O roubo e o furto de veículos em Santo André ganharam manchetes nacionais e locais e colocaram o ufanismo tecnológico do prefeito Paulinho Serra a nocaute. O resultado é mesmo assustador. Mas é uma situação que não pode ser politizada, exceto em resposta ao triunfalismo incontido do titular do Paço Municipal de Santo André.
Fosse mais experiente e enfrentasse as más notícias com bom senso e conhecimento, ao invés de tentar escondê-las ou metamorfoseá-las, Paulinho Serra teria chamado a mídia para dizer o óbvio que poucos enxergam.
E o óbvio é o seguinte: não se pode destinar a Santo André excessos críticos numa área, a criminalidade sobrerrodas, sobre a qual o gestor público não tem controle efetivo.
Vou explicar logo abaixo o que se passa como ponto central de Santo André na luta quase insana para tentar mitigar os danos que furtos e roubos de veículos provocam na imagem da cidade e torna o ambiente econômico insatisfatório.
SITUAÇÃO ANTIGA
Tanto é verdade que Santo André sofre com roubos e furtos de veículos que valores despendidos em apólices de seguro por proprietários de veículos automotores são muito mais elevados do que em outras cidades do Estado. E contaminam os demais municípios da região, que também não são flores que se cheiram quando se trata dessa modalidade de crime.
Os crimes sobrerrodas em Santo André e na região como um todo são uma metástase de um enfermo castigado durante décadas de improdutividades logísticas no campo da mobilidade urbana e de rebaixamento da qualidade de vida em geral por causa da desindustrialização.
Qualquer que seja a metodologia aplicada, Santo André sempre será destaque negativo. Fizemos um confronto da região e de Santo André isoladamente com quatro dos principais municípios do Interior paulista. Casos de Campinas, Sorocaba, São José dos Campos e Ribeirão Preto. Querem saber o que deu essa disputa de blocos distintos?
MAIORES RISCOS
A região é o ABC Paulista é o G-7 e a soma daqueles quatro municípios pode ser chamada de G-4, para facilitar o entendimento. A população do G-4 é superior à população do G-7. São arredondados 2,7 milhões da região ante 3,4 milhões do G-4.
Querem saber qual é a soma de veículos roubados e furtados nos últimos seis anos (entre janeiro de 2017 e dezembro de 2022)? O G-7 regional contabilizou 94.895 veículos que desapareceram do domínio dos respectivos donos. O G-4 somou 40.936. Uma diferença de 57%.
Traduzindo: a possibilidade de um proprietário de veículo na região ser roubado ou furtado é 57% maior do que a média daqueles quatro municípios.
A situação de Santo André nos últimos seis anos é tão grave (e não deixava de ser anteriormente à chegada do prefeito Paulinho Serra, com a diferença de que os prefeitos anteriores não contavam vantagens que de fato não existem) que os 35.936 furtos e roubos de veículos na cidade quase empatam com a soma daqueles quatro municípios do Interior também no período de seis anos.
SANTO ANDRÉ X SOROCABA
Uma comparação entre Santo André e Sorocaba, com populações semelhantes, perto de 700 mil habitantes, mostra bem a diferença dos crimes sobrerrodas que as separam.
Nos seis anos contabilizados a partir de 2017, ante os 35.936 mil furtos e roubos de veículos em Santo André, Sorocaba registrou 10.382. Ou seja: o risco de perder o patrimônio automotivo é três vezes maior em Santo André.
Não se pode afirmar, repetimos, que o drama sobrerrodas de Santo André é responsabilidade tácita da Administração Municipal. Nem agora nem dos antecessores.
A geografia de Santo André – eis uma avaliação que o prefeito prefere omitir, optando pela fuga da realidade -- é tão potencialmente favorável à criminalidade sobrerrodas quanto a logística cerceia o Desenvolvimento Econômico por conta da morosa mobilidade urbana.
TERRA DE ENCRENCAS
O erro do prefeito Paulinho Serra é vender a Terra Prometida quando o que temos em Santo André é uma Terra Encrencada. Na ânsia populista de transformar Santo André em brinco de ouro da princesa, Paulinho Serra deixa escapar a oportunidade de opor resistência ao triunfalismo que, mais dia, menos dia, aparece em forma de bólido. Como ocorreu agora com os crimes sobrerrodas. E ainda outro dia com o respeitado Ranking de Competitividade dos Municípios Brasileiros.
O grande nó criminal na área de veículos é que Santo André faz divisas com cinco dos municípios da região (menos Diadema) e com a Zona Leste da Capital. Trata-se de territórios de elevadíssimo grau de risco no interior da conflitiva e desigual Região Metropolitana de São Paulo.
O mapa de Santo André lembra um cavalo-marinho. É espichado e estreito no espraiamento com a vizinha. Vai colhendo aqui e ali novas populações mais sofridas, principalmente à Leste da Capital.
QUADRADISMO POPULISTA
Portanto e sempre a bem da realidade, Santo André não foi anunciada campeã estadual no ranking de roubo e furtos de veículos quando se divide o total de ocorrências por habitantes porque o Poder Público necessariamente seria negligente. É possível que seja mais atuante do que outros endereços, mas as armadilhas urbanas locais e metropolitanas impõem prejuízos mesmo.
Caso o prefeito Paulinho Serra não desse ouvidos a parceiros incompetentes na arte de comunicação social, poderia ter utilizado os seis anos anteriores aos igualmente seis contabilizados à frente de Santo André como prova de que de alguma forma conta com resultados menos sofríveis.
Bastaria, portanto, ao prefeito de Santo André ter saído do quadradismo de versos decorados de triunfalismo que sempre manifesta diante de adversidades.
Administrador Público nestes tempos de portabilidade midiática corre riscos cada vez maiores quando tenta tapar o sol da realidade com a peneira do proselitismo.
Afinal, o que ocorreu em Santo André na área de criminalidade sobrerrodas nos seis anos imediatamente anteriores aos seis anos consumidos pela Administração de Paulinho Serra?
QUEDA EM SEIS ANOS
Entre 2011 e 2016, Santo André totalizou 41.242 veículos furtados ou roubados. Como foram 35.936 nos seis anos subsequentes e de titularidade do prefeito Paulinho Serra, a queda registrada é de 13,60%. O resultado poderia ser melhorar se entrasse na conta o aumento da frota média de veículos dos dois períodos.
Seria providencial o prefeito vir a público diante da avalanche de críticas por causa da liderança na criminalidade sobrerrodas, e, munido de argumentos e informações, lembrar que reduziu o índice em 13,60%. Muito melhor do que reunir vereadores e assessores para tentar abafar a realidade.
Da mesma forma que não cansa de produzir factoides em diversas atividades de Santo André, com enxurrada de premiações fabricadas ou sem valor sistêmico ao Desenvolvimento Econômico e Social, Paulinho Serra agiu no campo criminal com o espírito negacionista.
Os números que a mídia em geral publicou não mereceram nenhuma observação direta do prefeito e tampouco de mídias que lhe são servis. A blindagem da Administração de Paulinho Serra é um tiro no pé da credibilidade de todos que emolduram uma Santo André paradisíaca.
PERFEIÇÃO IMPOSSÍVEL
Santo André e qualquer outro Município do País estão longe de ser uma correnteza de boas notícias. Mas Paulinho Serra e seus áulicos da mídia parecem desconhecer a realidade de contratempos naturais.
Pouco se tem a fazer quando o próprio prefeito desconhece estatísticas de criminalidade em Santo André e na região como um todo a partir do momento que assumiu a Prefeitura e em confronto com o passado recente.
Santo André é mesmo uma geografia reiteradamente preferencial de crimes sobrerrodas, mas não se pode vender a ilusão, como o prefeito vende, de que parafernálias tecnológicas e ações policiais seriam suficientes para desfilar grande sucesso.
O buraco de desvantagens estruturais e cartográficas é muito mais embaixo. E não parece que seja fácil combinar armistício criminal com a vizinhança menos vulnerável, mas nem por isso pacificada.
NÚMEROS DETALHADOS
Do total de 94.895 roubos e furtos de veículos na região nos últimos cinco anos, 35.936 de Santo André representaram 37,53% do total. São Caetano contabilizou 3.723 registros, Rio Grande da Serra 316, São Bernardo 22.589, Ribeirão Pires 2.185, Diadema 14.906, e Mauá 15.556. A média anual é de 15.825 casos. Santo André registra média anual de 5.939 roubos e furtos.
Com 6% da população do Estado, a região responde por 13,27% dos registros de roubos e furtos de veículos nos últimos seis anos. Foram registrados 715. 547 envolvendo 645 municípios.
O histórico de furtos e roubos de veículos em território paulista já foi muito pior. No começo do século, em 2011, foram registrados 221.774 casos. Os registros em 2022 caíram para 138.383 casos, mesmo com significativo aumento da frota. No caso da região, em 2001 a soma dos sete municípios alcançou 21.366 casos. No ano passado o total chegou a 17.279 casos. A queda média dos municípios paulista, num confronto entre as duas temporadas, foi de 82,70%. No caso do ABC Paulista, a média foi menos pronunciada: 19,16%.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS