Temos nos sete municípios do ABC Paulista nada menos que 100 mil domicílios desocupados. O total tem base nos estudos da Fundação João Pinheiro, com sustentação do Censo Demográfico do Brasil produzido pelo IBGE. Pegue as moradias de São Caetano, acrescente todos os domicílios de Ribeirão Pires e você vai encontrar a dimensão do vazio regional.
Antes de formular questionamento sobre o destino do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, que, claro, não poderia e nem pode desprezar as moradias desocupadas da região e do Brasil como um todo (são 12 milhões de domicílios vazios no País) convém reforçar que a estimava não é especulação.
Não se trata, repito, de especulação imobiliária, especialidade de mercadores imobiliários geralmente inescrupulosos.
Até porque, mercadores imobiliários jamais propagarão tantos domicílios desocupados. O que eles querem mesmo é doutrinar os formadores de opinião no sentido inverso: de que há quase seis milhões de déficit habitacional no País, e perto de 100 mil na região.
LADO PODRE
Mercadores imobiliários vivem de manipular dados sobre déficit habitacional, entre outras manobras. Claro que não são todos nem a maioria. Mercadores imobiliários são o lado podre do mercado imobiliário. Muitos não saem dos jornais. E frequentam entrevistas em emissoras de televisão. Eles são bons de lobby e de investimentos publicitários.
Segundo o jornal Valor Econômico da edição de quinta-feira, em ampla matéria sobre o assunto, dos 5.570 municípios brasileiros, 78% (4.353) têm mais de 10% de domicílios vagos.
Foi com base nessa informação e em algumas pesquisas suplementares que cheguei a São Caetano e a Ribeirão Pires como quantidade conjugada de moradias sem ocupação.
PODE SER MAIS
O ABC Paulista conta com 980 mil domicílios nos sete municípios. Imerso numa região metropolitana problemática, potencializa a gravidade da situação.
Acho até que os arredondados 100 mil imóveis vazios poderiam ser mais. Se temos uma coisa em que nos especializamos neste século foi superar todas as expectativas e dados negativos da média nacional.
Pode ser que a média regional seja maior e se beneficie, na projeção, da média nacional. Tem sido assim em muitos indicadores sociais e econômicos.
O que pergunto antes de chegar ao Minha Casa, Minha Vida, é o que eventualmente tanto as prefeituras quanto o Clube dos Prefeitos têm feito para levar adiante um plano de reconhecimento do terreno de vazio imobiliário domiciliar.
Duvido que tenham essas informações que repasso depois de metaboliza-las em forma de regionalidade.
A reportagem do Valor Econômico, insisto, é de ótima qualidade editorial. Ocupa quase uma página inteira. Ouviu várias fontes especializadas. Reparem nesse trecho:
VALOR ECONÔMICO (1)
Especialistas apontam a crise econômica que se agravou com a pandemia – com queda da renda, devolução de imóveis comprados e dificuldades de acesso a residências – como um das razões por trás esse aumento do estoque de imóveis vazios, além de melhor contagem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do número de domicílios – escreve o Valor Econômico.
CONTRAPONTO (1)
Faço uma observação nesse sentido, que, aliás, não consta da reportagem: há um abuso quase generalizado de marketing das empresas do mercado imobiliário, tanto construtoras quando incorporadoras.
O lucro é a meta, indiferentemente de qualquer outro aspecto que resvale em humanidade. A ordem unida é ganhar dinheiro a qualquer custo e, para tanto, contam com a cumplicidade da maioria dos gestores públicos.
O mercado imobiliário configura na prática política urbana o mesmo que as empreiteiras de obras representavam (e começam a retomar) e que foram desmascaradas pela Operação Lava Jato em forma de financiamento de campanhas eleitorais.
Vou um ponto a mais: há relatos e provas escabrosas na região, envolvendo gente conhecida do mercado imobiliário, mas autoridades constituídas fazem vistas grossas ou, pior, estão contaminadas de desânimo: por mais que eventualmente façam, nada será alterado pelos poderosos de plantão.
O escândalo do ISS na cidade de São Paulo é prova provada disso e até hoje a quase totalidade dos meliantes do mercado imobiliário está impune, livre, leve e solta. Em novembro vão se completar 10 anos de roubalheira. Há bandidos sociais que ainda exibem programas assistenciais como salvo-conduto fajuto de humanitarismo.
VALOR ECONÕMICO (2)
Volto à edição do Valor Econômico com novo trecho da reportagem:
Ainda que não haja uma solução simples para o problema da moradia – nem seria possível simplesmente resolver o déficit ao ocupar esses espaços vazios – demógrafos e urbanistas defendem que há alternativas na legislação para estimular a ocupação de propriedades vagas como o IPTU progressivo (aumento da alíquota para imóveis sem uso), que poderiam ser adotadas junto a politicas para reduzir o tamanho do déficit – escreveu o jornal.
CONTRAPONTO (2)
O IPTU progressivo é uma arma perigosa na mão de autoridades públicas se não houver contraponto fiscalizador de agentes independentes da sociedade. O abuso será iminente, tanto quanto o inverso, ou seja, o privilégio de proteger marginais imobiliários que acumulam dívidas junto ao poder Público e sempre encontram brechas de corrupção para zerar ou reduzir drasticamente o passivo deliberadamente acumulado. Esses predadores praticam concorrência desleal e são premiados.
VALOR ECONOMICO (3)
Outra vez retomo a matéria do Valor Econômico. Acho que vale a pena o leitor acompanhar:
Os números mostram que a questão deve ir muito além da construção de novas moradias, apontam estudiosos. Ainda há necessidade de programas como o novo Minha Casa, Minha Vida, que acaba de ser apresentado pelo governo federal, dizem, mas este programa deve ser cada vez mais seletivo, lançando mão de outras estratégias, como o aluguel social, melhoria de unidades existentes ou transformação do uso de imóveis comerciais, por exemplo –escreveu o jornal.
CONTRAPONTO (3)
Resta saber até que ponto o governo federal tem interesse para valer em tornar seletivo o Minha Casa, Minha Vida, quando se sabe que o mercado imobiliário dos dois primeiros mandatos de Lula da Silva contribuiu para inflar o PIB (na China inspiradora de Lula da Silva o setor representa 30% do PIB que faz água porque o mercado imobiliário local patrocinou escândalos a dar com pau) mas deixou um rastro recordista de inadimplência.
Tanto foi um desastre que os bancos credores abriram departamentos específicos da área imobiliária. Ou seja: o PIB do mercado imobiliário do governo Lula da Silva carregou muita farsa estatística, porque a herança catastrófica foi contabilizada como crescimento dessa métrica imperfeita. PIB, como se sabe, é a soma de tudo que se produz. Uma cidade que constrói presídio potencialmente eleva o PIB tanto quanto outra que constrói um hospital.
VALOR ECONOMICO (4)
Mais um trecho elucidativo da reportagem do Valor Econômico, e que se alinha perfeitamente à situação do ABC Paulista:
Nesse aumento dos domicílios vagos entre 2010 e 2022, o também demógrafo e professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estáticas (Ence), José Eustáquio Diniz Alves vê efeito da crise econômica do país, que gerou empobrecimento da população e maior dificuldade para comprar ou alugar imóveis. “Não é só especulação imobiliária, a população ficou mais pobre, a renda per capita está menor que em 2010” diz ele, que lembra também a melhor contagem dos domicílios do Censo mais recente.
CONTRAPONTO (4)
Pois está aí, nesse último contraponto, mais um golpe letal na economia do ABC Paulista deste século. Esperamos que o Clube dos Prefeitos faça alguma coisa no sentido de reduzir a carga do Minha Casa, Minha Vida na geografia regional. Um estudo coligado às respectivas secretariais dos sete municípios é o mínimo que se coloca em perspectiva para que os investimentos não sejam redundantes e improdutivos.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS