Sociedade

Seja o juiz desse caso e veja
se tem coragem para decidir

DANIEL LIMA - 15/08/2011

Uma pergunta básica para que a gente possa se entender: você, no posto de editor de uma publicação, teria coragem de produzir uma matéria espalhafatosa a mando de quem quer que seja, inclusive de sua falta de consciência profissional, tendo como alvo alguém denunciado sem provas consistentes em processo resguardado pelo segredo de Justiça?


Mais ainda: além do segredo de Justiça, que, no caso do jornalismo, pode sim ser deixado de lado, desde que se assuma a responsabilidade e o critério do pluralismo informativo, você publicaria a matéria levando-se em conta que os denunciantes, de uma mesma organização, têm fichas policiais quilométricas?


Ah! Você desconhecia as fichas corridas quilométricas? Mais um motivo para se acautelar, levando-se em conta que o caso em questão é abrasivo e que muitos interesses poderiam estar sendo contrariados. Pense bem, bem mesmo: você publicaria a notícia?


O que quero dizer com tudo isso é exatamente o seguinte: seja o juiz desse caso (essa é mais ou menos a situação de um jornalista com poder de decisão, mesmo que esse poder seja coercitivamente arrebatado pelo dono da publicação) e veja se seria capaz de tomar uma decisão que implicasse, entre outras questões, em desclassificação da vítima.


Sim, da vítima denunciada, porque, até prova em contrário, até que o julgamento se dê, até que todo o rito processual se desenrole, ninguém é culpado perante a Lei. Ainda mais quando o perfil da vítima distancia-se do principal empresário-denunciante. A credibilidade da vítima da denúncia é proporcionalmente maior em relação à desconfiança que deveria gerar o principal empresário-denunciante.


Afinal, qual é ficha corrida do principal empresário-denunciante que mereceu de um jornalismo descuidado, açodado, escandaloso, malicioso, indecoroso, rancoroso, belicoso e delinquente, toda a retaguarda para a produção de notícias viciadas para atender a interesses escusos ou para dar sustentação à sede de um sensacionalismo?


Pois vamos lá aos pontos fracos do principal empresário-denunciante, com passagens policiais nas seguintes infrações:


a) crimes falimentares.
b) estelionato.
c) falsidade documental.
d) apropriação indébita.
e) receptação.
f) crime de exposição da vida à perigo.
g) lesão corporal.
h) emissão de duplicada simulada.
i) crime de trânsito.


Não há exagero algum na lista de delitos do empresário-denunciante que, tendo interesses contrariados e participando de uma tramoia que não visava mais que a desmoralização da vítima, recebeu o amparo apressado da Justiça numa decisão preliminar até que se apurem os fatos.


Os outros dois denunciantes que constam do processo, todos da mesma corporação, também têm fichas policiais recheadíssimas. São fortes rivais do denunciante principal.


Como estou apurando o caso e como estou cada vez mais intrigado com a situação que se desenvolveu ao sabor de interesses estranhos, não vou descansar enquanto não for a fundo e descobrir toda a verdade.


A ficha criminal do empresário-denunciante, repito, é mais que um sinal vermelho à cautela que deveria pautar a ação jornalística. Dar guarida a alguém com tamanhas complicações criminais já seria suficiente para inscrever a matéria no rol das grandes barbaridades que a liberdade de expressão, suprema, não só permite, como estimula.


Sim, porque quando o produto jornalístico cai na gandaia da falta de qualidade e precisa de insumos para tentar chamar a atenção dos leitores, o atalho preferido é o sensacionalismo. Ainda mais quando o alvo do sensacionalismo pode ser alguém que não goze de simpatias do dono do veículo ou, mais que isso, alguém que o dono do veículo precisa espinafrar para limpar a própria barra, pesadíssima.


Independentemente de qualquer desdobramento do caso, o que tivemos na abordagem foi espécie de paredão cujos fuziladores atenderam à convocação de alguém tão íntimo do jornalismo quanto um franciscano da riqueza.


Espero que cada leitor seja um juiz cuidadoso desse caso sobre o qual voltaremos a escrever. O crime cometido pela publicação unilateral da versão de denunciadores é algo tão possivelmente irreparável para quem sofreu as acusações como danoso para quem se especializa em transformar em santos os amigos de ocasião, em estorvos os ex-amigos e em satanás todos os adversários. Sempre com a arrogância de quem se julga intocável. Muita água ainda vai correr sob essa ponte de cartas marcadas.


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