Como Ombudsman do Grande ABC pretendia estender o trabalho como Ombudsman do Diário do Grande ABC durante uma semana. Não seria novidade alguma. Já fui Ombudsman oficial (além de Diretor de Redação) do jornal mais tradicional da região em dois períodos, em 2004 e 2015. Decidi voltar ao cargo, agora não autorizado, durante uma semana apenas, de domingo da semana passada até sábado que acabou de passar.
Desisti da tarefa mais complexa que havia planejado e em seguida também da ação mais simples. A razão principal é que fui colhido no contrapé da cautela por excesso de razões. Vou explicar o que isso significa.
Como explico de forma técnico-conceitual mais abaixo, não de forma detalhadamente como imaginava, pegando edição por edição das últimas sete edições, a insistência na tarefa convergiria à teimosia. Estaria este jornalista inflexivelmente formatado a seguir uma pauta que escolheu e que se imporia desnecessariamente, porque impossível de cumprir dentro dos rigores editoriais.
JOGANDO AS TOALHAS
Quando anunciei nas redes sociais, em textos curtos, que estava decidido a fazer curadoria de sete dias seguidos do Diário do Grande ABC, de domingo 15 de março a sábado 21 de março, a proposta estava ancorada em 25 indicadores editoriais sincrônicos. Só esse enunciado de múltiplas observações sistêmicas mostra a diferença entre ler jornal e enxergar jornal.
Como leitor convencional, e sou leitor convencional também quando baixo a guarda, a leitura de jornal é uma coisa. Como ombudsman com 60 anos de jornalismo nos olhos, a leitura de jornal é outra coisa. E foi essa outra coisa que propus realizar ao escrutinar as páginas do Diário do Grande ABC.
No terceiro dia da missão, quarta-feira passada, joguei a toalha de rosto no cesto de desilusão: os problemas verificados impediam avaliação profunda, conectada aos conceitos daquelas mais de duas dezenas da indicadores. Dois dias depois, decidi jogar também a toalha de banho no cesto de frustração.
O Diário do Grande ABC, assim como praticamente todos os jornais de pequeno e médio porte do País, sofre duros reveses provocados por novas tecnologias na área de Comunicação Social. Agravou a situação do Diário o empobrecimento do Grande ABC nas últimas três décadas.
UM CARRO POPULAR
Entre a última vez que atuei como Ombudsman do jornal, em setembro de 2015, e o que temos agora, o rebaixamento da qualidade do produto é assustador. Se comparar com o período de dois meses antecedentes à minha chegada no Diário do Grande ABC, em 2004, e mesmo nos nove meses seguintes quando, como Diretor de Redação, analisava semanalmente o produto, como espécie de Ombudsman do próprio Diretor de Redação, então a catástrofe é geral. Não volto ao período de 1970-1985, quando ocupei todos os cargos no Diário do Grande ABC, porque aqueles tempos são excepcionais. O Grande ABC jorrava riquezas e a Internet não integrava o cotidiano.
Talvez o uso de uma metáfora aproxime os leitores da explicação mais compreensível, levando-se em conta que jornalismo foge da bitola de compreensão simplificada.
O Diário do Grande ABC é uma linha de montagem de um veículo popular que encontra gargalos imensos para chegar à ponta de produto acabado com as especificidades do manual de fabricação e uso.
Há situações comprovadas durante a semana inteira de avaliações em que o produto acabado não era exatamente o que deveria ter sido programado na plataforma de intenções para seduzir o distinto público consumidor.
MANCHETÍSSIMA DEFINIDORA
Nas sete edições do Diário do Grande ABC sob a interpretação deste Ombudsman, em nenhuma situação o produto final foi o esperado. Por estar recheadíssimo de anomalias, o produto final poderia ter sido outro. Mas a improbabilidade é a lógica. Com média de 10 páginas impressas diárias, das quais metade ou mais de produção alheia à Redação, o Diário do Grande ABC vive mesmo penúria editorial. Como tantos outros jornais regionais.
O produto final da linha de montagem do Diário do Grande ABC e de qualquer jornal de papel é expresso em um ponto que chamo de Manchetíssima. Manchetíssima é um neologismo que criei há muito tempo para designar a manchete das manchetes de primeira página. Vasculhei a Internet e esse neologismo ainda não foi incorporado ao léxico. Uma aberração. Cadê a Inteligência Artificial? A IA ajuda muito, mas sempre deixe passar o frango entre as pernas como um goleiro descuidado.
Normalmente todos proclamam, principalmente os narradores de noticiários, as manchetes de cada edição dos principais jornais. Manchetíssima é a manchete das manchetes porque de fato centraliza o conjunto da obra de um dia inteiro de produção.
CENTRANDO FOGO
Uma primeira página é integrada por várias manchetes, umas mais destacáveis e outras menos destacáveis. A manchete mais destacável é a Manchetíssima. Uma manchete também destacada mas menos destacada é manchete, apenas manchete. Temos manchetes, manchetinhas ou simplesmente “chamadas” de primeira página. É a hierarquia de relevância que se encontrará nas páginas internas. A isso se dá o nome de edição.
Edição é um edifício de responsabilidade do Diretor de Redação que procura estabelecer juízo de valor posicional às notícias. É uma dosimetria calculadíssima.
Em termos de configuração de uma publicação, como vitrine do que cada edição exibe, a manchetíssima é espécie de palavra-final. Retrata de alguma forma a qualidade editorial média da edição. Quando observada atentadamente em várias edições seguidas, não há como a manchetíssima deixar de assegurar que o produto final vende gato de limitações profundas por lebre de consistência editorial ou atende exatamente à expectativa.
Foi exatamente por conta dessa bifurcação interpretativa que no terceiro dos sete dias de Ombudsman do Diário do Grande ABC desisti de observar o jornal como um todo, página por página. A manchetísima de cada dia tornou-se, com isso, uma fase eliminatória. Um mata-mata improrrogável. Restou, portanto, a possibilidade de, mesmo com aquele diagnóstico, e correndo o risco de impropriedades e desajustes, centralizar fogo exclusivamente nas manchetíssimas.
FRAGMENTOS CRÍTICOS
Já desconfiava por conta de leituras diárias anteriores que a bateria de injunções técnicas alertaria sobre o risco de tentar tirar leite de qualidade específica da pedra bruta de inconformidades amplas. E foi o que se deu. Decidi, agora ainda mais radical, deixar de analisar o Diário do Grande ABC também no restritíssimo buraco da fechadura das manchetíssimas.
O que apresento logo abaixo são apenas alguns fragmentos críticos, coladíssimos ao conjunto de vetores que organizei para em seguida descartar.
Mas não posso deixar de reforçar o conceito de manchetíssima, porque esse é o eixo de compreensão que demarcará o terreno logo a seguir. Manchetíssima é muito mais que um neologismo. É o suprassumo diário do melhor conjunto de informações de uma publicação. É um competição entre editorias de uma Redação na luta pelo espaço mais nobre da primeira página.
Por isso, ao abandonar o ringue do todo de cada edição e racionalizar em direção exclusiva da manchetíssima, a proposta alternativa estava fixada em não perder a viagem de verificação do produto.
FATORES VITAIS
Do ponto de vista de curadoria, essência da função de ombudsman, o que levamos adiante foi um quebragalhismo. O produto final da linha de montagem do veículo popular chamado Diário do Grande ABC ganhou a forma de um híbrido adaptado às vicissitudes estruturais. Um híbrido de complexas nuances.
As manchetíssimas parecem resultados de aleatoriedades. As escolhas foram decididas sem arte. Na maioria dos casos, sem consistência orgânica. Talvez a direção do Diário do Grande ABC não tenha se dado conta ainda de três elementos indissociáveis à fidelidade e refinamento da publicação, em forma de um ciclo permanente de edições de respeito. A edição de hoje não pode ser asfixiada pela edição de ontem e tampouco comprometer a edição de amanhã.
Para tanto, são insuperáveis três atributos. Primeiro, planejamento editorial estratégico. Segundo, profissionais capacitados tecnicamente e detentores de cultura regional. Terceiro, resistência a pressões externas. Como um coisa leva à outra e outra coisa leva a todas as coisas, o Diário do Grande ABC que saltou da semana de atuação deste ombudsman foi uma espécie de Frankenstein editorial. Uma Barcaça à deriva.
Vou, na sequência, produzir breve relato de duas das sete manchetíssimas do Diário da semana do escrutínio. Nada profundo, embora disponha de elementos teóricos para ir muito além do decidido.
DOMINGO, 15 DE MARÇO
A manchetíssima (“Grande ABC registra um caso de estupro de vulnerável a cada dia”) segue linha comportamental pela qual o jornal procura trafegar, mas que estava longe de ser a informação mais importante do dia. Houve de fato um exagero posicional em forma de manchetíssima.
Afinal, foram registradas 435 ocorrências durante o ano passado. Na página interna, o titulo (“No Grande ABC, um estupro de vulnerável é registrado por dia”) abria a reportagem. Fosse uma epidemia, a manchetíssima poderia ter alguma justificativa. Mas a reportagem aponta que houve queda em relação ao ano anterior, 2024. Não há qualquer referência extraterritorial de modo a estabelecer análise comparativa.
A manchetíssima da edição deveria ser outra, mal tratada tanto na primeira página quanto na página interna. Na primeira página (“O frango de domingo está mais salgado em Santo André”), ganhou a condição de manchete foi valorizada com foto e destaque visual de fundo azul. Na página interna, (“Frango sobe e 17% e cesta básica atinge marca de R$ 1.146) marcou um colapso editorial.
Ora, a manchetíssima que deveria ser outra, essa do frango, seria mais ou menos nestes termos: “Cesta básica custa 34,4% mais no Grande ABC do que na Capital”. É isso mesmo. Está na reportagem: Leia: “O preço médio da coxa e sobrecoxa de frango teve alta de 16,7% em fevereiro e pressionou o valor da cesta básica em Santo André. O montante, que considera 34 alimentos, produtos de higiene pessoal e itens de limpeza doméstica, chegou a R$ 1.146,41, o que representa alta de 2,1% frente ao mês anterior, que fechou em R$ 1.122,73. Os dados são da Craisa (Companhia Regional de Abastecimento Integrado da cidade). O total da região é 34,4% maior que o custo médio na Capital Paulista. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), os paulistanos gastaram R$ 852,87 no mercado”.
Convenhamos que, diante de tudo isso, a manchetíssima não só seria outra, a dos frangos e da cesta básica, como também explorada profundamente. Por que o Grande ABC paga muito mais pela cesta básica? Mas muito mais mesmo, os tais 34,4%. Passada uma semana, não se tem resposta. A reportagem se esgotou naquela edição. Acho que talvez haja um erro de informação sobre a distância do custo da cesta básica nos dois territórios mencionados pela reportagem. Se não houver, seria um escândalo editorial ainda maior.
OUTRO EXEMPLO
Pretendia parar por aqui porque esse é o padrão de produção do Diário do Grande ABC. Quando um elefante desses passa pela porta da Redação e a Redação é incapaz de detectá-lo, como se fosse um fantasma, é possível que a Redação tenha atingido grau de insuficiência crítica incalculável e, mais que isso, de razoabilidade na definição dos espaços a serem definidos.
As sete edições, repito, seguem esse ritual, com maior ou menor gravidade, mas sempre com inconformidades que se repetem mesmo quando este ombudsman decide reduzir o patamar de exigências, adaptando-se de alguma forma, às limitações da Redação do Diário do Grande ABC.
A manchetíssima de segunda-feira passada, dia 16 de março, também foi um horror. O Diário do Grande ABC dá peso desproporcional a fato e a projeções. Qualquer proposta da Administração Pública Municipal dos sete municípios é levada a posição editorial acima do bom-senso, porque em muitos casos não passaria mesmo de marketing dos prefeitos e secretários. O Diário do Grande ABC se tornou um escoadouro de notícias oficiais das prefeituras. Esse é um tema que exigiria profunda análise.
A manchetíssima daquela segunda-feira foi de lascar: “Números constatam insuficiência financeira de Rio Grande da Serra. A primeira página informa o seguinte: “Estudo elaborado pela FNP (Frente Nacional dos Prefeito) jogou luz sobre a desigualdade de financiamento das cidades brasileiras, o que dificulta a manutenção de serviços públicos de qualidade e se expressa também no Grande ABC. Segundo levantamento, São Caetano contou com R$ 14.699,03 por habitante para fazer frente às demandas da população, montante quase quatro vezes superior aos R$ 3.686,43 per capita de Rio Grande da Serra.
A reportagem levada à página interna perde importância diante da edição do noticiário político sob o título “Gilvan deixa PSDB e migra ao Cidadania: Alex vai para o Republicanos”. Uma erro monumental. Mas, vamos a um trecho do texto da página interna. Uma reportagem protocolar, com características de assessoria de imprensa. Convém lembrar que esse tema já foi exploradíssimo nesta revista digital. Mas isso agora não importa.
O que a reportagem revela é que outros municípios da região vivem situação semelhante a de Rio Grande da Serra. Leiam:
“Rio Grande da Serra não é a única cidade subfinanciada e com grandes descompassos entre recursos disponíveis e população na região. Outros quatro municípios figuram entre os 20% com menores receitas per capita do País. Santo André ocupa a 4.630ª posição (R$ 5.221,68), Diadema é o 4.898º (R$ 4.953,38), Ribeirão Pires é o 5.061% (R$ 4770,86) e Mauá o 5.348 (R$ 4.136,84)” – escreveu o jornal.
Agora volto à carga crítica com algumas observações. Por que se escolheu Rio Grande da Serra, responsável por apenas 0,2% do PIB do Grande ABC, como protagonista da manchetíssima? A manchetíssima deveria ser direcionada ao Grande ABC como um todo. E acondicionada para ser exposta em forma de reportagem-análise, num invólucro de regionalidade.
E, nesse caso regionalidade implicaria escrever o básico dos básicos olimpicamente omitido na reportagem: mais que qualquer fundamentação derivada de suposto subfinanciamento, o que se passa no Grande ABC é o que já cansamos de escrever: desindustrialização combinada com aceleração demográfica e desprezo à integração regional ao longo dos anos criou uma bomba-relógio que as autoridades públicas jamais se empenharam para desativar.
Pior que isso: a nova safra de prefeitos do Clube dos Prefeitos repete as safras anteriores e lubrificam a engrenagem de um marketing administrativo sustentado na espetacularização do varejo paliativo.
Acredito que agora, exposto o que expus, os leitores de CapitalSocial entenderão as razões que me levaram a reduzir a carga de exigências da semana do Diário do Grande ABC. Uma relatório que transpirasse todos os núcleos de análise teria que invadir o terreno do passado que já triturei e que, perto do presente, era um bálsamo. O Diário do Grande ABC não conta com insumos editoriais que recomendem atuação de ombudsman. Uma Redação com tantas baixas profissionais sem reposição desloca a barcaça à condição de canoa furada. Com todo o respeito que a mais tradicional publicação da região merece, mas que não a torna sacrossanta.
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20/03/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (25)