Sociedade

Ainda não conseguiram assassinar
Condessa, a figueira do Celso Daniel

DANIEL LIMA - 22/06/2011

Embora até um espetaculoso e apressado editorial de jornal tradicional tenha lhe decretado pena de morte, Condessa continua viva. Condessa é a identidade que resolvi atribuir à figueira de idade incerta mas garantidamente sexagenária que causou a morte de uma mulher há pouco tempo no Parque Celso Daniel, em Santo André. Se dependesse da vontade e da espetacularização dos autoritários de plantão, Condessa já teria ido para o vinagre. É assim que se faz com os chamados humanos, à qualquer suspeita de ilegalidades. Por que teria de ser diferente com uma suposta delinquente ambiental?


Menos mal que Condessa não tenha sido objeto de oportunismo eleitoral. A administração Aidan Ravin não tem responsabilidade no ocorrido, como alguns insinuam. A árvore está ali faz tempo, como se sabe. Condessa não é uma sabotadora que se instalou sorrateiramente. Condessa tem enraizamento naquelas terras de entretenimento, lazer e também de minhas corridinhas quase diárias.


Condessa está lá debilitada, é verdade, mas simboliza mais que todas as demais árvores um endereço especial em meio ao urbanismo tresloucado de um Grande ABC que não foge à regra nacional de entregar-se à especulação imobiliária que compromete o sistema viário e a qualidade de vida.


A administração Aidan Ravin não pode ser acusada de desleixo com o antigo Parque Duque de Caxias. Está certo que aquela área bem que poderia inspirar-se na infra-estrutura do Central Park, em Nova Iorque, mas não está jogada às traças. A trilha que percorro, por exemplo, é bem tratada. Não há riscos de escorregões e de desgastes com oscilações do solo. Há um cuidado com o trajeto de minhas pernas. Há liberdade para que a força motora liberte a mente. Faço de minhas corridas meditação. Com um piso escorregadio e sinuoso demais, poderia ter complicações.


Condessa matou acidentalmente uma frequentadora de 68 anos. O tempo desgastou-lhe as pernas e os braços. A espinha dorsal também se curva. Malemolente, Condessa provoca estragos. Galhos caem inadvertidamente. Quantos esqueletos velhos de guerra também ocupam aquela área? Não me apontem como alvo de resposta porque posso não gostar, embora não discorde inteiramente. Frequentadores mais calejados são ultrapassados. Os mais jovens, em todos é verdade, me ultrapassam.


Ainda bem que um organismo de nome complicado e com amplo sentimento de meioambientalismo correu em defesa de Condessa, porque os apressadinhos continuavam a pressionar pela decretação da pena de morte.


O Condephaapasa (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André) deliberou pela não remoção da figueira centenária. O eufemismo à decisão do órgão é uma forma de atenuar a campanha pró-assassinato de Condessa. Remoção é apenas uma maneira gentil de escrever algo que poderia chocar a sensibilidade dos leitores.


O que disseram os membros daquela sigla cuja pronúncia costuma atrapalhar a vida tanto de quem tem a língua presa quanto de quem tem preguiça cerebral? Simplesmente eles vivem sob o dogma de que os institutos relacionados à atividade avaliam a figueira enquanto árvore, somente como árvore. “Nós temos de proteger a memória” — disse Márcio Bueno. Ou seja: Condessa é vista, observada, analisada, apenas por conta do que representa para a espécie e o contexto histórico em que está inserida. Quem cuida das debilidades físicas e de eventuais maus-tratos são as autoridades públicas, deduz-se da frase.


Os justiceiros de plantão, na sanha de simplificar o que é complexo, perderam a oportunidade de contar com um argumento de difícil réplica: então que se dê tratamento de estrela à Condessa. Preferiram destinar-lhe a morte inexorável.


Para os matadores, Condessa não teria direito sequer a uma variável de eutanásia, que consiste em monitoramento da morte. Condessa iria para a cadeira elétrica. Em vez de eletrodos, meteriam-lhe machadadas.


Será que as ações de reparos que atingirão Condessa vão torná-la resistente para poupar contratempos aos frequentadores do Parque Celso Daniel ou se revelarão, com o tempo, apenas maquiagem que agravaria ainda mais a capacidade regenerativa e de fortalecimento, sustentando-se uma corrida contra o relógio?


O especialista do organismo municipal conta que vão manter os braços, ou melhor, os galhos, preservados nos limites da segurança, sem, entretanto, desnudar o primeiro bem tombado em Santo André.


É um tratamento pouco profundo a uma estrela que abriu a lista de patrimônio ambiental de Santo André. Condessa é estrela de primeira grandeza mesmo. Uma estrela, repito, que os apressadinhos queriam morta, assassinada sem compaixão e direito de defesa.


Seria sonhar demais ver Condessa plenamente recuperada e valorizada num Parque Celso Daniel muito mais aparelhado para receber frequentadores?


O Central Park, de 3,4 quilômetros quadrados, localizado no distrito de Manhattan, em Nova Iorque, ganhou recentemente um mapa ilustrado vendido a US$ 12,95. É um guia interessante para os cerca de 37 milhões de pessoas que frequentam o local todos os anos. Ali estão 23 mil árvores.


Segundo o The New York Times, a maioria dos frequentadores não sabe diferenciar as espécies. Por isso Ken Chaya e Edward Sibley Barnard foram à luta. Eles se dedicaram durante dois anos e meio a traçar um mapa que detalha 19.993 árvores do Central Park.


Não pensem os leitores que o infortúnio de Condessa seja caso único e que portanto, poderia sugerir braços geneticamente insanos. No Central Park tão cuidado pela municipalidade nova-iorquina também há dissabores. Nos dois últimos anos, a queda de galhos provocou duas mortes. Quase 70 árvores precárias já foram removidas. Nenhuma contava com o status de Condessa, provavelmente.


Condessa merece viver porque é estrela, essa é a diferença, se for inteligente estabelecer diferença quando se trata de valorização do verde.


Sei lá, mas acho que uma ação responsável de bons formuladores de políticas públicas, com suporte de marqueteiros, poderia transformar, quem sabe, Condessa no símbolo de um Parque Celso Daniel e de tantos outros locais do gênero.


Condessa poderia servir de marco de resistência à qualidade de vida nestes tempos em que basta baixar a guarda para que a sociedade se limite à incúria do trajeto casa-trabalho-trabalho-casa.


Condessa está lá viva e, mesmo fora de forma, deveria ser o cartão de visitas para quem quer queimar calorias ou simplesmente pensar na vida, no dia seguinte, no passado, sem qualquer risco da acomodação e do escravagismo da TV e da Internet.


Preservar Condessa pelo significado histórico é apenas uma parte de obrigações que a sociedade tem com o meio ambiente.


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