Sociedade

Mata-mata: Saul sai na frente
na disputa com irmão Michael

DANIEL LIMA - 29/08/2023

Essa disputa vai longe ou pode, surpreendente, encerrar-se antes do que se imagina? Tudo é possível quando concorrem duas das mais renomadas bancas de advocacia do País.  O mata-mata que definirá a distribuição da herança do patriarca Samuel Klein, morto em 2014, movimenta dois ramos principais do fundador da Casas Bahia. Saul Klein e Michael Klein saíram dos bastidores familiares para as manchetes.  

Michael Klein passou mesmo a perna no irmão mais novo ao mexer no bolo das ações da Casas Bahia? Michael Klein teria passado a perna também no irmão ao juntar supostas assinaturas falsas aos documentos e testamento que o beneficiaram?  

Sem firulas e falsas diplomacias verbais, é disso que se trata. Michael mexeu mesmo no queijo do patrimônio deixado por Samuel Klein? Michael mexeu mesmo no queijo, ou seja, numa fortuna complementar, de disputa em mata-mata, que seria superior a R$ 2 bilhões?  

SIGILO DE JUSTIÇA  

É disso que CapitalSocial vai tratar na medida do possível. Sim, na medida do possível. O inquérito policial e a demanda judicial como um todo estão sob sigilo de Justiça, o cofre mais poderoso para obstar a curiosidade jornalística. Um cofre que nem sempre é respeitado. Vazamentos fazem parte da literatura policial e judicial.  

Enquanto o cofre não se fechara, o que se deu com uma das mudanças na disputa (de que tratamos em seguida) e por conta de declarações de Michael Klein numa entrevista sob encomenda à Folha de S. Paulo (de que também tratamos mais adiante), é possível construir sem rodeios e com sustentação documental e interpretativa que a disputa está sob o controle de Saul Klein. O placar atual é de seis a dois. Ou seja: há seis pontos positivos acumulados por Saul Klein e apenas dois por Michael Klein. 

Quem adota a filosofia de neutralidade acomodatícia, ou seja, de ficar aparentemente como simples espectador dos acontecimentos, provavelmente vai virar o rosto ante ao que se traduz como o ponto mais marcante desse mata-mata.  

Trata-se da autenticidade ou da falsidade das assinaturas de Samuel Klein nos documentos essenciais da disputa. Cegos, mudos e surdos ao conceito central de ética interpretativa com respaldo em evidências e provas, somente cegos, mudos e surdos, serão incapazes de dizer com todas as letras – trata-se sim e claramente de falsificações grosseiras.  

Acompanhem os primeiros lances desse mata-mata emocionante. A leitura não é recomendada a quem perdeu a sensibilidade.    

SAUL, UM A ZERO 

A iniciativa de abrir um inquérito policial em São Paulo com sérias denúncias envolvendo assinaturas do patriarca Samuel Klein colocou Saul à frente de Michael exatamente porque foi o lance inicial de alta ofensividade. Um lance tão bem pensado quanto a escolha da 78ª Delegacia da Capital, nos Jardins. Estabeleceram-se as regras do jogo na busca de um ambiente cosmopolita, longe de São Caetano, portanto, onde supostamente se levaria a cabo a disputa por conta das raízes da Família Klein.  

Retiraram-se, com essa iniciativa, determinados vetores de subjetividades ambientais. Deu-se preferência ao que se poderia chamar de cuidados técnicos de investigação acima de paixões. A imagem de Michael é seguramente mais efetiva do que a do irmão numa São Caetano conservadora, e onde recentemente Michael anunciou a volta da sede da Casas Bahia.  

SAUL, DOIS A ZERO 

A contratação de dois renomadíssimos grafotécnicos (Sebastião Edison Cinelli e Celso Mauro Ribeiro De Picchia, dá consistência técnica às provas de que documentos da Casas Bahia e o testamento do patriarca teriam sido fraudados.  

A documentação que sustenta o inquérito policial é robusta. Tanto que a então delegada titular do caso se manifestou ao jornal Estadão com uma frase que colocaria Michael em situação desconfortável.  

E é mesmo pouco provável que alguém com um mínimo de sensatez não veja os exames grafotécnicos que colocam em confronto assinaturas de Samuel Klein antes e depois de 2011 (ele morreu em 2014 aos 91 anos de idade) sem que puxe uma exclamação de surpresa 

Afinal, negar as evidências gráficas entre os traços de autenticidade e os traços de falsificação têm tanta consistência como a possibilidade de ouvir uma dupla sertaneja formada por Chitãozinho num microfone e Dudu Nobre no outro.   

SAUL, TRES A ZERO 

Michael sentiu os dois ataques contundentes do irmão e teve de alterar a composição da defesa, entregando mais um ponto ao adversário. A substituição do experiente advogado João da Costa Faria, de longas jornadas ao lado de Michael em São Caetano, pelo escritório paulistano do mais incisivo e prestigiado Daniel Bialski revela a preocupação de Michael com o desenrolar do jogo. Michael espera que o novo titular da defesa seja capaz de produzir pontos.  

MICHAEL UM A TRES 

Numa tentativa de colher o adversário em contragolpe decisivo, que poderia alterar o andamento do jogo, Michael deslocou ao ambiente supostamente mais apropriado e provinciano de São Caetano o inquérito policial então numa zona de neutralidade mais favorável a Saul, no caso a Capital do Estado.  

São Caetano seria mais suscetível a tornar a disputa favorável a Michael no ambiente policial, jurídico e político por conta de antecedentes pessoais envolvendo Saul, no caso as denúncias de violação sexual a mulheres – uma situação que está longe de se encerrar e que até agora, passados quase três anos, não conta com respaldo probatório algum. A escandalosa e apressada cobertura midiática enfraqueceu a imagem de Saul.  

MICHAEL DOIS A TRES  

Ao requerer e obter o sigilo de Justiça no inquérito policial, a defesa de Michael registrou avanço importante para afastar da mídia repercussões investigativas que poderiam atrapalhar seus negócios como empresário.  

Não se pode esquecer que se trata de uma denúncia tipificada como estelionato. Com o sigilo de Justiça, interrompe-se a possibilidade de o caso ganhar realce constante na mídia. Com o sigilo de Justiça, nem os advogados das partes têm acesso ao processo. 

O noticiário do caso é enfraquecido ou praticamente suprimido sem a liberdade de informação policial e judicial, o que beneficiaria a imagem pouco desgastada de Michael. Diferente da situação de Saul. Além disso, o sigilo de Justiça tem como bônus a possibilidade de impedir que eventuais incorreções cometidas pela defesa fragilizem a estratégia geral.   

SAUL, QUATRO A DOIS 

Na entrevista de página inteira ao jornal Folha de S. Paulo, Michael errou ao inadvertidamente colocar em dúvida a assinatura do pai Samuel Klein no testamento passado em cartório.  

Veja o trecho da reportagem: “O irmão, por sua vez, nega que tenha havido fraude. Diz que o testamento lavrado teve testemunhas, advogados e escreventes de cartório. “Uma pessoa depois dos 80 anos já não escreve com a mesma firmeza de 10 ou 15 anos antes”, afirma Michel.  

O comentário foi um ato falho. O suposto desgaste em motricidade decorrente de envelhecimento não apresenta respaldo generalizado da Ciência. Subliminarmente, o que Michael introduziu na declaração foi uma dosimetria defensiva carregadíssima de justificativa a eventuais inconformidades nas assinaturas atribuídas ao pai Samuel Klein.  

Não custa lembrar que o testamento foi passado em cartório quando Samuel Klein, em agosto de 2013, contava com 89 anos. E as demais assinaturas igualmente contestadas datam a partir de 2012. Samuel Klein morreu em 2014.  

A presença de testemunhas, advogados e escreventes não torna necessariamente o ato de procedimento cartorial uma peça jurídica legítima. Não faltam na literatura cartorária situações embaraçosas, embora aparentemente dentro das regras do jogo.  

SAUL, CINCO A DOIS 

Na mesma entrevista à Folha de S. Paulo, especificamente nos parágrafos imediatamente seguintes a possíveis inconformidades na assinatura de Samuel Klein, Michael se refere a tecnicalidades dos laudos periciais dos peritos contratados por Saul. Leiam: 

“Em resposta aos laudos grafotécnicos levados pelos advogados de Saul à polícia para pedir a abertura do inquérito, Michael também demandou uma perícia própria das firmas que aparecem em alterações contratuais da Casas Bahia e no testamento. O resultado obtido por Michael no fim de julho concluiu o oposto, indicando que as assinaturas são autênticas – escreveu a Folha.  

Michael cometeu dois equívocos numa mesma ação: quebrou o sigilo de Justiça obtido anteriormente na decisão que transferiu o inquérito policial para São Caetano e atirou no próprio pé ao possivelmente ter relativizado o conceito de autenticidade das firmas do pai Samuel Klein.  

Explica-se: ao sugerir no trecho anterior que a idade avançada poderia ter produzido assinaturas de Samuel Klein depois dos 80 anos diferentes de assinaturas de Samuel Klein de 10 ou 15 anos antes, Michael, na entrevista à Folha, se manifestou com base num eventual apontamento do perito contratado. Não fosse esse embaralhamento argumentativo, Michael não teria por que mencionar a idade do pai a algo que, levando-se em conta a higidez do resultado do perito que diz ter contratado, seria solidamente sustentável.  

SAUL, SEIS A DOIS 

As declarações do Michael à Folha de S. Paulo acrescentam mais um gol contra, e favorável a Saul. Na medida em que Michael relativiza a assinatura do pai por conta da idade, também abriria brecha a uma contraofensiva porque relativizaria, por extensão, a capacidade cognitiva do pai no conjunto da obra de desdobramentos de assinaturas no testamento e em outros documentos.  

Se um idoso aos 89 anos não garantiria a autenticidade gráfica da própria assinatura, como seria possível acreditar que, cognitivamente, estaria apto a deliberar igualmente com segurança as consequências dos atos com profunda discriminação a Saul e privilégios a Michael? A construção dessa conflituosidade não foi formulada pelos defensores de Saul, mas do próprio Michael.  



Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1125 matérias | Página 1

12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO
11/06/2025 PÁGINAS VIRADAS DE UMA MUDANÇA DESASTROSA
05/06/2025 VIVA DRAUZIO VARELLA, VIVA A REGIONALIDADE
30/05/2025 RANKING DE QUALIDADE DE VIDA: SANTO ANDRÉ SOFRE