Imprensa

EDITORIAL PARA SER
LEMBRADO SEMPRE

DANIEL LIMA - 29/04/2026

Fiquei com ciúme positivo do Diário do Grande ABC. Ciúme positivo no caso presente e do ponto de vista jornalístico é aquele sentimento de admiração que se mistura com certa dose de frustração. Não há nada melhor que o ciúme positivo. O ciúme positivo fornece uma bateria de ensinamentos. No caso específico do ciúme positivo do Diário do Grande ABC,  o notável, que não deixa de ser paradoxal,  é que me sinto aliviado.

Vou explicar. Mas, para explicar e tentar me fazer entendido, o princípio do começo do início de tudo é o Editorial do Diário do Grande ABC.

Editorial é o posicionamento oficial de uma publicação a respeito de qualquer coisa que julgue importante. Repasso integralmente o Editorial de ontem do jornal mais tradicional da região. Em seguida, explico por que  fiquei enciumado e satisfeito, depois de frustrado. Leiam o Diário do Grande ABC de ontem. Volto em seguida.

FRAGMENTAÇÃO POLÍTICA

Às vésperas de novo pleito geral, em outubro, os eleitores das sete cidades voltam a encarar um quadro recorrente: a ausência de uma liderança política capaz de articular interesses comuns e projetar a região para além das disputas proporcionais. Embora o cenário político regional conte com nomes conhecidos e trajetórias consolidadas, não se observa a emergência de uma figura que reúna apoio suficiente para concorrer a cargos majoritários, como os de governador ou senador. Esse vazio se evidencia em um momento em que outras localidades do Estado conseguem projetar representantes com maior alcance, enquanto o Grande ABC permanece limitado a iniciativas dispersas e pouco coordenadas.

Esse quadro não decorre da falta de quadros qualificados, mas sim de uma fragmentação política persistente, que impede a convergência em torno de um projeto regional. Lideranças locais, muitas vezes vinculadas a interesses específicos ou a bases eleitorais restritas, acabam por disputar entre si o mesmo espaço, diluindo forças que poderiam ser somadas. Como consequência, embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha São Bernardo como domicílio eleitoral, o Grande ABC nunca conseguiu eleger um governador ou senador, apesar de sua relevância econômica e social no Estado. A ausência de unidade compromete a capacidade de influência em decisões estratégicas e reduz o peso político da região. 

Quando se aponta a ausência de lideranças capazes de protagonizar a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes ou Senado, não se minimizam os demais postos. É necessário reconhecer a importância da formação de bancadas representativas nas esferas estadual e federal. Deputados comprometidos com as demandas das sete cidades são fundamentais para encaminhar pautas de seu interesse. 

No entanto, essa atuação, por si só, não substitui a necessidade de liderança capaz de articular projetos de maior alcance. O desafio, portanto, reside em superar divisões e construir uma agenda comum que permita ao Grande ABC ocupar posições mais amplas no processo político. Quando chegará a vez da região?

ESTAMOS DE VOLTA 

Confesso publicamente do alto da restrita relação de  especialistas em regionalidade do Grande ABC (para não dizer a liderança absoluta, porque pareceria cabotinismo) que passei ontem por um vexame maravilhoso. A arremetida do Diário do Grande ABC na proposta de construir  liderança regional que concorra aos principais postos executivos ou quase isso na esfera estadual e federal jamais passou pela minha fortaleza de exigências sob o guarda-chuva de regionalidade. 

Deixei de enxergar o óbvio que o Diário do Grande ABC acaba de esfregar na minha cara porque o óbvio sempre pareceu descartado diante do básico e essencial. O óbvio que o Diário do Grande ABC publicou de sugestão numa espetacular iniciativa não pode nem deve ficar para a história apenas como um facho de luminosidade ocasional. Já o descarte que insistentemente escolhi é justificado embora isso não me perdoe. Sempre  entendi que sem regionalidade ampla, geral e irrestrita, não teríamos nada a oferecer como escapatória de poder extraterritorial. A regionalidade são os ovos da omelete às demais incursões, imaginava este jornalista. 

O  que o jornal publicou  como caminho que conduziria à resposta passa pela regionalidade no sentido mais amplo da expressão, mas não estaria submetido ao quadradismo da mesma regionalidade, embora o produto fina,  que dificilmente encontraria o mesmo potencial de produtividade social e econômica, possa sofrer com o estreitamento de ações. Ou seja: a regionalidade secundária não seria fator determinante à iniciativa proposta, mas sofreria em seguida, mesmo vitoriosa a empreitada, de variadas fissuras.   

O Editorial inesquecível do Diário do Grande ABC não utilizou explicitamente qualquer termo que configure regionalidade, conceito  que condensa todas as nossas deficiências públicas, privadas e sociais. Entretanto, o concerto daquela monumental arquitetura particularmente dirigida aos políticos está claramente inserido no pressuposto que tanto defendo. 

ENDEREÇAMENTO CERTO

Desconfio de que os quase dois mil caracteres do Editorial do Diário do Grande ABC tem algum endereço individual ou grupal envolvendo a classe política, mais que qualquer outra. Não quero especular sobre o nome e o sobrenome  poupado de direcionamento específico do artigo. 

O Diário do Grande ABC acertou em, pressupostamente, não nominar o eventual alvo ao qual se referia. Afinal, por mais que o determinado nome pareça óbvio, seria injustiça restringir frustrações a especificidade individual quando há muita  gente com dívida no cartório – muitos inclusive fora da zona do agrião da classe política. Temos uma sociedade organicamente arrebentada. Precisamos reagir. Retomar a febre por mudanças dos anos 1990 parece improvável, mas há adaptações que circunstâncias e contextos atuais favorecem. 

Sei que sei que a ideia pioneira de sonhar com a fabricação de uma peça de liderança regional a salvo de idiossincrasias e sabotagens precisa ser acalentada sem parar. Mais que isso: precisa ser forjada cotidianamente tendo como berço de experiências, de sabatinas e de vereditos o Clube dos Prefeitos. Uma peça parece pouco na prateleira de regionalidade expansiva mas uma peça geralmente se transforma em modelo a novas peças que passam a costurar um novo desenho de iniciativas. 

PREÇO DA SUBESTIMAÇÃO 

A entidade regional dos sete prefeitos se configuraria como espécie de Seleção do Poder Público Regional, esfera em que as melhores e maiores revelações municipais teriam necessariamente de passar por avaliação constante. Ou alguém tem dúvida de que um prefeito de plantão no Clube dos Prefeitos que venha a ter a admiração dos demais prefeitos do colegiado  ganharia estofo extra-território para lançar-se naturalmente rumo a outras esferas de governança com suporte de uma regionalidade previamente construída sob a égide da meritocracia? 

Repito que jamais tive a  brilhante ideia do Diário do Grande ABC. Exatamente  por subestimar um degrau superior de representatividade política devido às fragilidades e limitações institucionais, nunca passou pela minha cabeça esse ovo de Colombo. 

O Diário do Grande ABC me deu uma lição da qual pretendo aliviar as dores do ciúme positivo levando adiante um empenho ainda maior à causa da regionalidade com duas missões simultâneas, convexas e irreversíveis: o dinamismo de planejamento e ações do Clube dos Prefeitos e a aferição de quem é quem na esfera de comando regional para merecer incentivo e apoio como a melhor opção de um plano de reconhecimento e de ocupação de espaço fora do ambiente regional. 

SÓ CELSO DANIEL 

Na história do Grande ABC apenas um gestor público teria alcançado a estratosfera política caso o destino não o barrasse do baile dos vivos. Celso Daniel era naturalmente um candidato a isso. 

Primeiro, como ministro de ponta do governo de lula da Silva em Brasília. Segundo, e em decorrência do cargo federal, atropelaria os tucanos já em 2006 como candidato ao governo paulista. Celso Daniel ganharia a disputa porque  reunia o perfil ideal de concorrente competitivo que o PT jamais encontrou entre os paulistas, exceto mais tarde, com Fernando Haddad. 

O estereotipo do petistas com cara feia de linha de montagem e de greves dos metalúrgicos imperava até então. Celso Daniel era um balsamo de brilho intelectual de que o PT tanto carecia.  

A diferença entre a atmosfera político-institucional que cercava o ecossistema regional naquele período e o que temos hoje é que a regionalidade político-eleitoral de motivações abrangentes  não entrava na equação de Celso Daniel, por mais paradoxal que possa parecer, porque era regionalista institucional como nenhum outro gestor público. 

Celso Daniel trabalhava por uma causa sem necessariamente tornar a ambição natural uma configuração coletiva no sentido comunitário de ser. Era um político regionalista que ambicionava esferas de poder sem amarrar uma coisa à outra deliberadamente. 

Celso Daniel e a sede por regionalidade incorporavam a subjetividade ideológica do Partido dos Trabalhadores e mais precisamente de uma esquerda socialista de modelo europeu.  O regionalismo político proposto pelo Diário do Grande ABC parece não contar com qualquer configuração ideológica, porque é fundamentalmente pragmático. Parece bastante sensato nestes tempos políticos de excessos à direita e à esquerda após longas temporadas de um meio-campismo acomodatício, improdutivo e falsamente progressista dividido entre tucanos e petistas. 

Por mais que supostamente transpire separatismo entre política e institucionalidades de regionalismo tão indispensável ao Grande ABC, a encetado editorial do Diário do Grande ABC é uma festa de imediatismo necessário. É um apelo público ao esquadrinhamento de alguma coisa que possa eliminar o vácuo que perdura na repartição do bolo de representatividade regional nas esferas de poderes. 

Não é, isoladamente, o regionalismo de que tanto precisamos. Mas pode ser a pedra de toque da regionalidade necessária para começo de conversa. 

OBJETIVIDADE EM CAMPO 

No caso da pregação do Diário do Grande ABC o que temos é a formulação de uma teoria que parte do princípio elementar de construir uma estratégia política direcionada ao fortalecimento regional e a partir daí chegar aos poderes extra-território regional. 

O que temos é uma objetividade que se anteciparia ao regionalismo mais amplo mas que, ao invés de atropelar os desavisados, estabeleceria uma linha precursora de proposta desafiadora que não eliminaria a regionalidade ampla e irrestrita perceptível nas entrelinhas. Até porque, se há uma publicação que tem incentivado a nova leva de prefeitos e brilharem no Clube dos Prefeitos, é o caso do Diário do Grande ABC. Preferimos outro caminho, menos generoso. Talvez uma coisa complete a outra para se encontrar eventual meio termo satisfatório. A fragmentação política é filha dileta do autarquismo municipalista que o Clube dos Prefeitos pode corrigir, embora insista historicamente em dissemina-la. 

PRIMEIRA PÁGINA 

Só não dou nota dez com louvor à edição  do Diário do Grande ABC de ontem (não me interessa o restante do que o jornal publicou, porque o que o jornal publicou como Editorial é o suprassumo de um encaixe perfeito) porque a tradicional página dois reservada ao espaço de opinião subestimou o conteúdo revolucionário. O Editorial “Fragmentação política” merecia uma primeira página com fundo azul de confiança e expectativa.



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