Sociedade

Geração dos anos 1990 deixa
saudade e muita frustração

DANIEL LIMA - 24/08/2023

O pior cego não é o que não enxerga. O pior cego é o que pensa que vê. Se você não está vendo o que eu vejo, algo está errado. Ou eu vejo demais ou você vê de menos. Ou vi demais e você não vê o que é para ser visto. Vejo que não temos mais geração institucional na região. Tivemos apenas nos anos 1990. Antes, nadinha de nada. Depois, nada de nadinha. Só saudade e frustrações.  

Há outras variáveis sempre seguindo o mesmo foco de visão, mas vou resumir tudo na seguinte frase quanto à expressão “geração institucional”: a geração institucional que emergiu neste século na região perde de goleada para a geração institucional da última década do século passado, os anos 1990. Principalmente na segunda metade dos anos 1990.  

Quem achar que estou produzindo alguma alquimia subjetiva no uso da expressão “geração institucional” precisa de muita cautela nessas horas, porque vou explicar.  

Jamais me havia ocorrido o uso da expressão geração institucional. Acho até que não existe nada sobre isso, mesmo com rastreamento no Google. Deve ser mesmo invenção minha. Coisa de quem ainda tem uma bala de lembrança.  

CONCEITO DIFERENCIADO  

Esse é o que chamaria de ensaio preliminar que um dia desses provavelmente será mais aprofundado, embora o acervo desta publicação reúna tantas temáticas que possivelmente o que vier adiante seja um puxadinho do que já foi editado, embora com novas características.  

Sei que corro o risco de me chamarem de saudosista, mas como não temo eventuais carimbos, sigo com o raciocínio. 

Primeiro é preciso entender o conceito de geração institucional, que, inicialmente, num rascunho pouco usual, chamei de geração coletivista. 

No entendimento convencional, geração significa o que todo mundo sabe, mas sobre o qual tenho minha própria definição. Geração vista de forma tradicional é uma turma de semelhantes porque nasceu dentro dos limites temporais aproximados, mas está longe de, em determinadas situações, vivenciar valores específicos.  

FORA DO QUADRADISMO 

Se você não gostou da simplificação, provavelmente terá de buscar nos compendêndios sociológicos algo mais rebuscado.  

Aliás, poderia até mesmo rebuscar mais, mas parti do princípio de que para o entendimento do que pretendo explicar, é melhor mesmo simplificar do que teorizar com certa arrogância. 

Então estamos entendidos? Gentes de idades aproximadas formam gerações.  

Há um outro conceito, um conceito não necessariamente vinculado ao primeiro, exposto acima, que, segundo minha ótica pode ser rotulado de geração institucional.  

Geração institucional é a reunião de propósitos em comum de pessoas não necessariamente tão próximas na Carteira de Identidade que, despertas ao senso cooperativo mútuo, trabalham com sinergia para construir um futuro melhor do que o presente.  

Gentes que tem princípios filosóficos, por assim dizer, que se espalham pela sociedade agarrando fiéis aqui, descolando um espaço entre interessados ali e entre gentes que se aproximam em busca de objetivos em comum. 

Entenderam o babado? A geração institucional da região que vivenciou para valer a última década do século passado foi uma turma que inspirou a esperança e mesmo a confiança de que teríamos um futuro melhor do que aquele presente que vivíamos.  

FATORES DECISIVOS  

Pensei em adotar a marca de geração coletivista para os anos 1990 como a nata do sentimento de regionalidade que brotava naquele período. Mudei de ideia em termos de identificação. Geração Institucional é mais apropriado porque específica o foco de atenção e de operações.  

Houve pelo menos quatro fortes ramificações de interesses coletivos que brotaram no seio da comunidade regional e que auxiliaram na costura da geração institucional. Veja: 

 

 FÓRUM DA CIDADANIA 

 DIÁRIO DO GRANDE ABC 

 LIVRE MERCADO/CAPITALSOCIAL 

 PREFEITO CELSO DANIEL 

 

O primeiro, sem dúvida, o Fórum da Cidadania, sobre o qual já escrevi um bocado. A organização à parte dos poderes públicos revolucionou durante algum tempo as relações institucionais na região, com medidas que começaram com a campanha Vote no Grande ABC e em seguida com série de incursões críticos. 

O segundo, a turma que juntamente com minha equipe da Editora Livre Mercado, fomentou dois grandiosos eventos que marcaram o lançamento de dois livros coletivos sobre o futuro do então chamado Grande ABC. Em “Nosso Século XXI”, a turma que LivreMercado escolheu para produzir duas obras-primas de regionalidade, explorou a consciência coletiva de que havia um ar de transformação no ambiente dos sete municípios.  Um Aramaçan lotadíssimo na primeira edição e um Teatro Municipal de Santo André tomadíssimo na segunda edição atestaram a grandiosidade daquela ornada que reuniu, em conjunto, mais de meia centena de autores de diversos espectros sociais.  

Poderia, sem exagero, mencionar mais um portal da felicidade rumo ao futuro, no caso as edições anuais do Prêmio Desempenho em várias categorias, também sob o guarda-chuva editorial da revista de papel LivreMercado. Os eventos, dois a cada temporada, compunham uma consagração regada à participação extraordinária da sociedade. A região extrapolava todas as expectativas. Não havia distinção de classe social nem corporativa. As Madres Terezas foram o corolário do tom ecumênico.  

NÚMEROS DE SUCESSO  

Para os leitores terem uma ideia do ambiente de regionalidade e de comprometimento que dominava nosso território, bastam alguns números.  

No lançamento do livro “Complexo de Gata Borralheira”, deste jornalista, o Teatro Municipal de Santo André tinha gente amontoada nos corredores. Quando lancei “Meias-Verdades”, um hotel especialmente reservado ao evento reuniu 850 convidados contadinhos.  

Também entra nessa conta de interação de objetivos a linha editorial adotada pelo Diário do Grande ABC tendo à frente Alexandre Polesi. Foi um período, os anos 1990, em que o jornal mais se enraizou na sociedade regional com política editorial incisiva. Tanto que o Fórum da Cidadania foi obra do jornal, mais até do que deveria, porque a sociedade ficou mal-acostumada, esperando para correr atrás do sucesso que o jornal organizava em suas páginas.  

Paralelamente, à frente da Redação da revista LivreMercado, poderia me estender sobre as experiências que vivi quer como anfitrião, organizador, participante ou convidado de eventos que tinham compromisso com a região. Nada de festinhas para afagar egos deslumbrados. 

CELSO INDISPENSÁVEL  

Celso Daniel é indispensável nessa agenda de geração institucional porque à frente dos prefeitos de então, criou todo o arcabouço que conhecemos, como o Clube dos Prefeitos e Agência de Desenvolvimento Regional.  Foi para o espaço sideral a Câmara Regional, uma composição múltipla de agentes da região e do governo do Estado. A morte de Celso Daniel acelerou a velocidade do desmonte regional. Antes mesmo disso, o único prefeito regional já visto recuara no ímpeto regionalista, no início deste século, porque as coisas já não eram mais as mesmas.  

A temperatura da cidadania na região naquela década de 1990 e mesmo no começo deste novo século, até que a Internet começasse a ganhar densidade e os exemplos de gente qualificada passaram a ser uma raridade, foi de certo modo eletrizante.  

Entretanto, o desgaste provocado por decepções sempre carrega um preço salgado. A região que adveio daquele período, repito, foi de esboroamento contínuo de gerações institucionais que emergiram com fragilidade estonteante. 

PIORES ANOS COLETIVOS  

Por isso que a região nesta terceira década deste século aprofunda dissabores iniciados na primeiras agravados na segunda. Vivemos seguramente os piores tempos coletivos da região. Não temos geração institucional alguma. Estamos órfãos.  

A cidadania envelheceu. Pior que isso: além de envelhecer, cedeu espaços gigantescos a bandidos sociais que antes existiam, claro, mas eram menos numerosos e menos vitoriosos na arte de conduzir os destinos da região. 

Esse é um tema sobre o qual poderia discorrer à exaustão, mas creio que já escrevi o suficiente para mandar um recado curto e grosso, mas verdadeiro: onde está a geração institucional da região que ou não sai da toca porque se sair seria abatida ou simplesmente não existe mais porque os grupelhos poderosos agem rapidamente para abater todos aqueles que não se curvam às vontades muitas vezes pecaminosas que constituem a realidade esfregada na cara todos os dias. 

Se você está vendo (geração institucional) o que não estou vendo nestes tempos, então há alguma coisa errada.  

RETRADOS EXPLICATIVOS  

Provavelmente a conclusão mais afinada com a realidade prática é que você está vendo demais. Que você tomou algum alucinógeno. Que você não tem referência prática e que naturalizou por falta de experiência a presença maciça de medíocres institucionais que fazem da região expressão escandalosa de carreirismo sem qualquer comprometimento com a sociedade.   

Quem acha que o cenário traçado rapidamente sobre a institucionalidade nota zero da região e sobre, também, o individualismo exacerbadamente materialista da região deveria obrigatoriamente dar uma espiadinha na série de reprodução de manchetíssimas da revista de papel LivreMercado que estamos exibindo nas redes sociais, numa contagem de cinco por dia. 

Por enquanto e por muito tempo continuarão essas provas provadas de jornalismo independente, qualificado e disposto a tudo para não ser mais um puxadinho de produção editorial de conveniência. Títulos e trechos de textos que refletem com segurança e fidelidade o ambiente regional de três décadas estão sendo expostos diariamente. 

Vamos: compare o que foi produzido no período e o que temos hoje, diariamente, nas páginas das publicações de papel e digitais da região.  

MESMICES DEMAIS 

Há uma sucessão de mesmices a desafiar os pauteiros das publicações, porque a partitura informativa é pobre, fútil, descomprometida com os próximos tempos, quando não constante farra de fake news que lustram o ego dos poderosos de plantão. 

A verdade cristalina que está aí é aterradora:  a região outrora Grande ABC perdeu o viço, o vigor, o entusiasmo e principalmente a volúpia de reagir às adversidades econômicas e sociais.  

E quando se observam sinais em sentido contrário, há uma certeza implícita: geralmente são fraudes cometidas por gente pouco preparada e pouco interessada em mudanças significativas.  

O voluntarismo no sentido positivo do termo e que significa mobilização virou pó. Onde falta o pão do desenvolvimento econômico todo o mundo se acha com razões suficientes para salvar a própria pele.  

Não cito nomes de integrantes da geração institucional do fim do século passado para não constranger os pretensos integrantes de geração institucional deste século que, a bem a verdade e repetindo o óbvio, não existe.  

IMORTAIS DA REGIÃO  

A lista de mais de uma centena de nomes consagrados em várias áreas que receberam cada um o título de Imortais do Grande ABC é autoexplicativa.  

A inexorabilidade do tempo abate um a um a cada nova temporada gregoriana. Vão-se embora talentos de vida corporativa e institucional.  

A região nos tempos vividos por eles era mais densa em cidadania, em entusiasmo, até mesmo em ilusionismo produtivo. Nem todos eram nota dez, muitos eram nota cinco, mas havia um esforço individual como força-motriz do coletivismo centrado em objetivos definidos.  

A regionalidade jamais atingiu o pico esperado mesmo com eles, mas a esperança de dias melhores jamais sucumbiu à decepção.  

O que temos hoje na região é um imenso buraco a delatar a ausência de gerações coletivistas em forma de institucionalidade e, mais que isso, aponta para caminhos de definhamento ainda mais grave.  

Com a tecnologia de bolso revolucionando costumes e prioridades, estamos seguindo rumo ao abismo de gerações institucionais virtuais não mais que instantâneas e dissolvíveis como uma espécie de efeito-miojo. Não há nada que possa ser catalogado como argamassa a unir tantos grupamentos.



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