Juntei aqui duas edições seguidas de Capital Digital Online, produzidas em 27 de agosto e 2 de setembro de 2004. Tanto uma quanto outra revelam intolerância com alguns pontos extremamente inquietantes para o avanço do Plano Estratégico Editorial que preparamos para o Diário do Grande ABC. O caso específico da cobertura do Quem é Quem gerou muito mais que a respectiva edição daquela newsletter. Tivemos reunião duríssima com o editor de Economia à época. Juntamente com Marcelo Moreira, tomamos todas as providências preventivas para que a cobertura daquele evento fosse um show de jornalismo. Os jornalistas destacados cumpriram fielmente a proposta. O editor cometeu um assassinato.
Grande ABC, sexta-feira, 27 de agosto de 2004
Como mediocrizar uma cobertura
jornalística que deveria ser especial
A cobertura gráfico-editorial do Quem é Quem desta sexta-feira do Diário está entre a mediocridade e a insensibilidade. Tomamos todos os cuidados pré-operatórios. Acreditamos que, finalmente, teríamos um exemplo de eficiência de gestão que compatibilizasse uma série de medidas que resplandeceriam numa cobertura de qualidade. Infelizmente, estamos frustrados.
Houve uma acintosa desconsideração a tudo o que foi planejado. Colocamos à disposição do jornal dois reforços editoriais da revista LivreMercado, Vera Guazzelli e André Marcel de Lima, que, mais uma vez, deram show de interpretação e de brilho textual que, infelizmente, o jornal como um todo está longe de oferecer. Infelizmente, o material de ambos foi assassinado pela edição desarticulada.
Faremos reunião específica sobre essa indecente cobertura que está nas nossas páginas. Jornalismo se pratica com uma série de qualificações, entre as quais, indispensavelmente, deve-se colocar a sensatez a serviço do público leitor. Infelizmente, faltou isso e muito mais na edição de hoje.
Grande ABC, quinta-feira, 2 de setembro de 2004
A importância de socializar
as decisões nas editorias
Uma das regras básicas que determinam a produtividade de uma equipe de redação — e as editorias formam núcleos de produção que se encaixam no produto final que os leitores recebem em casa ou no escritório — é o respeito ao texto. O que é respeito ao texto? É a obrigação que o editor tem de tornar a produção do repórter a mais qualificada possível e, a partir da aprovação, editar o material com discernimento. E o que é editar com discernimento? É não transformar o fechamento editorial em esquartejamento motivacional.
Vou dar um exemplo: repórter que tem o texto aprovado mas triturado no fechamento, para adequação ao espaço, é repórter desestimulado. É tempo de produção jogado fora. É desperdício de informação. Os cortes geralmente estão na zona de risco de imperfeições. Ninguém melhor que o próprio autor da matéria para suprimir eventuais parágrafos excedentes. O corte aleatório e o corte linear são pedaços da mesma laranja podre de desestímulo.
Por que estou escrevendo sobre esse assunto? Porque é tradição no jornalismo diário esse tipo de comportamento. Faz-se de tudo para preencher os espaços deixados pelo Departamento Comercial, numa visão antiquada. Quem compra jornal bem-feito compra pelos textos, que levam, por sua vez, os leitores a consumirem a publicidade.
A inversão dessa lógica é, além de estupidez, estrabismo. Por isso, compete aos jornalistas de comando editorial que incentivem seus repórteres a produzir com criatividade, arrojo, inteligência, responsabilidade. Mais que isso: que os coloquem também na linha de frente editorial, com sugestão de título, de legenda, de diagramação. É preciso que todos se sintam donos da matéria, e, portanto, mais interessados em participar do produto final.
Outra ação que se relaciona com produtividade é a imperiosidade de cada matéria copidescada voltar ao autor para que ele, com cuidado, com esmero, observe quais foram os eventuais erros que cometeu. É impossível aperfeiçoar a escrita sem que se verifiquem os registros de inconformidades. Jornalista que erra ao escrever mas não tem o material copidescado devolvido para analisar suas falhas é jornalista que amanhã vai reproduzir os mesmos erros. Será um eterno enxugar de gelo e de retrabalhos.
Tudo isso parece óbvio, mas é intensamente importante porque, infelizmente, as editorias, de maneira geral, são controladas por um ou dois profissionais no processo de fechamento, de pauta, de debates. Editoria integrada informaliza de tal maneira as relações que as reuniões se tornam desnecessárias, exceto quando especiais. Pautas extensas precisam ser eliminadas. E só o serão se houver proximidade entre os componentes das editorias.
CONTEXTUALIZANDO
As dificuldades para romper paradigmas numa redação que durante muito tempo ficou à deriva exigia deste profissional e dos editores com os quais me reunia diariamente no final da tarde uma espécie de pacto de tolerância, nem sempre cumprido. De vez em quando também um ou outro editor escorregava no tomate de vícios. Mudar cultura é complicado, mas, sem trocadilho, exige catequese permanente.
Leiam também:
Total de 1971 matérias | Página 1
20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)