O bicho homem que vive em sociedade difere substantivamente do bicho-bicho que vive no zoológico. Quem aprecia um passeio pelo zoológico dos bichos deveria prestar mais atenção ao zoológico humano. Quem entre os humanos conhece bem alguns bichos-bichos, não tem dúvidas de afirmar que prefere os segundos.
Que bicho seria o leitor nesse zoológico que é viver em sociedade? Você se identificaria com quantos espécimes do zoológico urbano que organizei para fazer inveja aos animais separados e mutuamente mais protegidos que os bichos homens?
Duvido que o leitor não se veja refletido num espelho quando ficar frente a frente com os bichos que apresentamos. Um bicho-homem de similitude ao bicho-bicho é compulsório, mais que um é muito provável. Sim, porque um bicho-homem não exclui outros. Há quem certamente concentrará uma bicharada.
Vejam que, com a potencial multiplicidade, estamos em desvantagem, daí a certeza de que nós, humanos, somos uma sub raça. Bichos-bichos são o que são e estamos conversados. Eles mantêm características básicas, únicas, intocáveis. Cachorro é cachorro, gato é gato, urubu é urubu. Faltam-lhes arranjos cognitivos dos humanos para assumirem personalidades diversas. Ainda bem que não as têm. Já imaginaram quanto teriam se violentados com o bicho-homem numa relação culturalmente mais integrativa? Certamente deixariam de ser bichos-bichos. Seriam bichos-homens.
Tudo isso até parece uma aula da Escolinha do Professor Raimundo, mas, no fundo, é um desabafo. Não escapa a mentes apetrechadas, que não flertam com a estupidez e a idiotice, que vivemos sim num zoológico humano e urbano.
Não que tudo esteja perdido, irremediavelmente perdido, mas também estamos longe de vencer as batalhas. Somos uma sociedade em decomposição ética e moral que não se avexa com quase nada. Tudo acontece com a maior naturalidade do mundo. E ai daqueles que ousam cutucar as feridas. Querem um exemplo, ainda divulgado outro dia? Mais de 10 mil civis foram assassinados por policiais na última década no Estado de São Paulo. Quem reage? Quem se opõe a esse tipo de faxina social? Quantos inocentes não pagaram pelos pecadores? Quantos pecadores não estão por aí, leves e soltos?
Há consenso em torno de algo pecaminoso quando se coloca o homem na condição inegociável de livre arbítrio: perdemos nossa capacidade de indignação.
Somos bichos-homens a milhões de anos dos bichos-bichos.
Veja quantos bichos-homens foram reservados para você. E, principalmente, porque ninguém é bobo, quantos bichos-homens você conhece bem de pertinho sem que se tenha dado conta de que todos eles mereciam estar num zoológico de verdade, compartimentados, distantes entre si, enjaulados, portanto. E os bichos-bichos soltos por aí, porque seriam menos perigosos.
Galo – São incorrigíveis na arte de gargantear vantagens. Elevam a decibéis inimagináveis os atributos com que seduzem incautos. Abafam o som de poréns e de contudos de quem procura demovê-los da fixação de provar que são os tais. Têm nas palavras fáceis e sempre bem afiadas, na eloquência bem articulada, o passaporte à credibilidade dos simplistas e reducionistas.
Pavão – É espécime diferente, embora possa causar estragos semelhantes aos do galo. Vestem-se com esmero e capricho e perfumam-se com o cheiro dos grandes acontecimentos, mesmo que o compromisso da tarde não seja mais que rotineiro. Pavão de verdade não tem rotina, porque cada compromisso é um evento. Apresentam-se com etiqueta visual capaz de cegar quem se esquece de ao menos levantar a possibilidade de que está diante de uma fraude bem produzida. Há maquiadores aos montes no mercado.
Gato – Movimentam-se com sutileza, esperteza e finesse tão geneticamente naturais que não há curso preparatório, muito menos de pós-graduação, capaz de produzi-los sem deixar a impressão de que a diferença é semelhante entre mulher e transexual. Nem olhos muito atentos, atentíssimos, conseguem detectar a frieza e o calculismo com que se defrontam. Os gatos têm intensa percepção, como se dotados de radar, para identificar obstáculos que possam lhes atrapalhar os planos.
Canguru – Esse espécime alcança proporções geométricas no ambiente político, especialmente em época de eleições, e também nas administrações públicas. Parece que tem molejo de última tecnologia, tanto que se especializou em aninhar-se nos braços de quem julga vencedores e também dos mais prestigiados a embalar saltos rumo ao sucesso. Não se aporrinham com equívocos, porque encontram um jeitinho de novo pulo em direção muitas vezes oposta. Vale tudo para readequar a bússola de ascensão profissional.
Cachorro – Costumam ladrar e a desafiar o axioma de que a caravana impávida vai continuar a passar. Muitas vezes a sociedade só se dá conta de que o chamado melhor amigo que rosna e late sem parar está emitindo mais que sinais — são provas vivas, contundentes, de que há algo de errado que precisa chegar ao fim. Geralmente os cachorros dão com os burros nágua porque a sociedade doutrinada a concessões e ao politicamente correto só reage após a porta arrombada.
Gambá – É muito raro que fiquem imunes a hostilidades os gambás que se aproximam de grupos eticamente mais ajustados. O pior castigo para um gambá é não conseguir se disfarçar de outro bicho qualquer, porque as fuças seguem fedorentas. Por isso, por mais que se esforcem, jamais deixarão guetos de imundícies. Congêneres menos explicitamente degenerados não os aceitam, porque gambás vulgarizam a malandragem e os colocam na linha de tiro dos mais atentos.
Carneiro – Não faltam representantes dessa mistura de benevolência e estupidez que, não raro, se fazem de inocentes para continuar a gozar das delícias da incontida preferência pelo topo do muro. Muitos acreditam que carneiros são assim por natureza, mas há controvérsia, porque também podem ser obra de safadeza de quem não quer correr o menor risco de sair tosquiado.
Rato – Diferentemente do gambá, que quando chega é aquele cheiro de azedume, as ratazanas são velozes e mais limpinhas, mais velozes do que mais limpinhas, porque não deixam o cheiro da podridão aparecer antes que se apeteçam de vítimas. Destroem tudo que encontram, mas nem sempre deixam rastros. Aliás, rastros podem até dar rima com ratos, mas não se leva isso em consideração em país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Tatu – Para descobrir filhotes desse espécime não há desafio melhor que chamá-los à responsabilidade a algo que tenha premência de resolução. Eles são os primeiros a se meterem buraco do desinteresse adentro. Nem tentem enfiar-lhes alguma coisa em outro buraco adentro para retirá-los do esconderijo da covardia e da submissão, porque são resistentes na luta pela negação.
Urubu – Para saber quando há um bicho desse rondando as vítimas, basta que o cheiro de festa dê lugar ao infortúnio. Quando querem participar para valer de destroços, são espetacularmente oportunistas. Dotados de alta sensibilidade olfativa e auditiva, só se dão ao prazer de aproximarem-se de terceiros quando o campo está propício ao exercício incansável da língua comprida. São exímios artilheiros. Lançam desconfiança, versões maledicentes e ilações tortuosas.
Quero-Quero – A maioria se engana com os quero-queros ao imaginar que enfrentam gramados da sociedade porque há holofotes a iluminar craques e pernas de pau. Querem fazer crer que eles procuram 90 minutos de fama, mas, de fato, são os atletas da espetacularização que invadem seus territórios habituais, nos quais cultivam a vida. Deixem os quero-queros em paz. Parem de quebrar-lhes as pernas frágeis.
Lagartixa – Quase sempre ninguém segura as lagartixas da mobilidade social. Quando o espaço se apresenta apropriado a incursões horizontais que catapultem arremetidas verticais, lá estão elas prontíssimas para dar o bote e tudo o mais. De vez em quando uma e outra caem do cavalo, ou melhor, das paredes sociais. Risco é o contraponto de sucesso a qualquer custo.
Girafa – Apreciam observar o mundo do alto da arrogância, sustentadas por condições econômicas, políticas ou culturais que lhes permitem deitar e rolar em qualquer ambiente. Muitas das girafas têm prazo de validade atrelado a mandato público. Mesmo assim, jamais correrão o risco de extinção, com ditadura ou democracia a sustentá-las.
Escorpião – Preparem-se porque com esse espécime ninguém está em paz algum tempo, quanto mais todo o tempo. Hábeis, aparentemente generosos, atenciosos ao extremo, vendem simpatia que se esgota na primeira possibilidade de ferroada fatal. Costumam deixar batalhões de adversários, que não os esquecem jamais.
Gafanhoto – Costumam atacar em bando, porque sozinhos se sentem inadaptados à prerrogativa única de aniquilar tudo que encontram. Formam miniquadrilhas de detratores, de aventureiros, de fraudadores éticos e morais. Tentar exterminá-los é tarefa inútil, além de dispendiosa. Eles se reproduzem como cogumelos, sob a força de coerção de direitos adquiridos na malandragem social.
Tartaruga – Nem pensem em exigir desse bicho mobilização em torno de qualquer coisa importante para a sociedade. Tartarugas são deliberada e ostensivamente viciadas a reagir com lentidão estratégica. Estão tão condicionadas a movimentos motores e intelectuais lerdos que demoram também quando se apresentam vantagens inesperadas. Mas nem pensar que possam desperdiçar um filãozinho. Apenas demoram um pouquinho mais.
Avestruz – Nada do mundo exterior ao próprio umbigo comove avestruz. Para que não fique com peso na consciência, enterram-se no trabalho metódico e no ambiente familiar sem qualquer possibilidade de pressão ou chamamento às demandas externas. Há avestruzes que se refugiam em atividades religiosas, esportivas, televisivas e tantas outras para distinguirem-se dos inconformados, os quais, garantem do alto do enclausuramento a que se submetem, não passam de chatos da galocha, de vidas sem rumo, de almas penadas.
Macaco – São divertidíssimos. Fazem todos, absolutamente todos, porque não têm inimigos, esborracharem em risos, porque nada que seja relativamente sério e que de alguma forma implique em tomada de posição, mesmo que reservadamente, os comove. Querem mais é contar piadas, falar de traições familiares, rememorar algum acontecimento divertido, comentar as aventuras da última viagem de navio.
Hiena – São implacáveis. Torcem diariamente para que alguma coisa nova e espetaculosa as alimente de satisfação. Passam o tempo todo às voltas com televisão, telefone, computador, com qualquer meio de comunicação que ofereça cardápio de desgraça. Entram em êxtase quando a tragédia é mais próxima, mais vizinha, mais conhecida, mas não reclamam do terremoto no Japão nem da crise econômica na Europa.
Veado – É alegre, extravagante, expansivo, divertido, vaidoso, provocativo, mas sabe que sempre há alguém pronto para abatê-lo por conta da língua sem freios, das pernas acostumadas a frequentar ambientes sociais mais festivos, nos quais se apropriam de segredos inconfessáveis. Também apreciam bagunçar regras sociais. Fazem do histrionismo arma fatal para aproximarem-se ou distanciarem-se de terceiros. Tricotam o tempo todo. Sofrem com a maliciosidade de porções do zoológico humano mais tradicionais. Colunas sociais são o habitat preferencial e mais frequentado pelos veados reconhecidamente ativos e influentes.
Baleia – São desajeitadas, mas oferecerem o contraponto da doçura, da generosidade e do bom senso. Reúnem a ingenuidade dos puros, por isso os caminhos se lhes fecham entre os recheados de maquiavelismo. Os maldosos as escolhem como alvos às piores retaliações, porque sabem que baleias não reagem, apenas aceitam o destino, que as ameaça de extinção. Mais que isso: estão sempre prontas a um segundo ataque, um terceiro, e tantos outros. Nasceram para referendar hostilidades.
Raposa – Não é qualquer um que chega a raposa. Mais que bancos escolares, uma das condições básicas à gestação desse bicho é a experiência prática. Raposa de verdade é estado orgânico que nem a ciência explica. Raposa não tem freios. Raposa que honre a espécie não dá ponto sem nó. Poucos conseguem identificá-las, porque sempre surpreendem. As raposas não revelam jamais o pulo do gato. Dizem até que foram mesmo as raposas que inventaram o pulo do gato, atribuindo autoria aos felinos porque, afinal, são raposas.
Cobra – Está aí espécime que raramente disfarça o veneno da maldade, mas nem por isso estará a salvo na selva social. Cobra desafia a própria fama e segue impávida, colecionando vítimas. Com poder e dinheiro, ninguém as domestica, mas sem um e outro, costumam ser esmagadas.
Cigarra – Passa a vida cantarolando vitórias, conquistas e feitos extraordinários, mas raramente são vistas em atividades que justifiquem a tranquilidade de tanto currículo. Há por trás das cigarras muita interrogação, mas é bobagem tentar desvendar segredos. Cigarra é essencialmente estado de espírito.
Formiga – Não conhece nada na vida além do trabalho. Formigas trabalham muito, muito e muito. Não têm tempo para mais nada. Geralmente se dão mal em sociedades mercantis com raposas, hienas, cigarras e outros tipos. O esmagamento de formigas não é regra geral entre bichos-homens. Algumas conseguem safar-se e até dão a volta por cima. Demora, é verdade, mas dão a volta por cima mesmo.
Borboleta – A alegria num ambiente frequentado por borboleta é contraponto à improdutividade desse espécime que faz opção sempre pela forma e desdenha o conteúdo. Numa reunião de negócios, por exemplo, borboletas batem asas em todas as direções, ignorando arranca-rabos de acionistas. Na política, querem mesmo é trafegar por todos os ambientes, sem a ameaça de um colecionador maluco aprisioná-las.
Jacaré – Que seria dos jacarés sem gente disposta a alimentá-los de privilégios, vantagens, protecionismos? Todo Jacaré tem cara de tonto, de boa gente, mas no fundo o que mais faz é abrir a bocarra para dar conta do apetite voraz e, em seguida, dar um mergulho, balançando a cauda do deboche.
Zebra – Não adianta dizer às zebras que aquele plano de investimento é uma furada, porque elas não vão acreditar. Que aquele imóvel é um mico, porque elas não vão acreditar. Que aquela viagem é uma bobagem no inverno que está chegando, porque elas não vão acreditar. Zebra que é zebra nasceu para errar sempre.
Sapo – Sempre tem um sapo próximo para dar palpite na hora errada. Sapo é persistente vocação a meter o bedelho em momento inapropriado. Sapo fala mais que a boca. Sapo é aprendiz travestido de profissional.
Pato – Pato é quem dá ouvido a sapos. Bichos que dão ouvidos a outros bichos e se dão mal não podem ser categorizados de patos, porque pato é o suprassumo da patetice, não é algo que sequer tenha parentesco com qualquer espécime. Pato é quem não consegue detectar sapos. Pato adora um cavalo de Troia de sapos.
Papagaio – São emissários geralmente submetidos à escravidão comportamental de terceiros inescrupulosos. Papagaios repetem o que ouvem, mesmo que não entendam patavina do assunto. Querem apenas parecer importantes. Têm boa memória e preparação especial para não perder uma frase que julguem importante, da qual se apropriam e verbalizam com convicção autoral.
Coelho – Danados, danadinhos os coelhos. Multiplicam fecundações de propostas e soluções mágicas, prometem rios de felicidade para quem confiar no seu taco, mas, quando a situação engrossa e nada sai das pranchetas da ilusão vendida como salvação da lavoura, dão no pé. E os coelhos são bons de corrida. Unem a força dos velocistas à resistência dos maratonistas.
Morcegos – São insuperáveis na cenarização de marolas que jamais se convertem em realidades. Geralmente estão encastelados em entidades que dizem representar determinados setores, mas de fato não fazem outra coisa senão avançar na jugular de todos, sorvendo a mesma institucionalidade de classe para deitarem e rolarem como lobbistas dos próprios negócios.
Vaca – Dão tudo o que têm — e olhem que têm muito, mas muito mesmo — para matar a fome de sucesso de terceiros. Não se fazem de rogadas. Vivem apenas para servir, para embalar os sonhos de novos tempos. Sabem que são mal-faladas, para dizer o mínimo, mas não reagem. Ou reagem bovinamente, o que significa a mesma coisa. Clamam pela impetuosidade compensadora dos touros, da mesma família zoológica, mas também os touros estão desmoralizados. Pior que a esculhambação desclassificatória que evoca a expressão carne de vaca, com a qual não concordam mas, ao silenciarem-se, parecem concordar, só mesmo os touros e seus chifres depravadores.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS