Se as inúteis lideranças de entidades econômicas, sociais e culturais passassem pelo crivo de exposição midiática dos administradores públicos, a reputação seria igualmente polêmica, para não dizer depreciativa. Aliás, se houvesse um mínimo de democracia e de estimulo ao contraditório e à transparência da própria mídia, os políticos seriam parcialmente reabilitados ou ganhariam companhias supostamente ilustres. Quando se diz que a classe política é reflexo da sociedade, manipula-se uma parte da verdade. A classe política é reflexo da sociedade incrustada em associações diversas e cuja maioria dos integrantes quer mesmo é se refestelar na intimidade do Poder Público.
A ordem unida de demonização da imagem dos gestores públicos comete o desatino da generalização, porque não separa alhos de bugalhos. Mas esse tratamento é conveniente para quem quer perpetuar digitais de incompetência, corrupção, desleixo, abusos e tantos outros adjetivos do arsenal de impropriedades do Poder Público. Manter a mira de imprecações contra quem atua na área governamental é um velho truque que dá certo. É uma forma muito esperta e mais que isso, deliberada, de desviar a atenção dos próprios desatinos.
Quando à frente do Prêmio Desempenho decidi incorporar programas governamentais na grade de láureas, submetendo os cases ao Conselho Editorial, fui vítima de críticas. Os mais conservadores avançaram o sinal do direito à reprovação para construir ilações típicas de quem possivelmente conhecia os meandros e eventuais desastres nas relações com o Poder Público.
Onde já se viu colocar cases públicos num evento que nasceu para premiar cases privados?, foi o mínimo que disseram.
O tempo provou que estava absolutamente certo, porque, desde a introdução da novidade, o principal troféu da noite, no caso o título de Melhor dos Melhores, foi conquistado por cases governamentais ou por cases sociais, de entidades que atuam na complementação dos braços públicos. Apenas numa das edições ganhou case de empresa privada, no caso a Termomecânica São Paulo, de São Bernardo, mesmo assim com programa consagrado na área educacional.
Os administradores públicos não podem ser catalogados como monopolistas de imprevidências, porque no setor privado e também nas atividades institucionais, não faltam malabaristas juramentados.
Em muitos casos, eles são os primeiros a enfileirarem-se com críticas aos gestores públicos, desde que as manifestações não conflitem com interesses particulares. Reparem nos porta-vozes de entidades empresariais do Grande ABC como fogem de qualquer pronunciamento que atinja administradores públicos locais? De uns tempos para cá, desde que a ideologização entre petistas e tucanos tomou conta, a maioria evita manobras mais radicais mesmo fora do circuito regional. Ninguém quer se indispor.
Imaginem se a Associação dos Construtores, Incorporadoras e Imobiliárias do Grande ABC, dirigida autocraticamente há muitos anos por Milton Bigucci, passasse pelo crivo democrático do contraditório da classe de pequenos e médios empreendedores do setor?
O presidente já teria sido afastado há muito tempo por absoluta inapetência ao trabalho associativo. Mas o que acontece com Milton Bigucci? Uma eterna louvação dos meios de comunicação da região, principalmente por conta do que ele significa de reciprocidade no mercado imobiliário. Candidato a celebridade permanente, Milton Bigucci goza de prestígio apenas nas páginas de jornais e nos nichos que se submetem à doutrina do lobbismo corporativo.
Milton Bigucci não é caso único. Muito pelo contrário: é a regra regional e nacional.
Valter Moura, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, é da mesma família de autoritarismo e centralismo. E de improdutividades.
É certo que alguns vão contrapor que Poder Público é Poder Público, porque administra recursos da sociedade. Um argumento e tanto. Mas o que são as entidades supostamente de classe senão ramificações dessa mesma sociedade, que paga alto o preço da omissão de seus representantes em forma de fragilização das relações econômicas?
Já imaginaram o quanto custaram ao longo de mais de uma década a desatenção, o desinteresse, a omissão e o despreparo dos dirigentes que silenciaram diante da invasão dos grandes conglomerados comerciais em repetitivos assassinatos econômicos impensáveis no Primeiro Mundo mais civilizado?
Onde estavam todos eles — e onde estão os de agora — diante de situações que alteram para valer as redes sociais de uma região que — outro exemplo de inapetência — passou os anos 1990 sob intenso tiroteio de desindustrialização enquanto os chamados formadores de opinião e tomadores de decisão louvavam acriticamente a criação de entidades pretensamente regionais que se perderam num conjunto de anomalias estruturais?
A sociedade manietada, porque falsas lideranças de entidades diversas se perpetuam nos cargos e se aboletam de vantagens privadas, não pode acreditar na ladainha unilateral de que somente os políticos são as maçãs pobres do cesto regional.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS