Sociedade

Órfãos do Rodoanel são muito mais
que filhos abandonados pelos pais

DANIEL LIMA - 12/07/2011

O Diário do Grande ABC de ontem deu uma notícia com o estardalhaço típico de quem há muito dobrou o cabo da boa esperança da discrição jornalística revestida de profundidade técnica: muitos operários que trabalharam durante a construção do trecho sul do Rodoanel, no entorno de São Bernardo, deixaram filhos ao léu. Prefiro chamar os meninos e as meninas abandonados de “órfãos do Rodoanel”.


Embora providencial, inédita, certeira do ponto de vista jornalístico, apesar de abusada no tratamento editorial, a reportagem não dimensiona o tamanho da tragédia social. Nem mesmo sustenta que haja tragédia social, porque faltam números. Mais que números, faltam evidências.


Antes de enveredar pelos caminhos que tracei mentalmente para mostrar que há mais órfãos do Rodoanel, estes palpáveis, mensuráveis, evidentes, por dever de justiça convém colocar a cobertura do Diário do Grande ABC no devido lugar.


No lugar que alguns poderão entender equivocadamente como subalterno por conta de minhas restrições à espetacularização da edição. Trata-se de uma excepcional investida fora da órbita mais que manjada de observar o mundo do interior de uma redação nestes tempos de tecnologia de comunicação farta, mas de proximidade física fria e distante.


Talvez tenha apenas havido precipitação no tratamento excessivamente grandiloquente, porque, insisto, não há números que sacramentam a condição de explosão de órfãos do trecho sul do Rodoanel. Mas a reportagem guarda uma mensagem cortante: ninguém se organizou para recepcionar tamanha operação viária.


Milhares de operários da construção civil aportaram de todos os cantos do País naquele trecho de 61 quilômetros de extensão, uma espécie de Serra Pelada com salário no final do mês, sem que houve qualquer preparativo social dos responsáveis pelas obras para amenizar os impactos da ocupação temporária. As empreiteiras que ganharam as concorrências preocuparem-se com tudo que fosse sinônimo de rentabilidade, o governo do Estado com tudo que se traduzisse em manchetes da mídia, e ninguém, absolutamente ninguém, tratou dos estilhaços humanos.


Sabe-se lá quantas histórias de vida se construíram além do asfalto que contorna o ensandecido Centro Expandido da Capital? O que aconteceu no entorno daquele trecho antes, durante e depois das obras? Que pauta jornalística fantástica se desperdiçou durante anos a fio porque o que impera nas redações é aquela visível assepsia de observar o mundo sem comprometimento físico, sem transpiração, sem enfrentamentos locais?


Há exceções de pautas que confirmam a regra, caso do Fantástico de domingo. O programa da TV Globo enviou uma equipe aos Andes para acompanhar o retorno de um dos sobreviventes da queda do avião da Força Aérea do Uruguai que carregava uma equipe de rúgbi quase 40 anos atrás. Enquanto não se tem a certeza de que há número razoavelmente suficiente de órfãos do Rodoanel que permita estudo específico sobre os transtornos e os rescaldos humanos daquela ocupação desorganizada, certo mesmo é que o Grande ABC é a maior vítima da obra que tangencia Diadema, São Bernardo, Santo André e Mauá.


O caos toma conta das imediações dos três acessos que limitam a comunicação viária com o Grande ABC, em Diadema, São Bernardo e Mauá. As dificuldades de internalizar supostos benefícios do Rodoanel Sul no campo econômico são claras. A logística interna dos municípios praticamente não se alterou e remonta os anos 60. Há encavalamentos notórios em pontos já complicados antes mesmo da inauguração da obra.


O governo do Estado sob o comando de José Serra entregou o Rodoanel Sul correndo, antes que se esgotasse o prazo de desincompatibilização para concorrer à presidência da República, e tem se pautado daí em diante como se pautou anteriormente, na fase de preparação do investimento: sem o menor cacoete para o planejamento econômico.


O Rodoanel sul é uma âncora econômica apenas de passagem tangencial pelo Grande ABC em direção ao Porto de Santos. Quem disser que é fator decisivo ao chamamento de empreendimentos ao território regional, exceto em pontos muito bem localizados, na vizinhança das alças de acesso, é um tremendo enganador.


Mais ainda: como antecipei há muitos anos, o Rodoanel Sul é elemento motivador à evasão industrial, porque, por fatores diversos, favorece a redução de custos de empresas que pretendem deixar para trás o chamado Custo ABC, apropriando-se das vantagens logísticas da estrada sem estarem necessariamente sediadas aqui.


Lamentavelmente, com tantas universidades no Grande ABC, não contamos com um grupo de estudiosos que poderiam, entre tantas tarefas regionais que os aguardam, medir o tamanho das conquistas e das perdas do trecho sul para a economia e para a sociedade. Continuamos vivendo de fanfarronices verbais de gente que gosta de vender ilusões.


Somos 2,6 milhões de órfãos do Rodoanel Sul. Órfãos de políticas específicas para tornar a obra aliada de uma retomada que não chega jamais. Continuamos a depender de um setor cada vez mais ameaçado pelos asiáticos, como se não bastassem as guerrilhas nacionais patrocinadas pela guerra fiscal. A Doença Holandesa da indústria automotiva requer tratamento severo.


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