusos sexuais com conotações feministas raivosas.  

A mídia em geral, doutrinada a denunciar e sustentar versão única,  sempre evitou noticiar um ponto essencial à compreensão do Caso Saul Klein: quatro mulheres cavaram a sepultura moral do milionário de Alphaville. O crime de um contragolpe denunciatório sem lastro protegeu mulheres que incorreram em equívocos e abusos.  

Gabriela Manssur, intrépida promotora que integra um grupo feminista autoexplicativo já na denominação, “As Justiceiras”, a cafetina Marta Gomes da Silva e seu braço direito nas casas de Saul Klein, Ana Banana, além da advogada Gabriela Souza – eis as mulheres que não deram trégua ao namorador de Alphaville.  

FIM DE FESTAS  

Mais que esquecer o quarteto feminino que atravessou a vida de namorador de Saul Klein, a mídia subestimou uma realidade fartamente reconhecida por testemunhas: as denúncias de abusos sexuais foram uma retaliação estridente, quando não coercitiva,  após se encerrar a maquinaria de noites de festas em Alphaville e também numa chácara de Boituva.  

E essa maquinaria cessou porque Saul Klein decidiu colocar um ponto final na medida em que se recuperava de depressão crônica que o tornou foca de encabrestamento sexual da cafetina e sua representante domiciliar – Marta Gomes da Silva e Ana Banana.  

Saul Klein estava tão debilitado que as únicas supostas provas de que teria cometido abusos são de fato documentos que o inocentam: os flagrantes fotográficos retratam um homem obeso, olhar perdido e cercado de mulheres felizes numa festa temática. Legendas das fotos, incriminando-o, de fato o tornam sequestrado.   

FESTA DA CARNE 

Detalhar a história da vida sexual de Saul Klein é desnecessário. Já o fizemos. Ele foi colocado na vitrine de supostos e jamais provados abusos porque resolveu pôr fim à brincadeira de dar dinheiro em profusão para viver uma vida de responsabilidade dele, de mais ninguém.  

Outros milionários agem semelhantemente, tem fornecedores de matéria-prima carnal de primeira qualidade, mas são mais cuidadosos e menos vulneráveis a extorsões.  

Em plena pandemia do Coronavírus um hotel em São Bernardo recepcionou dezenas de convidados, entre os quais gente do mercado imobiliário. A festança sexual varou a noite. E incomodou a vizinhança. Tudo foi abafado.   

A freguesia dos homens liberais composta de mulheres que empresariam o próprio corpo é imensa. As multiplataformas de Internet esfregam na cara de curiosos e fanáticos o mundo de uma variedade cada vez mais alfabética de opções sexuais.  

O conceito de mulher e de homem segundo as regras mais recentemente difundidas no mercado internacional de gênero recomenda o uso de pronomes neutros. Saul Klein sempre optou por mulheres sem qualquer condicionalidade pronominal. 

DINHEIRO PRÓPRIO  

Saul Klein, avesso à digitalização, divertia-se recepcionando moçoilas geralmente obcecadas pelas vantagens que o capitalismo oferece em todos os campos de batalha.  

Em Brasília, por exemplo, é o dinheiro público que garante festas pélvicas mantidas a sete chaves. As cafetinas abundam.  

Para encurtar a história que mostra um Saul Klein saindo das cordas de uma tempestade perfeita que invadiu o Judiciário em várias ramificações, do criminal ao Cível e do Cível ao Trabalhista, em batalhas que vai ganhando a cada novo julgamento, eis que, de repente, ocorre uma reviravolta.  

A cartada familiar aponta até prova em contrário irrefutável que Saul Klein foi ludibriado pelo primogênito da família, Michael Klein, na partilha testamentária do pai Samuel Klein. A situação retira Saul Klein da condição de morto-vivo, preâmbulo da derrocada final.  

NARRATIVAS COMPLEXAS 

Não faltam narrativas contraditórias para tentar explicar as razões que tornaram Saul Klein um homem a ser abatido, independentemente de ele próprio viver sob a tormenta de depressão avassaladora.  

Procurar uma linha do tempo associada a ocorrências que se encaixariam como explicação técnica às desventuras de Saul Klein parece tão fantasioso quanto o inverso; ou seja, tudo que Saul Klein vem vivendo desde a denúncia do MP em dezembro de 2020 não passaria de acontecimentos dissociados entre si.  

Levando-se em conta os dois cenários radicalmente antagônicos e descartáveis, restaria, portanto, a lógica de uma terceira via explicativa.  

A tormentosa vida sexual, esportiva, política e familiar de Saul Klein é um encadeamento com algum grau de configurações de causalidades, mas nada que ultrapassasse o terreno do incidental. Os astros não teriam nada a ver com isso nas aproximações dos fatos entre si. Coisa do destino travesso, portanto.  

CALDO DE DRAMATICIDADE 

Seguindo a lógica dos defensores de causalidades conexas, de que uma coisa está ligada à outra e as duas se explicam, Saul Klein teria entrado numa zona de destruição porque haveria um complô envolvendo o irmão mais velho, os inimigos políticos em São Caetano (que se teriam juntado ao irmão mais velho quando Saul decidiu ser candidato a vice-prefeito nas eleições de 2020), os quais, por sua vez, somaram-se aos adversários de Saul por causa da gestão do São Caetano (time no qual investiu mais de R% 500 milhões em uma década e meia) e, para completar o circuito, contando também com opositores na Ferroviária de Araraquara, clube que comprou na bacia das almas e que vendeu a preço de banana.  

Tudo isso parece inverossímil, mas, ao mesmo tempo, acrescenta um caldo de dramaticidade e suspense que nenhum cineasta deixaria de explorar. Como também, se for menos espetaculoso, poderia separar algumas partes desse conjunto, descartando algumas e mantendo vínculos entre outras.  

A soma das partes do Caso Saul Klein sempre será explosiva mesmo que seja fragmentada e selecionada ao descarte.  

ATÉ MORTE? 

Seja assim ou assado, o certo é que mesmo não sendo assim nem assado, ou seja, nem uma história abrangente de causalidades ou de parciais causalidades, tornando-se, portanto, um enredo acidental, de coincidências, o documentário sobre o Caso Saul Klein e suas ramificações já seria suficientemente eletrizante.  

Dirão os mais sarcásticos que estaria faltando uma morte bem morrida ou matada, preferencialmente matada, para o streaming ganhar ainda mais eletricidade.  

Aparentemente, não existe nada que coloque desse tempero mais abrasivo no que já existe de incendiário.  

Entretanto, contudo e, todavia, não custa lembrar que,  como o padrão de espetacularização prevalece, não é de se duvidar que a morte recente de um suposto irmão bastardo de Saul Klein seja promovida a mais uma pitada de sensacionalismo. Como se tudo que já se criou não fosse suficiente e acachapante.  

LOBBY NA FOLHA?  

Também não poderia ser desconsiderado no documentário arrasa-quarteirão um suposto lobby do primogênito Michael Klein, em contraponto ao desprezo da mídia a Saul Klein.  

Afinal, com o prestígio de quem está ativo como integrante do conglomerado da Via Varejo, empresa que incorporou a rede Casas Bahia criada por Samuel Klein, Michael Klein teria influência decisiva no tratamento discriminatório da mídia. 

Ainda na última semana, coincidentemente ou não, acompanhado de dois profissionais da área de marketing, Michael Klein visitou a direção da Folha de S. Paulo. Dois dias antes o jornal Estadão publicou uma extensa matéria sobre a denúncia do escritório de advocacia contratado por Saul Klein. Exames grafotécnicos de dois especialistas renomados constataram inconformidades nas assinaturas de Samuel Klein que adulteram a participação relativa dos três irmãos no espólio do patriarca. A dano de Saul Klein.  É aí que entram os bilhões da herança supostamente surrupiada.  

A Folha de S. Paulo registrou na edição seguinte à visita de Michael Klein, discretamente, sem alarde, a denúncia do Estadão. Uma publicação totalmente em desacordo com o estardalhaço de edições anteriores da mesma Folha de S. Paulo (e de seu braço digital, UOL) desde a denúncia do Ministério Público Estadual.  



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