Sociedade

OAB prefere assistencialismo
a transformações estruturais

DANIEL LIMA - 17/10/2011

É simbólica a notícia de outro dia em alguns veículos de comunicação da Província do Grande ABC: enquanto a bola da regionalidade rola quadrada, quadradíssima, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), unidade de Santo André, entregou à Clínica Pediátrica do Hospital Mário Covas uma nova brinquedoteca, para atender pouco mais de 1,3 mil crianças.


Mais e mais estamos vivendo uma sociedade de conveniências, de lantejoulas, de salamaleques, de penduricalhos — tudo isso em formato de solidariedade convenientemente programada, uma caderneta de poupança de prestígio que se acumula para tudo continuar como está, porque mudar não é nada interessante.


Mais e mais estamos mergulhados numa sociedade que enfeita o pavão e busca a unanimidade burra de relacionamentos amistosos que não produzem nem faísca, quanto mais o fogo da reconstrução de uma institucionalidade em frangalhos.


É bem possível que algum atravessador semântico saia por aí dizendo que CapitalSocial não tem sensibilidade, porque se teria postado contrário a uma brinquedoteca.


Há safadezas de todos os tipos, mas isso não me incomoda. Tenho um currículo de entrega de 1.718 troféus do Prêmio Desempenho nas mais diferentes categorias, inclusive individuais. Foram 15 anos de mensagens muito mais que subliminares aos improdutivos sociais. Algo mais ou menos assim: olha, veja só, procure fazer alguma coisa de positivo, de construtivo, de minimamente transformador e, quem sabe, o Conselho Editorial vai-lhe conferir uma premiação isenta, democrática e meritocrática.


Mas volto à questão da OAB, extensiva às demais subseções da Província do Grande ABC: é alarmante o grau de alienação social dos comandantes dessas entidades. Eles parecem ter feito o pacto da mediocridade. Seus integrantes transmitem a ideia de que não leem jornais, revistas, sites, nada, absolutamente nada. Que não há crise de sem-vergonhice generalizada por estas bandas. Principalmente, se é possível dizer assim, nas sodomas e gomorras do mercado imobiliário.


No caso específico de Santo André, quem acreditou que a eleição de Fábio Picarelli colocaria a OAB em novo patamar de comprometimento social, deu com os burros nágua.


Voltada exclusivamente ao próprio umbigo corporativo, e de olho em possibilidades que se abririam a uma carreira político-partidária, Fábio Picarelli caiu na gandaia de eventos que não alteram uma vírgula sequer o dicionário de anestesiamento tanto da classe que representa como da sociedade da qual a entidade é supostamente uma parte relevante.


Supostamente, é bom reforçar, porque não se encontram vestígios de atividades da OAB que possam ser catalogadas como contribuições reestruturantes a esta Província.


O assistencialismo latente da entrega da brinquedoteca possivelmente segue um ritual recomendado por marqueteiros de embromações, que sugeririam ao presidente da OAB qualquer coisa com vistas aos planos pessoais, menos entrar em zona de turbulência política.


É melhor — garantem sempre os marqueteiros sem alma — juntar-se aos medíocres juramentados do que expor-se em nome de uma reação que em princípio parecerá utópica, quando não autofágica, mas que fará toda a diferença quando os historiadores forem aferir o que andavam fazendo por aqui tantos que ocuparam moitas representativas.


A decepção com a OAB de Santo André é enorme porque este jornalista chegou a acreditar que o presidente Fábio Picarelli fosse de fato arregaçar as mangas do inconformismo e, por exemplo, atuaria firmemente à transparência da enroladíssima questão que envolve o futuro da chamada Cidade Pirelli, bem como da venda irregular de apartamentos do Residencial Ventura, no Bairro Jardim, durante um período em que a Cyrela e seus parceiros da Família De Nadai foram informados que o terreno da antiga fábrica Atlântis, de produtos químicos, apresentava rastro preocupante de contaminação ambiental.


Mais interesses pessoais


O que fez Fábio Picarelli, com quem nos reunimos pessoalmente para debater a questão, quando prometeu iniciativas moralizadoras? Nada, absolutamente nada. Os interesses pessoais sobrepujaram qualquer possibilidade de reação institucional em nome da OAB de Santo André.


O mundo da Província do Grande ABC pode pegar fogo, pode entrar em convulsão, que as seções locais da OAB não mexem uma palha sequer para se juntarem a eventuais rebeldes, porque as relações intimistas com os mandatários políticos e econômicos, frequentadores do mesmo bordel de interesses, vão falar sempre mais alto.


O marketing do bom-mocismo institucional que a OAB e seus parceiros de brinquedotecas exibiram ainda outro dia não impressiona quem está cansado de saber e de sentir que a situação de rastejamento aos poderosos de plantão jamais será soterrada por movimentos programadíssimos para emocionar. O que poderia muito bem ser apenas a cereja de um bolo de reações progressistas, tornou-se o próprio bolo dissimulador.


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