Leitor incorrigível, desses que disciplinadamente, dia após dia, acumula base bastante considerável de informações, não resisti à ideia de tentar construir um painel que enfeixe todos os tipos possíveis de leitores. Cheguei a relacionar perto de 30 características diferentes, mas quando detectei sobreposição, que o limite entre determinado leitor e outro não era tão desgarrado de identidade própria, mesmo que não parecessem siameses, decidi por cirurgia reparadora. Chegamos a 17 perfis.
Um esforço maior, um pouco mais de tempo para reflexões, permitiria que alcançasse universo mais alongado sem cair no vício da repetição. Mas isso não importa nestas alturas do campeonato. O objetivo é quase que fomentar divertimento. O que se segue é também um teste para que os leitores possam se descobrir múltiplos ou não na forma de alimentar-se de informações impressas em jornais e revistas. Sim, porque há imensa possibilidade, de acordo com o grau individual de valorização ou não da leitura, de o leitor encontrar-se em várias situações descritas.
Também pensei em associar os tipos que se seguem a uma tabela de pontos que definiria pelo menos três classes de leitores: os mais dedicados, os burocráticos e os simplesmente desprezíveis. Dissecando-os, diria que os mais dedicados deveriam merecer atenção especial das empresas jornalísticas, porque podem mostrar o caminho das pedras da recuperação do contingente a ser conquistado ou reconquistado. Já os burocráticos precisariam ser sacudidos para que não engrossem fileiras dos desertores. E os desprezíveis provavelmente são cartas fora do baralho de transformações sociais de que tanto precisamos.
Preferi deixar de lado o teste que enquadraria os leitores numa das três categorias. Acho que estaria exagerando. Ainda mais que preparei este texto depois da novela das nove e antes que o sono batesse, ontem à noite. Temia que em vez de criatividade, sobreviesse delírio.
Leitor monogâmico – Não adianta forçar a barra, porque ele não desgruda os olhos do jornal ou da revista de sempre. O que mais lhe move interesse é que o que vai ler é exatamente o que espera para satisfazer seu apetite. Seu mundo se resume ao posicionamento escravizante de uma única fonte de informação. Há situações em que a fidelidade se dá mesmo por conta do bolso raso, e nesse caso o que vale é o interesse pela leitura como fonte de informação sem viés ideológico. Em outros casos o exclusivismo tem raízes profundas no jeito de ver a vida à direita ou à esquerda do campo político-partidário.
Leitor surubático – Diversidade, diversidade, diversidade. Esse é o ponto-chave — ou seria o Ponto G? — desse leitor de várias fontes. Para ele não importa o objetivo que se repassa em cada frase impressa, porque o que de fato o coloca na linha de frente de quem quer se atualizar é a impetuosidade com que se joga nos textos. Quer saber de tudo. Pouco está se lixando para colorações políticas e partidárias. Muitas vezes se perde na selva de pernas de compromissos das fontes que coleciona, mas isso não o leva a torturar-se. Mergulha mesmo nas águas da multiplicidade como quem adora entrar numa padaria e devorar um sorvete atrás do outro, sempre de sabor diferente.
Leitor engajado – Ler não tem graça alguma se não for atitude quase de guerra, uma ordem unida para manter acesa a chama da ideologia. Por isso, o leitor engajado desconsidera assuntos que não contenham porção especial de idiossincrasia política e partidária. Quem não se satisfaz com publicações que disfarçam ou pensam que disfarçam propósitos vasculha na Internet alternativas que alimentem projetos de disputa bélica que não chega nunca, mas que um dia, acredita, vai chegar. Guevara está vivo, garante.
Leitor conformado – Não interessa o que se passa no mundo, porque o leitor conformado não mexerá uma palha, sequer arregalará os olhos, muito menos moverá um músculo do rosto: seu negócio é ler, ler e ler sem compromisso com nada — apenas com o prazer de estar bem informado. Podem dizer que ele vive a mesma situação de um veículo de luxo que permanece na garagem porque o proprietário não quer consumir combustível. Ele não se importa com a zombaria. Se caiu a ponte preta, se o metrô entrou em pane, se morreu o primeiro motorista no trecho sul do Rodoanel, nada disso o retira da tranquilidade de simples leitor. O máximo que exercitará como conhecedor do dia a dia que chega de forma impressa é comentar com um ou outro interlocutor, sem meter-se em juízo de valor. Quer apenas curtir a certeza de que está em dia com o noticiário. É o carro de luxo cujo dono se satisfaz de exibi-lo limpinho, cheiroso e intocável.
Leitor editorialista – Nada mais o comove senão os editoriais, espaço nobre no qual articulistas mostram a face verdadeira dos desígnios da publicação. Todo o restante é perfumaria, um jogo de cena que satisfaz ou pretende agradar quem não entende do riscado. Para o leitor editorialista a chave-mestra para compreender o passado, o presente e o futuro daquela empresa de comunicação que edita o veículo que chega as suas mãos está naqueles enunciados carregados de costuras semânticas ou, em situações diversas, de declarações enfáticas de inconformismo ou de perfilamento com a realidade nem sempre agradável a estranhos ao poder. Que todas as páginas, afora as de editoriais, sejam levadas pelo vento, porque não passam de rascunhos, garantem eles.
Leitor celebridade – Talvez por conta de algum problema que Freud explicaria, quem não consegue ficar longe das páginas de fofocas é candidato em potencial a viver no mundo da lua. Publicações voltadas a celebridades ou pretendidas celebridades, assim como as colunas sociais, são uma fonte inesgotável de realidade restrita a alguns agrupamentos da sociedade. Mesmo assim, mal sabe que há gatos que se passam por lebre porque de celebridade não têm nem a identidade forjada pelo imediatismo do sucesso profissional ou ocasional e muito menos a conta bancária. Mas sabem que há celebridades de araque, que vivem no entorno de celebridades de verdade em busca de migalhas de reputação. Sem contar que também correm atrás de novos-ricos, como maratonistas em busca de espaço midiático — mesmo que no rodapé das páginas.
Leitor oportunista – Não existe nada mais enganoso do que o leitor que se dedica a consumir informação seletiva porque sabe que naquele encontro de negócios ou social precisa dar um drible na língua ferina de quem o considera uma besta quadrada. Por isso, não vê a hora da chegada do jornal para embrenhar-se a fundo na principal notícia do dia. É preciso guardar na memória todos os detalhes para que, mais tarde, encontros realizados, descarregue com um certo ar de arrogância sentenças peremptórias sobre o assunto. O cuidado a tomar, sabe bem o leitor oportunista, é que não se deve correr muitos riscos de esticar demais a conversa se um dos interlocutores, pelo menos um deles, for especialista no assunto. Aí, é melhor dar no pé, ou seja, trocar rapidamente de cenário. Nada melhor que recorrer nestes dias efervescentes a casos como o de Neymar, por exemplo, de domínio de qualquer gari.
Leitor novelesco – Nada é mais sedutor ao leitor novelesco que um crime de impacto, como o do goleiro do Flamengo, por exemplo. Jornal ou revista só desperta atenção do leitor novelesco quando a televisão destaca um drama do cotidiano ensandecido. Mas tem de ser drama de verdade, não esses crimes que, pela repetitividade, tornaram-se comuns. Ocorrência policial com gente famosa merece a quebra de rotina de dar de ombros à leitura regular. Se valer a pena, todos os dias o leitor novelesco vai à banca, compra seu exemplar de jornal e se dedica como poucos a acompanhar parágrafo por parágrafo do noticiário. Chega ao ponto também de adquirir jornais diferentes e de completar a saga com pelo menos uma revista semanal — até que o assunto se esgote. Sem um grande caso policial o leitor novelesco desaparece do radar. Nada, definitivamente nada, mais lhe interessa. No fundo, no fundo, o leitor novelesco é um Dias Gomes que não deu certo.
Leitor domingueiro – Certo de que os jornais só enrolam durante a semana, por mais que tentem vender a ideia de que cada edição é uma prova provada de que a roda do mundo gira, o leitor domingueiro afasta-se de qualquer publicação de segunda a sábado. Quando chega o domingo, tal qual os congêneres do ramo de motorização que levam pânico ao trânsito porque mal sabem distinguir farol vermelho de verde, é uma festa só. E que ninguém interrompa a leitura sagrada como a missa da manhã. O sentimento de que se vai colocar em dia todos os acontecimentos da semana não pode ficar para segunda-feira, porque aí é outra cronologia e o encanto do domingo já se foi. Valerá sempre a pena virar página por página de publicações empanturradas de anúncios, de mais anúncios que matérias, nos jornais e revistas domingueiras.
Leitor vitrinesco – Andar pelas ruas é uma atividade reconfortante para o leitor vitrinesco. Nada mais providencial que uma parada estratégica aqui, outra ali, outra acolá, nos jornais e revistas nos varais de bancas. Os olhos correm pelas manchetes e fotos com avidez. A satisfação de acompanhar o painel diário de informações limitado às primeiras e últimas páginas compara-se ao impacto do voyarismo de quem se deleita com a mulher de biquíni que a fresta da porta socializa parcialmente a intimidade. Leitor vitrinesco não dá bola para a chuva que cai nem para o sol inclemente. Nem mesmo para a mulher bonita que passa ao lado. Ele só quer é esticar o pescoço e sair de cena com o sentimento de que economizou o dinheiro dos exemplares. É um fila-leitura, um fura-leitura ou um fila-fura-leitura descarado.
Leitor personalístico – Para quem gosta mesmo de posicionar-se e pretende descobrir nuances que iriam muito além do explicitamente impresso, o leitor personalístico é o retrato mais bem acabado de marcação cerrada. Para ele, texto sem nome do autor é texto suspeito, um Guernica sem a assinatura de Picasso. Nem tente explicar ao leitor personalístico que a inclusão ou a supressão da identidade do autor da matéria é decisão que emana do alto da torre de marfim de cada publicação, contra a qual os simples imortais nada podem fazer, mesmo que os simples imortais sejam de fato os responsáveis pelo prestígio do produto. Dizer a ele que há publicações tanto no Brasil quanto em outras plagas que simplesmente omitem quem dedilhou palavra por palavra de cada reportagem, de cada análise, de cada entrevista, é arriscar-se a ouvir insulto. O mundo do leitor personalístico é o mundo de quem leva a sério a marca de qualquer coisa que se consome, de geladeira a fogão, do aparelho de tevê ao arroz levado ao forno. Marca é marca, e está acabado. Ou melhor: grife é grife, e estamos conversados.
Leitor fastfoodiano – Não passa de pasmaceira essa história de que textos devem ser consumidos com vagar. O leitor fastfoodiano tem pressa, muita pressa. Ele desliza os olhos no titulo e em seguida escorrega olhar abaixo em direção ao texto. Dizer que simplesmente escaneia o que lhe vem à frente não é exagero. É assim mesmo que ele acredita que se prepara para enfrentar o mundo com cacife para suportar qualquer tipo de embate cultural e técnico. Já lhe disseram que leitura é algo como mastigar vagarosamente uma colher de arroz, um pedaço de carne, como saborear um doce generosamente servido, mas ele dá de ombros. Ninguém o convence de que leitura rápida é deformação que maltrata as sinapses, porque nem sinapses ele sabe do que se trata. Depois que inventaram a Internet, então, acelerou ainda mais o ritmo de Fórmula-1.
Leitor metabólico – Quem ousar sugerir ao leitor metabólico que o valor da concentração e da solidão, às quais recorre para armazenar o máximo possível de informação na memória cerebral, não tem sustentação científica, corre o risco de levar um chute nos fundilhos. Como é possível que alguém tenha a desfaçatez de contrariar tantos estudos de neurocientistas afamados que, mais que sugerir, receitam a reclusão e a introspecção quando o ato de leitura se fizer presente. A mente, garantem especialistas, é espécie de biodigestor de informações que ganham forma subjetiva de conhecimento na medida em que o grau de suprimento não ultrapasse os limites de compreensão. Quem se meter a enfiar cérebro adentro carga excessivamente elevada de registros corre o risco de nadar, nadar e morrer na praia da ignorância ou do apetrechamento esfarrapado que não resiste a uma prova oral.
Leitor saltitante – Muito antes da chegada e da massificação da Internet, maior propulsora do fenômeno, o leitor saltitante já se entregava ao exercício visual de pular de página ao sabor da inquietação de quem despreza o convencional. Sair do noticiário esportivo que conta a nova vitória do Corinthians para a página social de aniversário de um figurão para em seguida consumir um texto de cultura de Caetano Veloso e se jogar nos braços do noticiário policial da mais recente invasão de condomínio no Interior sem antes passar por um editorial sobre a elevação dos juros pelo Banco Central — é assim que o leitor saltitante se manifesta. O jornal ou a revista vira um playground com direito a trem fantasma, roda-gigante e todas as demais atrações. É melhor que fique em silêncio quem pretender mudar o hábito, supondo que tamanha diversidade impede ou limite a concentração temática e desvie o foco de absorção de conhecimento. Afinal, o leitor saltitante não é obra do acaso. Ele leu em algum lugar e em algum tempo que nada é mais convidativo à monotonia que a rotina. Por isso, salta tanto nas leituras como em outras coisas. De vez em quando se dá mal.
Leitor corporativo – Não adianta dizerem que o mundo é monumentalmente grande e atrativo, porque o leitor corporativo só enxerga a logomarca da empresa ou instituição que lhe paga o salário todo final de mês. Faça chuva ou faça sol, caia tempestade ou o metrô desabe, lá está ele fartando-se de informações da atividade profissional que abraçou, depois de longos anos de estudos. Que se dane o mundo, pelo menos durante os dias úteis, porque ele não arredará-pé do máximo de informações que o mantenha literalmente por dentro de tudo que lhe convém como agente econômico. Nem ousem lhe apresentar uma opção de leitura mais leve, uma Playboy com a pelada da moda na capa. Seus olhos brilham mesmo é quando se dirige ao símbolo que consta do crachá de identificação submetido aos olhos eletrônicos da empregadora.
Leitor integrativo – Mais que ler com avidez e de debater com possíveis parceiros de viagem informativa diferentes ângulos de questões nem sempre de fácil compreensão, o leitor integrativo vai mais longe: participa ativamente da seção dos leitores. Antes, enviava cartas trabalhosas que, acreditava, nem sempre o carteiro entregava no destino. Agora com o mundo digital a encurtar distâncias e a transformar domicílio residencial ou escritório comercial em extensão das redações, ele se sente jornalista também. Muitos vencem pelo cansaço, porque, não satisfeitos com comentários que julgam indispensáveis, remetem também lamentações por terem sido esquecidos por chefes de redação insensíveis. O leitor integrativo já desistiu há muito tempo de utilizar telefone, porque nem sempre o ramal desejado encontrava do outro lado da linha alguém disposto a ouvi-lo. Com a Internet, o correio eletrônico é a prova do crime de subestimação de um talento sem custos para a companhia jornalística.
Leitor temático – Quem gosta de futebol não passa as fronteiras do caderno de esportes. Quem prefere política não quer nem ouvir falar de futebol. Do noticiário policial cuidam os herdeiros de Agatha Christie. Os cadernos de cultura são a prova irrebatível de glamorosidade intelectual. O leitor temático é assim mesmo, um solitário em seu mundinho. O que mais ele lamenta é que os donos de jornais gastem tanto papel para imprimir seções às quais não dão a menor bola. Bem que poderiam ser suprimidas, sugerem. Quem sabe essa decisão baratearia o custo final do produto? Jamais as companhias jornalísticas se meteram nesse mato sem cachorro. Se fizessem uma pesquisa séria sobre o comportamento de leitura do quadro de assinantes, poderiam encontrar exemplos estarrecedores de gente cuja vida se resume à bola, ao voto, à ribalta, ao Boletim de Ocorrência, a colunas sociais. São leitores fracionados e inconformados com o valor cheio de cada exemplar.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS