Neste novo capítulo da série que deverá se encerrar brevemente vou reproduzir dois textos entre mais de meia centena em que dediquei atenção ao que batizei de Teoria da Produtividade Editorial. Uma proposta que virou prática a partir de experimentos na revista LivreMercado, publicação que criei e dirigi por duas décadas. E que também virou prática, embora de efeitos embrionários, durante os nove meses em que comandei a Redação do Diário do Grande ABC, entre 2004 e 2005.
Quando fui contratado pelo Diário tudo girava em torno de reformulações que pretendia consolidar em cinco anos. O Planejamento Estratégico Editorial cuidava disso. Eram 95 mil caracteres expostos. O equivalente a 23 páginas de revista. Não se faz milagre em jornalismo. Nove meses são um período de grandes transformações apenas das mulheres.
Salvo engano, não consta dos dois textos que se seguem minha exacerbação, que também pode ser chamada de irritação, quando não de reclamação em altos brados, quando não de indignação, ao descobrir que um pau mandado da direção do Diário do Grande ABC repetia o que tantos outros paus mandados fizeram anteriormente, muito antes de ocupar o comando de Redação.
SEMPRE ÀS ESCONDIDAS
O que fazia aquela figura subalterna jamais descoberta? Estava controlando a produção da Redação do jornal, contrariando uma das peças chaves que montei para que os jornalistas não fossem mais desrespeitados. Ou jornalista não viraria comodities quando quem quer que seja, exceto quem está no front das batalhas diárias e conhece as camadas que cercam a atividade, mete a colher de intromissões alheias à dinâmica de produção?
Ter gente para espionar a Redação na forma de medição em centímetros lineares de matéria publicada sempre foi uma aberração na Redação do Diário do Grande ABC. Não sei de quem partia a ordem, mas que partia, partia. Duvido que tenha sido em algum momento da história do Diretor de Redação, Fausto Polesi, que era do ramo como todos nós e compreendia as aleatoriedades do dia-a-dia na linha de produção da próxima edição.
Muito da rotatividade da Barcaça da Catequese tinha como origem, em momentos de apuros econômicos, o conceito de quantidade como valor supremo de capacitação e de demissões.
O que os leitores vão ler em seguida é a mais pura, genuína, inédita e preciosa fórmula que funcionou na prática de como medir qualidade, quantidade e eficiência dos jornalistas em qualquer ambiente de trabalho, independentemente da periodicidade do veículo.
PROVAS DOCUMENTADAS
Tenho inúmeras planilhas que comprovam o sucesso dessa metodologia, principalmente na revista LivreMercado, porque o projeto ganhou maturidade e materialidade. Não contam os dois textos abaixo um dos resultados mais interessantes da prática da teoria prometida: na revista LivreMercado, que comportava até 116 páginas a cada edição, quem mais custava monetariamente à empresa era justamente quem tinha o menor salário.
A junção de tempo despendido para produzir, de tempo despendido para copidescagem (correções) e de enquadramento na linha filosófica-editorial da publicação (que jamais pendeu para qualquer descaminho de restrições ideológicas) era o Triângulo das Bermudas dos profissionais ainda distantes do nível desejado.
Acho que vale a pena entender como era uma Redação que, ao priorizar variáveis conectadas entre si, aboliu a avaliação arbitrária, despreparada, invasiva e inócua que integrou a cultura de produção da Barcaça da Catequese.
Multifuncionalidade com
produtividade editorial
DANIEL LIMA -- 07/12/2004
É possível medir produtividade jornalística? Como mensurar qualidade, quantidade e comprometimento dos profissionais de comunicação? É sensato escalar alguém para medir a produção dos repórteres? Quem escreve quantitativamente mais é necessariamente melhor profissional que outros menos supostamente efetivos? Uma tabela rígida de caracteres que traduz a produção de profissionais da escrita deve ser interpretada como prova definitiva da capacitação ou, mais que isso, do empenho individual? É sensato sentenciar a qualificação de um profissional com base exclusivamente na produção editorial?
Para responder a essas e a tantas outras indagações, resolvemos avançar mais um passo na condução da equipe de redação de LivreMercado. Depois de introduzir há oito anos o conceito de multifuncionalidade na redação — medida que se propagou também na área operacional relacionada à editorial — numa iniciativa pioneira no jornalismo impresso, chegamos a nova proposta: mensurar a produtividade dos jornalistas. Isso significa fugir de conceitos simplórios, imprecisos e incorretos de medição pura e simples do material impresso com a assinatura de cada jornalista.
Três vetores pesam sobremodo na definição de ampla grade de avaliação de produtividade. O primeiro é a quantidade produzida. O segundo é o tempo despendido na copidescagem. O terceiro é a nota atribuída. É do conjunto desses indicadores que pode ser extraída a nota média do desempenho de cada profissional envolvido na produção de textos.
Outros fatores precisam ser considerados para uma avaliação mais completa. Como, por exemplo, uma equação que confronte a nota média com o custo salarial e de encargos de cada profissional e, também, a participação da equipe de apoio no resultado final. Editores e subeditores geralmente explicam o rendimento de um grupo de repórteres de uma mesma editoria. Editoria é um termo técnico que, no mundo corporativo, poderia ser entendido como departamento ao qual estão relacionados os profissionais de jornalismo.
EMPRESÁRIOS LEIGOS
Não existe nas empresas de comunicação do País algo sequer próximo do que chamaria de Teoria da Produtividade Editorial. Primeiro porque geralmente os donos de veículos impressos são empresários que entendem muito pouco de jornalismo. Não sabem distinguir boa matéria de matéria mal-ajambrada. Nem sabem separar qualidade de quantidade.
Segundo porque jornalistas são, em quase totalidade, avessos ao empreendedorismo no sentido mais amplo do termo. E empreendedorismo exige mais que o romantismo de querer mudar o mundo, loucura da qual nenhum jornalista deve abrir mão, porque é a essência da atividade.
Empreendedorismo em jornalismo pressupõe gestão sob ótica completamente diferente da contabilidade gerencial ortodoxa dos profissionais da área de recursos humanos que, como os donos de veículos impressos, também não conseguem compreender as peculiaridades da profissão. Nem têm obrigação, desde que não procurem interferir arbitrariamente em seara alheia.
A produção física, primeiro critério de avaliação da Teoria da Produtividade Editorial, é a etapa final do chamado trabalho de reportagem. Na revista LivreMercado, os espaços editoriais são previamente determinados. Cada página, incluindo-se ilustrações, títulos, subtítulos, legendas e janelas, comporta quatro mil caracteres. Nos jornais, de maneira geral, a recíproca é verdadeira. São os chamados módulos, muitas vezes definidos de forma burra por softwares criados por gente que de editorial pouco entende.
O número de caracteres de cada matéria escrita é fator importante de avaliação de produtividade, mas não único. O tempo consumido na copidescagem influencia sobremaneira a nota final. Quanto mais minutos são gastos num determinado volume de caracteres impressos, mais resplandece a interpretação de que o texto foge da norma de qualidade exigida.
CONTROLE FACÍLIMO
Apenas para não ficar dúvida sobre o significado de caractere: cada vogal e cada consoante que compõem o verbete “letra”, por exemplo, é um caractere. Isto posto, “letra” tem cinco caracteres. O controle de caracteres é uma operação facílima, automática. Programas de computadores revelam a cada instante, desde que solicitado. Prometo que vou relevar no último parágrafo quantos caracteres compõem esse trabalho.
Ainda estamos aferindo os números do Índice de Produtividade desta revista, mas os primeiros sinais dão conta de que, para cada página escrita, gastam-se em média 20 minutos de copidescagem. Entenda-se por copidescagem mais que o ato automático de revisão ortográfica. Trata-se de algo mais delicado e profundo, porque é prioritário harmonizar o texto à compreensão jornalística e às informações historicamente ou não corretas. Frases eventualmente são refeitas, suprimidas ou expandidas. Redundâncias recônditas desaparecem.
O que são redundâncias recônditas? É o uso de uma frase ou verbete para algo que dispensa complementaridade. Um exemplo? “Prefeitura do Município de Santo André”. Por que utilizar “Município de Santo André”? Bastaria escrever “Prefeitura de Santo André”. Parece simples? Reparem principalmente nos jornais como a incidência dessa tipologia de tropeço redacional é absurdamente rotineira. E há casos muito piores. Agressivamente piores e renitentes.
Copidescagem também é o ato de eliminar imprecisões informativas e interpretativas. Um texto qualificado exige agregado de valor informativo, ou seja, que não fique na superficialidade de declarações de terceiros.
É indispensável a intervenção jornalística para aparar as arestas. O bom jornalismo, em qualquer veículo, exige dos profissionais mais que costumeira reprodução de declarações de fontes de informações. Cobra ancoragem do profissional de comunicação para que eventuais bobagens e manipulações não sejam impressas como verdades absolutas. Escrevo sobre o assunto no livro “Meias Verdades”, assustadora coletânea de sujeições jornalísticas cuja fonte de dados são os principais jornais paulistas.
Ainda sobre copidescagem, são poucos os donos de jornais que entendem do riscado e têm capacidade de compreender que corretores ortográficos adquiridos em qualquer loja de informática e acrescentados aos programas utilizados nas redações não servem senão para apontar erros ortográficos.
SEM MILAGRES
Há quem na santa ignorância de acreditar em milagres imagina que corretor ortográfico bloquearia o erro jornalístico de alguém que escreveu que o prefeito João Avamileno foi eleito pela população de São Bernardo e não de Santo André. Nada disso. Corretor ortográfico enxerga exclusivamente equívocos de linguagem. Quem escrever quiz em vez de quis será admoestado pelo programa que o obrigará a tocar o “z” pelo “s”.
Recapitulando o processo de definição da Teoria de Produtividade Editorial, passamos da contagem pura e simples de caracteres de cada matéria para o tempo despendido com copidescagem. O terceiro fator de avaliação é a qualidade das informações. A atribuição de notas de zero a 10 estabelece importante ponto de qualidade que se encaixa à quantidade propriamente dita dos caracteres e eficiência da cronometragem.
Um texto de quatro mil caracteres (que é, repito, o padrão desta revista) que consuma 20 minutos e receba nota 6 reúne maior produtividade que um texto de quatro mil caracteres que consuma 25 minutos e receba nota 6. É possível um texto de quatro mil caracteres que tenha consumido 20 minutos de copidescagem receber nota 8 enquanto um texto de quatro mil caracteres e que consumiu 15 minutos de copidescagem alcançar nota 5? Claro que é possível. Nesse ponto, o editor responsável pela mensuração do desempenho de cada profissional levará em conta intangibilidades relacionadas ao padrão do produto. Trata-se, evidentemente, de exceção à regra porque geralmente a nota estabelecida para cada matéria já incorpora subjetivamente a materialidade dos caracteres impressos e do tempo disponibilizado na copidescagem.
É muito pouco provável que uma matéria que leve tempo excedente de copidescagem em relação ao padrão médio consiga chegar à reta final de avaliação com nota satisfatória. É praticamente impossível que um texto cuja compreensão, abordagem, criatividade e objetividade, entre outros fatores, supere o critério de qualidade quando tem dificuldades de passar pelo mata-burros de produtividade.
O que estamos atingindo na Editora Livre Mercado, agora com a diplomação da Teoria de Produtividade Editorial, é mais um desdobramento de série de medidas que começaram a ser implementadas há oito anos. Editores que pretenderem aplicar a metodologia de produtividade sem levar em conta que se trata da cobertura de intrincadíssima construção, cujas paredes e alicerces são complexos, acabarão por quebrar a cara.
É porque desprezam as bases do processo que donos de veículos impressos e mesmo chefes de equipes de jornalismo sem a menor aptidão empreendedora na atividade cometem a bobagem de medir linearmente a qualidade dos profissionais de comunicação pelo viés da quantidade mal e porcamente apurada.
Essa distorção se cristaliza não só porque medições arbitrárias desprezam especificidades funcionais de uma redação convencional, como é o que viceja no jornalismo nacional, mas sobretudo porque se sustentam no critério raso e impreciso da quantidade anacronicamente sem suporte de valores intrínsecos.
CONVENCIONALISMO BURRO
Que são especificidades funcionais de uma redação convencional? É o que prevalece na maioria dos veículos impressos do País, principalmente nos jornais diários, onde a subdivisão de tarefas de produzir informação encapsula os profissionais e os colocam sobre bitolas ultrapassadas. Há editores, subeditores, pauteiros, fechadores de primeira página, repórteres, redatores e copidesques num emaranhado infernal de produtividade geralmente baixa.
Pior que esse quadro de compartimentação funcional é a ideia consolidada de que modelos mais avançados não possam ser transplantados para o ambiente do jornalismo diário simplesmente porque fazem sucesso em veículos não-diários. Nada mais improcedente. Algo como duvidar que uma companhia regional de aviação possa servir de referência para companhia internacional pelo simples fato de que a primeira coloca aeronaves em espaço doméstico e a outra não tem limites geográficos.
Os princípios de qualidade de produto obedecem a determinados eixos sistêmicos insuperáveis. A metodologia de qualificação de uma empresa regional de transporte aéreo pode ser linearmente reproduzida numa companhia internacional do mesmo setor para que as transformações se registrem.
A fórmula de sucesso de engrenagens corporativas não é uma disputa de cara ou coroa, para se saber o que é certo e o que é errado. Há certezas indeléveis que precisam ser consideradas. Os resultados, e eis aí o grande mote que distingue vencedores de perdedores, é a absorção de conhecimentos, comprometimento, disposição e empatia dos colaboradores.
As montadoras de veículos há mais tempo instaladas no Brasil tiveram de proceder a duras provas de reestruturação para enfrentar a competição de novas companhias que aportaram com benefícios fiscais e escolheram territórios de custos tributários e trabalhistas menores. A matriz de reorganização é praticamente a mesma, porque é indiscutivelmente o caminho das pedras. A diferença nos resultados decorre da aplicação em cada empresa. Aí, o talento de compartilhar missões é que faz a diferença.
APRENDENDO FORA
Retirei as bases iniciais da Teoria da Produtividade Editorial de uma reportagem realizada há quase oito anos numa indústria química do Pólo de Capuava, em Santo André. Naquela manhã estabeleci o primeiro contato de respeitosa relação com o executivo Nívio Roque, então diretor superintendente da OPP Polietilenos, hoje Polietilenos União, empresa do poderoso Grupo Unipar.
Fiquei impressionado ao chegar e esperançoso ao sair daquela fábrica de poucos funcionários e muito verde, incrustrada numa região contraditoriamente predadora do meio ambiente. Ao chegar, as boas-vindas de dizeres de um cartaz na entrada da sede explicava a generosidade e o humanismo de Nívio Roque, homem apegado a Deus e solidário aos desafortunados.
Quanto deixei a OPP, depois de mais de uma hora de visita-reportagem, carregava as anotações na mão e uma ideia fixa na cabeça: a multifuncionalidade adotada pela empresa para resistir à globalização seria replicada no ambiente redacional da revista. Até então, concentrava como editor-chefe todas as funções típicas de comando tradicional de redação. Além de escrever, copidescava, pautava repórteres e fotógrafos, titulava, legendava, escolhia as fotos, editava, enfim, centralizava imperialmente a produção da revista. Aos repórteres bastavam os textos, sem compromisso efetivo com o produto final.
Com Nívio Roque aprendi a descartar o que outros jornalistas, por arrogância ou desconhecimento, insistem em aplicar nas redações de jornais e revistas: descentralizei as funções. Se na OPP para cada máquina sobrou apenas um colaborador, quando nos tempos de mercado fechado eram em média cinco, por que numa redação não poderia ser igualmente compactado o trabalho de produzir informação?
Dessa forma entrou em campo a multifuncionalidade. É verdade que nem todos os profissionais de redação desta publicação executam todas as funções, porque há diferenças de nível de habilidades em uma equipe que não foi recrutada a peso de ouro no mercado mas, pelo contrário, encontrou neste espaço a oportunidade para se fazer respeitada. Nem todos são multifuncionais no sentido mais amplo da terminologia aplicada, mas há muito não são monocultores como a maioria de outras publicações.
MULTIPLICIDADE INTRÍNSECA
Os jornalistas desta revista são múltiplos em suas especialidades: geralmente se pautam, escrevem, se inter-relacionam com fotógrafos, fazem títulos, legendas, janelas. Deram até mesmo de trocar mutuamente matérias para copidescagem, atividade mais nobre que exige experiência, mais compreensão conceitual do produto.
Faço essa função. Nada que saia nesta revista deixa de passar pelo meu crivo. Aliás, foi exatamente por isso que decidi criar a Teoria da Produtividade Editorial. Afinal, produtividade também tem sentido de respeitabilidade ao histórico da publicação. Quem tem mais a cultura da publicação entranhada na alma pode impedir que uma verdade da edição anterior seja inadvertidamente negada na edição seguinte. É claro que a maioria dos donos de jornais e revistas não entende essa faceta de produtividade. Como pretender, então, que os comandados de redação entendam?
É aí que entra em campo a contraface da multifuncionalidade. Qual? Especialidade. Isso mesmo: enquanto a multifuncionalidade desencadeia série de medidas gerenciais de cada profissional de redação de forma que se tornem donos do assunto que tratam, a especialidade os coloca em determinados eixos temáticos, sobre os quais se lançam com extrema determinação.
Especialização em eixos temáticos é expressão aparentemente sofisticada para definir o conceito de especialidade. Descobrir talentos temáticos é outra característica especial de quem comanda uma redação com competência. Seria mais preciso definir especialidades como vocações temáticas. Há jornalistas que se entregam com mais denodo, mais interesse e mais determinação aos assuntos que mais lhe apetecem. É aí que pesa o valor da especialidade.
Nem todo jornalista entende, quer entender e se dispõe a entender de ciência e tecnologia, por exemplo. Por que insistir então? Ou forçar a barra sobre cobertura esportiva se o jornalista detesta futebol. Compatibilizar missões com as vocações individuais é a melhor maneira de resolver dois problemas: os textos serão mais confiáveis e mais produtivos. Quem escreve sobre assunto ao qual dedica aptidão o faz melhor e em menor tempo.
Há gestores de redação – os chamados editores – que desprezam ou não conseguem enxergar as características pessoais dos repórteres. E que também não têm sensibilidade para estimular vocações de profissionais que, indecisos, precisam de empurrão para se projetarem de corpo e alma sobre determinada temática.
NEGAÇÃO DO MUNDO REAL
Piores são os editores que jogam no lixo a rentabilidade produtiva da tematização dos repórteres. Em vez de torná-los multifuncionais nas tarefas implícitas da atividade, os transformam em arremedos de multifuncionais temáticos, ou seja, de jornalistas pau-para-toda-obra.
O desastre é total porque é a negação de que o mundo econômico é feito de advogados, médicos, torneiros mecânicos, funileiros, engenheiros. Ou de que o mundo cultural comporta músicos, pintores, dançarinos. É conversa para boi dormir ou caso de genialidade a eficiência dos chamados paus-para-toda-obra. Geralmente são como pato, que pensa que nada, que corre, que voa e que anda mas, de fato, não consegue fazer nada certo. Por isso que é pato.
Não existe incompatibilidade entre o que se produz metodologicamente em revista e suposta transposição para ambiente mais amplo, como uma redação de jornal. A resposta está no tempo que se consumirá para adaptações. É preciso saber o que se quer fazer do produto de informação editado. Ou seja: a linha editorial precisa ser solidamente estruturada. Também é indispensável ter um quadro de colaboradores com baixíssima rotatividade e altamente comprometido com o produto.
Na revista LivreMercado conseguimos a manutenção dos profissionais entre outros motivos porque não existe sobrecarga de trabalho. Isso mesmo: por mais múltiplos que sejam, e ainda precisam evoluir, a carga horária de atividade não excede o limite do razoável. Jornalista não é máquina reprodutora de informações.
O mercado de trabalho comprimido em quantidade e valores salariais também tem contribuído à manutenção de profissionais desta publicação, cuja média de vencimentos está aquém de poucas publicações com o mesmo nível de qualidade editorial.
ACOMPANHANDO MUDANÇAS
São muitos os aspectos que moldam uma redação minimamente competente e que, diferentemente de outras, de veículos mais poderosos, constrói sua própria história ao dar oportunidade a jovens valores. Um dos mais importantes aspectos para progressão continuada é a permanente avaliação dos erros cometidos. De que adiantaria a copidescagem de cada matéria com os respectivos consertos, se os profissionais autores do trabalho não tivessem acesso às mudanças?
Não há profissional de jornalismo que escreva integralmente correto. Quem o faz provavelmente é medíocre, porque é incapaz de dar salto de qualidade e criatividade. Os erros de construção informativa são geralmente os mesmos e só poderão ser eliminados se o próprio autor tiver consciência disso. A devolução do material copidescado para análise do próprio autor é a melhor medida para que o próximo texto seja potencialmente melhor.
O conceito de linha de montagem não desonra a suposta intangibilidade intelectual do jornalismo. O jornalista que comete seguidos erros, como por exemplo o uso exagerado de apostos, de possessivos, de demonstrativos, de artigos, de gerúndios, de ordem indireta, tem similaridade com o operário de uma indústria de autopeças vez ou outra descuidado no polimento de uma arruela.
A Teoria da Produtividade Editorial, que acaba de ser implantada na revista LivreMercado, vai provocar novos choques internos. Todos saudáveis, todos construtivamente voltados para levar os profissionais da publicação à certeza de que fazem parte de uma confraria de competência muito especial.
Os mais experientes, que já passaram por outras redações, demoraram um pouco mais para compreender a dimensão dessa revolução. Os mais jovens, por não terem vivido em ambientes estruturalmente obsoletos, provavelmente correm grande risco de, ao trocar de emprego, substituir a modernidade pelo conservadorismo que contamina as redações de jornais.
A propósito do prometido, este artigo conta com 19.883 caracteres.
Barato custa muito caro
na produção jornalística
DANIEL LIMA -- 16/08/2005
A Teoria da Produtividade Editorial que desenvolvi para a Editora Livre Mercado e que cheguei a aplicar preliminarmente no Diário do Grande ABC não é assunto cujo interesse restrinja-se à indústria de comunicação impressa. É possível desenhar formatos análogos para medir competências em outras áreas da economia, nas quais impere a necessidade de ajustar diretrizes administrativas sem ferir especificidades nem sempre identificadas pelos formuladores de mudanças. Mais que isso: é facilmente comprovável que nem tudo que reluz é ouro nos meios de produção.
Tratando diretamente da questão jornalística: empresas que olham atavicamente para custos individuais dos colaboradores para medir o grau de eficiência econômica e financeira e, portanto, de descartes e de eventuais contratações, dão um tiro no próprio pé. Com isso, encurtam o caminho rumo ao desfiladeiro da quebra da imagem corporativa que se reflete no produto final que vai aos leitores.
O barato de salários baixos custa caro em forma de informações alquebradas, reticentes, contraditórias, inconfiáveis. O livro "Meias Verdades", que repasso agora de forma virtual em quase três dezenas de capítulos, é prova irrefutável disso.
CONCEITOS RAMIFICADOS
Falemos da experiência prática de 10 meses da Teoria da Produtividade Editorial na revista LivreMercado. Sem medo de errar -- muito pelo contrário -- afirmo com toda a segurança que os jornalistas da publicação estão enquadrados em conceitos que determinam não só o estágio em que se encontram como, também, o futuro que a atividade lhes reserva. A combinação de quantidade e qualidade do material produzido, que deságua em avaliação sintetizada em padrões de notas de zero a 10, dinamita antigos e superados conceitos de quem não entende nada do assunto e que costuma avaliar colaboradores, no caso no jornalismo impresso, apenas pela quantidade de material publicado e a correlação com a individualização da folha de pagamentos.
Novamente sem medo de estar expressando conclusão precipitada, desenvolvi de tal forma a capacidade de gerenciamento de qualificação de profissionais de comunicação impressa que não preciso de mais de 30 dias de avaliações, estudos, análises, considerações e de minuciosas planilhas decorrentes disso para estabelecer juízo de valor sobre o grau de competência de cada uma das editorias dos jornais. Mais que isso: num trabalho minuciosamente técnico mas também indiscutivelmente subjetivo, elaboro perfil individual de todos os colaboradores de cada editoria, como são chamados os departamentos de veículos de comunicação.
Quem achar que estou exagerando da missa não sabe um terço. E não vai aqui nenhuma exuberância egocêntrica como alguns desavisados poderão arguir em tentativas manjadas de desclassificar quem se dedica diariamente de corpo e alma à profissão que abraçou aos 15 anos de idade. Tenho como abre-alas dessas argumentações os 10 meses de exumação das edições da revista LivreMercado, publicação com 15 anos de circulação. Mesmo quando paralelamente no Diário do Grande ABC, me dediquei a esse projeto na melhor revista regional do País.
Cheguei ao ponto de análises que provavelmente deixariam incompetentes atônitos. Querem alguns exemplos?
a) Como a contagem de produção é por caractere e não por espaço ocupado no veículo, há absoluta fidelidade quanto ao material produzido por cada jornalista. Explico: são enganadoras as medições centimétricas nos jornais, como a velharia conceitual procede num verdadeiro apagão de inteligência acrítica e descompromissada com o conteúdo. Um texto de cinco mil caracteres pode ocupar apenas metade de uma página, espremido entre anúncios, enquanto outro, pela metade, mas recheado de fotos, de quadros estatísticos, transmitirá a sensação de que é maior só porque ocupa espaço mais amplo. Isso é mais comum do que se imagina. Quem não é do ramo jamais conseguirá compreender.
b) O tempo despendido para copidescagem, algo que numa linguagem mais acessível pode ser traduzido como correção ou revisão, é um dos elementos essenciais à aferição da qualidade do texto. Um texto de quatro mil caracteres (padrão da revista LivreMercado) por página e cuja copidescagem exigiu 15 minutos do responsável final pela edição (no caso este jornalista) não terá jamais nota ao menos próxima da de um texto semelhante e cujo tempo de revisão não passou de oito minutos. É nesse ponto, também, que a visão exclusivamente quantitativa, perde-se nas sombras da ignorância. Afinal, quanto mais tempo se joga fora na revisão de uma matéria, mais se acentuam sinais de que o autor está aquém da expectativa do produto. E, acreditem, mais riscos de complicações com fontes de informações, aparecem. Sei exatamente qual é o tempo médio de copidescagem de matéria qualificada na revista LivreMercado. Quando sai do padrão, a nota cai e a desconfiança aumenta. É nesse ponto que ponderações sobre o custo diferenciado dos profissionais contratados entra em cena. Quem ganha nominalmente menos mas produz menos e de forma pouco qualificada custa muito mais caro para a empresa.
c) Uma combinação de quantidade e qualidade (que tem no tempo de copidescagem uma das âncoras) determinará a nota que será atribuída a cada matéria, como venho fazendo há quase um ano. A nota deriva de fatores tangíveis, como quantidade e tempo de copidescagem, e também de aspectos intangíveis, no caso o agregado de conhecimento sobre o assunto abordado. É nesse ponto -- e me perdoem a franqueza que pode parecer egocêntrica, mas precisa de um mínimo de sinceridade -- o responsável pela copidescagem precisa ter o produto desejado na cabeça, tanto técnica como historicamente. Um modelo de produto a ser alcançado tem de estar no horizonte não muito distante e em função disso deve balizar as notas depois do remelexo entre quantidade e qualidade formais.
ACHADO JORNALÍSTICO
A Teoria de Produtividade Editorial que estou aplicando na revista LivreMercado e que, repito, não passou de momentos iniciais no Diário do Grande ABC, é um achado do jornalismo. Muitos donos de veículos de comunicação aos quais poderia ser apresentada essa inovação organizacional provavelmente darão de ombros porque, em larga escala, não passam de negociantes de comunicação.
O que vem a ser negociantes de comunicação? Gente que não é do ramo, que não entende a diferença entre um texto brilhante e um texto sofrível, exceto quando eventuais e legítimos interesses comerciais e econômicos venham a ser atingidos pela incúria jornalística que, convenhamos, também não falta nas praças exatamente porque as redações, de maneira geral mas não irrestrita, foram entregues aos devaneios de salvadores da pátria, em forma de investimentos em Tecnologia da Informação. Muitos donos de jornal, entretanto, esqueceram não só as redações propriamente ditas como também ferramentas indispensáveis disponibilizadas pela Tecnologia da Informação.
O retrato da revista LivreMercado após a implementação da Teoria da Produtividade Editorial é o mais instigante possível. Detenho informações sistematizadas que mais me dão razões de ter me irritado nos tempos de Diário do Grande ABC ao descobrir que o que havia proibido anteriormente estivesse sendo aplicado em comando paralelo de redação: uma operação estúpida de centimetragem de matérias produzidas por cada colaborador da empresa e que, entre outras barbaridades, não levava em conta diferenças funcionais, além do emaranhado específico da atividade.
E olhem que me exacerbei contra aquela idiotice mesmo com a estatística amplamente a meu favor. Embora diretor do jornal, diretor executivo da revista LivreMercado e com uma infinidade de ocupações, aparecia este jornalista na liderança absoluta da centimetragem, mais de o dobro de espaço à frente do segundo colocado. Embora contrariado com aquela demonstração de falta de ética e de respeito funcional, não pude esconder uma ponta de satisfação contra aqueles que, por desconhecerem mecanismos de produção jornalística, consideravam que fazer revista é mais fácil que fazer jornal. Nada mais dicotômico, porque é o produto final, bom ou ruim, que determina a qualificação de seus autores. Periodicidade é de menos.
Uma companhia aérea regional e uma companhia aérea nacional podem ser igualmente respeitáveis, embora atuem de forma diferente, com frequências de voos distintas, atendendo a públicos nada semelhantes.
Ainda voltarei à Teoria da Produtividade Editorial com base, repito, na ação prática na revista LivreMercado. Ficaria feliz em poder aplicar o sistema nos jornais que não sabem por que estão tão mal das pernas e mesmo àqueles que podem conseguir resultados ainda melhores. Uma das conclusões mais importantes a que cheguei deveria servir de alerta a quem rebaixa a média salarial: o barato sai caro. E também à classe dos jornalistas, que passaria a dispor de instrumental contra qualquer insinuação de protecionismo ou perseguição corporativa.
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27/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (22)