Sociedade

Grupelhos dominam entidades
e justificam rótulo de Província

DANIEL LIMA - 20/03/2012

Quando grupelhos tomam de assalto instituições supostamente coletivas, a representatividade de classe ganha o terreno da ficção. O que está acontecendo com os pequenos e médios construtores de São Bernardo, agindo à parte da Associação dos Construtores eternamente presidida por Milton Bigucci, decorre de processo de grupalização exacerbada de comandos de entidades.

No caso de Milton Bigucci, mais que grupelhos, o que se tem mesmo é o controle ditatorial de um empresário que se utiliza da entidade para turbinar os negócios. Apresentar-se em nome da MBigucci em qualquer ambiente é uma coisa. Apresentar-se em nome da MBigucci e da Associação dos Construtores, que nem todos reconhecem entidade chinfrim, é outra.
 
Chega às raias do inacreditável tomar conhecimento que os pequenos construtores de São Bernardo estão desesperados com a falta de perspectivas porque o Plano Diretor demoradamente debatido ganhou a forma de explosivo.
 
E tudo porque a Associação dos Construtores, sem respaldo desses empreendedores, não teve sensibilidade e interesse para impedir distorções. Chega-se ao ponto de os pequenos construtores avocarem como solução uma saída encontrada para tentar dar equilíbrio às regras do jogo que envolvem os grandes empreendimentos: introduzir também o mecanismo de outorga onerosa nos terrenos de até dois mil metros quadrados, porque a medida seria menos nociva que a fixação de um índice de construção que inviabiliza a atividade nos padrões de empreendedorismo saudável.
 
Ação para resolver
 
O movimento de bastidores pretende chegar ao gabinete do prefeito Luiz Marinho com informações, dados e sentimentos que a Associação dos Construtores elitista, para não dizer individualista, não conseguiu durante todo o processo de socialização do Plano Diretor. Desconhecem-se em princípio os caminhos legais que precisariam ser trilhados para recuperar a possibilidade de os pequenos construtores saírem da enrascada em que os meteram.

Sim, uma grande enrascada provada e comprovada por fontes do setor ouvidas por CapitalSocial. Eles não têm razão para mistificar conclusões a que chegaram, porque a prova dos nove a ser apresentada ao prefeito Luiz Marinho terá força superior a qualquer tentativa de minimizar o problema. Quem tem argumentos não precisa apelar à semântica, tampouco ao compadrismo.
 
Acreditam os representantes dos pequenos construtores que têm em comum desprezo olímpico pela forma com que é conduzida a Associação dos Construtores, que a Administração Luiz Marinho não refugará iniciativas internas para dar novo encaminhamento ao Plano Diretor naquilo que atinge diretamente os pressupostos de competitividade democrática.
 
Sim, competitividade democrática, porque os grandes empreendedores do setor, Milton Bigucci incluído, foram tremendamente favorecidos pela legislação. Eles chiaram, evidentemente, quando das medidas, porque São Bernardo era uma terra de ninguém no setor imobiliário, mas as condições oferecidas só beneficiam os proprietários de grandes áreas. Caso das grandes construtoras e incorporadoras.
 
Realidade nacional
 
Infelizmente, o que se passa na área imobiliária é uma realidade extensiva às mais diversas categorias de empreendedores da Província do Grande ABC. Aqui há sindicados e associações que não passam de capitanias hereditárias. Gente que adora aparecer em colunas sociais, que se utiliza das entidades para benefícios corporativos e pessoais, gente que não está nem aí com o cheiro da brilhantina, gente destemida porque conta com articulações em áreas supostamente de tomadores de decisão, gente que adora se aproximar dos meios de comunicação, gente bajuladora por excelência, gente que não perde uma oportunidade para aparecer em fotografias. Gente que pensa que é gente, como se sabe.
 
Vão dizer os mais realistas que esta é uma degenerência nacional. Verdade verdadeira, mas não custa nada insistir em pregação no mínimo denunciadora da situação para que o público em geral não veja esses falsos democratas, essas falsas lideranças, senão pela ótica da individualidade vazia, do esnobismo, do egocentrismo e do materialismo mais vil, extrativista dos sonhos de uma sociedade menos desigual.
 
Os grupelhos que marcam ponto há décadas nas entidades de classe da Província do Grande ABC são uma das razões da própria expressão que cunhei para designar esse espaço de 840 quilômetros quadrados e 2,7 milhões de habitantes. Somos sete pedaços da cartografia regional que não se comunicam exceto para safadezas porque organicamente as instituições reproduzem desejos e ações fragmentadoras, autolouvadoras, improdutivas e acomodatícias.
 
Acisa salvadora?
 
Não acredito que mesmo uma ação revolucionária de uma entidade relativamente importante seja capaz de alterar a frequência de desatinos institucionais que fazem da Província do Grande ABC uma alma à deriva no campo econômico, com reflexos mais que notórios no campo social.
 
Suponhamos que Evenson Dotto faça uma gestão extraordinariamente positiva à frente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André). Suponhamos. Seria ele capaz de impregnar a sociedade produtiva da Província do Grande ABC de elementos que possam regenerar um tecido carcomido pela inoperância ao longo do tempo?
 
Infelizmente, não acredito nem numa coisa nem noutra. Não acredito que Evenson Dotto faça uma presidência exemplar, porque mais que adote penduricalhos de marketing, porque terá um especialista no assunto para tratar disso. Uma das medidas iniciais de Evenson Dotto foi confraternizar com alguns dirigentes empresariais da Província, ainda outro dia. Quem estava a seu lado na mesa de almoço? Milton Bigucci e Valter Moura, irmãos siameses em longevidade e em improdutividade institucionais.

Sem contar que vai manter no Conselho Gestor da Acisa um notório contraventor. Por mais que a gestão de Evenson Dotto faça, sempre será pouco, porque uma andorinha não faz verão. É mais provável que seja institucionalizado pelas forças inoperantes que estão ai há muito tempo.
 
O que os pequenos negócios da Província do Grande ABC têm de realizar é o que a turma de revoltosos do mercado imobiliário de São Bernardo finalmente anuncia nos bastidores: unir-se em torno de uma boa causa e transformá-la, quem sabe, na semente de uma nova organização porque, pelo visto, a Associação dos Construtores conta com um estatuto sob medida para a perpetuação no cargo do presidente de plantão, uma impenetrável fortaleza ditatorial.


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