Sociedade

Quero mais que o mundo recomece
em formato de Big Brother Brasil

DANIEL LIMA - 23/02/2011

Diferentemente do que dizem os preconceituosos, no extremo oposto do que sugerem os conservadores, muito longe do que resmungam os falsamente moralistas, bem distante do que proclamam os puristas, acho o Big Brother Brasil o maior barato.


Sempre dou mais que uma espiadinha, como convida Pedro Bial, caso raro de profissional de comunicação que valoriza qualquer evento, inclusive briga de galo em rede nacional. Pedro Bial é tão eclético quanto genial.


Me divirto muito com a realidade de relacionamentos que têm tudo a ver com o que encontramos na sociedade. O BBB original e autêntico está potencialmente aqui fora. A diferença é que faltam câmeras e microfones para capturar principalmente as idiossincrasias de bastidores travestidas de cordialidade pública. Ou seja, o BBB está longe do esquadrinhamento de ficção televisiva.


Lá dentro, na casa do Bial, talvez o que exista de fato seja um rascunho que não sufoca a realidade mas a torna menos epidérmica por conta da infraestrutura tecnológica montada com finalidade de espetáculo midiático.


Dá-se, aliás, com o apetrechamento eletrônico do Big Brother Brasil, processo diverso do pensamento geral: a vigilância diuturna mais esconde do que revela pontos de convergências e divergências dos participantes, embora a rotina diária seja inescapavelmente dolorosa no transcorrer dos dias e com isso dê espaços a emblemáticos fraquejamentos de caráter e de temperamento.


A grande matéria jornalística sobre o Big Brother Brasil ainda está por ser feita. Estudiosos poderiam extrair insumos do processo de fragilização emocional que começa com o confinamento dos protagonistas em hotéis, isolados entre si em estágio final ao chamamento televisivo.


A suposta representação de personagens preparados para ganhar a premiação e as pressões que o dia a dia impõe, provavelmente causem mais estragos psicológicos do que supõem especialistas em comportamento humano.


Não acredito que seja possível suportar o isolamento do mundo externo, com os níveis de microcompetições internas a cada rodada preparatória ao próximo paredão, sem que alterações significativas se sobreponham ao planejamento individual.


Provavelmente os brothers acabem traídos por sentimentos e reações que consigam contornar no ambiente externo e protegido da sociedade com um todo.


A impressão que me transmitem é que ao adentrarem a casa os brothers sentem-se seres humanos especiais, eleitos entre milhares de concorrentes, mas que, na medida em que o tempo se comprime em relação ao prazo à consagração do vencedor da temporada, passam a conviver com sentimentos variados, nobres ou nada edificantes. Revelam-se internamente, portanto, o que são de fato fora daquele ambiente apenas supostamente esterilizado de cultura humana.


Ainda me preocupo em afirmar que produzo crédito de carbono para me defender de que não sou um idiota porque me coloco à frente de um aparelho de TV aberta para acompanhar, sempre que possível, uma nova jornada noturna do Big Brother Brasil.


Confesso que essa é uma maneira de me desculpar e dizer que não faço parte da grande massa nacional que não teria lá muita destreza intelectual ao submeter-me à empatia de Pedro Bial e às traquinagens dos brothers.


Mas, pensando bem, ao me referir ao crédito de carbono, que vem a ser uma carga diária de leitura muito acima da média nacional, estou me comportando de forma mesquinha.


O BBB é sempre uma lição de vida para quem encara cada transmissão com sensibilidade de espírito, agudeza de racionalidade, curiosidade comportamental e tantos outros requisitos disponíveis de graça ou quase de graça para serem assimilados e compreendidos.


Eu quero mais que o mundo acabe e comece de novo aqui fora no formato de um Big Brother Brasil, porque as máscaras que tanto sucesso fazem em público podem cair em algum momento de streeptease social. Tal qual no BBB televiso, com a vantagem de que todos estariam efetivamente, aqui fora, expostos à possibilidade de paredões superlativamente coletivos e democráticos.


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