Sociedade

Fatalidade ou negligência
com árvores assassinas?

DANIEL LIMA - 15/09/2023

Ora bolas, é preciso colocar ordem ética nesse barraco de contradições e de interesses pouco nobres. Se a menina que morreu nesta semana enquanto brincava numa escola infantil de São Bernardo é um caso criminal, como pretendem políticos oportunistas, por que em situação semelhante, num caso ocorrido em janeiro em Santo André, não houve esse rebuliço? 

Será que a vida de uma criança vale mais que a vida de um adulto? Será que morrer assassinado por uma árvore em Santo André é diferente de morrer assassinado por uma árvore em São Bernardo? 

A resposta é simples, reta e direta: estamos vivendo um mundo informativo maluco em que a verdade ou o que se poderia chamar de mais próximo da realidade é fluida, flexível. Tudo de acordo com as conveniências. 

O caso da menina morta em São Bernardo continua a frequentar o noticiário da região, especialmente do Diário do Grande ABC. A menina que morreu em São Bernardo morreu por fatalidade ou por negligência do Poder Público Municipal? 

TODOS ENVOLVIDOS? 

Se é responsabilidade da Prefeitura, devem ser chamados como parceiros do infortúnio pelo menos dois políticos que se ocuparam do jornal para condenar a Administração Municipal. Sem falar, também, do Ministério Público Estadual, dos professores da escola infantil e de muito mais gente.  

Afinal, todos tinham conhecimento do contexto que terminou em tragédia. E quem não conhecia deveria conhecer, porque se diz preocupado com os prédios públicos da cidade -- esse o caso específico do deputado petista Luiz Fernando Teixeira, um oportunista.  

Em janeiro deste ano houve um caso semelhante em Santo André, sem qualquer repercussão, além da reportagem que registrou a morte de um homem, vítima de uma árvore assassina.  

Para que não haja dúvida sobre os dois casos, vou direto às informações, publicadas no Diário do Grande ABC. Outras publicações também o fizeram, inclusive da Velha Imprensa.  

MORTE EM SANTO ANDRÉ  

Na edição de 16 de janeiro deste ano o Diário do Grande ABC publicou a seguinte manchete: “Chuva derruba árvore em cima de casa e mata homem em Santo André. Alguns trechos da notícia, para posterior complementação: 

 Uma tragédia marcou o fim de semana dos moradores da Comunidade Nova Titan 2, localizada na Vila Lutécia, em Santo André. Um homem de 54 anos, identificado como Jason Nunes da Silva, morreu no último domingo (15), enquanto dormia, após ser atingido por uma árvore que caiu sobre sua casa devido às fortes que atingiram a região.  

Mais alguns trechos da reportagem do Diário do Grande ABC: 

 Vizinha de Silva há dois anos, Kátia Regina Ramos da Silva, 38, comentou que não conseguiu ir trabalhar porque ainda está muito abalada com a perda do amigo. Ela estava na janela no momento em que a árvore desabou e a vizinha acionou o Samu para prestar resgate. 

Mais trechos da reportagem do Diário do Grande ABC de janeiro deste ano: 

 Sobre a queda da árvore, a Prefeitura de Santo André informou que as residências da Comunidade Titan 2 ficam em uma área particular invadida. “Possivelmente contribuiu para a queda o fato de que a árvore já estava morta, seca e com as raízes cortadas. A vítima tinha feito o corte do talude da construção da casa rente à árvore e cortado suas raízes, utilizando a mesma como poste”, destacou o Paço. 

PONTO DECISIVO  

Agora, no trecho que se segue, vem a informação mais importante e que remete à semelhança da morte da menina em São Bernardo: 

 A presidente da associação de moradores da comunidade, Munize Farias, 29, contesta a informação da prefeitura. Ela ressalta que os 2.000 moradores da comunidade não podem mexer nas árvores da área por conta de processo movido em 2018 pela Prefeitura de Santo André contra eles: “Atualmente, o processo está pausado por conta da reurbanização prevista para o local. Abrimos alguns chamados na Defesa Civil para acelerar a vistoria, justamente por conta do perigo de queda de árvores durante as fortes chuvas, pontua. Em resposta, a Prefeitura de Santo André confirma que existe uma Ação Civil Pública Ambiental em andamento que visa a desocupação da área “em razão dos danos ambientais perpetrados pelos ocupantes do local”.  O Paço destacou ainda que o núcleo habitacional não é reconhecido pela municipalidade porque teria sido ocupado no ano de 2016, e não contemplado com o Plano Municipal de Habitação de 2015.  

MORTE EM SÃO BERNARDO   

Agora, passemos pelos principais trechos da matéria publicada terça-feira no Diário do Grande ABC, sob o título “Criança morre após ser atingida por árvore em escola de São Bernardo”: 

 A aluna Isidora Custódio, de 5 anos, morreu na manhã de ontem após ser atingida pelo tronco de uma árvore de grande porte na Emeb (Escola Municipal de Educação Básica Lauro Gomes, no Bairro Rudge Ramos, em São Bernardo. Nenhum outro aluno foi atingido. De acordo com a SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo), guardas civis municipais realizavam a segurança da escola quando ouviram o momento em que uma das professoras pedia por socorro no pátio da creche. 

Mais trechos da primeira reportagem do Diário do Grande ABC de terça-feira: 

 O Diário questionou a Prefeitura de São Bernardo sobre os serviços de manutenção, sobretudo sobre a poda de árvore, porém até o fechamento desta edição o Paço são-bernardense não havia respondida a reportagem.  

SEGUNDA REPORTAGEM  

No dia seguinte, quarta-feira, o Diário do Grande ABC publicou a seguinte manchete de página interna, complemento de uma primeira página muito destacada: “Educação de S. Bernardo já sabia dos riscos na Emeb. Leia os trechos principais: 

 A Secretaria de Educação de São Bernardo já estava ciente havia pelo menos cinco anos dos perigos que a árvore localizada (...) causava para alunos e profissionais da unidade. (...) Documento obtido pelo Diário mostra que a Pasta, então comandada por Suzana Dechechi, havia recomendada para a gestão do prefeito Orlando Morando (PSDB) a retirada da espécie, classificando como falsa seringueira. A avaliação está presente em investigação feita pelo Ministério Público entre 2018 e 2019, depois que o vereador Julinho Fuzari (PSC) acionou a Promotoria após receber dos próprios alunos sobre o risco da queda da árvore.  

Mais alguns trechos da reportagem do Diário do Grande ABC: 

 (...) Ainda no documento do MP, a Secretaria de Meio Ambiente não procedeu com a retirada da árvore alegando que a espécie era tombada pelo patrimônio histórico do Município. E, por isso, apenas podas eram realizadas pela Secretaria de Serviços Urbanos. O promotor Jonathan Vieira de Azevedo, que conduziu a apuração do caso, decidiu arquivar qualquer representação argumentando que “o problema aparentemente foi resolvido pela atuação da municipalidade”.  

Prosseguindo com a reportagem do Diário do Grande ABC de quarta-feira: 

 Em 2018, os estudantes da Emeb Lauro Gomes escreveram uma carta para o prefeito pedindo procedência com relação à árvore. À época, o parquinho estava interditado justamente pelo risco de queda da espécie. Também em 2018, o Diário mostrou a situação e, naquela ocasião, a Prefeitura disse que ainda aguardava parecer do Compahc (Conselho de Patrimônio Histórico e Cultural) para podar a árvore.  

TERCEIRA REPORTAGEM  

Ontem, quinta-feira, nova reportagem do Diário do Grande ABC, agora com uma manchete em que colocava como destaque o deputado estadual petista Luiz Fernando Teixeira, candidato à Prefeitura na próxima temporada, sob o título: “Deputado aponta negligência de São Bernardo na morte da aluna. Leia os trechos principais: 

 O deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT) denunciou a Prefeitura de São Bernardo ao MP (Ministério Público) por negligência em relação à morte (...). No documento, o parlamentar aponta negligência do Paço em relação à manutenção da unidade de ensino, e destaca a carta assinada por alunos da Emeb solicitando (...). Após as reclamações, o vereador Julinho Fuzari enviou à época um ofício à administração são-bernardense sobre o caso. Sem resposta, o parlamentar acionou o MP, que arquivou a investigação.  Luiz Fernando solicita que o órgão instaure inquérito criminal para que sejam apuradas “eventuais responsabilidades dos agentes públicos envolvidos na omissão, para que, ao final, sendo constatada a responsabilidade, e os mesmos sejam réus nas ações criminais cabíveis, pontua o deputado em ofício.  

Mais alguns trechos da matéria de ontem com o parlamentar candidato a prefeito: 

 “Não se pode falar, assim, de fatalidade, posto que fatalidade advém de fato imprevisível, o que não ocorreu no presente caso. O que se verificou no presente fato é uma tragédia anunciada, posto que o risco à integridade física e à vida dos alunos e funcionários da Emeb Lauro Gomes vem sendo denunciado desde 2018 à Prefeitura, ou seja, o fato era amplamente previsível”, destaca um dos trechos da denúncia. 

DEPUTADO MANIPULADOR  

Como se observa, ao utilizar a frase “vem sendo denunciado desde 2018”, o deputado petista força a barra da verdade, porque não há registros conhecidos de que tenha havido continuidade às reclamações.  Ou seja: tudo se esgotou entre 2018 e 2019. 

Outros trechos de declarações do deputado foram redundantes. Luiz Fernando Teixeira é de estilo espalhafatoso, procura de todas as formas se viabilizar como candidato a prefeito pelo PT. E, mais que isso, concorrer em condições de sucesso. Mas acabou se traindo num trecho da reportagem: “No total – escreveu o Diário – o deputado citou seis ofícios denunciando a Prefeitura por ausência de manutenção em prédios públicos”. O deputado só se esqueceu da escola onde o tronco fez uma vítima fatal.  

O resumo de toda essa operação denunciatória tem como expressão maior de compreensão a diferença entre negligência e fatalidade. Se foi negligência, não há distinção entre o que ocorreu em São Bernardo e a morte do homem numa comunidade de Santo André.  

No caso específico de São Bernardo, todos teriam de responder pelo suposto crime, não apenas as instâncias oficiais da Prefeitura. Isso incluiria o vereador Julinho Fuzari, que não acompanhou o caso durante os cinco anos da origem de denúncia. A culpabilidade pretendida também passaria pelo Ministério Público, que encerrou a investigação, incluindo-se também a Secretaria de Educação de São Bernardo e o órgão que cuida de patrimônio histórico. Luiz Fernando Teixeira teria falhado como pretendido e suposto guardião de prédios públicos, com cinco registros de supostas inadequações entre dezenas de unidades.    

Entre um diagnóstico e outro, permeia uma mais que escancarada operação de produzir muita fumaça e nenhuma solução que remeta a morte do homem em Santo André e da menina em São Bernardo ao campo criminal.  

A literatura nacional de mortes causadas por queda de árvores, mesmo fora do período de chuvas, é extensa. A diferença nesse caso de São Bernardo é que a política partidária entrou em campo. E quando a política partidária entra em campo, a reflexão e o bom senso recebem cartão vermelho.  



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